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Sabemos que o sonoro permanece notavelmente valorizado por quase todos, de forma especial no seu aspecto musical. Ouvir, parar para ouvir, se ater, se deixar consumir, dançar, se tranquilizar, se emocionar. São indescritíveis e incontáveis as reações e os estados em que nos colocamos diante de uma produção musical. Alguns são fisgados por um estilo ou gênero de música, outros por diferentes tipos e qualidades, mas quase inevitavelmente, vez ou outra, todos nós somos seduzidos por melodias, ritmos e harmonias que nos levam a um estado de mobilização corpórea e/ou emocional.

Se nos atentarmos para nossa vivência, costume e rotina em sociedade, podemos perceber a naturalidade com que a música perpassa pelos ambientes em que os laços estão fundados desde os primórdios da humanidade. Ela está onde se busca alegria e diversão, onde se procura calmaria e consolo, onde há culto religioso, onde se pretende ensinar, onde se exercita o corpo, nos momentos de refeição, de comemoração, de despedida, para exaltar a pátria, para manifestar torcida, para celebrar a vida ou o amor, para lamentar a morte ou a dor. São

diferentes locais, momentos e finalidades em que a música é criada e recriada na tentativa de manifestar o que com palavras não se pode representar, porque ela escapa e transcende qualquer significado traduzível.

O que há de musical na fala é porta-voz do desejo que pode nos indicar a razão do valor que a música adquire para cada um de nós. A entonação, o andamento e a intensidade da fala declaram o desejo implicado, mas não anunciado pela palavra. A música faz uso desses elementos para denunciar o desejo de forma ainda mais intensa. Segundo Didier-Weill (1997a), a emoção da música nos invade porque ela conjuga um estado de felicidade e uma nostalgia psíquica relativas ao ato fundador do sujeito.

O som é a vestimenta da voz, o que lhe dá consistência imaginária. O objeto voz necessita do imaginário para que ganhe consistência em uma imagem sonora. A música é a dimensão fundadora do simbólico. A voz propriamente dita, objeto vazio da pulsão, faz a articulação entre o campo da linguagem e o organismo, possibilitando o advento da função da fala. (Catão, 2008, p. 163)

Se é do som, voz "cantada" do Outro, que se inicia todo o circuito em que o sujeito nasce e se funda, voltar a ele, retomá-lo, transformá-lo, nos faz reviver o momento original em que se tinha a ilusão da plenitude. É a isso que a música nos convida, à transformação subjetiva. Tempo mítico em que predominava o gozo inaugural da experiência primária de satisfação, sem as barreiras impostas pela palavra, pela ordem do simbólico que, ao mesmo tempo em que constitui e funda o aparelho psíquico, revela o encontro faltoso sem solução. Se a palavra faz velar a voz, na música ela se faz presente, e mesmo sem poder dizê-la, viabiliza uma transmissão possível do real. Vivès (2012) afirma que "de fato, a voz se manifesta por toda parte e de maneira sempre diferente: em cada enunciado, na música, mesmo a instrumental, e também na dança, na escrita e nos barulhos e silêncios que escava" (p. 13).

Assim, fica destacado o que de sonoro e, portanto, de musical, há na primeira fundamental e fundante relação que se tem com o Outro. Podemos, portanto, nos atentar ao papel de destaque que a sonoridade, ouvida e emitida, tem na própria constituição do sujeito. Isso certamente nos ajuda a refletir sobre a importância da obra musical enquanto arte, enquanto algo valorizado socialmente e com que se vincula e se permite fazer laço. Retomando novamente as palavras de Vivès (2012):

O canto, a música, o que se poderia chamar aqui de lirismo, sempre são interferências da enunciação linguageira, cujo efeito é tornar a voz opaca para que ela seja percebida, na maior parte das vezes, como um objeto estético a ser apreciado. (p. 13)

A música pode ser então uma alternativa frente ao desamparo a que somos lançados, pode ser uma prazerosa possibilidade de "gritar" o que há de humano e de pertencente à origem, como um passeio que retorna ao real ilimitado do sujeito, o que não se produz sem consequências. A palavra barra o que na música pode ser assumido e denunciado. Didier- Weill (1997a) comenta a hipótese de o homem, quando tomado pela música, cessar de estar sob o domínio da ética transmitida pela palavra. Segundo Antelo (2008), "a música realiza o desejo de sermos escutados mais além das palavras" (p. 93), "a música é a voz que brinca de fazer semblant de que é audível" (p. 93) tomando emprestado o som.

Pensar a eficácia do chamamento contida na pulsão invocante é considerar a relação proposta pela música como diferente da relação com a palavra. A música transcende tudo o que é significável pela palavra e se caracteriza pela impossibilidade de lhe dizer não. (Catão, 2009, p. 169)

Na relação com a música, sentimos uma forma evocada de sincronia absoluta e plena, assim como a experimentada de forma alienante nos primórdios do advir do sujeito. As sonoridades musicalmente ouvidas não precisam de decodificação, nem mesmo podem ser

traduzidas, pois não há palavras que as represente. Assim sendo, são reconhecidas de forma sincrônica, sem fazer parte da cadeia significativa montada pelo aparato simbólico, acessando de forma direta o registro do Real. Emprestar voz para que grite o desejo de re-encontro, barrado pelo recalque imposto pela interveniência do simbólico, é talvez uma importante função da música e um motivo do prazer experimentado nela.

No silêncio da música, ausência de som necessária para que haja uma sequência melódica e um desencadear andante da música, existe uma previsibilidade de retorno, pois o ritmo marcado pede um novo evento sonoro. A garantia de retorno da "presença" subentendida na música é confortante, é apaziguadora da tensão despertada pela ausência. Essa movimentação rítmica de ir e vir é estatuto do Outro e na música há uma revivência dessa alternância. Neste caminho, a música pode oferecer alguma resposta à demanda, visto que, a partir do endereçamento ao Outro, esta resposta não virá. Catão (2009) elucida que a própria voz materna porta a continuidade musical, através do gozo e da ausência de sentido, assim como a descontinuidade consonantal, por remeter à lei e à possibilidade de abrir-se para o diferente.

Vivès (2012) ressalta a dimensão do canto como o ato que submete a voz à lei do significante, que ao mesmo tempo a vela e a desvela, como uma transgressão e uma lembrança. "Mas como o ser humano jamais pode acomodar-se totalmente a tal lógica da renúncia, é sempre tentado por essa voz de gozo a reatar com o arcaico, com esse tempo mítico em que ao desejo não era preciso atualizar-se" (Vivès, 2012, p. 85).

Caldas (2007) tece alguns comentários sobre o shofar, instrumento de sopro feito de chifre, lembrado por Lacan no "Seminário 10: A angústia", em um dos trechos em que se refere à voz. Ela nos diz que "o shofar modela o lugar de angústia diante do desejo do Outro e, por isso, pode desempenhar a eminente função de dar à angústia sua solução, seja esta a culpa ou o perdão" (Caldas, 2007, p. 94). A finalidade musical do som pode, então, dar algum destino ao que fica sem amarração ao campo simbólico.

A obra musical diz sobre o desejo, sobre a Coisa que fica fora da rede de representações, sobre o objeto a faltante e almejado por quem a produz e, ainda, por quem a escolhe compartilhar, visto que a própria contemplação pode ser um aspecto do trabalho de sublimação. Essa arte, assim como as demais que envolvem a sublimação, é uma possibilidade de tornar audível e aceito pelo mundo o que de mais primordial e primitivo se tem do sujeito.

Não nos servimos, portanto da voz. Ela habita a linguagem, ela a assombra. Basta que se diga para que emerja, para que apareça a ameaça daquilo não se pode dizer. Se falamos tanto, se fazemos colóquios, se conversamos, se cantamos e ouvimos cantores, se fazemos e ouvimos música, a tese de Lacan comporta que é para calarmos aquilo que merece ser chamado de voz como objeto a. (Miller, 2013, p. 12)

Para Miller (2013), a voz abordada em Lacan não é a sonora, mas isso não significa que não se remeta ao mundo sonoro. A invenção musical utiliza como matéria prima o som remetido ao próprio objeto pulsional voz que, como vimos, é essencial para a existência do próprio sujeito. Ela é intraduzível porque é pulsão não representável na rede de significantes, como a pulsão de morte, mas transformada em arte e sendo reinventada, pode novamente ser dividida com o Outro e reconhecida por ele. O sujeito reconhece na música, desvinculada de sentido, sua própria voz enquanto objeto a, retornando a ele seu vazio constitutivo com a possibilidade de ser contornado. A pulsão invocante tenta alcançar a voz como objeto, mas nessa falha tentativa deixa um vazio no sujeito que pode ser bordejado pela música. O som que vem de um vazio se remete ao objeto perdido.

De acordo com Caldas (2007), a cultura oferece objetos substitutivos ao gozo do corpo, mas o objeto a não se limita a nenhum deles. Objeto a se remete mais à causa, que motiva a procura do objeto substitutivo, do que do objeto buscado pelo desejo e solicitado pela demanda. Segundo Maurano (2015), "a música, no caso, entra no lugar do que é indizível, tal

como a voz. Remete-se ao mais de gozar" (p. 94-95). O que não pode ser ouvido, o que causa horror, pode ser, desta forma, acolhido. "Essa condição de falta a ser pode ser, assim, celebrada" (p. 95).

Para que haja sujeito que faça laço diante da demanda de amor gerada pelo desamparo, precisa haver desejo e pulsão não satisfeitos. Se algo fica no real sem representação possível, e se socialmente esses desejos precisam ser recalcados, na música eles podem ganhar ressonância, podem se tornar presentes, podem ser socialmente ouvidos. Podem tornar-se sublimatoriamente pulsão transformada.

A música enquanto arte é criação e, ao mesmo tempo, o sujeito é por ela criado. Didier- Weill (1997b) nos questiona, ao buscar compreensão sobre o encantamento causado pela música:

Como conceber essa pressão de dizer "sim" que a música ouviu? Será que ele vem de um "eu" [je] do inconsciente que estava lá desde sempre, à espera de ser reconhecido, ou esse "eu" do inconsciente, ao contrário, acaba de ser, soberanamente, criado pela música? (p. 238)

O som nos chama e por ele também podemos chamar. A música nos comove e também por ela podemos comover. O elemento sonoro, constante por estar presente de forma anterior e posterior ao próprio sujeito, através das melodias e dos ritmos, denuncia nossos desejos e permite que surjam outras emoções. Com a arte musical podemos suspender parte do recalque, na medida para falar do desejo sem chegar ao desconforto, suportando o vazio e fazendo algo com ele. Esse movimento requer criatividade, deixando em segundo plano a questão do sentido da simbolização e priorizando a transferência com o impossível do real inominável. Ele se aproxima da finalidade da própria experiência analítica, a mudança psíquica.

CAPÍTULO 3