O tema mal-estar, cultura e subjetividade, utilizado neste estudo, advêm da teoria freudiana e também da definição da expressão “mal-estar na civilização”, porque tal teoria nos remete à constituição do processo civilizatório, que exige do sujeito a renúncia a satisfações individuais em favor do bem-estar comum, trazendo desconforto e sofrimento.
Aguiar e Almeida (2006) citam Freud (1930) que o “mal-estar na civilização” pode ser usado para discutir a dor própria da condição do existir humano e para compreensão do sofrimento de existir “na pele” do professor.
Desse modo, a discussão sobre o mal-estar não é moderna, tanto assim, que Freud (1930/1974) busca encontrar as origens do sentimento de mal-estar que a civilização sentia no que concerne à incapacidade do ser humano em ser efetivamente feliz, apesar de todos os confortos, facilidades e estabilidades que a tecnologia e a cultura oferecem. Ele falava sobre as “(...) três fontes de que nosso sofrimento provém: o poder superior da natureza, a fragilidade de nossos próprios corpos e inadequação das regras que procuram ajustar os relacionamentos mútuos dos seres humanos na família, no Estado e na Sociedade” (FREUD, 1930/ 1974, p. 26).
Freud (1930/1974) acrescenta ainda que, existe um fator de desapontamento e que nas últimas gerações, a humanidade efetuou um progresso extraordinário nas ciências naturais e em sua aplicação técnica estabelecendo o controle sobre a natureza jamais imaginada. Desse modo, mesmo com todas as mudanças já evidenciadas por Freud (1930/1974), no início do século XX, a modernidade e os avanços não se constituíram como uma fonte segura como precondição da felicidade humana. Dessa maneira, para Freud (1930/1974), a cultura, fonte de mal-estar, impõe ao sujeito um antagonismo fundamental, a saber, abdicar das satisfações pulsionais em prol das exigências da cultura, este antagonismo no qual o sujeito é jogado e revela o preço que este precisa para civilizar.
Assim, Aguiar e Almeida (2006) enfatizam que o mal-estar é próprio da condição humana, portanto não há como o sujeito humano dele escapar. As autoras citam em Freud (1930) que o trabalho como uma das fontes do mal-estar na cultura, pois gera conflitos nos sujeitos e, portanto uma sensação de estranhamento e infelicidade.
Portanto, as transformações da modernidade não trouxeram maior alívio para as inquietações humanas, pois a marca da modernidade foi um desencantamento com o mundo,
um esvaziamento dos deuses e a racionalização crescente da existência forjada pelo discurso da ciência (WEBER, 1985).
Contribuindo para essa discussão, Birman (1999) aponta que o mal-estar na modernidade abordado traz a marca de uma sociedade do espetáculo que ressalta a exterioridade e o autocentrismo. Entende-se que este aspecto atinge de modo implacável o trabalho docente, no qual o sujeito vive permanentemente em um registro espetacular interessando-lhes apenas o engrandecimento da própria imagem, sendo assim as relações interpessoais assumem características de individualidade. Birman (1999) destaca ainda o modo como a violência entra no cenário social e contribui efetivamente para o mal-estar na cultura. Assim, saquear o outro naquilo que este tem de essencial e inalienável e se transforma quase no credo nosso de cada dia. A eliminação do outro, se este resiste e faz obstáculo ao gozo do sujeito, nos dias atuais se impõe como uma banalidade.
Para tanto, o mal-estar docente foi abordado enquanto sintoma que assinala para um desconforto subjetivo e singular. A seguir abordaremos os teóricos do mal-estar docente e suas contribuições para este estudo.
2.2 MAL-ESTAR DOCENTE
O mal-estar docente é entendido por Cordié (1998) como fenômeno que envolve aspectos exteriores aos sujeitos como os sociológicos e as condições mesmas do fazer pedagógico e demandas diárias, os fatores profissionais e, também a problemática do próprio sujeito, uma vez que ensinar não é uma atividade neutra. Então, ensinar é um processo interativo – professor/aluno que desenvolve habilidades e capacidades para relacionar-se com a realidade produzindo resultados relevantes.
Diante do exposto, o mal estar docente se revela de um modo particular na atualidade e atinge professores em diversos países. O desconforto do professor em relação ao seu papel está relacionado ao mal-estar vivido pelos docentes europeus no final do século XX, gerado por fatores apontados por Esteve (1999) como:
(...) aumento de exigências em relação ao professor; inibição educativa de outros agentes de socialização; desenvolvimento de fontes de informação alternativas; ruptura do consenso social sobre educação; modificação do apoio da sociedade ao sistema educativo; menor valorização social do professor; mudança dos conteúdos curriculares; escassez de recursos materiais; mudanças na relação professor/aluno, e fragmentação do trabalho do professor (ESTEVE, 1999, p. 66).
Ao longo da história da formação docente ficam evidenciados os fatores que representam o mal-estar docente que está ligado à sua própria origem, ao desenvolvimento histórico, ao desgaste em função das insatisfações dos docentes, de seus alunos, e da improdutividade perante modificações rápidas no conhecimento. Além disso, um novo aluno, que o professor, não conhece, se coloca frente a todas as essas exigências.
Mosquera e Stobäus (2007) citam que os professores sentem um desencanto pessoal e coletivo, que emana do processo de a sociedade não dar o valor devido à profissão docente e à educação. E eles ainda acrescentam que, a imagem ideal serve de pretexto, ocultando a real imagem trabalhadora docente e o conseqüente desempenho.
Pode-se citar Nóvoa (1991) que ao tratar do mal-estar docente, destaca que este é um elemento de tradição histórica na formação: “a crise na profissão docente arrasta-se há longos anos e não se vislumbram perspectivas de superação em curto prazo”. As conseqüências da situação de mal-estar que atinge o professorado é um consenso entre os autores.
Contudo, segundo Jesus (1998) o mal-estar é um fenômeno atual que atinge professores de diversos países, inclusive os portugueses, alvo de suas pesquisas. O autor ainda explicita que o mal-estar vem ocorrendo com maior intensidade na classe docente do que em outros profissionais, o que traduz a atualidade e a gravidade deste problema.
Prick (1989) citado por Jesus (1998) verificou que em qualquer faixa etária, os sujeitos que haviam exercido a docência no passado apresentam maior grau de satisfação na profissão que exercem no presente. Essa investigação contou com a participação de professores de vários países da Europa – Holanda, Áustria, Bélgica, Alemanha, Espanha e Portugal.
Então, o mal-estar docente apesar de ser identificado como uma situação da atualidade, na verdade é atravessado pelo contexto histórico. O trabalho docente iniciou sendo uma profissão desvalorizada por ser uma profissão destinada às mulheres e, principalmente aquelas que desejavam maior liberdade e sair da tutela de uma sociedade patriarcal, sendo que essa desvalorização foi acontecendo ao longo da história.
Desse modo, as mudanças sociais do século XX e XXI acrescentaram maiores dificuldades para o professor pelas novas atribuições da escola e do professor, tendo em vista a fragilização dos laços familiares, pela rigidez do sistema educacional com o excesso de tarefas a serem realizadas fora do âmbito escolar e ainda uma necessidade permanente do professor em tornar a aprendizagem na sala de aula interessante em uma busca de técnicas para melhorar o processo de ensino/aprendizagem.
Portanto, a abordagem histórica permite perceber que o mal-estar docente não é um problema recente, ao contrário, ele vem ocorrendo há séculos. A partir do momento em que
foi instituída a profissão, as primeiras escolas brasileiras foram marcadas pela questão de gênero, pois a profissionalização da educação foi designada às mulheres a profissão.
Diante disto, numa sociedade patriarcal, “as tias” não precisavam de salários, apenas a oportunidade de exercerem uma atividade laboral que se configurava como uma extensão do lar, pela reprodução do ambiente familiar no espaço escolar.
A diversidade das exigências sobre a atividade docente teve conseqüências diretas para o chamado mal-estar. Tanto assim, que “mal-estar docente” foi uma expressão criada por Esteve (1995), e revela o modo como o mal-estar atingiu de modo implacável o trabalho docente, executados em ambiente profissional de violência nas salas de aulas, de esgotamento físico, de deficiências nas condições de trabalho e escassez de recursos materiais.
Este quadro promoveu o aumento da tensão no exercício do trabalho docente, uma vez que proporcionou aumento das responsabilidades sem que tenham sido oferecidos meios e condições laborais adequadas para o atendimento às essas novas demandas. Essas mudanças, portanto, favoreceram significativo desgaste somatopsiquico do educador (ARÁUJO et all, 2005).