A identidade pessoal é adquirida durante o processo de socialização primária. Segundo Berger & Luckmann (1995), a identidade, uma vez cristalizada, é mantida ou remodelada pelas relações sociais, definindo um eu pessoal, para o qual convergem todas as suas ações, o seu pensar e o seu sentir. Segundo Martín-Baró (2001), a identidade pessoal possui quatro características fundamentais: 1) refere-se ao mundo; 2) afirma-se na relação pessoal; 3) é relativamente estável e 4) é produto tanto da sociedade quanto da ação do próprio indivíduo.
1) O eu pessoal sempre se encontra num contexto objetivo e se refere ao mundo como uma realidade que tem sentido, é conhecida e é valorada. A identidade é o enraizamento da pessoa em um mundo de significações, a qual pertence a uma rede de relações sociais. Ciampa (1984) menciona que a primeira noção de identidade está relacionada à idéia de que ela se constitui por diferença e igualdade. O primeiro grupo a que pertencemos é o núcleo familiar, que nos dá o nosso nome (sobrenome) e a noção de identidade por igualdade, nos diferencia dos outros membros da família consangüínea e nos fornece o primeiro nome (prenome) e a noção de identidade por diferença.
A pessoa pertence a um grupo ou vários grupos e cada um deles possui um sentido muito especial: é parte de uma família, de um grupo escolar e de trabalho, pertence a uma raça, a uma comunidade étnica, a uma classe social, etc. É nessa realidade que o eu adquire consistência para o indivíduo, assumindo diferentes identidades (com relação aos papéis sociais) formadas no processo social, como apontam Berger & Luckmann (1995). Assumir uma identidade é assumir o mundo do qual faz parte ou fez parte. Os diferentes tipos de identidades são produtos sociais e ao mesmo tempo o conjunto de identidades constitui a sociedade (Ciampa, 1995).
Por outro lado, esses autores dizem que “as identidades produzidas pela interação
do indivíduo com a sociedade, reagem sobre a estrutura social dada mantendo-a, modificando-a ou mesmo remodelando-a” (p. 229). Ciampa (1977) acrescenta que para ser
entendida, a identidade deve ser localizada num lugar do mundo social. Portanto, a identidade é objetivamente definida como localização em um lugar do mundo e só pode ser subjetivamente apropriada juntamente com esse mundo. Ao mesmo tempo, o interacionismo simbólico afirma que a identidade se constitui ou reconstitui segundo a realidade onde o indivíduo se inter-relaciona. A identidade é puramente circunstancial. 2) A identidade da pessoa é de natureza social: possui um mundo de significações (mundo objetivado), constituído pelas pessoas mais significativas, ou seja, os “outros significativos”. A identidade da pessoa se forma a partir da identidade dos outros. Cada pessoa tem um “eu” que se afirma diante de outros “eu” que são diferentes do meu “eu”.
A identidade do indivíduo se forma nas identificações que os outros fazem dele. Isto se dá pela identificação dos outros através das atitudes do indivíduo como participante da interação, argumenta Habermas (2002).
3) O “eu” ou a identidade pessoal é relativamente estável. A identidade pessoal sempre se refere ao mundo, à evolução do “eu” que acompanha as mudanças do próprio mundo, sejam conscientes ou não. Por exemplo, quando o indivíduo rompe com seu cotidiano ao se mudar de cidade ou ao se mudar para um mundo institucional diferente como a escola, ocorrem as mudanças das relações pessoais e o eu transforma-se junto.
Porém, Ciampa (1984) aclara que a identidade não é estável, ela está em constante movimento, em transformação. A identidade não deve ser vista como um “dado” a ser pesquisado, como um produto preexistente a ser conhecido. A questão principal é como se produz esse produto, como se dá esse dado. Segundo, torna-se importante partir da representação como um produto, para analisar o próprio processo de produção, de forma que a identidade passe a ser entendida como um permanente processo de identificação, como um dar-se constante que expressa o movimento social. Este processo é determinado pelas condições históricas e surge em um momento originário. A transformação implica o projeto de futuro do indivíduo ou o que ele pretende ser.
A identidade é considerada por Ciampa (1977) um processo que está em constante identificação, em constante metamorfose, em constante transformação. Esse processo de metamorfose significa a relação do sujeito com sua história de vida e, ao mesmo tempo, com o contínuo processo de mudança. A metamorfose da vida de um indivíduo se concretiza, em cada momento, de uma forma específica, dadas as condições históricas e sociais determinadas. Ao estudar as ações concretas da história de vida dos sujeitos, pode- se observar a dinâmica da objetividade e da subjetividade numa constante interação. Lane (1994) comenta que Ciampa aponta a contradição da identidade como metamorfose e cristalização, como vida e morte, como criação e destruição.
4) A identidade pessoal é produto da sociedade e produto da própria ação do indivíduo. Ela se forma na interação das forças sociais que influem no indivíduo e diante das quais ele age e forma a si mesmo. Ao agir, ele cria uma realidade que conhece como tal e, ao mesmo tempo, essa ação é determinada pelas forças sociais específicas daquele momento.
Qualquer teorização de identidade deve estar inserida numa interpretação mais ampla da realidade e, ao mesmo tempo, deve considerar que este processo está em constante movimento. O homem é produto e produtor do social, num mundo onde natureza e sociedade encontram-se dialeticamente e se manifestam em cada indivíduo (Berger & Luckmann, 1995).
A identidade será entendida como um processo dialético, o que nos permitirá um conhecimento mais concreto da personalidade, abrangendo a compreensão da totalidade do indivíduo, enquanto ser ontológico. Uma totalidade contraditória, múltipla e mutável, cuja unidade é de contrários, de multiplicidade e de mudança: “sou eu que sou assim” (p. 61).
A identidade é definida como uma categoria científica e concebida, segundo Ciampa (1995), como um processo de transformação, de metamorfose dentro de uma abordagem dialética da psicologia social que entende o indivíduo em suas múltiplas inter-relações sociais.
A metamorfose é entendida no sentido dialético da negação da negação, da unidade dos contrários, que surge como possibilidade de superação da dialética da evolução do ser humano, já que o homem não é um ser acabado, mas em constante processo de mudança, inserido em uma realidade que é sempre contraditória.
Lane (1984) ressalta que a psicologia social precisa recuperar o indivíduo na interseção de sua história com a história da sociedade, o que permitiria compreender o homem como produtor da história. Na medida em que a história se produz dialeticamente, cada sociedade, na organização da sua produção dentro da vida material, gera uma contradição fundamental que, ao ser superada, produz uma nova sociedade, que é qualitativamente diferente da anterior. “... para que esta contradição não negue a todo
momento a sociedade que se produz, é necessária a ideologia, ou seja, os valores são explicações verdadeiras que reproduzam as relações sociais necessárias para a manutenção das relações de produção” (Lane, 1984: 13).
Segundo Ciampa (1995), para entender a lógica da dialética dos contrários que caracteriza o processo de identidade, deve-se analisar as categorias que fazem parte desse processo: identidade, atividade e consciência estão relacionadas reciprocamente, tornando- se fundamentais para a psicologia social estudar o homem. As “três coisas justapostas, mas
presença de todos em cada uma delas, numa unidade que é o sujeito” (p. 13).
A categoria Identidade entende o movimento de transformação do indivíduo no seu processo de tornar-se homem, em outras palavras, a sua hominização, entendida por Ciampa (1995) como metamorfose. O contrário, ou seja, o ser estático, a não-metamorfose, é a cristalização da identidade, dada como condição quase que inexorável da sociedade capitalista.
A categoria Atividade corresponde ao agir, ao fazer do homem, através do qual ele representa personagens, que estão em constante movimento. Nestas ações, a vida mostra-se numa luta constante pela sobrevivência, negando em todo momento a morte tanto física quanto psicológica.
Por último, a categoria Consciência é considerada por Ciampa (1995) a capacidade que todo ser humano tem para raciocinar e refletir. Lane (1995), ainda, comenta que a reflexão se processa na consciência do indivíduo, sendo indissociável dele, e da sociedade em que se insere. A consciência é desenvolvida pela atividade realizada e essa atividade gera o repensar das ações, produzindo, portanto, consciência de si mesmo e dos outros envolvidos.
Para Ciampa (1984), a identidade se forma na relação recíproca com os outros, no grupo em que está inserido. São vários os grupos com os quais se compartilha as experiências na sociedade. Assim, o sujeito se determina pelo reconhecimento dos outros; estes sujeitos ao mesmo tempo adquirem a sua identidade pela resposta dos outros. Entretanto, as relações recíprocas são mantidas pelas atividades dos indivíduos, pelo seu fazer, produzir e criar. É importante saber, sobretudo, como se dá a elaboração do processo de produção da identidade. Considera-se que ela se desenvolve por meio do processo de identificação, que está sempre se reconstruindo. Freitas (1997) aponta que este processo de reconstrução se dá a partir de um momento anterior, de quase dissolução da identidade. Dessa forma, a identidade deixa de ser concebida como um objeto último a ser atingido e passa a ser entendida de forma mais dinâmica, pois através da dialética eu - outros, a identidade é mantida, modificada ou mesmo remodelada.
Nesse processo de identificação, o indivíduo se apresenta diante do outro representando um papel social, através de um personagem, que se desenvolve pela ação no sentido da criação, tornando-se o sujeito um ator. A identidade é entendida pelo movimento das várias personagens. Os papéis sociais são impostos mesmo antes do sujeito nascer e, durante a vida, ele só tem que representar através de uma personagem. Por exemplo, um bebê, quando nasce, é reconhecido pela família como integrante dela e, por isso, tem que assumir essa personagem, re-pondo o que foi pressuposto pela sociedade como filho de Rosa e João. A sociedade normatiza e controla as atividades de seus membros, com a finalidade de manter a estrutura social. A identidade como reposição de uma pressuposição
aparece como algo dado e não como algo que vai se dando, de uma forma estática e atemporal (no sentido da não-transformação), dando lugar à mesmice.
Fernando, filho de Rosa e João, quando se tornar adulto, casar-se-á e deixará de representar o papel de filho para assumir um outro papel social, marido de Ana e, como possibilidade de futuro, pai de um filho. Não se está dizendo que não é mais filho de Rosa e João, só que não precisa mais re-apresentar o papel de filho em seu novo lar e só poderá fazê-lo na presença dos pais. Dessa maneira, a produção da identidade não termina na representação de uma personagem, entendida como atividade do ator, que se singulariza como única pessoa. Ela, portanto, está sempre se dando. As personagens ocorrem de forma alternada (diacronicamente) ou ao mesmo tempo (sincronicamente). Agora, se esse Fernando não apresenta mudanças nas suas representações, poderá ficar preso ao fetichismo da personagem, isto é, o sujeito fica na mesmice, repondo a mesma personagem de filho. Independentemente de ter se casado ou não, ele não consegue representar um outro papel.
A identidade configurada perante o outro, como representante de si mesmo, é a pressuposição da identidade como totalidade. A identidade se desenvolve ao objetivar a ação, na representação de personagens, que ocorre quando:
A) O indivíduo representa enquanto está sendo representante de si; B) O indivíduo representa enquanto desempenha papéis;
C) O indivíduo representa enquanto repõe no presente o passado, reiterando a “re- apresentação” do que está sendo de forma atemporal (considerado por Ciampa como mito). A identidade pressuposta que está sendo reposta encobre o processo temporal da identidade como de-vir, ou seja, da possibilidade de mudanças no futuro.
A representação do papel pelo indivíduo se caracteriza por ser um desigual de si, encobrindo o outro “outro” que também está sendo como desdobramento das determinações que vão se dando pela negação, deixando de “re-apresentá-lo”. Esse outro “outro” também é ele mesmo, que corresponde aos desejos não concretizados, sem a possibilidade de objetivar a parte subjetiva. No dizer de Ciampa (1995): “A unidade do
indivíduo é subjetividade e objetividade. Sem essa unidade, a subjetividade é desejo que não se concretiza, e a objetividade é finalidade sem realização” (p. 145).
Para este autor (1995), “a realidade é movimento, é transformação”, que está inserida em um tempo social como processo histórico. Para poder estudar a identidade do indivíduo, é preciso captar um momento desse processo temporal, através da sua biografia como recurso para focalizar o que está sendo visível nessa afirmação da identidade como metamorfose.
Entretanto, quando a sociedade capitalista não dá possibilidades de representar personagens tanto velhos como novos, então pode ocorrer para o ator a morte simbólica ou biológica. A loucura, segundo Ciampa (1995), é uma morte simbólica, na qual o indivíduo cria seu próprio universo – louco, não o compartilhando com ninguém. Antes de chegar à morte biológica, o sujeito tem a oportunidade de representar outros personagens da sua identidade, como o doente, o moribundo, etc.
A identidade do indivíduo se manifesta como desdobramento das múltiplas determinações das suas personagens, tentando alcançar a unidade da totalidade, através da autodeterminação, como um ser singular dentro de uma universalidade. A identidade como concretude está sempre se desenvolvendo direcionada pela temporalidade: passado, presente, futuro. A autodeterminação se realiza no agir de uma atividade finalizada, relacionando desejo e finalidade através da ação de transformação do mundo e de si mesmo. Ciampa (1984) considera que o homem se determina pela contínua negação de ser animal e apresenta esse processo da seguinte forma: “A progressiva e contínua
hominização do Homem, a partir do momento em que este, diferenciando-se do animal, produz suas condições de existência, produzindo-se a si mesmo conseqüentemente. A autoprodução humana, o que faz do Homem um ser de possibilidades, que compõem sua essência histórica” (p. 68).