Identifiserte dualismer mellom kvalitative og kvantitative metoder
5. Medvirkning i reguleringsplanprosessen
5.2 Medvirkning i tidlig planutformingsfase
Conforme a equipe ia se formando e se estabilizando, a coordenação sentiu que era o momento de retomar e reforçar os outros projetos que, com o início do trabalho no abrigo haviam sido temporariamente colocados à parte.
O projeto com famílias saia de uma cultura que mesclava assistência e assistencialismo dentro do que GOHN (2005) descreve, para iniciar uma cultura de geração de renda. Era um passo grande, tendo em vista que os coordenadores estavam ainda envolvidos com o estabelecimento do abrigo. Mesmo assim, com o uso da metodologia participativa, já iniciada entre os beneficiários daquele projeto, aos poucos se percebia na fala e nas atitudes dos mesmos uma mudança na compreensão desse novo momento, maior envolvimento e maior confiança em sua participação dentro do projeto.
O grupo já estava discutindo sobre que produtos eles poderiam fabricar para gerar renda. No sentido de estimular as iniciativas, o coordenador procurava acatar as decisões do grupo, que começava a aprender sobre o trabalho em equipe, liderança e elementos de administração de recursos. Eles elegeram entre si uma liderança temporária para ajudar na tomada de decisão. A atitude daquelas pessoas saindo do casulo e assumindo sua fala, suas necessidades e idéias, foi um passo importante que, para a equipe do projeto já era uma compensação por todo o trabalho até aquele momento.
Muitas idéias eram inviáveis, muito baseadas em suas impressões e desejos, sem levar em conta o processo de produção e a aceitação do produto no mercado. Mesmo assim, o coordenador ajudava o grupo a fazer o levantamento do que fosse necessário caso se confirmasse ser aquele o caminho a seguir. O relato da informante 4 mostra a mudança de expectativa:
(...) foi um processo meio de euforia, né, porque, de repente, a gente tava sempre esperando, vai haver uma cooperativa, vai haver algum processo de trabalho, mas a gente tava sempre só esperando, de repente chegou a hora e a gente não tava tão esperando assim, sabe assim, o momento apareceu, todo mundo naquela correria, a gente tinha que comprar varias coisas e depois ir pro curso e também estávamos aprendendo e tentando passar o que agente estava aprendendo pros outros (SIC).
Aproveitando o momento que antecedia o natal e considerando que o grupo ainda não havia conseguido chegar a um denominador comum que fosse executável, a primeira oficina, com fins de ser uma oficina não apenas ocupacional, mas, de geração de renda foi realizada para a confecção de enfeites de natal feitos de balas de goma. A informante 4 fala de como a experiência foi percebida pelo grupo:
(...) e nossa, eu lembro até hoje o sorriso das pessoas, as pessoas estavam muito alegres né, realmente elas estavam vendo que era fato, não era mais uma historia ou algo que podia acontecer (...)
Uma agente social que havia recentemente entrado para a organização, e a artista plástica que trabalhava como voluntária no abrigo na área de arte-educação
auxiliaram o grupo no preparo dos enfeites, desde o ensino sobre os cuidados de higiene durante todo o preparo do produto até a confecção e embalagem do mesmo. Homens e mulheres escolhiam os modelos de guirlanda e velas de isopor que seriam preenchidas com as balas e finalizadas com bolas de natal e fitas. Devido a ser um momento de adaptação da organização com o novo projeto de abrigo, o grupo de famílias passou a se reunir em uma igreja batista na Lapa, que cedeu suas instalações para as reuniões e atividades do projeto.
Ao término dos primeiros produtos houve grande comoção por parte dos beneficiários. Uma mulher chorou abraçando a instrutora estava comovida com o resultado, pois, não imaginava que teria capacidade para realizar a tarefa. A informante 4 menciona a surpresa da própria equipe da organização com os primeiros resultados:
...estava acontecendo na nossa vida, nós estávamos com a oportunidade de fazer uma oficina nova....nós vimos que com qualquer objeto a gente pode formar várias coisas....cada trabalho que a gente fazia, vinha o pessoal todo da equipe, tirava foto, ficava assim abismado, porque, até ontem a gente não sabia fazer nada, de repente a gente aprendeu e já estava montando...
Nem todos conseguiram vender seus trabalhos. Como era um produto comestível, muitas pessoas deixavam de comprar o enfeite ao saber que quem o fizera era soropositivo para HIV, outras pessoas gostavam, mas simplesmente não efetuavam a compra, uma atitude esperada em qualquer processo de venda. A CAF acabou comprando a maioria deles para presentear colaboradores, mas também para dar estimulo ao grupo, conforme menciona a informante 4:
...se a gente não conseguir vender, a gente vai comprar pra dar pro pessoal que ajuda a Casa Filadélfia e a gente vai ajudar vocês...e o João Raul cumpriu até o ultimo momento com a palavra dele, a gente sabe que ele ajudou todo mundo no fim do ano, foi um dinheiro que a gente nem estávamos esperando, eu mesmo consegui comprar o calçado das minhas filhas com o dinheiro das balas, foi muito útil saber que aquilo ali tinha saído de um esforço meu (...)
(...) varias pessoas do curso também conversaram comigo, que aquele foi um dinheiro muito abençoado...que Deus tinha abençoado realmente no pouco, porque, cada um contou o que fez com ele, uns tinham guardado pra ceia, eu
comprei sapato pras minhas filhas, uma irmãzinha que já tinha adiantado o material das crianças do ano que vem na escola (...)
A reunião posterior ao período de vendas aconteceu em clima de desanimo de alguns, duvidas de outros. A discriminação pela AIDS voltava ao centro da discussão do grupo como um fator determinador de insucesso. Outros pediam a palavra para rebater o desanimo dos companheiros. Aos poucos as pessoas começavam a se apropriar das idéias, do espaço e do discurso: “_ só o fato de termos aprendido algo, já valeu a pena, só por termos ficado juntos e trabalhado juntos, já valeu a pena”. Um outro acrescentou: “ é uma questão de descobrir o produto certo”.
O projeto mudou-se para o prédio da zona leste onde também funcionava o abrigo, ali iniciou-se a oficina de patch work. Começaram com uma máquina de costura usada e uma mesa pequena num espaço apertado. Aos poucos, novas máquinas foram compradas e as facilitadoras, trabalhando como voluntárias, iam mostrando os primeiros passos aos homens e mulheres do projeto.
Alguns homens se aventuravam nos primeiros passos para aprender o trabalho, mas tanto eles quanto as facilitadoras se mostravam céticos sobre a iniciativa que buscava contrariar a cultura machista. Aos poucos, os homens iam se afastando da oficina, indicando a necessidade de pensar uma oficina que fosse mais adequada a eles, menos ousada no sentido de quebrar paradigmas.
O comprometimento dos homens com uma nova possibilidade de re-inserção, com o processo de aprender uma nova função mostrou-se mais complexo se comparado com a atitude das mulheres, o que, ainda é objeto de estudo para a equipe. A equipe começou a pensar na possibilidade de restauro de móveis que pudesse ser posteriormente desenvolvido por eles nas próprias casas.
Enquanto isso, algumas mulheres iam se desenvolvendo rapidamente e produzindo com maior facilidade. A oficina foi se firmando e mostrando algumas possibilidades reais de que aqueles produtos poderiam alcançar uma qualidade de
mercado. Na fala da informante 4 as impressões sobre o inicio do processo de produção:
eu mesmo, eu nunca tinha costurado na minha vida, ...quando o João Raul falou vocês vão mexer com costura, com patch work eu nem sabia o que significava essa palavra... ai eu vim entender, eu falei meu Deus... será que eu vou dar conta... hoje eu já consigo produzir uma bolsa...ta muito interessante o curso..., eu vejo que algumas pessoas tão, tão levando esses curso muito a sério, eu acho que elas tão levando pra vida profissional,porque eu vejo que algumas pessoas da costura já tão fazendo pequenas costura em casa, pequenos concertos, sabe, colocaram plaquinha, já tão ganhando um dinheirinho(sic).
A proposta da CAF era realmente trabalhar com produtos para venda e não apenas com uma atividade ocupacional, o que se demonstra na fala da informante 4:
(...) se preocupem em fazer, se não vender daí já não é um problema de vocês, é um problema meu...mas, façam como se fosse, que vocês tivessem fazendo pra vocês, sempre que vocês produzi, produzam o melhor, ele sempre fala isso, até na oficina de costura... ele sempre ta falando que é pra gente fazer o melhor... e ai foi muito gostoso porque cada um pôde gasta o dinheirinho da maneira que precisava... foi maravilhoso(SIC)
A informante 4 refere que além do beneficio de aprender as técnicas, as oficinas possibilitam um espaço terapêutico, onde eles podem trocar idéias e aprender uns com outros:
(...) e o convívio com as professoras também... elas passam um grande conceito pra gente, em tudo, em matéria de vida, de saúde, as vezes algum ta desanimado com remédio, com filho doente, ou com algum poblema, elas sempre tiram um tempinho, conversa, mas ta sempre falando,...o isso é uma maneira de você mudar, sua vida, de você aprender, de você progredir, mais tarde você vai ser um grande restaurador, mais tarde você vai lembrar com alegria da costura, da CAF...
Para a informante 5, o elemento que se destaca na organização é o fato de não haver discriminação da equipe para com os beneficiários:
(...) é como se fosse todo mundo irmão, eu acho muito bom, assim, é que, eu vejo que não tem discriminação das pessoas com a gente, não tem essa da gente perceber alguma coisa (...) é um relacionamento bom (...) eles tratam a gente sem discriminação, se vê pela...na hora da refeição ta todo
mundo junto, não tem essa, você não vê nada que você fale, aquela pessoa não fica junto, não, não tem isso, é todo mundo junto aqui.
A experiência com a oficina foi apresentada em um artigo para o Premio Saúde Brasil, em 2005, que teve como título “kiltando o futuro”. “Kiltar” é a forma popularizada de se referir ao ato de trabalhar com os retalhos, o Kilting. O título foi escolhido desta forma para lembrar a experiência do projeto em juntar pequenas iniciativas, histórias diversas como numa colcha de retalhos para dar formato ao projeto pessoal de vida de cada um dos beneficiários. A experiência foi também publicada numa revista internacional do parceiro britânico como um resultado do processo participativo de desenvolvimento. A CAF a partir da oficina de patch work passou a fazer contatos internacionais para estudar um processo de exportação dos produtos.