Rapport om Legeforeningens internasjonale arbeid
6.9 Medlemmer med internasjonale verv
Márcia Teixeira Falcão91
Sandra Kariny Saldanha de Oliveira92
Eixo Temático e Tema: Educação no campo, comunidades tradicionais e povos
indígenas.
Palavras-Chave: Educação Ambiental. Práticas cotidianas. Natureza.
Resumo Expandido: A relação dos povos indígenas com a natureza se consolida a partir
de ações práticas e estabelecimento de relações de responsabilidade, proporcionando um novo saber. Leff (2001 p, 38) ressalta que esse novo saber denominado “saber ambiental”. Dessa forma, as práticas e o fazer cotidiano são o ponto de partida para a ressignificação dos hábitos, comportamentos e atitudes essenciais para a incorporação de uma visão crítica e transformadora, respeitando a diversidade cultural, natural e social. Leff (2009, p.298) comenta que “a cultura ecológica deve fomentar o resgate das práticas tradicionais, como um princípio ético para a preservação da identidade cultural e dos recursos naturais”. Assim o saber ambiental e as práticas ambientais revelam informações sobre as práticas, uso e manejo dos recursos naturais próprias de sua etnia e de seu habitat. Enfim, o saber ambiental é expresso nas relações cotidianas das comunidades que vivem da, na e para a natureza. A partir desse contexto, a referida pesquisa tem como objetivo demonstrar a educação ambiental realizada no cotidiano dos índios ingarikó localizados no entorno de Parque Nacional do Monte Roraima.
Metodologia: A área pesquisada foi realizada na porção nordeste do estado de Roraima,
fronteira entre o Brasil, República Cooperativista da Guiana e República Bolivariana da Venezuela, na circunvizinhança do Monte Roraima, marco da tríplice fronteira. A etnia estudada são os Ingarikó povo de filiação linguística Carib, autodenominado Kapon, chamados de Ingarikó. Estão distribuídos em 11 (onze) comunidades, Serra do Sol, Manalai, Mapaé, Kumaipá, Pipi/Paramanak, Sauparú, Área Única, Mura Meru, Awendei, Karumanpak Tëi e Pamak. O acesso a essas comunidades ocorre por via aérea e entre as comunidades é feito por meio de caminhadas que pode durar de três a quatro dias. A realização da pesquisa de campo ocorreu a partir das autorizações que envolvem pesquisas com seres humanos nas duas terras indígenas. TIRSS: Comitê de Ética da Universidade Federal de Roraima e Comitê de Ética Nacional (CAAE nº 1.001.442),
Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN (N0 24/2014), Sistema de
Autorização e Informação da Biodiversidade - SISBIO (N0 36346-1), Fundação Nacional
do Índio-FUNAI (N0 28/AAEP/PRES/2025), assinatura do Termo de Consentimento Livre
e Esclarecido – TCLE. A metodologia adotada fundamentou-se nas descrições e
interpretações que enfatizam os pontos de vista dos participantes (emicista) e enfatizou o ponto de vista dos pesquisadores (eticista), através de entrevistas com os “interlocutores locais”, que são os indivíduos legitimados e reconhecidos socialmente como detentores de um saber em particular, indicados pelo tuxaua (líder da comunidade). Foram confeccionados etnomapas, através de oficinas e reuniões com os participantes da pesquisa. Resultados e Discussão: A comunidade indígena Ingarikó realiza a educação ambiental no seu cotidiano, perpassando a cada momento as crianças a
91 Docente - Universidade Estadual de Roraima. E-mail: [email protected]
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relação com o ambiente natural, isto se evidencia, por exemplo, quando fazem associação dos próprios membros da comunidade com animais como exemplo: fulano é conhecido como jacundá (espécie de ave), pois gosta de comer minhoca. Quanto aos conhecimentos sobre o espaço geográfico, os indígenas demonstraram conhecimento empírico relevante sobre a delimitação do espaço geográfico através dos elementos naturais, no qual demarcam com propriedade principalmente os rios e as serras como divisor das comunidades. Dessa forma, nota-se que as populações indígenas têm em seu território o significado fundamental na vida, economia e na cosmologia do povo. Ao elaborarem etnomapas como, por exemplo, de solos, a cor do solo (terra preta, amarelo, vermelho e cinza) é característica que se sobressai, os solos de coloração amarelada e acinzentada, segundo os indígenas, não são viáveis para o cultivo. Durante os trabalhos percebeu-se que os solos constituem unidades produtivas, no qual se respeita as caraterísticas e limitações naturais da área. Os principais produtos da agricultura de subsistência são: maniva, milho, batata e pimenta, em solos de terra preta e vermelha. No que se refere à vegetação, a comunidade destacou especialmente os buritizais, devido à importância da utilização desse recurso natural, para a criação de uma larva chamada regionalmente de gongo, muito utilizada como alimentação, além da palha do buriti são retiradas sem prejudicar a palmeira. Durante a pesquisa, foi ressaltado pelos participantes que o manejo da bacaba ocorre a partir da derrubada da árvore, dessa forma, durante as oficinas, foi comentado sobre a importância da utilização dos recursos naturais, na perspectiva de preservar para que as futuras gerações possam usufruir, os mesmo relatam a preocupação com a extinção da bacaba. Aproveitou-se a oportunidade para exemplificar os conceitos de conservação e preservação. Em relação às serras e os membros da comunidade demonstraram conhecimento a respeito da rede hidrográfica tais como: os rios principais seus afluentes e subafluentes, cachoeiras e nascentes, as principais serras da região citadas pelo grupo foram: Serra do Sol, Kumaipá, Monte Caburaí, Monte Roraima, Mukuripé e outras serras da região. A partir desse contexto Schaefer e Eden (1995, citado por MELO et al., 2010) destacam a estreita relação entre a identificação dos diferentes povos indígenas com certos domínios ambientais, demonstrando suas culturas e seus “saberes” tanto com meio físico e biótico. Durante as oficinas foi confeccionado um etnomapa voltado ao turismo, foi apresentado pelos indígenas um circuito turístico entre as comunidades, entende-se por circuito turístico o encadeamento de atrativos com relativa proximidade em determinada área geográfica, sobressaindo os elementos da cultura, da história e da natureza, com possibilidades de atrair e seduzir turistas. Nesse contexto, a comunidade reafirmou o conhecimento empírico e nesse etnomapa as cachoeiras e corredeiras aparecem como um recurso natural para prática do turismo de aventura. No circuito proposto, verificou a sensibilidade da comunidade, quando destacam os pássaros da região localizados em áreas de ilhas de mata fechada que se sobressai em meio a savana, o que demonstra a possibilidade de desenvolvimento do turismo de observação de aves, no qual a maior incidência de pássaros são: arara, sabiá e juriti. Com relação ao artesanato, os Ingarikó passaram a ser conhecidos na década de 90 através do artesanato confeccionado em palha de buriti (Mauritia flexuosa), que foi projetado em nível nacional. A produção do artesanato é realizada em geral pelos mais idosos, e também pelas mulheres (FALCÃO, 2016). Ressalta-se que a confecção do artesanato é uma forma de manutenção da cultura e aproveitamento da biodiversidade local, pois a técnica é repassada aos mais jovens. As escolas da região trabalham as técnicas de coleta de fibra e produção de peças artesanais tais como: colares, pulseiras, cintos e outros ornamentos corporais, cestas, peneiras, jamaxim (tipo de cesto para carregar produtos da roça), tipiti (instrumento que serve para espremer a mandioca), abano.
Cunha (1992) ressalta a existência da indissociabilidade entre o homem e a natureza, pois o meio representa a sobrevivência social, como fonte de vida e identidade cultural, ou seja, a possibilidade de continuação na história. Com relação à comunidade nos dias
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atuais, os mesmos identificaram que os antigos produziam os seus alimentos e consequentemente se alimentavam muito bem. A presença dos homens brancos trouxe outro tipo de alimentação especialmente o industrializado, e em razão disso a produção da comunidade diminuiu, outro fator que promoveu essa acomodação, foram às políticas públicas “assistencialistas” desenvolvidas pelo governo junto aos indígenas. Ressalta-se que na visão de Leff (2010) essa forma de política neoliberal que predomina na América Latina, aprofundou a insustentabilidade, ampliou a desigualdade social, e nos dias atuais o grande desafio é pensar em construir “outra economia” que envolva os saberes desconhecidos e subjugados, para que estes possam ser convertidos em condições de sustentabilidade. Dessa forma, os entrevistados evidenciaram que a diminuição da alimentação e da produção está relacionada a pouca importância que se dá hoje ao cultivo da roça e explicam que isto, se deve ao fato de a comunidade ter atribuições como: estudar, trabalhar, receber dinheiro (política assistencialista) para ir às compras em Boa Vista (capital do estado). Silva (2009) revela que as estatísticas registram uma evasão das malocas, a partir da adolescência, quando jovens em sua melhor fase produtiva, abandonam as comunidades em busca de trabalho nas cidades. A partir deste contexto percebe-se que essa situação facilita a aquisição de produtos e materiais, que antes não faziam parte da cultura indígena, como por exemplo, o excesso de resíduos sólidos tais como: plásticos, latas e outros, dispostos de forma incorreta por toda a comunidade. Outro fator preocupante é a quantidade de água parada, decorrente da presença de buracos que são cavados para cobrir as paredes das moradias, o que proporciona a geração de doenças de veiculação hídrica tais como a dengue, malária e proliferação de outros insetos. Conclusão: A presente pesquisa demonstra a necessidade da realização de trabalhos de Educação Ambiental (EA) de forma contínua e permanente na região ingarikó, pois apesar da EA se fazer presente no cotidiano da comunidade e sendo perpassado de forma contínua, já existem alguns problemas ambientais que podem ser remediados se bem trabalhados junto à comunidade, que em todas as reuniões demonstrou pleno interesse em aprender o saber do ‘não índio’ sem perder o saber indígena, mas sim agregar novos conhecimentos que possam melhorar a qualidade de vida dos ingarikó.
Agradecimentos: Ao povo Ingarikó, por tornar possível o doutoramento da primeira autora.
Referências
CUNHA, L.H.O. Reserva extrativista para regiões de mangue: uma proposta preliminar para o estuário de Mamanguape, Paraíba. São Paulo, Programa de Pesquisa e Conservação de áreas úmidas no Brasil, Pró-Reitoria/USP, 1992.
FALCÃO, M.T. Ambiente e conhecimento tradicional da etnia Ingarikó na terra
indígena Raposa Serra do Sol – Roraima: abordagem etnocientífica no estudo do uso
da terra. 2016. 105f. Tese. (Doutorado em Biodiversidade e Conservação) – Museu
Paraense Emilio Goeldi Belém – PA, 2016.
LEFF, E. Saber ambiental: sustentabilidade, racionalidade, complexidade, poder. Petrópolis, RJ: Vozes, 2001.
_______. Ecologia, Capital e Cultura: A territorialização da racionalidade ambiental. Petropólis: Vozes, 2009.
_______. Discursos sustentáveis. São Paulo: Cortez, 2010.
MELO, Valdinar Ferreira; SCHAEFER, Carlos Ernesto G.R; VALE Jr. José Frutuoso; FRANCELINO, Márcio Rocha. Etnopedologia: o conhecimento indígena tradicional dos yanomami e wapishana em Roraima. In: BARBOSA, Reinaldo Imbrózio; MELO, Valdinar Ferreira (Org.). Roraima: homem, ambiente e ecologia. Boa Vista: FEMACT, 2010. SILVA, Edileuza Lopes Sette. Plano de uso Público do Parque Nacional do Monte
Roraima: Proposta de estruturação de uma cadeia produtiva de ecoturismo na calha do
Rio Cotingo, com base nos princípios da Economia Ecológica. Boa Vista, 2009. 128f. Dissertação (Mestrado Interinstitucional em Economia) – Núcleo de Estudos Comparados da Amazônia e do Caribe, UFRGS/UFRR.