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Mesna Kraftselskap

In document MEDDELTE VASSDRAGKONSESJONER (sider 30-42)

Abandonado o Cubo Branco, impõe-se uma nova questão para a obra de arte: o ponto de visibilidade ou o lugar em que a obra será exposta. Fora do espaço da galeria, a obra encontra-se completamente nua, exposta, sem qualquer arcabouço que a proteja. Uma vez abandonada sua redoma protetora, perde-se a segurança e a neutralidade do espaço asséptico em que se encontrava e passa a revelar os novos limites onde se inscreve, sofrendo uma profunda influência do novo lugar. O lugar onde a obra é exposta impregna e marca essa obra, direta ou indiretamente, seja ela feita direta ou indiretamente para o museu.

Para Buren (2001), a obra que se apresenta no exterior do Cubo Branco rompe os limites inerentes à galeria e os novos e diferentes limites desse novo lugar onde a obra passa a se instalar revelam pouco a pouco a própria obra. Para o autor, todo lugar impregna, formal, arquitetônica, sociológica, política e radicalmente seu sentido na obra que é exposta.

Trata-se muito mais, me parece, de mostrar as implicações imediatas de um dado lugar sobre a obra e, talvez, graças à obra, suas implicações sobre o lugar. Da tensão assim criada, surgirá dialeticamente a crise entre a função do Museu (arquitetura) e a função da Arte (objeto visual) (BUREN, 2001, p. 91).

Silva (2005) destaca também a importância da articulação entre a obra e o lugar. Aqui é necessário fazer a distinção entre as obras que já são pensadas especificamente para ocuparem um determinado lugar (encomendas) e aquelas obras que, apesar de serem instaladas num espaço público, não foram pensadas, no momento de sua concepção, para um lugar específico. Uma escultura, por exemplo, pode ser adquirida e instalada em um local público, sem consulta ao seu autor ou sem orientação dele. Dessa forma, essa escultura pode não manter diálogo

com o local em que se inscreve, tornando-se mesmo um obstáculo a esse lugar. Além disso, o trabalho instalado sem a preocupação com a comunidade que freqüenta o lugar pode enfrentar, ainda, outros problemas e manifestações por parte do público, uma vez que a obra de arte está, de certa forma, invadindo um espaço público ao qual, pela força de sua relação habitual com o espaço fechado dos museus e galerias, ela é, no mínimo, estranha.

Buren (2001) destaca que a obra de arte exposta em local público sofre influência ainda do Limite Cultural, que se revela como o mais global de todos os enquadramentos, a ele se submetendo todas as formas e ações.

Contudo, também o Limite Cultural deve ser questionado, embora ele consista num entrave inelutável de todo discurso. Trata-se, de fato, de um limite sufocante, mas ignorá-lo é, nas palavras de Buren (2001), idealizar.

Ampliando o conceito da relação entre a obra e o lugar em que se instala, Buren (2001) afirma que, por sua vez, uma obra “desprovida em si mesma de composição, sem qualquer possibilidade de distorção do olhar por qualquer acidente que seja” torna-se, ela mesma em sua totalidade, o acidente com relação ao lugar onde será apresentada. Assim, para o autor, pode-se constatar que essa obra, onde quer que seja exposta, não “perturbará” o lugar onde se encontra, ainda que tal lugar apareça enquanto tal e que seja observado na sua realidade. Contraditoriamente, talvez esse fenômeno se explique em parte pelo fato de a proposta não levar a qualquer distração e, além do mais, “por consistir a proposta em seu próprio propósito, o lugar onde se acha passa também a fazer parte, ou ser, por sua vez, a proposta”. Assim, seria possível, paradoxalmente, afirmar que tal proposta em questão “não tem um lugar próprio” (p. 52).

Embora para Buren (2001, p. 52) uma das características da obra de arte instalada em local público seja “revelar o ‘continente’ que lhe serve de abrigo”, uma obra que não possibilite qualquer possibilidade de distorção do olhar, “desprovida em si mesma de composição” não estabelece essa mesma relação com o lugar: a influência exercida pelo lugar é tão pouco importante para o significado da obra quanto a influência da obra para o significado do lugar, ou seja, se fosse possível imaginar um vínculo constante entre o continente (o lugar) e o conteúdo (a proposta em sua íntegra), tratar-se-ia de um vínculo sempre nulo, ou questionado pela próxima apresentação da proposta.

Assim, Buren (2001) afirma que a instalação da obra de arte no espaço público suscita duas questões indissociáveis, porém contraditórias: 1) a necessidade de se perceber o lugar como um novo espaço a ser decifrado e 2) o questionamento da natureza da própria proposta. Só assim será possível que a obra de arte abandone a galeria, deixando seu lugar cultural e se instalando num outro lugar, sem, contudo, naufragar em sua proposta.

Não podemos nos ater muito às implicações que esta noção revela; mencionemos, a título de indicação, que todas as obras que dizem abolir o objeto (conceituais ou outras) são tributárias de um ponto de vista único a partir do momento em que são “visíveis”, considerado como a priori inevitável (ou não). Um considerável número de obras de arte (mais exclusivamente as idealistas, cf. todos os tipos de ready-made, por exemplo) “existem” apenas porque o lugar onde são expostas é subentendido como um dado indiscutível (BUREN, 2001, p. 53).

Dessa forma, o lugar reveste-se de vital importância por ser fixo e acaba por se constituir como o “quadro” ao qual a obra está profundamente limitada.

Um olho lúcido saberá que existe liberdade na arte; porém, um olho menos educado acabará se convencendo do seguinte argumento: o lugar (externo ou interno) onde uma obra é vista consiste no seu quadro (a limita) (BUREN, 2001, p. 54).

Por outro lado, Buren (2001) afirma que a obra de arte que leva em consideração o lugar onde é exposta (site specific) nunca poderá ser transportada para outro lugar e está fadada à morte tão logo se encerre a exposição. Uma vez que a obra foi construída especificamente para ocupar aquele lugar, ou aquela parede, ou aquele nicho específico, o trabalho não pode sobreviver em outro local, já que o lugar está intrinsecamente incorporado à obra, e, portanto, só lhe resta a morte. Essa constatação coloca em cheque a ideologia artística dominante que pressupõe que a obra de arte é imortal e indestrutível, ainda que asilada no refúgio do museu. Neste fato reside a grande dificuldade para a obra própria do lugar: ao se relacionar tão especificamente com o lugar, “a obra faz de sua própria e contínua destruição sua única forma de existência” (BUREN, 2001, p. 90).

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