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A dimensão do mal-estar na prática do trabalho docente justifica-se porque este trabalho é atividade solitária e ela está direcionada ao grupo de pessoas ligadas a esse fazer: (a) direção; (b) colegas de profissão; (c) família; e (d) alunos.

Assim, a psicodinâmica do trabalho contribui para essa discussão e de acordo com Dejours (1992) quando reconhecido, o trabalho oferece oportunidade de transformação de si mesmo, uma vez que trabalhar nunca é apenas produzir, é também viver junto, é que pelo trabalho o indivíduo tem a oportunidade de exercitar o respeito pelo outro, a confiança, a convivência, a solidariedade; e aprender a trazer uma contribuição para a construção de regras de trabalho, que não se limita apenas às regras técnicas e sim às regras sociais.

Cordié (1998) traz um acréscimo para esta discussão, quando chama a atenção para o modo como a história da escolarização do próprio professor é resgatada no seu trabalho docente e, ainda afirma que uma das implicações inconscientes importantes é a fobia escolar de alguns professores, e para ela, é aí que está a fonte do mal-estar docente, tanto assim, que um dos elementos desestabilizantes do professor é a exposição frente aos seus alunos. Aguiar e Almeida (2008) em uma pesquisa realizada com professores na cidade de Brasília mencionam ainda que as situações aversivas do dia a dia de trabalho levam o professor ao

adoecimento, pois as demandas da sociedade, do sistema educativo, dos pais e deles mesmos pesam no cotidiano do docente.

Sendo assim, o mal-estar docente traduz uma realidade social que Mosquera e Stobäus (2007) apontam como fatores causadores de primeira ordem tais como: recursos materiais e condições de trabalho; violência nas instituições escolares e esgotamento docente e acúmulo de exigências sobre o professor. O reflexo deste mal-estar se manifesta na insatisfação profissional, no absentismo, no baixo engajamento profissional, na ambivalência entre o desejo de fazer um bom trabalho na escola e o desejo em abandonar a profissão docente; podendo, em situação de maior gravidade, traduzir- se em estados de exaustão e até de depressão (JESUS, 1998).

O mesmo autor cita que a gravidade da situação relatada, baseia-se no fato de o mal- estar presente na profissão docente ser mais opressivo do que em outras profissões, conforme revelam os resultados de diversas investigações. Esta afirmação se apóia também em um relatório produzido pela Organização Internacional do Trabalho (OIT, 1981), intitulado “Emprego e condições de trabalho dos professores”.

Nesse contexto, o trabalho docente é considerado como uma “profissão de risco físico e mental”. O autor aponta que a profissão do docente apresenta risco físico e mental, tais como: as implicações decorrentes da massificação do ensino; excessiva exigência política colocada sobre o trabalho do professor; alterações ocorridas na estrutura e dinâmica das famílias; o acelerado desenvolvimento tecnológico; a inibição educativa de outros agentes de socialização; a ruptura do consenso social sobre a educação, o aumento das contradições no exercício da docência; a relação com os colegas, etc.

Nóvoa (1999) caracteriza a estabilidade desse mal-estar entre os professores como “um mal-estar que se prolonga”, ele sinaliza duas tendências na forma de encarar a crise de identidade dos professores:

A primeira, externa à profissão docente, tem procurado multiplicar as instâncias de controle dos professores, por via de uma racionalização do ensino ou de práticas administrativas de avaliação, sublinhando as dimensões técnicas do trabalho docente. A segunda, interna à profissão docente, tem procurado reencontrar novos sentidos profissionais, reconstruindo identidades a partir de dinâmicas de desenvolvimento profissional, sublinhando as dimensões reflexivas do trabalho docente (NÓVOA, 1999, p. 24).

O mesmo autor menciona que os valores que sustentavam a profissão docente no passado, tais como: os hábitos, costumes e a educação familiar caíram em desuso em função da evolução social e da mudança nos sistemas educativos. Na sociedade moderna, as crianças

não são ensinadas, em casa, sobre o valor de um mestre, sobre sua autoridade nem mesmo a respeito da função do professor; esses valores não mais são passados de geração para geração. As crianças e adolescentes não herdam aqueles valores do passado, porque os pais não possuem mais a autoridade do passado. Desse modo, o mal-estar é toda sociedade que está se reconfigurando e este atinge e a escola.

E ainda para Nóvoa (1999) os valores que sustentam a educação necessitam ser reexaminados, já que o velho modelo não serve mais à ação pedagógica exigidas na atualidade, tendo em vista que a mudança social acelerada e a crise na educação familiar constituem um problema que se reflete no cotidiano escolar. E acrescenta que os professores se veem em um enorme conflito entre as ideias do passado e os desafios do presente, portanto, necessitam refazer sua identidade profissional. Para o autor, é necessário aderir a novos valores, pois o que poderá contribuir para o fazer pedagógico é, justamente, uma reflexão crítica sobre a função de professor.

Aguiar e Almeida (2008) chamam atenção para este novo desafio, que impõe aos professores uma redefinição do seu papel, se no passado bastava ensinar e o lugar de professor era a garantia de uma autoridade reconhecida e respeitada, diante da nova ordem social, o lugar e a autoridade dos professores fragilizados socialmente o colocam face ao desafio de assumirem um lugar que deverá ser construído no cotidiano da sua prática docente, esta situação os deixa confusos em relação às atitudes que todos os dias são demandados a tomar.

O sofrimento desses professores está em certa medida relacionado a este “ajuste” no conjunto de suas funções, pois o docente não foi formado no passado para os desafios do presente e nem recebe no presente o suporte institucional que precisa para sustentar seu lugar de educador. Assim, este sujeito alocado entre a crise no sistema educacional e a crise na educação familiar, muitas vezes, sente-se vulnerável e em conflito de identidade. É justamente no contexto que se instala um enorme mal-estar. Sobre essa vulnerabilidade Aguiar e Almeida (2008, p. 37) acrescentam: “Dentro de sua sala de aula convive com problemas de desrespeito, agressividade até mesmo a violência, que advêm de uma educação familiar deficitária, no tempo necessário a um devir humano, que a criança se constitui enquanto sujeito da cultura”.

Nessa perspectiva, Esteve (1987, 1995) assinala que o mal-estar docente pode ser conceituado como os efeitos permanentes de caráter negativo que afetam a personalidade do professor, resultados das condições psicológicas e sociais que exercem concorrem para ela.

Na realidade, a conjunção de vários fatores sociais e psicológicos mal diagnosticados está produzindo um ciclo degenerativo da eficácia docente.

Um estudo sobre o mal-estar na docência desenvolvido por Mosquera e Stobäus (2007) apresentou alguns elementos que contribuem para melhor compreender esta questão. Os resultados encontrados no estudo das falas dos docentes apontaram uma sobrecarga de trabalho, a dificuldade para conseguir equipamento para a aula, a relação com as políticas institucionais, a falta de tempo e de possibilidades de aperfeiçoamento, a falta de correspondência do aluno às expectativas do professor, as exigências institucionais como preparação de aulas, a falta de preparo dos alunos quanto ao desenvolvimento de atividades, e na avaliação sentem despreparados para realizá-las de forma mais justa.

Outros estudos sobre o adoecimento do professor enriquecem esta discussão apontados por Carlotto e Palazzo (2006); Codo e Vasques-Menezes (2006); Gasparini, Barreto e Assunção (2005); Carlotto e Câmara (2007) e Araújo, Sena, Viana (2005) que encontraram um professor distante de uma satisfação no trabalho, “esgotado" pelo acúmulo de responsabilidades e por expectativas desproporcionais ao tempo e aos meios de que dispõe. A dificuldade em realizar bem seu trabalho, acarreta em um desinvestimento progressivo na docência e um enfraquecimento dos vínculos entre os pares.

Nos estudos acima citados, verificou-se também que os transtornos psíquicos ocuparam o primeiro lugar entre os diagnósticos que provocaram os afastamentos; a exaustão emocional e baixa realização profissional, e ainda, as deficiências nas condições de infra- estrutura do ambiente laboral: ausência de espaço para descanso/repouso, salas de aulas inadequadas e cargas de trabalho que afetam a saúde e o desempenho do trabalho docente tais como: ventilação inadequada, exposição ao pó de giz e poeiras, carregar material didático, permanecer em pé e manter posição inadequada do corpo, e o mesmo estudo revelou que os docentes referiram elevadas prevalências de queixas de doença associadas com as cargas de trabalho, apontando a necessidade de redefinição de aspectos referentes às condições de infra- estrutura, do processo e organização do trabalho na instituição.

No Distrito Federal alguns estudos recentes (CODO, 2006; MENDES, 2007); AGUIAR; ALMEIDA, 2008; BARROSO, 2008) destacam que a capital do país, não está ao abrigo em relação ao mal-estar docente, tanto assim, que essas pesquisas identificaram o adoecimento dos professores e/ou diagnóstico de depressão durante o exercício da profissão. Sofrimentos esses expressados por meio de faltas freqüentes, apresentação excessiva de atestados médicos, além de queixas a respeito do sofrimento que o exercício da docência lhes trazia. Essas situações angustiantes se traduziam em desânimo, apatia, sonolência e

desinteresse e que isso lhes traziam desdobramentos constrangedores tanto na vida profissional quanto pessoal dos sujeitos. Os pesquisadores constataram também uma grande incidência dos sentimentos de medo, insegurança, culpa, tristeza, sensação de morte, taquicardia, falta de ar, desgaste, bem como, recorrência de choro, depressão e associada a esta, o pânico.

Para tanto, neste estudo, utilizou-se a conceituação de trabalho docente na perspectiva da Psicodinâmica do Trabalho, por apresentar características de compreender como os trabalhadores alcançam e mantém certo equilíbrio psíquico, mesmo estando submetidos a condições de trabalho desestruturantes (DEJOURS, 1992). Outra característica importante é que a Psicodinâmica do Trabalho visa à coletividade de trabalho e não aos indivíduos isoladamente.

Diante do exposto, o capítulo a seguir, desenvolverá o tema Trabalho docente na perspectiva da Psicodinâmica do Trabalho, abordando a experiência do trabalho docente e o papel do professor na atualidade e as contribuições da teoria da Psicodinâmica do Trabalho.

CAPÍTULO III - O TRABALHO DO PROFESSOR NA PERSPECTIVA DA