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Foi surpreendente a entrega sem reservas de Augusto à produção de intensas batidas e sons desde seu primeiro contato com os instrumentos musicais. De forma catártica seu corpo entra como um todo nesta vivência, há uma tensão provocando certa rigidez na busca da combinação do forte com o rápido. Ele percute os instrumentos com ataques ininterruptos e indiferenciados, como uma sequência de S1, desconectados e ilimitados, o que faz lembrar um gozo autístico. Os golpes de Augusto permanecem, do começo ao fim, em um pulso que não se desdobra em células rítmicas, que permanece em uma sequência de igualdade perturbadora. O que é chamado de dinâmica musical propõe justamente uma variação de intensidade, em que o fortíssimo (ff)10 se coloca como uma opção e se contrapõe às demais. Augusto não se abre a esse dinamismo, esforça-se para permanecer em um fortíssimo pleno. A dinâmica da produção sonora de Augusto é a ausência de dinâmica.

As sonoridades do menino não apenas despertam a surpresa de sua mãe como torna-se motivo de sacrifício para ela. Apesar de gostar de música, ter voz afinada e noções rítmicas desenvolvidas, ela diz privilegiar o silêncio e sentir dificuldade em suportar o que chama de barulho. Percebo que frequentar as sessões torna-se para ela uma necessidade de muita tolerância e resiliência. As faltas, os atrasos, as ameaças de afastamento e por fim o próprio abandono dos atendimentos confirmam isso. Essa insuportabilidade sonora de Rebeca não permanece sem impacto na sua relação com Augusto.

De forma divergente Augusto, além de aceitar os estímulos sonoros, se empolga e se utiliza muito deles. Através do canto alcanço as minhas primeiras aproximações sem a necessidade da intermediação da mãe. Recebo em troca, como resposta, o seu olhar e o seu sorriso. Augusto identifica, no uso dos recursos musicais, uma maneira de dizer de seus desejos e

10 O fortíssimo, indicado na partitura musical pelo compositor com o símbolo ff, indica a intensidade com que se

deve executar o trecho a que se refere. Esta é quase a maior intensidade possível, havendo ainda a possibilidade de um molto fortíssimo (fff).

conflitos. Encontra um modo, diferente de seus sintomas, para dizer de si. Por muitas vezes a despedida é complicada, pois ele quer colocar fermata11 e prolongar seu tempo na sessão. A métrica na música ordena os tempos em fortes e fracos dando sentido, organização e balanço às marcações rítmicas, o que pode corresponder à alternância entre presença e ausência e, ainda, à diferenciação entre o eu e o Outro. Existe uma falta dessa métrica na maneira de Augusto tocar os instrumentos. As sonoridades que ele tira deles são circulares, indeterminadas e oceânicas soadas ao chocalhos, ou são batidas maciças e indiferenciadas, em que as pausas e a escansão ficam evitadas ou suprimidas. Os elementos musicais que, de alguma forma, supõem organização, regra ou lei, não são assimilados ou aceitos por ele, o que faz pensar uma problemática quanto à função paterna, ou uma foraclusão do Nome-do-Pai. A minha intervenção musical, ao tentar inserir uma organização métrica, gera nele desconforto e angústia de forma bastante aparente, seguidos de paradas e recuos à mãe ou à necessidade de ligar o ventilador. Impor algo da dimensão da ordem e do sentido ao caótico desconcertante, marcar uma diferença, tentar ligar S1 a um S2, não passa despercebido.

Rebeca anuncia: "tenho uma coisa forte com som, não aguento barulho". Declara ser esse seu ponto fraco, o que me faz pensar na condição da voz para ela. Teria sido estabelecida como uma perda ou a voz ainda se faz muito presente e intolerável para ela? A perda da voz se remete à própria condição fálica e castrada do sujeito, o que, no caso de Rebeca, parece ser vivida como um grande dilema, o de se haver com sua própria falta. A voz, enquanto resto, serve de comprovante de que algo da dimensão do gozo do real foi perdido. Ter que lidar e bordejar essa voz aproxima-a da necessidade de aceitação em deixar perder e de assumir essa perda tão dolorosa. Presenciar a voz é lidar, de maneira muito próxima, com a resultante do encontro do real com o campo simbólico. É justamente neste encontro com o Outro que se estabelece o impasse.

11

A utilização da fermata, na notação musical, significa que o executante ou regente deve prolongar, para além do seu valor original, a duração da nota ou da pausa, por um tempo indeterminado.

Diante disso, a mensagem enviada pelas pancadas de Augusto aos nossos ouvidos parece ser de negação ao desejo da mãe, como uma forma de dizer "não" e de se impor. Desta forma, ele também nos conta sobre seus conflitos e dificuldades: se desvencilhar da alienação do desejo do Outro e produzir algo de próprio. Em raros momentos Augusto experimenta uma forma alternante de tocar entre forte e fraco, o que ao desagradar e ao agradar a mãe, torna-se correlato ao não e ao sim, respectivamente. O modo de expressão sonora ganha para ele uma articulação simbólica, em que significantes opostos se associam e apontam para a possibilidade de diferentes amarrações.

Diante das reações maternas, o tocar forte de Augusto é interpretado na sessão como "não mamãe, não vou fazer do seu jeito", como um pedido de exclusão, depois do qual ele se encabula como se estivesse despido, à mostra, sem proteção ou amparo. O tocar fraco é interpretado como "assim mamãe, sim", ele toca e aponta para ela, dedica-lhe esse som. A dinâmica, quando assim raramente utilizada por Augusto, promove o distanciar e o aproximar de sua mãe e de sua árdua missão de satisfazê-la. Desta forma, ele coloca o Outro enquanto referencial, como fundamental para a constituição no campo simbólico. Este é o efeito estruturante do Outro.

O som denso e intenso do menino nos tambores é extremamente invasivo e dominador, de modo que não é possível ouvir mais nada ao redor. Por meio do insuportável, essa é uma forma de se fazer presente e garantir o olhar da mãe. Assim como um grito, o som forte, pesado e impactante pode ser facilmente capturado. Esse som-grito confunde a mãe, que experimenta uma sensação ruim e fica sem poder bordejar, fazer anteparo, nomear ou decifrar essa mensagem.

Toco o violão esforçando-me em fazer acompanhamento para Augusto e suas percutidas ao tambor. Nesta condição, constato que nem eu mesma posso ouvir meu som. Fico surda a mim mesma. Fico anulada e apagada. Perco minha força e deixo de existir enquanto sonoridade.

Não faço silêncio, mas também não sou ouvida. Permanece em mim uma insistência em esperá-lo calar para me deixar falar. Enquanto isso, vou tocando mesmo não sendo ouvida. Não desisto, mas sou tomada por uma boa dose de angústia. Reduzida ao nada, minha intenção não tem qualquer relevância. Fico sem poder dizer do meu desejo. Tenho que me recolher, suportar e esperar. Desta posição transferencial pelo contexto musical repenso a condição de Augusto, essa de grande esforço em ser ouvido e se fazer ouvir. O Outro se apresenta com uma massa sonora barulhenta, não fálica, o que não permite ouvir Augusto, nem deixa-lo ouvir-se.

Não podendo dizer de si para o Outro, fica também sem saber de si. Fica surdo a si mesmo. O que não pode ser traduzido, processado e decodificado permanece como um grito. Prevalece nele, até então, uma voz que ainda não caiu, que não inaugurou o vazio da palavra e da passagem da forma da alienação para a da separação. Desta forma, a voz fica paralisada para Augusto, cristalizada em uma repetição maçante e intolerável, sem poder ser transformada em algum sentido amenizador.

4.2.4 Coda

Para se fazer ouvir, Augusto utiliza-se predominantemente da expressão rítmica, que fica muito em destaque se comparada à expressão melódica. Ele acha nos instrumentos de percussão uma forma de entrega catártica. Com batidas cada vez mais rápidas e incessantes tenta fazer com que os sons não sejam separados por pausas, esforça-se para formar um som único. A delimitação entre som e pausa exibe uma dimensão entre ser e não ser, como o eu e o não eu, algo aparentemente negado por ele nesta prática, por fazer parte de seu conflito.

Introduzir outras propriedades musicais, como melodia e harmonia à experiência de Augusto, foi por algumas vezes a minha tentativa de intervenção. A melodia e a escansão musical propõem uma ordenação com finitude, uma diferenciação que demarca o início e o final de cada fraseado. A diferença entre as notas delimita uma separação e uma singularidade, havendo entre elas um encadeamento e uma sequência, chamada relação intervalar. Tocar junto exige ouvi-lo e dar-lhe resposta ajustada à mensagem sonora dele recebida, pois é preciso que se considere a sua proposta de andamento e de intensidade. A intensa voz gritada de Augusto por muitas vezes cobre o que essa intervenção poderia propor. Só são ouvidas as violentas batidas de Augusto ao tambor. São elas o real escancarado e com resistência em aceitar qualquer borda ou amarração. Sem ser ouvido ele fica sem saber de si. Sem tradução a palavra não assume seu lugar e não deixa a voz sobrar como resto. Permanece como pura voz e, com ela, o real.

Com a proposta de ofertar recursos musicais nas sessões ficou bastante evidente a dificuldade de qualquer intervenção ou elaboração. Pouco, ou quase nada, de uma produção sonora mais estruturada foi possível com Augusto. Onde poderia haver música, não a houve. A potencialidade transformadora da utilização desses recursos não achou oportunidade para acontecer, mas a potencialidade denunciativa, sim. Os principais impasses vivenciados por Augusto ficaram declarados nessa experiência. Principalmente a forte intensidade de sua angústia, o seu desespero e as ameaças que o arrombavam foram denunciados nas pancadas desmedidas nos instrumentos. O caos sonoro e a desorganização rítmica evidenciaram sua bagunça e sua desorientação internas. Eu sentia que nada podia soar bem no meio de tanta força e dissonância. A impotência do não dar conta de fazer algo, do não produzir musicalmente, deixou tudo paralisado em mim, em uma agonia quase insuportável.

Augusto e Rebeca sofrem com o efeito catastrófico de seus desejos, pois eles são ambíguos. O filho busca saída para a alienação, mas ao mesmo tempo sofre com o temor do

desastre que isso pode causar. A mãe busca o objeto de gozo perfeito, mas este não combina exatamente com o que o filho tem podido oferecer. Se a condição de adoecido o mantém perto dela, assim ele precisa permanecer, com seus sintomas e ocupando o lugar de objeto do fantasma materno. A constatação da não complementaridade perfeita entre eles estremece, angustia, causa impacto na relação, mas não a assola, nem mesmo na medida necessária à separação. Para ambos, o que deveria ser não é.

Augusto não para de tentar; continua tocando. Ele permanece tentando dizer seu duro "não", pelo seu vigoroso som. Este, por sua vez, não se transforma em outra coisa, não se torna palavra com significado. Tudo que encontra é uma acústica seca que não deixa reverberar, pelo contrário, tenta anular o seu impacto sonoro. Permanecendo como som não inaugura a condição caída da voz.

Muito angustiada Rebeca anuncia: "se tivesse um instrumento desse em casa, guardaria em um lugar em que nunca mais pudesse ver", se referindo ao tambor de som forte e potente pelo qual Augusto gritou e manifestou o seu puro real. Era grande seu desejo de nunca mais ouvir nada igual, de silenciar esse insuportável, nem que para isso tivesse que calar Augusto para sempre. Acredito que esta foi a forma de ela se despedir, sentindo algo a nível do intolerável, visto que não retornaram para os próximos atendimentos.

CAPÍTULO 5