É comum dividir o continente africano em duas zonas distintas, fruto da sua extensão e diversidade etnolinguística: zona Centro-Norte e Centro-Sul.
A primeira zona é dominada fisicamente pelo deserto de Sahara, com cerca de 8.600.000 km2
(Branco, s/d), que, pela influência da matriz sócio-antropológica, é designada tanto por África Branca, no caso da influência racial, como por África Muçulmana, em relação à influência religiosa. Tal influência remonta ao século VII d.C., ao que parece no ano 639 d.C., à luz da penetração dos árabes muçulmanos, tipicamente beduínos (Oliver, 1980). É uma zona habitada maioritariamente por povos muçulmanos, nomeadamente berberes, egípcios e tuaregues. Com a penetração dos beduínos, entrou também a língua árabe que, a partir dessa altura, abre a página da sua história de propagação em África, com maior incidência na zona Norte, onde, ao lado de outras línguas de origem europeia, se tornou, até aos nossos dias, na língua oficial de muitos países como Marrocos, Egipto, Argélia, Tunísia, Líbia, Sudão,
Mauritânia, Djibuti, Chade, Somália e Comores17. Podemos, no entanto, incluir o território do Sara Ocidental que, mesmo não tendo uma língua oficial, no estrito sentido da palavra, tem o árabe e o espanhol numa perspectiva de línguas regionais. Convém lembrarmos que, antes da invasão árabe no século VII d.C., o Norte de África já tinha conhecido outros povos asiáticos e europeus, por exemplo, fenícios, romanos e gregos.
A segunda é a zona Centro-Sul, a propalada África Negra, por apresentar um substrato racial composto por população maioritariamente negra, avaliada em mais de 800 etnias diferentes (Branco, idem). Abrange a região localizada a Sul do deserto de Sahara, tocando o Cabo de Boa Esperança, na África do Sul. Contrariamente à zona anterior, com forte presença da cultura e língua árabes, aqui, predominam a cultura e as línguas dos povos bantu, pese embora ter sido habitada, antes destes, por populações não ou pré-bantu (ainda existem algumas, mas em números bastante reduzidos). Tal é o caso dos pigmeus e kohisan (bosquímanos e hotentotes). É nesta zona Centro-Sul que se integra Angola, nosso principal elemento de interesse.
Concretamente a Angola, este país apresenta, à semelhança da maioria do continente, uma estrutura sócio-antropológica bastante complexa que reside, efectivamente, na combinação de uma minoria populacional de origem europeia, resultante do fenómeno da colonização, com uma maioria étnica de origem africana que, em termos globais, abarca populações pré- bantu e populações bantu, em torno das quais apresentamos a descrição que se segue.
17 O itálico indica os países que, para além do árabe, têm outras línguas oficiais: inglês (Sudão), francês
(Comores, Mauritânia, Djibuti e Chade). Contudo, em Comores, ao lado do árabe e do francês, aparece também o shikomor como outra língua oficial.
1.2.1 Comunidades étnicas não bantu
Os khoisan (de khoi/khoin - hotentote + san - bosquímano) costumam ser apontados como os primeiros povos primitivos da África Equatorial e Austral (Cruz, 1940). Juntamente com os vátua (kwisi e kwepe), são, neste contexto, considerados os primeiros habitantes do território angolano na fase proto-histórica (História de Angola, 1965) do paleolítico. Quer o grupo khoisan, quer o vátua, constituem o que genericamente se designa por povos não-bantu e pré- bantu. Oriundos de várias raças localizadas a sul do Equador, principalmente em Boskop (Florisbad), – daí se chamarem “boskopoides” (idem) – os khoisan são vistos por alguns investigadores como dos mais primitivos povos da humanidade18, e descendentes dos homens
de Grimaldi19. Presume-se que terão chegado à África, passando pela Ásia e Europa Ocidental, provavelmente há perto de 50 000 (cinquenta mil anos) a.C.20.
Os khoisan vagueavam no extremo sul do continente, antes da perseguição a que foram sujeitos pelos bantu. A partir daí, dispersaram-se, encontrando-se actualmente na Namíbia, África do Sul, Botswana, Zimbabwe e Angola, com cerca de 50.000 indivíduos (Fernandes & Ntondo, 2002). Em Angola, os khoisan estão confinados à zona sul, assim como reduzidos a núcleos minúsculos que, até aos nossos dias, mantêm uma existência estimada em cerca de 8.000 indivíduos (idem). Tendo em conta a distribuição étnica de Angola proposta por José Redinha, podemos inferir que alguns povos do grupo khoisan, os kedes, se encontram na região do Mupa, numa zona de influência do grupo etnolinguístico ambó, e no Baixo Cunene (Redinha, 1970).
Do ponto de vista fisioantropológico, os khoisan costumam ser caracterizados como indivíduos não negros, claros, de cor acastanhada (História de Angola, op. cit; Gonzaga, 1963), de estatura pigmóide (“patologia” que se julga derivar da nutrição). O seu cabelo forma pequenos tufos, os olhos são do tipo oriental (Fernandes & Ntondo, op. cit.) e os pés e as mãos minúsculos, daí serem muitas vezes confundidos com os pigmeus (Gonzaga, op. cit.).
Em relação aos vátua, outra comunidade etnolinguística não bantu, estes são considerados povos de origem pouco conhecida. No entanto, julga-se que o subgrupo kwisi, de língua com o mesmo nome, apresenta afinidades com o grupo khoisan/hotentote, ao passo que o subgrupo kwepe, também com língua assim designada, terá resultado da miscigenação de khoisan com o kwisi. Os vátua encontram-se localizados em Angola, tal como os khoisan, na zona sul, concretamente na faixa semi-desértica do deserto da província do Namibe, entre o Mar e a
18 Veja-se, a título de exemplo, Norberto Gonzaga, 1963, p. 24.
19 Diz-se de gentes do paleolítico superior que, oriundas da Ásia, chegaram à África, vindas da Europa
Ocidental.
20 Este autor não utiliza o termo genérico khoisan, referindo-se apenas aos bosquímanos. In Norberto
Gonzaga (1963). História de Angola (1482 – 1963). Edição do C.I.T.A., Fundo de Turismo e Publicação, p. 24.
Serra da Chela, numa zona de influência do grupo etnolinguística herero, juntamente com os hotentotes. Criadores de gado e bons caçadores de antílopes e de zebras, estima-se a existência de cerca de 6.000 indivíduos do grupo vátua (Fernandes & Ntondo, op. cit.).
Tanto os khoisan, como os vátua não chegaram a constituir reinos nem Estados à semelhança dos seus sucessores, podendo essa falta de estrutura política sólida ser um handicap na luta contra os invasores bantu.
1.2.2 Comunidades étnicas bantu
Os bantu, também conhecidos no mundo muçulmano antigo por cafres (infiéis), por se recusarem a adoptar a religião de Maomé (Gonzaga, op. cit.), eram caracterizados como nómadas, polígamos e belicosos. A sua origem e respectiva chegada à África suscitam algumas dúvidas, dando azo ao surgimento de algumas hipóteses relacionadas com as versões que abaixo apresentamos.
A versão de Bryan sustenta que os bantu teriam emigrado da Polinésia e ilhas do Pacífico antes de haver sido submergido o continente Indo-Malaio, que desapareceu em tempos remotos que então se chamava Lemuria, dando origem a expressão lemurianos para designar os antepassados dos bantu (Quintão apud Cruz, op. cit.). Por seu turno, Torrend defende na sua versão uma origem ligada aos descendentes de Kush, filhos de Canaan (Chan), que vieram da Ásia para a África, passando pelo canal de Suez e chegaram a Sul do Nilo (idem). A última versão pertence a Mas’Oudi, encontrada no “Golden Meadows” (943 a. C.), e, quiçá, a mais citada. A versão “mas’oudiana” faz uma descrição que reúne informações consideradas mais aceitáveis acerca dos bantu, também denominados por si e por outros autores árabes por
Zindji. Mas’Oudi sustenta que na altura em que os descendentes de Noé começaram a
espalhar-se pelo mundo, os filhos de Kush, filho de Kanaan (Cam), seguiram na direcção Oeste e atravessaram o Nilo, formando aí dois grupos: os Nubios, os Bedjah e os Zindj, que voltaram para a direita, entre Leste e Oeste; os outros, em grande número, foram para Oeste na direcção de Zagawah, Kanem, Markah, Ganah e outras partes da terra dos pretos e Dendemeh. A separação dos grupos que seguiram a direcção Leste e Oeste originou diversas tribos dos Zindj, sendo estes, segundo Mas’Oudi, os únicos que atravessaram o canal que vem do Nilo superior, de entre todas as tribos da Abissínia.
Apesar de tanta panóplia de versões, é ponto assente que os bantu integram o grupo Ocidental desse conjunto de povos que se julga ter provindo da Ásia e que terá partido, de seguida, da região de Benue (entre Camarões e Nigéria), atingindo a Bacia do Congo, do Planalto Luba e dos Grandes Lagos. Eis por que as línguas bantu (LB) são também integradas, em termos de classificação, na família benuecongolesa. A partir dos Grandes Lagos, os bantu espalham-se, atingem Sofala (Moçambique) no extremo oriental, e África do Sul, no extremo
meridional, incluindo Angola. Que razões os terão levado a preferir o Sul em detrimento do Norte? Os investigadores apontam várias que convergem, fundamentalmente, no carácter nómada dos bantu, à semelhança, como por exemplo, dos beduínos. Tratando-se de povos numerosos, houve necessidade de conquistar novas terras, pois o espaço escasseava na região dos Grandes Lagos que habitaram antes das famosas migrações bantu. A solução foi, nesta perspectiva, dirigir-se para Sul, uma vez que no Norte, Noroeste e Leste existiam povos com os quais não podiam competir, respectivamente, os fortes povos da Mauritânia e do Egipto (Norte), os povos da antiga Abissínia - Etiópia (Leste) e os Sudaneses - Estado do Benin (Noroeste), devidamente organizado (Villas, 1938). Outra razão da preferência do Sul pode estar relacionada com o despovoamento, naquela época, das regiões da África Ocidental e Austral.
Foi nessas circunstâncias que se dá início a vagas de correntes migratórias de populações que, em Angola, apenas terminaram no século XIX, numa altura em que as novas formas de organização e o controlo militar das terras por parte da potência colonizadora inviabilizavam as deslocações. Nesta óptica, a actual população angolana de origem bantu resulta, historicamente, da diluição de vários reinos formados entre os séculos XIII e XIX (Martins, 1993), como pode ilustrar o quadro que se segue, por influência de tais correntes migratórias:
Tabela 6: Formação dos reinos de Angola
Agrupamentos de reinados Grupos étnicos e Línguas Fundação e extinção
Reino do Congo BACONGO / Quicongo Século XIII a XVI
Reinos de Ndongo e Matamba AMBUNDO / Quimbundo Século XVI a XVII
Reino da Quissama AMBUNDO / Quimbundo Século XVI a XVII
Reinos do Planalto OVIMBUNDO / Umbundo Século XVI a XVIII
Reino de Cassange AMBUNDO / Lunda-Tchócue Quimbundo/Tchócue Século XVI a XVII Reino de Lunda-Tchócue LUNDA-TCHÓCUE / Tchócue Século XVI a XIX Reinos do Sudoeste
HERERO/NHANECA-HUMBE/AMBÓ
Herero/Nhaneca/Quanhama Século XVI a XVIII Região de Comunidades
pouco fixadas
NGANGUELA/XINDONGA
Nganguela/Xindonga --- Fonte: Adaptação nossa.