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A entrada da guitarra em instituições formalizadas que oferecem cursos de música de nível técnico e/ou superior ocorreu apenas quando a música popular, de um modo geral, foi reconhecida pelos programas e currículos tradicionais (GREEN, 2001). Durante um longo período, acreditou-se que as músicas populares não permitiam uma análise musical em sua construção, pois eram deliberadamente livres em seus aspectos composicionais. A mudança de valores ocorreu a partir do final dos anos 1950 e início dos anos 1960 nos Estado Unidos, onde adotou-se o jazz como principal gênero popular utilizado em instituições formalizadas.

Uma vez que os músicos populares não sabiam explicar como aprendiam ou executavam suas composições, não existia um pensamento sistematizado sobre métodos e metodologias a ser abordado nos processos de ensino e aprendizagem da música popular. Sobre isso, encontramos duas citações no livro/método How to play jazz and improvise (AEBERSOLD, 1992) que podem ser ilustrativas no entendimento de como o jazz foi aos poucos sendo compreendido e utilizado no ensino de música. De início, não se acreditava que algo tão espontâneo pudesse ser ensinado: “tudo neste livro foi obtido através de história aural do jazz. Tudo aqui pode ser observado escutando a música. A música fala por ela mesma. Escute e aproveite”9 (p. 2); ou ainda, “tem sido dito ‘você não pode ensinar jazz’”10 (p. 3).

Depois de pesquisar em vários programas, constatamos que, de fato, o primeiro curso de guitarra com currículo e proposta definida foi da Berklee College of Music, ainda durante os anos 1960. É importante ressaltar que essa também foi uma instituição pioneira na elaboração de cursos de bacharelado em música popular desde sua fundação nos anos 1945, quando seus professores adaptavam os currículos eruditos a análises e conteúdos que compreendiam a música popular, especialmente o jazz (BERKLEE, 2010). Figura de destaque e pioneiro no estudo da guitarra elétrica, William Leavitt, guitarrista atuante em grupos de jazz, foi organizador do currículo da Berklee e publicou uma série de livros e estudos para guitarra. Ele

foi o pioneiro na organização do estudo da guitarra nos EUA. Percebendo que o instrumento era um instrumento jovem, um instrumento que não estava desenvolvendo uma metodologia especifica, ele começou a estudar o instrumento em categorias, imitando os métodos tradicionais de outros instrumentos como o violino, o piano e o clarinete (BORDA, p. 99-100).

      

9 Everything in this book has been gleaned from jazz’s aural history. Everything in here can be heard by

listening to the music. The music speaks for itself. Listen and enjoy (AEBERSOLD, 1992, p. 2, tradução minha).

Os métodos organizados e publicados por Willian Leavitt possuem fortes influências dos cursos e instrumentos eruditos. Apesar de tratar de técnicas e posições específicas da guitarra elétrica, seu material possui forte apelo à leitura musical tradicional (partitura, pentagrama) desde as primeiras páginas, além de composições e frases em formato “duo”, para serem executadas por dois guitarristas.

As instituições formalizadas de música, como conservatórios e, principalmente, universidades, iniciaram nos últimos anos uma corrida para a implementação de disciplinas de música e instrumentos populares em seus currículos, ou mesmo a elaboração de graduações específicas em música popular, com disciplinas diferenciadas em relação aos programas eruditos. A exemplo dessa “corrida”, temos um curso promovido pela Universidade Federal da Bahia, onde, a partir de 2009, este estado teve, finalmente, um curso de graduação em Música Popular Brasileira (POVOAS, 2010).

No Brasil, os cursos de guitarra mais procurados por jovens estudantes estão localizados em São Paulo – SP. Um deles é o Conservatório Souza Lima, em funcionamento desde 1981 (SOUZA LIMA, 2010), que possui um convênio com a Berklee College of Music. O aluno estuda dois anos em São Paulo e pode ser direcionado para concluir seus estudos com mais dois anos nos Estados Unidos. Também, inicialmente localizado em São Paulo - SP, possuindo hoje mais cinco filiais no Brasil, encontramos o EMT/IGT (EMT, Escola de Música e Tecnologia, 2010), conveniada com o MI/GIT – Los Angeles, CA - EUA. Ambos os programas dão grande atenção ao desenvolvimento técnico-instrumental dos alunos, promovendo aulas direcionadas aos diferentes gêneros musicais, especialmente jazz e rock, e visitas frequentes de famosos guitarristas para ministrarem master classes e/ou workshops.

A partir das informações apresentadas, percebe-se que o estudo da guitarra, quando formalizado e pensado dentro de uma cadeia de disciplinas, sempre está ligada à prática de improvisação, domínio de escalas e, geralmente, ao jazz, como se fosse a melhor maneira de se obter um desenvolvimento gradual, elevando seu nível de dificuldade e profundidade no entendimento do instrumento a partir do domínio desses conteúdos. O mesmo ocorre em cursos de especialização e pós-graduação em performance de guitarra elétrica. Com base na importância do jazz e no exemplo dos dois cursos mencionados anteriormente, percebemos como ainda somos fortemente influenciados pelos programas, didáticas e materiais impressos de origem norte-americana quanto ao planejamento de currículos formalizados em guitarra.

Dessa maneira, deixa-se, via de regra, em segundo, plano um repertório “guitarrístico” nacional. “Partindo da construção da ‘guitarra brasileira’ alicerçada por uma fusão híbrida onde se articulam elementos da música popular urbana brasileira (choro, samba

e frevo), manifestações musicais regionais e jazz” (VISCONTI, 2005, p.1). Os professores de guitarra do Brasil poderiam sistematizar métodos de estudo que incluíssem um repertório mais próximo da realidade de seus alunos. E como na citação de Visconti acima, a idéia de hibridismos musicais, onde dois objetos distintos se fundem gerando algo novo (VARGAS, 2008), poderá ser confirmada como alternativas para a contextualização de um repertório específico da guitarra.

Um dos grandes problemas a serem dominados pelo professor de guitarra, é conhecer o objetivo metodológico do método utilizado por ele. A maioria desenvolve seu trabalho como professor, onde segue os estudos e exercícios do livro, sem traduzir, ao aluno, sua significação e representação, como objeto teórico/prático pedagógico, não conseguindo resultados satisfatórios (PACHECO, 2005, p. 04).

Rogério Borda, em sua dissertação, pesquisou sobre a organização de um curso superior de guitarra elétrica e, para isso, analisou o programa de três instituições brasileiras de nível superior: o Bacharelado em Produção Musical da Universidade Federal do Paraná (UFPR), O Bacharelado em Música Popular da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e a Graduação em Guitarra Elétrica da Faculdade Santa Marcelina (FASM). Tais instituições “foram selecionadas por serem as únicas a oferecerem atualmente [2005], no Brasil, a habilitação superior em guitarra elétrica” (BORDA, 2005, p. 81). A essa informação acrescentamos que a Universidade Federal da Paraíba (UFPB) tem oferecido Curso Seqüencial em Música Popular onde é possível escolher a habilitação em guitarra elétrica. O Instituto Federal da Paraíba (IFPB - antiga escola técnica ou CEFET) também oferece cursos de nível médio e técnico em música com habilitação em instrumento – guitarra (GARCIA, 2011b), seguindo na perspectiva da grande maioria dos IFs do pais. Isso vem a demonstrar o aumento de cursos formalizados do instrumento. Outra novidade é que, no final de 2011, ocorrerá o primeiro vestibular para egressos no curso de Licenciatura em Musica da UFPB com habilitações específicas para os instrumentos guitarra, baixo elétrico e bateria.

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