Antes de terminar, gostaria de aludir a três aspectos da entrevista de Antônio. O primeiro é em relação a seu medo de se expor em público, de expressar sua música - sua alma. Poder-se-ia nomear tal fato como um típico sintoma borderline, como nos diz Kernberg (1999). Ainda que se verifique que tal sintoma é presente em pacientes ditos borderlines, tal definição nos parece insuficiente, até porque Kernberg (1999), em seu soberbo trabalho sobre o que denomina de “estruturas borderlines”, não nos dá satisfatórias indicações sobre a origem desse distúrbio, como também não o dá sobre a etiologia do específico medo de se expressar em público. Em minha concepção, os distúrbios ditos borderlines se dão prioritariamente antes de um ano de vida, ocorrem antes que o indivíduo possa atingir aquilo a que Winnicott (1986/1990) denominou de estágio do “Eu Sou” (p.63), ou seja, como anteriormente referido por mim (Cotta, 2003), “antes que o indivíduo possa ser uma pessoa inteira, com uma realidade interna e uma realidade externa, bem como podendo relacionar-se com os demais, como pessoas separadas e externas ao eu” (p. 2). Essa possibilidade de atingir o estágio do “Eu Sou”, proporcionaria ao indivíduo a assunção de seu eu. Evidentemente que não se está aqui a dizer que quem é capaz de expressar-se e apresentar-se em público é porque não é borderline, ou que o borderline não é capaz de tal façanha. O que procuro dizer é que a não assunção do eu, um distúrbio típico, mas não exclusivo do borderline, faz com que o indivíduo que carrega consigo essa problemática tenha muita dificuldade, medo e até mesmo pânico de se expressar em público. Frente aos outros há sempre o temor de que o desencontro originário volte a ser vivido, o que implicaria a ver-se sem a legitimidade de ser o que se é. Expressar-se em público é uma forma de dizer de si, de dizer „aqui estou‟, „vejam, ouçam como sou‟. Se o indivíduo sofre exatamente por não saber de si, por sentir que não existe, como, então, dizê-lo, assumi-lo e, ainda por cima, em público? É como se lhes fosse impossível dizer de verdade uma estrofe de uma canção de Paulinho da Viola (de que esqueço o título), que diz: “Eu sou assim, eu sou assim, quem quiser gostar de mim, eu sou assim, eu sou assim”.
O segundo é o referente ao sorriso e à felicidade com que Antônio ouviu a frase “nos escolher”. Parece-me que seu regozijo ocorreu em função de que
as palavras do terapeuta lhe confirmaram a promessa de uma prazerosa experiência de mutualidade vivida na entrevista: um possível mito-poético teleológico visando o futuro, que reposicionasse o mito poético da origem. Nós, palavra-esperança encarnada! As idéias Winnicottianas de dois-em-um, de mãe suficientemente boa, de mãe devotada implicam numa aceitação da existência do bebê, o que lhe possibilita a primeira experiência de mutualidade, tão necessária para o nascimento do indivíduo e para a continuidade de sua existência. Acredito que, independente da quantidade de vezes em que a díade terapeuta/analisando se encontre, uma boa relação terapêutica é aquela em que opera um encontro verdadeiro entre duas pessoas, e que a qualidade de presença devotada do terapeuta cria uma necessária e curativa experiência de mutualidade no paciente.
O terceiro e último é com respeito ao entendimento tido por mim de que aquela entrevista foi, na verdade, uma “consulta terapêutica”. Este é o termo que Winnicott (1977) utilizou para nomear sessões esporádicas de atendimento. Embora não fazendo parte do que, tecnicamente, se chamaria de sessão de psicanálise ou de psicoterapia, o fato da consulta terapêutica não ser realizada semanalmente e podendo mesmo ocorrer num grande intervalo de tempo, a esporadicidade desse tipo de sessão não retiraria a força, a profundidade e os efeitos de um tratamento semanal tradicional.49 Daí a razão de, ao despedir-se de Antônio, eu ter ficado com a sensação de “missão cumprida” e de ter pensado para mim mesmo: „Esse não volta; pelo menos,
não tão cedo. Pegou o que precisava‟. Essas são sessões que acontecem no paradigma da vida mesma, ou seja, tem um começo e um fim. O trabalho se realiza constituindo o que Winnicott (1941) denominava de experiência
completa, ou de lição de objeto.
Como vimos acima, o sofrimento de Antônio dizia respeito a viver-se como alguém que não nasceu, a sentir-se sem lugar no mundo, a experiências de não ser encarnado e a seu temor de não conseguir sustentar sua encarnação, quando a conseguia. Ressalto que esse tipo de questão trazida
49 Um exemplo dos positivos efeitos desse tipo de tratamento foi dado pelo próprio Winnicott,
ao relatar o atendimento de sua pequenina paciente de nome Piggle, ocasião em que cunhou esse termo. Cf. Winnicott, 1977.
por Antônio é o que campeia em meus consultórios e na clientela de meus alunos e supervisionandos, bem como na de muitos colegas com quem tenho a oportunidade de refletir sobre a clínica contemporânea.
Se por um lado se evidencia que esse tipo de sofrimento em nada diz respeito a questões pulsionais, instintuais ou caracterológicas à la Reich (1933/1975) e Lowen (1955/1971), por outro, é uma clara demonstração de que a etiologia desse tipo de distúrbio refere-se à questão mesma de Ser, ser alguém, ser si mesmo. Melhor dizendo, esse distúrbio refere-se a experiências de não-ser.
Tomando como exemplo uma entrevista que considero paradigmática, procurei aqui refletir foi sobre a corporeidade e os fenômenos clínicos atuais, fenômenos esses que, na maioria das vezes, dizem de sofrimentos relativos à impossibilidade de ser, ser alguém, porque esse alguém não nasceu, como, parece-me, ficou aqui claramente demonstrado.
Busquei mostrar, também, que a não-nascencialidade do indivíduo é fruto de um ambiente que não a favorece.
3.2 ISAÍAS, UM SER DE BORDA: OU QUANDO O AMBIENTE TRAVESTE O