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2 LITERATURE REVIEW

2.3 Efficiency in last mile logistics

As Nuvens surgem em cena como se fossem mulheres, com vestes esvoaçantes e grandes narizes, atendendo ao chamado de Sócrates que as conclama a apresentarem-se para Estrepsíades. Depois de passar pelo ritual de iniciação (v. 255-62), o velho está pronto para conhecer as novas divindades.

Sócrates, como um sacerdote das divindades aéreas, faz a prece inicial invocando a presença das deusas (v. 264-74). Enquanto isso, o pobre Estrepsíades, apavorado, tenta se proteger da chuva, pois com a chegada das Nuvens ele pensa que vai chover.

20 BYL, Simon. La survie de la comédie d’Aristophane. Une face du miracle grec. Les Études Classiques, tome

LIX, n. 1, 1991, p. 53-66.

21 Byl cita W.J.W.Koster, Scholia in Aristophanem IA, Groningen, 1975 (n.4), p.147; 140; 145. 22 Cf. W.J.W.Koster, op. cit., p.135, ap. Byl (1991: 55).

Ao longe, surge a voz do coro de nuvens (v. 275-290). Sócrates pergunta a Estrepsíades se ouviu a “voz junto aos gemidos do trovão” (v. 292) e o velho, que é só ventre, responde às Nuvens que deseja “responder com peidos aos vossos trovões” (v. 293).

O coro de Nuvens aproxima-se, cada vez mais, se movimentando e cantando (v. 299). As divindades se deslocam para Atenas, glorificando a cidade e seus festivais religiosos (v. 300-314). Estrepsíades, já nervoso porque não consegue ver as deusas, mas só ouvir o seu canto, pede explicações a Sócrates:

Σ ά ὸ ῦ ὸ ἀ ῶ ά , ί ᾽ ᾓ ώ ᾃ ἱ ά ῦ ὸ ό ; ῶ ἡ ῷ ί έ ἰ ; Σ ά ἥ ᾽ ἀ ᾽ ὐ ά έ ά ὶ ἀ ά ἀ ῖ : ἵ ώ ὶ ά ὶ ῦ ἡ ῖ έ ὶ ί ὶ ί ὶ ῦ ὶ ά . Σ ά ῦ ᾽ ἄ ᾽ ἀ ύ ᾽ ὐ ῶ ὸ έ ᾽ ἡ ή ό , ὶ ῖ ῖ ὶ ὶ ῦ ῖ , ὶ ίῳ ώ ύ ᾽ ἑ έ ῳ ό ῳ ἀ : ὥ ᾽ ἰ ῖ ὐ ὰ ῶ ἐ ῶ. Estrepsíades

Por Zeus, Sócrates, eu lhe peço, diga-me quem são essas que proferiram esse canto venerável? Serão por acaso alguma assombração?

Sócrates

De modo algum! São as Nuvens celestes, deusas grandiosas dos homens ociosos. São elas que nos proporcionam pensamento, argumentação e entendimento, narrativas mirabolantes e circunlóquios e a arte de impressionar e de fascinar.

Estrepsíades

Ah, então é por isso que, depois de ouvir o seu canto, minha alma esvoaça, já procura falar com sutileza e divaga na fumaça esbarrando

uma sentença numa sentencinha para refutar com outro argumento...

Nessas condições, se acaso é possível, agora quero vê-las claramente (v. 314-322).

Os homens ociosos (v. 316) devem ser entendidos como aqueles que podem dispor de tempo para as especulações do espírito, ou seja, os poetas, os sofistas e os filósofos24. As Nuvens são para os ociosos o que, em Homero e Hesíodo, as Musas são para os poetas. Embora, na peça, esteja incluído entre os sofistas, o Sócrates de Aristófanes os ridiculariza dizendo que esses usam todo tipo de artifício para impressionar e enganar.

A função das deusas Nuvens acaba de ser descrita pelo seu sacerdote: proporcionar pensamento, argumentação e entendimento, narrativas mirabolantes e circunlóquios e a arte de impressionar e de fascinar (v. 317-318). É isso que Estrepsíades busca: adquirir o dom da palavra e através dele resolver seus problemas. O velho já sente o

efeito do canto das deusas em sua alma ( υ ), que está cheia de sentenças, sentencinhas, argumentos... (v. 320-321).

Estrepsíades fica muito impressionado com as Nuvens, que parecem mulheres (v. 341) e têm narizes (v. 344). Ao ser questionado pelo velho sobre a semelhança das deusas com as mulheres, Sócrates, inicia a prática de perguntas e respostas a fim de que ele tire suas próprias conclusões: Σ ά ᾽ ἀ έ έ ύ ῳ ὁ ί , ἢ ά ἢ ύ ῳ ἢ ύ ῳ; Σ ά ὴ ί᾽ ᾽. ί ῦ ; Σ ά ί ά ᾽ ὅ ύ : ᾆ ᾽ ἢ ὲ ή ἄ ό ῶ ί ύ , ό ὸ ά , ώ ὴ ί ὐ ῦ ύ ᾔ ὑ ά . Σ ά ί ὰ ἢ ἅ ῶ ί ί ί , ί ῶ ; Σ ά ἀ ί ὴ ύ ὐ ῦ ύ ἐ ί ἐ έ . Sócrates

Alguma vez, olhando para o céu, você já não viu uma nuvem semelhante a um centauro, a um leopardo, a um lobo ou a um touro?

Estrepsíades

Sim, por Zeus, já vi. E que quer dizer isso?

Sócrates

Elas se transformam em tudo o que desejam. Se vêem um fulano de longa cabeleira, um desses selvagens peludos, como o filho de Xenofanto, para ridicularizar a “mania” dele, tomam forma de centauros.

Estrepsíades

Pois se vêem lá de cima um ladrão dos bens públicos, como Simão, o que é que elas fazem?

Sócrates

Para representar a natureza dele, logo viram lobos... (v. 346-352).

As divindades transformam-se em tudo o que veem de maneira a ressaltar os defeitos vistos, fazendo desse modo o mesmo papel da comédia: a imitação com exagero. Como, por último, elas haviam avistado Clístenes25, tomaram a forma de mulheres (v. 355).

Aquele que louva as Nuvens torna-se mestre na arte da imitação, pois elas formam a imagem que quiserem. Os sofistas, que são os mestres do discurso, são capazes de manipular a palavra da forma que quiserem. Estrepsíades dá viva às deusas e pede que elas soltem a voz sobre ele (v. 356-357), ao que lhe respondem as Nuvens:

25 Efeminado, frequentemente criticado por Aristófanes – Acarnenses, 118; Lisístrata, 122; Aves, 831; Cavaleiros, 1374; Vespas, 1187 etc.

ί ῖ ᾽ ᾓ ῦ ὲ ὰ ό ύ , ύ ά ή ἱ ῦ, ά ὸ ἡ ὅ : ὐ ὰ ἂ ἄ ῳ ᾽ ὑ ύ ῶ ῦ ῶ ὴ ἢ Π ί ῳ, ῷ ὲ ί ὶ ώ ὕ , ὶ έ, ὅ ύ ᾽ ἐ ῖ ὁ ῖ ὶ ὠ ὼ ά , ἀ ό ὰ ό ᾽ ἀ έ ἀ ᾽ ἡ ῖ ῖ . Σ ά ᾓ ῦ έ , ὡ ἱ ὸ ὶ ὸ ὶ ῶ . Σ ά ᾃ ά ό ἰ ὶ ί, ἄ ὲ ά ᾽ ἐ ὶ ύ . Corifeu

Salve, velho dos antigos tempos, admirador de palavras queridas das Musas.

(Voltando-se para Sócrates)

E você, sacerdote de tolices sutilíssimas, conte-nos o que está precisando, pois não atenderíamos a nenhum outro dos atuais sofistas de coisas celestes, com exceção de Pródico. A este por causa da ciência e saber e a você porque se pavoneia pelas estradas, lança os olhos de lado, anda descalço, suporta muitos males, e, por nossa causa, finge importância...

Estrepsíades

Ó Terra, que voz! Como é sagrada, solene e formidável!

Sócrates

Pois de fato só elas é que são deusas, todo o resto são lorotas! (v. 358-365).

As Nuvens citam Pródico de Céos, um sofista, que de acordo com a obra de Platão, se dedicou aos estudos de semântica e linguagem. Em alguns diálogos platônicos, Sócrates disse ter sido ele mesmo seu aluno26, além de falar sobre a arte dominada pelo sofista: “Deves agora, em conformidade com isso, imaginar que estás ouvindo a primeira parte dos mistérios sofísticos. Em primeiro lugar, como diz Pródico, tens que aprender o correto emprego das palavras...” (PLATÃO, Eutidemo, 277e).

Pródico foi mestre na arte de fazer discurso que, segundo Reale (2009, p. 55), “fundava-se sobre a sinonímica, vale dizer, sobre a distinção dos vários sinônimos e a precisa determinação das nuanças de significado dos diferentes sinônimos”. Esta arte era ensinada aos discípulos em troca de altíssimo valor. No diálogo Crátilo, de Platão, Sócrates fala a Hermógenes sobre esse valor inalcansável para ele:

“Hermógenes, filho de Hipônico, segundo um antigo adágio, o conhecimento de coisas admiráveis é de difícil conquista. E certamente o conhecimento dos nomes não é assunto de pouca monta. Ora, se eu tivesse frequentado o ciclo de palestras de Pródico que custa cinquenta dracmas, graças ao qual, conforme ele próprio afirma, um indivíduo obtém instrução completa acerca dessa matéria, nada haveria que te barrasse o imediato aprendizado da verdade em torno da correção dos nomes. Entretanto, como ouvi apenas o curso de uma dracma, desconheço a verdade acerca dessa matéria” (384b).

A referência a Pródico dá pistas ao público sobre que vai acontecer a partir de agora. Estrepsíades será aceito por Sócrates como discípulo no “pensatório”, onde aprenderá ou tentará aprender a arte de saber usar bem as palavras. Depois de explicações sobre chuvas, raios e trovões; finalmente, Sócrates convence Estrepsíades a aceitar as Nuvens como as únicas divindades. As deusas, por sua vez, incentivam o velho:

ί ᾓ ά ἐ ή ί ἄ ᾽ ἡ ῶ , ὡ ὐ ί ἐ Ἀ ί ὶ ῖ Ἕ ή , ἰ ή ὶ ὴ ὶ ὸ ί ἐ , ὶ ὴ ά ή ᾽ ἑ ὼ ή ί , ή ῥ ῶ ἄ ί ή ᾽ ἀ ἐ ῖ , ᾽ ἀ έ ὶ ί ὶ ῶ ἄ ἀ ή , ὶ έ ῦ ί , ὅ ἰ ὸ ὸ ἄ , ά ὶ ύ ὶ ώ ί . Corifeu (A Estrepsíades)

Ó homem que deseja em nosso convívio a grande sabedoria! Como você será feliz em Atenas e na Grécia,

se tem memória, sabe pensar, tem a desgraça na alma e não se cansa, nem de pé, nem parado!

Se não se irrita excessivamente com o frio, não deseja almoçar e se abstém de vinho, de exercícios e de outras bobagens, e se pensa que o melhor, como convém a um homem correto,

é vencer, agindo, deliberando e combatendo com a língua! (v. 412-419).

As Nuvens oferecem a Estrepsíades, óbvio que em troca de muito sacrifício, como há de convir a um iniciado, a essência do ensinamento sofístico (v. 419). Depois de ouvi-lo negar todos os deuses que não fossem o Caos, as Nuvens e a Língua (v. 424) e de perceberem que ele suportaria tudo (v. 439-455) para adquirir o domínio da palavra; as deusas instigam Sócrates a aceitar o velho como seu discípulo. Mas, recomendam ao filósofo que primeiro investigue o seu caráter:

ί

ἀ ᾽ ἐ ί ὸ ύ ὅ έ ά ,

ὶ ί ὸ ῦ ὐ ῦ ὶ ώ ἀ ῶ.

Corifeu (A Sócrates)

Mãos à obra, trate de praticar o que vai ensinar ao velho em primeiro lugar. Movimente-lhe o intelecto e experimente o seu pensamento (v. 476-477).

Estrepsíades bem que tenta aprender, Sócrates bem que tenta ensiná-lo. O filósofo está a ponto de enlouquecer com tantos disparates, chegando a dizer que o velho precisa de umas pancadas, mas acaba levando-o para dentro do “pensatório”, graças a um argumento sensato deste sobre a mania que tinham os atenienses de levar tudo aos tribunais (v. 492-496).

O coro deseja boa sorte ao novo discípulo e o corifeu inicia a parábase (v. 518- 626). Na parábase, as Nuvens reclamam que são injustiçadas pelos atenienses, porque são as únicas divindades a quem eles não oferecem sacrifícios nem tampouco fazem libações (v. 576-578).

Enquanto isso, dentro do “pensatório”, Estrepsíades não está se saindo muito bem. As próximas notícias que temos sobre o seu aprendizado não são nada boas, Sócrates está ainda mais irritado com seu discípulo e o chama para fora:

Σ ά ὰ ὴ Ἀ ὴ ὰ ὸ ά ὰ ὸ Ἀέ ὐ ὕ ἄ ᾽ ἄ ὐ έ ὐ ᾽ ἄ ὐ ὲ ὸ ὐ ᾽ ἐ ή : ὅ ά ᾽ ἄ ὰ ά ῦ ᾽ ἐ έ ὶ ῖ : ὅ ὴ ὐ ὸ ῶ ύ ὶ ὸ ὸ ῶ . ῦ ά ; ὸ ἀ ά ώ ;

Sócrates (Saindo do “pensatório”)

Não, pela Respiração! Não, não, pelo Caos e pelo Ar! Nunca vi um homem tão bronco,

cheio de embaraços, desajeitado e esquecido!

Um indivíduo que, quando estuda algumas bagatelas escolhidas, já se esquece delas ainda antes de aprende-las.

Não importa, vou chamá-lo aqui para a luz do dia, para fora da porta. Onde está Estrepsíades? Trate de sair com o leito sagrado! (v. 627-633).

Sócrates tenta de todas as maneiras ensinar o dom da oratória para Estrepsíades. Primeiro, com as medidas (v. 641), depois, os ritmos (v. 649). Nada dá certo! A situação dele fica cada vez pior no “pensatório” e, por fim, Sócrates o expulsa de lá: “Vá-se embora, não poderia ensiná-lo mais!” (v. 783).

Estrepsíades fica desesperado com a própria incapacidade de aprender e pede aconselhamento às Nuvens. As deusas que parecem ainda estar de acordo com suas tramoias, respondem: “se você tem um filho já criado, mande-o aprender no seu lugar” (v. 795-796). Seguindo a orientação das divindades, o velho sai em busca do filho.

O filho, que de início não quer saber de ir estudar com Sócrates e Querefonte, pois acha que os dois homens são malucos (v. 833), acaba concordando com o pai, porém o avisa que “com o tempo você se arrependerá de tudo isso” (v. 865).

Estrepsíades leva Fidípides até Sócrates e pede que ele ensine ao rapaz os dois raciocínios: o forte e o fraco ou, pelo menos, o último: “aquele que com palavras faz virar o que é injusto no mais forte” (v. 885). O sábio lhe responde: “Ele mesmo há de aprender com

os dois raciocínios em pessoa. Eu vou-me embora” (v. 886-887), e sai de cena deixando Estrepsíades e Fidípides em companhia dos dois raciocínios.

Essa passagem traz uma complicação, há uma indicação do copista de uma parte coral perdida e não podemos precisar quantos versos desapareceram ou se esta realmente existiu. Sabemos que Sócrates sai de cena e que entram no palco, prontos a brigar por Fidípides: o velho e solene Justo e o jovem e despudorado Injusto. O agón, que acontece entre os dois discursos, lembra o célebre apólogo de Pródico de Céos, “Héracles na encruzilhada”27,

no qual duas mulheres, Areté e Kakía, são respectivamente, símbolos da virtude e do vício. Essa disputa, da qual sai vencedor o discurso Injusto, é decisiva. A partir de agora, Fidípides será educado por esse, e isso não lhe traz alegria alguma, ele parece mesmo muito desinteressado e desanimado. A resposta que o rapaz dá ao discurso Injusto é bem semelhante àquela que Estrepsíades deu a Sócrates quando este disse-lhe que, aprendendo com vontade, o velho ficaria com o aspecto do Querefonte:

Σ ά

ί ἡ ὴ ή .

Estrepsíades

Ai, infeliz de mim! Ficarei meio morto! (v. 504).

ί

ὠ ὸ ὲ ᾂ ί ὶ ί .

Fidípides

A meu ver ficarei pálido e infeliz... (v. 1112).

Pouco antes da segunda parábase, as Nuvens advertem Estrepsíades: “Penso que você há de arrepender-se disso” (v. 1113-1114). As deusas já começam a alertar o velho, que só pensa no seu próprio bem, e não no bem da pólis. O problema do aprendizado no “pensatório” não seria o que se ensina por lá, mas a quem se ensina. A corrupção do saber vem de dentro de cada um, depende da intenção que se tem ao querer aprender.

E Fidípides não está interessado em ajudar o pai, certamente o que for aprendido por ele será usado para proveito próprio, pois o rapaz fora levado para lá a contragosto e, certamente, tentará vingar-se disso. Estrepsíades, ansioso, vai buscá-lo na “escola” de Sócrates, porque o tão temido dia da cobrança está para chegar e ele precisa da ajuda do filho para livrar-se dos credores.

Σ ά

ἰὼ ἰώ έ , ἰ ὺ ἰ ύ.

ὡ ἥ ί ῶ ὴ ό ἰ ώ .

ῦ έ ᾽ ἰ ῖ ῶ ἐ ὸ ἀ ό , ὶ ῦ ὐ ώ ἀ ῶ ἐ ῖ, ὸ ί έ ύ; ὶ ῖ ἀ ῦ ᾽ ἀ ῖ ὶ ῦ ᾽ ᾽ ὅ : ἐ ὶ ῦ ώ ᾽ ἐ ὶ Ἀ ὸ έ . ῦ ᾂ ὅ ώ ᾽, ἐ ὶ ἀ ώ . ί ῖ ὲ ὴ ί; Σ ά ὴ ἕ ὶ έ . Estrepsíades

Oh, meu filho! Viva o meu filho! (Observando Fidípides) Como estou contente, primeiro por ver a cor de sua pele... Agora sim, logo à primeira vista, você é um negaceiro e contraditor! Com toda a certeza floresce em você

aquela nossa pergunta nacional; “que diz?” para parecer ofendido quando é você quem ofende e age mal, bem o sei...

E no seu rosto mora o teu “olhar da Ática”...

Contanto que agora você me salve, depois que me arruinou...

Fidípides

Mas o que é que você teme?

Estrepsíades

O dia da “lua velha e nova” (v. 1170-1178).

Estrepsíades fica muito contente quando vê o tom pálido que o filho adquiriu no “pensatório”, a alusão à cor da pele tem relação com a reclusão aos estudos. No caminho para casa, Fidípides derrama sobre o pai todo o raciocínio sofístico aprendido e convence-o de que o dia da “lua velha e nova” não existe e que, portanto, o pai não tem motivo para temer a sua chegada. Não existindo o dia do depósito, Estrepsíades nada terá a pagar.

O primeiro credor, possivelmente Pásias (v. 21) chega à sua porta e o velho, misturando o que aprendeu com o filho com algumas lições de Sócrates, acaba se livrando do homem, que sai profundamente aborrecido. Logo chega o segundo credor, provavelmente Amínias (v. 31), lamentando-se para ver se Estrepsíades tem compaixão dele. Depois de discutirem, o velho pede uma vara a seu escravo e bota o homem para correr.

A partir deste momento, as Nuvens revelarão a sua verdadeira posição de agentes da justiça divina. A ideia dos deuses castigadores já era aceita desde Homero assim como jurar por eles fazia parte da garantia de pagamento de qualquer dívida. Por isso, o primeiro credor reclamara a Estrepsíades que este teria jurado pelos deuses (v. 1227) que pagaria e agora queria fugir do compromisso firmado com Zeus, Hermes e Posidão (v. 1234).

O comportamento inicial das Nuvens não deixava transparecer que elas puniriam Estrepsíades por suas intenções desonestas. Embora as deusas se comportassem durante a parábase como os outros coros cômicos e invocassem os deuses tradicionais para participar do

festival, elas continuavam guardando segredo sobre o que pretendiam fazer com o velho, fazendo a ele apenas uma pequena ameaça (v. 1113-1114).

Agora, as Nuvens tomam posição ao lado da moralidade tradicional. Esperando que alguma desgraça aconteça a Estrepsíades para que ele acorde da loucura, na qual esteve empenhado durante todo esse tempo.

ό ὸ ά ἐ ύ : ὁ ὰ έ ὅ ᾽ ἐ ὶ ἀ ύ ὰ ή ᾽ ἁ ί : ὐ ᾽ ὅ ὐ ή ή ί ᾽, ῦ ή ὸ ὴ , ἀ ᾽<ἁ ά > ᾔ ῖ ᾽, ἐ ί ὸ ῖ . ό (ἀ ὰ ὐ ὸ ὐ ί ᾽ ὑ ή ὅ ά ᾽ ἐ ή ὸ ἱὸ ό ἱ ώ ἐ ί έ ῖ ί , ὥ ἅ ἂ έ , ἂ έ ό ᾽. ᾽ ή ἄ ὐ ὸ . Coro (estrofe I)

Quanto vale amar as más ações!

Este velho apaixonado quer negar-se a pagar o dinheiro que tomou emprestado... É impossível que ainda hoje não aconteça algo, que talvez faça este sofista, de repente, sofrer uma desgraça, em troca de suas velhacagens!

Coro (estrofe II)

Creio eu, logo ele há de encontrar o que há tempos procurava: um filho hábil em sustentar argumentos contrários à justiça,

vencendo a todos com quem negociar, ainda que diga coisas abomináveis... Mas talvez, talvez, há de preferir até que o filho seja mudo! (v. 1303-1320).

Este choricon; canto coral lírico (ode e antode) avisa que o final da peça está próximo e indica a direção que esta tomará. O’Reagan (1992, p. 114) afirma que a justiça cômica entrará em ação e colocará em prática a “comédia de inversão”, na qual os personagens serão reféns de seus próprios desejos e de seus próprios esquemas. Não somente Estrepsíades, mas também Fidípides e Sócrates vão encontrar-se no mundo projetado por seus desejos e seus logoi.

Segundo Dover (1972, p. 113), a ambiguidade no papel das Nuvens desaparece, elas são realmente seres divinos, regidas por Zeus e pelos deuses do Olimpo. Elas responderam ao chamado de Sócrates e incentivaram Estrepsíades ao aprendizado com a intenção de puni-lo no momento adequado, porque desde o princípio, ele tinha intenções desonestas.

Como profetizaram as Nuvens, Estrepsíades aparece pedindo socorro aos vizinhos para livrar-se das surras que o filho resolveu aplicar-lhe. Fidípides usa o discurso sofístico contra o próprio pai e aproveitando o poder conquistado com este, espanca o pobre velho e ainda tenta convencê-lo de que essas pancadas são necessárias e que ele faz isso por amor.

Tudo o que Estrepsíades planejou fazer com seus credores, fazendo uso da arte retórica, o está afligindo agora. Por causa do seu amor às causas injustas, o velho sofre tantas injustiças. Aquilo que ele tanto amava voltou-se contra si mesmo. Estrepsíades, desesperado, pede ajuda às divindades: Σ ά ὶ ᾽ ὑ ᾓ έ έ ᾽ ἐ ώ, ὑ ῖ ἀ ὶ ἅ ἀ ὰ ά . ί ὐ ὸ ὲ ᾂ ῷ ὺ ύ , έ ὸ ἐ ὰ ά . Σ ά ί ῦ ᾽ ὔ ό ᾽ ἠ ύ , ἀ ᾽ ἄ ᾽ ἄ ὶ έ ᾽ ἐ ; ί ἡ ῖ ῦ ῦ ᾽ ἑ ά ᾽ ὅ ὰ ῶ ῶ ᾽ ἐ ὴ ά , ἕ ἂ ὐ ὸ ἐ ά ἐ ό , ὅ ἂ ἰ ὺ ὺ έ .

Estrepsíades (Ao coro)

Nuvens, eis o que estou sofrendo por vossa causa, porque vos confiei todos os meus problemas!

Coro

Você mesmo foi o causador desses males, quando se virou para a perversidade...

Estrepsíades

Por que então naquele tempo vós não me dissestes isso, e virastes a cabeça de um homem velho e ignorante?

Coro

É assim que sempre fazemos,

quando reconhecemos que alguém é amante das más ações,

até que o atiramos na desgraça para que aprenda a temer os deuses (v. 1452-1461).

A referência ao seu nome e à máxima “ ῶ αυ ”, pela utilização de α αυ ὸ ” (v. 1455), faz com que lembremos que esse desfecho é cômico, não realístico. O coro sugere a Estrepsíades que ele “revire a si mesmo”, portanto tome atitudes contrárias ao que vinha fazendo até agora. As deusas Nuvens que, de início, mostraram-se favoráveis aos ensinos sofísticos e ao aprendizado do velho, apresentam-se ao final como portadoras da justiça, condenando a má intenção de Estrepsíades em aprender o dom da palavra.

Estrepsíades enfim reconhece que o seu grande erro foi negar-se a pagar o dinheiro que tomou emprestado (v. 1463) e resolve destruir os responsáveis por sua ruína: Querefonte e Sócrates. Fingindo ouvir os conselhos dados por uma estátua de Hermes (v. 1476 ss), o velho, em companhia de seus escravos, decide botar fogo no “pensatório”.

As Nuvens que de início pareciam aceitar tudo o que Estrepsíades e Sócrates faziam, acabaram fazendo com que os dois se perdessem nas próprias falhas. O primeiro sofre do filho o castigo que queria aplicar aos seus credores – ludibriar pela palavra – e o segundo sofre as consequências de não se preocupar a quem transmitir conhecimento, ou melhor, de não se preocupar se aquele a quem se leciona deve ou pode ser ensinado.