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O momento da aposentadoria torna-se um canal propiciador para que a aprendizagem tenha um significado importante para as pessoas participantes de processos de ensino/aprendizagem. Tal fato pode ser notado quando os entrevistados desta pesquisa relatam como os conhecimentos adquiridos nessa fase da vida se alargam para outros momentos da vida, e que o conhecimento começa a ultrapassar o espaço em que essas atividades acontecem.

De acordo com Zilda (Entrevista, 20 de maio, 2013, p. 9), no coral “aprende-se na prática”, e esse aprender traz consigo aprendizagens que não estão apenas relacionadas com o canto. Elas podem envolver os aspectos pessoais. Já Fabiana relaciona o que aprende no coral com suas aprendizagens diárias como ouvinte, isto é, a escuta musical é essencial para as atividades relacionadas ao canto. Ela completa:

eu aprendi a ouvir com mais atenção, posso dizer que estou mais aguçada. Eu consigo perceber, por exemplo, na igreja quando as pessoas estão cantando, como algumas coisas estão erradas, consigo ouvir coisas que antes não percebia, que só depois que estive no coral passei a ter essa consciência (Fabiana, entrevista, 25 de maio, 2013, p. 24).

Essa entrevistada ainda confirma que, com seu crescimento na aprendizagem musical, a sua percepção também foi trabalhada e que agora está mais atenta ao que acontece ao seu redor.

Outro dia eu fui à Igreja e percebi que eu estava reparando naquele coral, nas vozes, nos instrumentos, se estava muito alto, se estava baixo. Eu passei a ter também mais senso crítico. Minha voz melhorou muito. Antes eu cantava de qualquer jeito, achando que estava certo. Agora eu já sei como é que eu coloco a minha voz, como eu modulo pra conseguir um resultado melhor (Fabiana, entrevista, 19 de novembro, 2013, p. 34).

Pode-se perceber como os aposentados aprendem, ao deixarem claro em suas falas a forma como se dá essa aprendizagem, ou como a regente ensina, e também quando demonstram com clareza seus interesses e desejos, especialmente no que concerne ao ensino/aprendizagem de música. Tal fato pode ser percebido na fala de Zilda (Entrevista, 20 de maio, 2013, p. 9), quando ela diz se preocupar em relacionar o que aprende no coral em que participa e sua aula de teclado, e que tenta fazer com que essas aprendizagens façam parte do seu dia a dia. Ela diz que sempre estuda em casa, e que:

às vezes, a gente aprende alguma música diferente e quando eu chego em casa, como lá no coral a gente aprende na partitura, eu chego em casa e vou no teclado tocar e cantar junto pra eu ficar firme no que eu tenho que cantar (Zilda, entrevista, 20 de maio, 2013, p. 9).

Essa maneira de se expressar, mostrando que a aprendizagem vivida por eles extrapola os limites da aula de música, possibilita entrever que habilidades são desenvolvidas ao longo da vida.

Zilda (Entrevista, 25 de novembro, 2013, p. 13) reconhece tal fato quando diz que o conhecimento adquirido nas aulas de música deve ser “carregado para a vida toda”. De acordo com ela, seria como se ela estivesse praticando e cantando o que já havia aprendido nas aulas teóricas, quando jovem. A entrevistada diz que já sabia muita coisa de “teoria de pequena”, e que agora pratica esse conhecimento adquirido ainda na infância, “nas músicas do coral”, além de aprender coisas novas com as músicas que cantam no coral.

As relações que esses aposentados estabelecem com a música também podem ser percebidas diante da aquisição de um vocabulário musical, que passa a ser adquirido por essas pessoas que vivenciam a atividade musical quase que diariamente. Tal fato pode ser presenciado nas falas dos próprios entrevistados, que, na maioria das vezes, nem percebem que já adquiriram esse vocabulário.

Marilda (Entrevista, 29 de maio, 2013, p. 45) faz uma crítica da sua qualidade vocal, conseguindo analisar, a partir de conceitos musicais, sua própria performance musical.

Eu fiquei mais afinada..., porque antes eu não tinha preparação, e agora eu já sei que, dependendo do que eu for cantar, eu tenho que impostar a voz. Eu já conheço a forma correta de respirar, de cantar..., mesmo porque eu já tive calo nas cordas vocais [pregas vocais] e o coral me ajudou a melhorar isso (Marilda, entrevista, 29 de maio, 2013, p. 45). Fabiana (Entrevista, 19 de novembro, 2013, p. 34) também já consegue se expressar de forma mais concisa, utilizando-se dos termos musicais para caracterizar o momento de sua aprendizagem no coral. De acordo com ela, sua voz melhorou muito, pois antes “cantava de qualquer jeito, achando que estava certo”, mas agora já sabe como é “colocar a voz” para conseguir um resultado sonoro melhor.

Marilda, por sua vez, diz que agora, na aposentadoria, sua vida pôde ser dedicada à aprendizagem musical e que esse momento trouxe a ela a oportunidade de se desenvolver musicalmente quando canta. Ela afirma ainda que aprendeu a ser mais afinada, a “ser mais refinada”, porque

gostava de música de qualquer jeito [...] Eu consigo entender melhor a melodia, o ritmo. Meu gosto ficou mais apurado, você fica mais entendida de música. Eu aprendi a gostar mais de música de raiz, e consigo descobrir que até as músicas, por exemplo, sertaneja, que eu escutava muito, tem suas diferenças, tem vários tipos, e a gente começa a perceber a diferença (Marilda, entrevista, 25 de novembro, 2013, p. 51). É importante salientar que a participação dessas pessoas em atividades musicais é bastante relevante, não só porque essas atividades possuem significado importante em suas vidas, mas porque passam a fazer parte do seu dia a dia nas várias instâncias e espaços em que vivem. Tal fato pode ser visto quando esse vocabulário musical passa a fazer parte de suas conversas, também porque essas pessoas ficam mais atentas ao que acontece diariamente ao seu redor e conseguem fazer relações musicais nas/com muitas atividades vividas por elas.