2 LITERATURE REVIEW
2.4 Supply chain sustainability
2.4.2 Measuring sustainability
Finalmente, discutiremos o Sócrates aristofânico, duplo, representante de dois discursos: o Justo e o Injusto, e o Sócrates platônico, que no Banquete, além de encarnar o próprio Eros, de natureza dupla, localizado entre o divino e o humano, também propõe a possibilidade de um mesmo homem compor tragédia e comédia.
É do conhecimento de muitos que Sócrates surge na literatura através da comédia, não somente nas peças de Aristófanes, mas também nas de outros poetas cômicos. Cono, de Amípsias, foi uma das concorrentes de Nuvens e trouxe também Sócrates como personagem juntamente com um coro de sofistas (Cf. fr. 9K apud Sousa e Silva, 1987, p. 33). Além da sua forte presença n’As Nuvens, o filósofo é citado em mais duas peças aristofânicas, n’As Aves (414 a.C.) e n’As Rãs (405 a.C.).
O coro de aves anuncia ter sobrevoado muitas novidades e maravilhas e visto fatos assombrosos (v. 1470-1472). Uma destas maravilhas seria Sócrates entre os Pés- Sombreiros, também conhecidos como Ciápodes, um povo lendário cujos pés enormes serviriam de sombra. Estes habitariam próximo a um lago, junto à entrada do Hades, o mundo dos mortos. A esse local, o político Pisandro teria se dirigido em busca de uma alma, porém ao oferecer o sangue do sacrifício, atraíra somente o “morcego” Querofonte. Assim como acontece n’As Nuvens, Sócrates tem poderes de um sacerdote, desta vez, o de atrair os mortos:
ό ὸ ὲ ῖ ά ί ᾽ ἄ ᾃ ῖ ά : ὶ Π ί ό ὴ ἰ ῖ ῶ ᾽ ἐ ῖ ὔ , ά ᾽ ά ἀ ό ᾽, ὺ ὼ ὥ ᾽ ὑ ὺ ἀ , ᾆ ᾽ ἀ ᾽ ὐ ῷ ά
ὸ ὸ ῖ ή
ῶ ἡ ί .
Coro
Junto aos Pés-Sombreiros
existe um lago, onde, sem se lavar, Sócrates atrai as almas.
Ali também veio Pisandro, pedindo para ver uma alma que o abandonou ainda vivo. Segurando uma vítima,
um camelo-ovelha, cortou-lhe a goela e, como Odisseu, recuou.
Em seguida surgiu-lhe de baixo, rumo à sangoela do camelo,
Querofonte, o morcego (As Aves, v. 1553-1564).
N’As Rãs, Sócrates volta a ser citado como um sofista da mesma forma que ocorrera n’As Nuvens. Neste trecho, o coro insinua que o filósofo seria uma das fontes de inspiração de Eurípides, pois o tragediógrafo representaria a época da educação nova, da sofística ou do exercício da palavra. Outros comediógrafos também faziam esse tipo de piada, insinuando que Sócrates teria ajudado a compor algumas das peças de Eurípides (Cf. frs. 39, 40K apud Sousa e Silva, 1987, p. 97):
ό ί ᾂ ὴ ά ή ῖ , ἀ ό ὴ ά έ ό ῳ έ . ὸ ᾽ ἐ ὶ ῖ ό ὶ ῖ ή ὴ ἀ ὸ ῖ , ῦ ἀ ό . Coro (Antístrofe)
É, pois, agradável não ficar ao lado de Sócrates sentado, a tagarelar,
rejeitando as artes e descurando os fundamentos da arte trágica. Mas passar o tempo ociosamente com discursos pomposos e frivolidades de palavreado
Sócrates n’χs σuvens
Na tentativa, talvez, de justificar o que pensam sobre Aristófanes, alguns estudiosos afirmam que, n’As Nuvens, Estrepsíades e Sócrates saem de cena (v. 886-888) e voltam, respectivamente, como o discurso Justo e o discurso Injusto (v. 889-891). Baseados no fato de que na comédia antiga atuavam, ao mesmo tempo, no máximo, três atores e que Fidípides permaneceria em cena; poucos querem acreditar que a saída de Estrepsíades e Sócrates tão próxima à entrada dos dois discursos, impossibilitaria a descaracterização de um personagem e a caracterização do outro.
Além da presença de Estrepsíades ser necessária durante o agón dos dois discursos, o Justo, vencido, entra no “pensatório” (v. 1102-1104) quase na mesma hora em que o Injusto dirige a palavra a Estrepsíades (v. 1105-1106) e este o responde (v. 1107-1110), o que tornaria outra vez impossível a encenação dos dois personagens, o Justo e Estrepsíades, ser feita por um único ator. De acordo com Starzynski (1967, As Nuvens, Introdução, p. 63), Aristófanes, algumas vezes, obedeceu a essa lei (da regra de três atores) com relativa liberdade, preocupando-se tão somente com o cuidado de manter apenas dois ou três atores falando, embora houvesse outros personagens no palco.
Em alguns manuscritos, há uma indicação do copista de que existiria uma parte coral, entre a saída de Estrepsíades e Sócrates e a entrada do Justo e do Injusto. Não temos certeza disso, mas se fosse verdade só teríamos solução para a primeira troca de personagens, a segunda continuaria sendo um problema sem solução.
Baseados nessas dificuldades, podemos considerar Sócrates o responsável pelos dois discursos, o Justo e o Injusto. Assim que ele se despede de Estrepsíades e de Fidípides, os personagens surgem do “pensatório”, sendo os dois, portanto, discípulos do filósofo:
Σ ά ὐ ὸ ή ᾽ ὐ ῖ ῖ ό . ἐ ὼ ᾽ ἀ έ . Σ ά ῦ ό έ ᾽, ὅ ὸ ά ὰ ί ᾽ ἀ έ ή . Δί ό ώ ί, ῖ ὸ ῖ ῖ , ί ὺ ᾐ . Ἄ ό ᾽ ὅ . ὺ ὰ ό ' ἐ ῖ ῖ έ ἀ ῶ.
Sócrates
Ele mesmo há de aprender com os dois raciocínios em pessoa. Eu vou-me embora.
Estrepsíades (A Sócrates)
Então lembre-se disto,
ele deverá falar contra tudo que é justo.
Justo
Venha cá, mostre-se aos espectadores, você que é um atrevido!
Injusto
Vá para onde quiser! Pois muito mais facilmente, falando diante do povo, acabarei com você! (v. 886-892).
Vendo os dois discursos com os ânimos acirrados, o coro resolve apaziguar e pede que cada um apresente a Fidípides as suas qualidades para que o jovem possa fazer a sua escolha. Depois do Pró-agón (v. 889-948), saudado pelo coro, o discurso Justo começa a sua defesa em prol da educação antiga.
O Justo diz a Fidípides que o seu corpo será formado de acordo com a educação escolhida por ele. Se ele escolher a educação antiga, “terá sempre língua curta e membro pequeno”, sendo esta a compleição de um homem sensato. Em contrapartida, na escolha da educação nova, “terá língua grande e membro comprido”, portanto, quanto mais afiada a língua estiver para os discursos, mais desmedido será o apetite sexual.
Δί ό ἢ ῦ ἁ ὼ ά , ὶ ὸ ύ έ ὸ ῦ , ἕ ἀ ὶ ό , ὰ ά , ᾐ ά , ῶ ά , ὴ ά , ό ά . ἢ ᾽ ἅ ἱ ῦ ἐ ύ , ῶ ὲ ἕ ό , ὰ ὠ ά , ᾐ ύ , ῶ ά , ὴ ά , ή ό , ὶ ᾽ ἀ ί ὸ ὲ ἰ ὸ ἅ ὸ ἡ ῖ , ὸ ὸ ᾽ ἰ ό . Justo
Se fizer o que eu digo e atentar nesses conselhos, terá sempre peito robusto, cores brilhantes, ombros largos, língua curta, quadris grandes e membro pequeno.
Mas se praticar os hábitos de hoje, logo terá pele pálida,
ombros estreitos, peito acanhado, língua grande, quadris pequenos, membro comprido e longos decretos... E ele persuadirá você
a pensar que tudo que é vergonhoso é belo e o belo, vergonhoso (v. 1009-1022).
Enquanto o discurso Justo se demora em longas explicações sobre as vantagens da sua educação, o Injusto faz maior uso de frases curtas, como se fossem pequenos dardos (v. 945), atirando-os em direção ao seu adversário. Segundo Rubião (2007, p. 130-131), o discurso Injusto aplica com rigor o método da dubitação, caro a Sócrates, por meio de perguntas argutas que levam seu interlocutor a dizer o contrário do que afirmara antes.
O agón entre os dois discursos, o Justo e o Injusto, representa o confronto entre as duas educações, respectivamente, a antiga e a nova. O argumento Injusto é todo construído em cima da negação do argumento Justo, como ele próprio afirma. A estratégia de dar a palavra ao Justo (v. 941) faz com que o Injusto não tenha nenhum trabalho para conquistar Fidípides, a única coisa que lhe resta fazer é “revirar” ao contrário tudo o que foi dito:
Ἄ ό ὶ ὴ ά ᾽ ἐ ό ὰ ά ἀ ύ ἅ ῦ ᾽ ἐ ί ώ ά . ἐ ὼ ὰ ἥ ὲ ό ᾽ ὐ ὸ ῦ ᾽ ἐ ή ἐ ῖ ῖ , ὅ ώ ἐ ό ῖ ό ὶ ῖ ί ἀ ί᾽ ἀ έ . ὶ ῦ ῖ ἢ ί ᾽ ἄ ή , ἱ ύ ὺ ἥ ό . Injusto
E, no entanto, há bem tempo eu é que sufocava até as entranhas e desejava revirar tudo isso com argumentos contrários...
Pois, no meio dos pensadores chamaram-me “o raciocínio fraco”, por isso mesmo, porque fui o primeiro a pensar em contradizer as leis e a justiça. Eis aí o que vale muito dinheiro:
escolher os raciocínios fracos e, apesar disso, vencer! (v. 1036-1042).
Diferentemente do aprendizado de Estrepsíades, o de Fidípides é feito às escondidas, não vemos de que forma é realizado nem por quem é ministrado. Segundo Strauss (1966/1992, p. 29)28, Fidípides recebeu os ensinamentos dos dois discursos sem submeter-se a um teste ou a uma iniciação. Sua escuta dos dois discursos foi a única instrução recebida, que foi apresentada ao público. Temos algumas suposições sobre o que aconteceu dentro do “pensatório” baseado nas palavras do próprio Fidípides. No segundo agón, desta vez, entre o pai e o filho, este encarna o “espírito” do discurso Injusto e diz:
ί ὡ ἡ ὺ ῖ ά ὶ ῖ ὁ ῖ , ὶ ῶ ώ ό ὑ ῖ ύ . ἐ ὼ ὰ ὅ ὲ ἱ ὸ ῦ ό ῖ , ὐ ᾽ ἂ ί᾽ ἰ ῖ ῥή ᾽ ό ᾽ ὶ ἐ ῖ : ὶ ᾽ ἐ ή ᾽ ὑ ὶ ύ ὐ ό , ώ ὲ ῖ ὶ ό ύ ὶ ί , ά ὡ ί ὸ έ ά . Fidípides
Como é doce conviver com ideias novas e engenhosas, e poder desprezar as leis estabelecidas!
Quando eu preocupava o meu espírito só com a equitação, não era capaz de dizer nem três palavras sem errar.
28 “Pheidippides receives his instruction from the two Speeches without having undergone a test or an initiation.
Mas, agora, depois que “ele em pessoa” acabou com isso, eu convivo com hábeis sentenças, palavras e pensamentos, e creio que posso provar que é justo castigar o pai (v. 1399-1405).
Fidípides diz que “ele em pessoa”, isto é, “Sócrates” acabou com a dificuldade que ele tinha em falar sem errar. Portanto, o jovem, educado ou não pelo discurso Injusto, recebeu orientação do próprio filósofo.
Entendendo como Beltrametti (2000, p. 215), que o par cômico é uma unidade dramática de dois elementos indissociáveis, podemos dizer que a peça As Nuvens nos apresenta dois pares cômicos, que protagonizam os dois agônes: o primeiro, formado pelos discursos Justo e Injusto, representantes, respectivamente, da educação antiga e da nova educação, e, posteriormente, o segundo par, formado por Estrepsíades e Fidípides, que tomam, na sequência, os lugares do discurso Justo e do discurso Injusto.
Quanto a Sócrates, podemos considerá-lo participante de dois pares cômicos: um com Estrepsíades, formado durante o jogo de palavras travado dentro do “pensatório” e o outro representado pelos dois discursos, que opostos e também complementares, mostram toda a ambiguidade do personagem, que ora parece ser justo e ora injusto.
Sócrates n’τ ψanquete
O Banquete, de Platão, é um diálogo que tem como ponto de partida o seguinte questionamento – “o que é o amor?”. Esse amor discutido e louvado é, primordialmente, o amor entre iguais.
Algumas leituras tendem a separar o discurso em duas partes, a filosófica e a não filosófica, ressaltando o discurso de Sócrates em detrimento dos demais. Os outros discursos são, geralmente, considerados paródias, sem nenhum valor. Não concordaremos com esta divisão amparada pelo próprio discurso de Sócrates, no Fedro, de Platão:
Porém uma coisa, quero crer, terás de admitir: que todo discurso precisa ser construído como um organismo vivo, com um corpo que lhe seja próprio, de forma que não se apresente sem cabeça nem pés, porém com uma parte mediana e extremidades bem relacionadas entre si e com o todo (264c).
N’O Banquete, é possível percebemos um entrelaçamento entre as diversas vozes que o permeiam. Embora o discurso de Sócrates tenha fundamental importância no todo, pois juntamente com o discurso de Alcibíades, compõe a metade da obra, ele está fortemente relacionado aos outros discursos. Segundo Pinheiro, “o elenco das diversas características de Eros torna o discurso Sócrates-Diotima o núcleo de refração do diálogo, que reflete
dialeticamente os elementos centrais dos personagens precedentes” (2011, Introdução, UFPA, p. 60).
Sócrates retoma o fio narrativo do mito de Aristófanes recordando a história de Diotima sobre o nascimento do Amor: filho do Recurso e da Pobreza, com sua dupla herança de abundância e de carência, Eros é para Sócrates o paradigma do verdadeiro filósofo, que sabe que nada sabe, mas quer saber. E, seguindo a mesma corrente de discursos, para Alcibíades o verdadeiro filósofo não é outro senão Sócrates, seu Sócrates, ao mesmo tempo Sileno e deus.
Platão retrata Sócrates como o mais erótico dos filósofos. O próprio Sócrates diz em Cármides (155d), “meu nobre amigo, olhei sob o seu manto e me senti arder e não pude me conter mais”, e em Protágoras (309a), um amigo o questiona “donde vens, Sócrates? Não é claro que de uma caça à beleza de Alcibíades?”
E é por causa da presença de Sócrates que O Banquete é narrado por Apolodoro, um dos mais estusiasmados e recentes admiradores do filósofo. Ele relata o encontro de Sócrates com Agatão e Alcibíades a um amigo não nomeado, recordando o que lhe contou Aristodemo, inseparável admirador de Sócrates.
Segundo Beltrametti (2000, p. 221), o Sócrates construído por Platão e que conduz seus diálogos tem muito a ver com a comédia. Platão retoma vários temas aristofânicos, e confia essa retomada a Sócrates. Desta maneira, poderíamos pensar em um personagem modelado e recriado a partir dos protagonistas cômicos. À maneira desses, Sócrates dialoga com seus interlocutores a partir de suas réplicas, de sua gíria, de seus desvios, fazendo-os escorregar e levar a conclusões imprevisíveis. Ele joga com as palavras e os discursos, desvincula os significantes de significados usuais e descobre as surpreendentes possibilidades de sentido. Ele controla os mecanismos de ambiguidade e de polissemia do teatro do século V a.C., cômico e trágico, faz-se forte, e nunca se perde entre a multiplicidade de vozes.
N’O Banquete, Alcibíades ressalta a originalidade de Sócrates e de seus discursos:
Sim, pois esqueceu-me há pouco mencionar uma particularidade: seus discursos são parecidíssimos com os silenos que se abrem. Com efeito, se alguém se dispuser a ouvir um discurso de Sócrates, de início o achará simplesmente ridículo; as palavras e expressões com que ele reveste o pensamento fazem lembrar a pele de um sátiro despudorado. Refere-se a burros de carga, a ferreiros, sapateiros e curtidores, parecendo que sempre fala das mesmas coisas com as mesmas palavras, de forma que qualquer indivíduo inexperiente e sem instrução zombará do que ele diz. Mas, se alguém os apanhar entreabertos e penetrar no seu interior, descobrirá de imediato que são esses os únicos discursos de conteúdo sério, os mais divinos e ricos em imagens de virtude e os visam a fim de maior alcance, ou melhor: a tudo o que precisa ter em mira quem desejar tornar-se bom e nobre (221e-222b).
Alcibíades explica que, de início, o discurso de Sócrates pode parecer “ridículo” e que qualquer indivíduo inexperiente e sem instrução pode “zombar” dele. Mas, inesperadamente, Sócrates pode intervir no discurso de forma a mudar o seu rumo ou para estimular a participação do outro. Portanto, segundo Beltrametti (2000, p. 224), o Sócrates platônico domina a técnica da representação cômica e sabe importar no diálogo os recursos das dinâmicas do par. Por isso, quase sempre, ele está entre pares de personagens29.
Mas Sócrates ele-mesmo é um par cômico fundido em um único personagem, do qual Platão explora amiúde as duas dimensões e a dupla associação, diz Beltrametti (2000, p. 225). Seria muito fácil recordar o abuso do daimon que às vezes desdobra Sócrates e que sempre diz “não”. Seria ainda mais fácil recordar a imagem do Sileno que esconde o deus, a imagem pela qual Alcibíades resume Sócrates, n’O Banquete.
O daimon de Sócrates é como um redobro dele, que sempre impede que ele faça alguma coisa danosa. Esse daimon, que diversas vezes lhe diz “não”, silencia n’ Apologia:
De fato, juízes – e ao chamá-los de juízes vos designo corretamente – algo maravilhoso sucedeu a mim. Até então o costumeiro poder profético, ou do daimon, se manifestava muito amiúde e a mim se opunha mesmo em matérias de mínima importância – barrando-me de alguma ação que não devia realizar. Agora, entretanto, como constatais, que encarei aquilo que se concebe como sendo e que se considera ser o maior dos males, o sinal divino não se opôs a mim, quer quando deixei minha casa de manhã, quer quando ingressei no tribunal, quer em qualquer etapa do meu discurso quando me dispunha a dizer qualquer coisa, não obstante em outras ocasiões me obstasse em muitas etapas no meio de um discurso. Mas agora, neste caso, não se opôs a mim em relação a nada que fiz ou disse. E o que poderia eu supor ser a razão disso? Eu vos direi. Isso que sucedeu a mim é, indiscutivelmente, uma coisa boa e aqueles, entre nós, que classificam a morte como um mal, devem estar equivocados. Disso me foi concedida uma prova convincente, pois o costumeiro sinal certamente teria se oposto a mim se eu não estivesse prestes a encaminhar-me na direção de algo bom (40a-c).
Um pequeno sileno esculpido, oco e com várias estatuetas de deuses no seu interior é a imagem trazida por Alcibíades n’O Banquete para descrever Sócrates:
Para elogiar Sócrates, meus senhores, vou recorrer a uma imagem que ele decerto tomará como caricatura; mas o fato é que minha comparação nada tem de risível; só visa a verdade. O que eu digo é que ele se parece com esses silenos expostos nas oficinas dos escultores, que o artista representa com uma gaita ou uma flauta e que, ao serem destampados, deixam ver no bojo várias estátuas da divindade (215a-b).
Além dessa imagem de quem traz dentro de si divindades, Sócrates encarna também o próprio Eros, que de deus passa a ser daimon – elo intermediário entre os deuses e os mortais (202e) – no discurso de Diotima, e, no discurso de Alcibíades, passa a ser o próprio Sócrates, ao mesmo tempo, sileno e deus.
29 Cf. República, Eutidemo e Fédon.
De acordo com Beltrametti (2000, p. 226), o diálogo do amor – O Banquete – como diálogo do duplo é também o diálogo sobre a qualidade do filósofo, duplo como o Eros de Diotima e como o Andrógino retratado por Aristófanes. E esse diálogo do duplo é o que melhor expressa a conexão entre a comédia e a filosofia platônica.
Não é à toa, então, que Sócrates, ao final d’O Banquete propõe a possibilidade de um mesmo homem compor tragédia e comédia. Esse homem, também de origem dupla – trágica e cômica – não poderia ser ninguém mais além do filósofo:
Ao despertar, notou que os demais convivas dormiam ou já se tinham retirado, só estando acordado Agatão, Aristófanes e Sócrates, os quais bebiam por uma grande taça, que circulava da esquerda para a direita. Sócrates conversava com os outros dois. Dos demais temas discutidos declarou Aristodemo não recordar-se muito bem, não só por não haver assistido o começo da conversa, como por estar meio dormindo. Mas, em resumo, disse, Sócrates os levara a reconhecer que é da competência do mesmo homem escrever comédias e tragédias, e que o poeta trágico de verdade também será poeta cômico. Algum tempo constrangidos, os dois assentiram nessa conclusão, sem acompanhar muito de perto a exposição do outro, por estarem cabeceando de sono. O primeiro a dormir foi Aristófanes, e, já dia bem claro, Agatão (223c-d).
Sócrates é descrito por Beltrametti (2000, p. 225) como aquele que une o alto e o baixo, o feio e o belo: seu baixo nascimento e seus nobres companheiros; as baixadas de Atenas e as casas dos aristocratas; as imagens, as metáforas da comédia e as ideias da filosofia; o saber das técnicas e as abstrações dos números; a miséria cotidiana e a especulação ontológica.
Aristófanes tinha claramente antecipado esse homem duplo, quando faz o seu Sócrates sair de cena e ser substituído pelo par de discursos: o Justo e o Injusto.
CONCLUSÃO
Nossos objetivos foram, ao longo da dissertação, alcançados. O principal deles era discutir o que havia de engraçado e de sério entre os dois personagens Estrepsíades e Sócrates. Paralelo a isso, analisar a proximidade entre Poesia cômica e Filosofia, e, por fim, contribuir para um melhor entendimento da peça As Nuvens e do seu personagem Sócrates.
No primeiro capítulo, que demandou uma encantadora pesquisa, foi possível demonstrar a graça feita com o que era sério. Com os exemplos transcritos de teorias existentes, todas, magistralmente, tornadas risíveis, pudemos ver que Aristófanes fazia piada o tempo todo, até com aquilo que era sério: a ciência. E, para completar, ainda, usava Sócrates como porta-voz de todas as descobertas científicas, responsável maior por todos os estudos existentes no “pensatório”.
Além da ciência, Aristófanes também fazia brincadeiras com Sócrates e Querefonte. Como o povo, certamente, os julgava muito ociosos, sempre a contemplar e a especular a respeito de tudo, portanto com “as cabeças nas nuvens”, eles eram vítimas perfeitas para as suas comédias.
Depois, no segundo capítulo, os dois personagens foram analisados separadamente, para que fôssemos capazes de conhecê-los e, talvez, de entendê-los melhor. Primeiro, os dois Sócrates (o aristofânico e o platônico) foram postos lado a lado para que as coincidências e as contradições ficassem aparentes. Foram encontradas algumas coincidências cômicas, como aquelas que diziam respeito aos seus hábitos de higiene e de vestimenta.
Em seguida, examinamos a condição de Estrepsíades como herói cômico e como camponês – vítima do preconceito do homem da cidade. Depois, discutimos o uso que Aristófanes faz com seu nome Σ , derivado do verbo φ . Nesse jogo de palavras, surgem muitas situações engraçadas.
Ainda nesse capítulo, discutimos algumas oposições entre os pensamentos de Sócrates e de Estrepsíades, respectivamente, o intelectual e o não intelectual. As situações surgidas foram as mais divertidas possíveis, constituindo um ponto forte para que Aristófanes pudesse fazer piada e, ao mesmo tempo, criticar os sábios.
Em seguida, analisamos a relação de cada um dos dois com a corporalidade e percebemos que, enquanto Estrepsíades está (como um bom agricultor) agarrado à terra; Sócrates vive voltado para o céu, inclusive, entra em cena, dependurado em um cesto no