4 Analyse
4.2 Menneske og dyr
Não se sabe precisamente como nem por que, mas em torno de 10.000 AEC a economia humana transitou de um sistema de caça-coleta para um em que o alimento era plantado ou criado em currais (CAMPBELL, 1997). Essa economia agrária e pecuária mudou completamente o modo de vida da humanidade. Sociedades inteiras com religiões xamânicas passaram por processos históricos diversos em que o xamanismo foi sendo abandonado, modificado ou diversificado.
No caso dos indo-europeus, o xamanismo era ainda praticado em uma sociedade tripartida (BENVENISTE, 1995), em que um sacerdote ou xamã valia-se de plantas mágicas ou bebidas originárias de plantas mágicas (vinha, soma, madhu) ou outras substâncias de origem animal que alteravam a consciência (hidromel) (MEILLET, 1908) para atingir o êxtase e viajar para o mundo dos espíritos (ELIADE, 1983). A interação masculino-feminino também ficou dúbia no universo indo-europeu, levando a sincretismos locais ao se depararem com culturas agrárias.
Os indo-europeus, nômades, patriarcais e violentos, teriam destruído os valores religiosos das regiões conquistadas, sem, porém, conseguir suprimir as antigas deusas que, com os nomes de Ártemis, Hécate ou Kubaba/Kybele, teriam continuado a ter culto e fiéis. (COULIANO, ELIADE, 1999, p. 247). Algo semelhante é encontrado na religião primitiva dos semitas, em que o rito envolve um sono mágico e uma respiração alterada, nos quais um sacrifício animal é feito para a divindade (DURKHEIM, 1996; ELIADE, 1993, 2002; PETROPOULOU, 2008). Curtiss (1902), Hayden (2003) e Petropoulou (2008) suspeitam que uma planta ou técnica de êxtase fosse também usada pelos semitas primitivos, pois vinculavam os deuses aos odores e aos espíritos do ar e dos ventos. Para eles, os espíritos eram seus ancestrais mortos velando pelos vivos, e o espírito desencarnado após a morte que não
alçava o nível dos ancestrais encarnava na mulher grávida mais próxima do corpo morto.
Ambas as culturas, Indo-Europeia e Semita, desenvolveram a agricultura e a pecuária como meios de subsistência alternativos (BLENCH, 2008; KORTLANDT, 2002). Enquanto que os indo-europeus tinham uma cultura mais expansionista e dominadora, muitas vezes abandonando a agricultura e preservando tão somente a criação de animais (BENVENISTE, 1995), os Semitas mantinham uma economia mista (CONTENEAU, 1979).
Isso implica que na revolução econômica do Mesolítico, quando a caça foi paulatinamente sendo substituída pela domesticação de animais, e com a descoberta dos valores nutricionais dos cereais, a religião foi assumindo a função dupla de representar a sacralidade tanto masculina como feminina entre os Semitas (COULIANO, ELIADE, 1999), enquanto preservava ou retornava para o foco na masculinidade entre os indo- europeus (DUMÉZIL, 1973).
“ρ nova ciência da agὄicultuὄa foi aboὄdada com ὄeveὄência ὄeligioὅa” (ARMSTRONG, 2005, p. 41). Os atos de lavrar e colher exigiam dos agricultores uma pureza ritual, e a observação do milagre agrícola da semente que cai na terra e brota em seguida, transformando a colheita em uma epifania na qual as forças divinas se manifestavam. A sexualidade passou a ser compreendida como idêntica à energia que causava a frutificação da Terra.
Na mitologia neolítica inicial, a colheita era vista como fruto da hierogamia, de um casamento sagrado: o solo era feminino; as sementes, sêmen divino; a chuva, a relação sexual entre o céu e a terra. Era Comum que homens e mulheres se dedicassem ao sexo ritual enquanto semeavam a terra. Seu próprio ato sexual, em si sagrado, despertaria as energias criativas do solo, assim como o arado ou a enxada do agricultor era o falo sagrado que abria o útero da terra e o fazia crescer com a semente. (ARMSTRONG, 2005, p. 42). Esses rituais eram comuns aos semitas, mas também podem ser encontrados entre romanos, gregos, indianos e egípcios. A agricultura fazia uma ponte entre as uranofanias paleolíticas (o Céu como deidade masculina) e as geofanias neolíticas (a Terra como deidade feminina) (ELIADE, 1983). Essa mudança brusca das estruturas psicossociais trouxe uma visão mais andrógina da humanidade em alguns mitos. Enquanto que sistemas religiosos pagãos mais recentes têm funções sexuais bastante claras para a chuva, o sol e as montanhas, o mesmo sistema tende a ser mais líquido quanto mais volta-se ao passado, como no mito grego dos andróginos.
Os machos descendiam do Sol, as fêmeas da Terra, os hermafroditas da Lua; e tal era sua força e energia que realmente tentaram, nas palavras de ρὄiὅtófaneὅ, “eὅcalaὄ aὅ altuὄaὅ do céu e atacaὄ oὅ deuὅeὅ”έ (ἑρεθἐEδδ, 2001, p. 152).
Apesar de o mito grego referir-se aos humanos, e não aos deuses, Campbell lembra que no Oriente a diferença entre homem e deus é ilusória, e isso tem implicações diretas no conceito indiano de alma (CAMPBELL, 2001).
Com cada vez maior especialização dos sexos, tendo na mulher seu papel principal numa cultura agrícola (ARMSTRONG, 2005), as religiões passam a desenvolver sistemas em que o ideal feminino é seu axis mundi (ELIADE, 1992), preparando terreno para a Revolução Neolítica, que ocorreria entre 8.000 e 7.000 AEC (PARKES, 1965), trazendo, dentre outras coisas, uma cultura agrícola bastante avançada, a mudar o ritmo de vida e as crenças religiosas da humanidade pré-histórica.
Sobre essa transferência dos papéis sexuais, Campbell (2001) explica que o advento da agricultura trouxe consigo uma mudança de pensamento mítico. Povos que antes tinham sua estrutura religiosa centrada na figura masculina viam-se agora imersos em um mundo de sacralidade feminina. O resultado foi a abundância de culturas híbridas, nas quais sacerdotes masculinos presidiam ritos para deusas, exaltando elementos sagrados fálicos (serpentes, obeliscos e pirâmides) ao mesmo tempo em que o feminino subia na hierarquia do sagrado (CAMPBELL, 2001).
Isso significa que, onde antes imperava uma religião em que a estrutura girava em torno da figura do homem caçador, muito centrada em ritos de passagem e na jornada espiritual xamânica como símbolo da jornada pela caça, passou a imperar um novo sistema, que girava em torno da mulher plantadora, apresentando ritos cíclicos de fertilidade e renascimento. Porém, as culturas matrilocais e pacíficas já eram uma tendência em alguns locais, como na Europa desde o Paleolítico até a invasão indo- europeia no Neolítico (COULIANO, ELIADE, 1999).