4. RESULTS
4.2. Effects of increased irradiance and temperature drop in the day
4.2.5. The effects of increased irradiance and temperature drop in the day on leaf area
A dedicatória em 10 de outubro de 1958 de Vicente Aleixandre em exemplar de La destrucción o el amor160 alude a uma “conversa em poesia e amizade” com
Murilo Mendes. Provavelmente corresponde à visita lembrada pelo brasileiro em Espaço espanhol, na parte dedicada a Madri: “(...) Apesar da saúde frágil (vive com um só rim) parece robusto; grandão, corado. Gesticula muito; os olhos claros, móveis, espicaçam o visitante. Entre uma copita e outra de Jerez lê-me alguns de seus últimos textos, batendo com a mão no papel; (...)” (PCP, 1131). Não encontramos outros registros, como dedicatórias e correspondência, que comprovem a continuaçao da amizade inicial.
Além dos textos escutados – talvez os que formariam En un vasto dominio (1962) -, leu e anotou muito o já mencionado La destrucción o el amor e o volume
158
Idem, ibidem, p. 94. 159
Antología de la nueva poesía española. Op. cit., p. 15. 160
que reúne Espadas como labios e Pasión de la tierra, este com autógrafo na folha de rosto: “Murilo Mendes. Barcelona, Agosto 1958”. Murilo interessava-se pelo Aleixandre “cultor da metáfora dentro da tradição gongorina renovada por ele com a ajuda do surrealismo.” (PCP, 1131).
É justamente o surrealismo o forte ponto em comum entre Murilo e Aleixandre. No entanto, tanto eles, quanto a crítica, descartaram uma adesão incondicional às propostas de Breton no Manifesto surrealista, principalmente no que se refere à escrita automática. Mário de Andrade, sobre os Poemas (1930), já o apontava: “(...) não é um surréaliste no sentido de escola, porém me parece difícil da gente imaginar um aproveitamento mais sedutor e convincente da lição surrealista. Negação da inteligência superintendente, negação da inteligência seccionada em faculdades diversas, anulação de perspectivas psíquicas, intercâmbio de todos os planos”.161 Dámaso Alonso, ao comentar La destrucción o el amor (1935), investe na mesma direção: “(...) La poesía de Aleixandre, como toda aquella parte de la moderna que está más o menos emparentada con el surréalisme francés y su pretendido automatismo, vuelve, por fuerza, a buscar el descansadero de una forma. Entiéndese bien: de una forma que, repito, nada tiene que ver con la forma clásica, sino de una forma vital, individual e individualizante, necesaria para hacer resaltar superficialmente la profunda unidad del poema.”162 A última frase, aliás, foi sublinhada por Murilo em sua edição de Poetas españoles contemporáneos.
Se na literatura brasileira as experiências surrealistas muitas vezes foram recalcadas a favor de um programa nacionalista163, na espanhola, a discussão
tornou-se mais complexa, pois se elaboraram obras mais vinculadas com a
161 ANDRADE, Mário de. A poesia em 1930 In Aspectos da literatura brasileira. São Paulo, Martins, s.d., p. 42.
162
ALONSO, Damaso. La poesía de Vicente Aleixandre In Poetas españoles contemporáneos. Madrid: Gredos, 1958, p. 303.
163 Mário de Andrade, em carta de 25 de dezembro de 1927, adverte Prudente de Moraes, neto, contra os riscos do surrealismo em um momento de “construção” da literatura brasileira: “(...) O sobrerrealismo é uma arte quintessenciada que me atrairia fatalmente si eu não me tivesse dado uma função de acordo mais com a civilisação e o lugar em que vivo. Porquê incontestavelmente a civilisação em que a gente vive no Brasil não é a mesma dos franceses não acha mesmo? (...) me parece que não estamos naquele momento de fadiga em que está a arte francesa com seculos de tradição organisada nacionalmente, atrás dela. (...) No Brasil acho que no momento atual, pros que estão de deveras acomodados dentro da nossa realidade, êle não adianta nada. Não adianta porquê não ajuda. Todas as questões que são de vida ou de morte prá organisação definitiva da realidade brasileira (coisa que indiscutivelmente está se dando agora) nos levam pra uma arte de caracter interessado que como todas as artes de fixação nacional só pode ser essencialmente religiosa (no sentido mais largo da palavra; fé pra união nacional, psicologia familiar social religiosa sexual).” (KOIFMAN, Georgina, org. Cartas de Mario de Andrade a Prudente de Moraes, neto. 1924/1936. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985, p. 247-249).
vanguarda francesa, como Sobre los ángeles, de Alberti, e Poeta en Nueva York, de Lorca. Contudo, tanto Aleixandre, quanto Murilo, em mais de uma ocasião, procuraram esclarecer suas dívidas para com o surrealismo. Segundo Aleixandre, Pasión de la tierra, poemas em prosa escritos entre 1928 e 1929, trata-se de seu livro, “el más próximo al superrealismo, aunque, como he dicho más de una vez, fuera de esa escuela, pues no he creído nunca en sus dogmas: la escritura automática y la abolición de la conciencia artística.”164 Posteriormente, no prólogo a
uma seleção de sua “poesía superrealista”, provoca: “¿Pero hubo en este sentido, alguna vez, un verdadero poeta superrealista?”165 Murilo também questiona os limites da estética surrealista: “Claro que pude escapar da ortodoxia. Quem, de resto, conseguiria ser surrealista em regime de full time? Nem o próprio Breton.” (PCP, 1238).
Além do contato com o surrealismo, que remontava às décadas de 20 e 30, Aleixandre e Murilo, naquele final dos anos 50, coincidiam na busca de uma poética mais depurada. Sobre Historia del corazón, o próprio Aleixadre acreditava representar “una nueva etapa y una renovación en la técnica. En el estilo, una desnudez máxima en el proceso de aclaración expresiva.”166 Como o Murilo no artigo “A poesia e o nosso tempo”, Aleixandre vinha chamando a atenção para a necessidade da comunicação em lugar de uma estrita preocupação formal: “La comunicación que la poesía in actu establece entre los hombres, entre otras cosas, prueba conmovedoramente lo ridículo de las ‘torres de marfil’. Por no decir su inmoralidad.”167; “La forma, en poesía, no es cárcel ni ornamento; es sencillamente
la justa y coloreada apariencia visible.”168