5. DISCUSSION
5.2. Effects of increased irradiance
O ano de 1958, tão rico para as amizades espanholas de Murilo, registra uma respeitosa dedicatória em exemplar de Office Humain: “A Jorge Guillén, poeta ilustre, homenagem de antiga admiração e simpatia de Murilo Mendes. Nápoles, 19.12.1958”. A “antiga admiração” pode ter surgido de uma leitura de Cántico por intermédio de Cabral, que o havia recomendado a Bandeira já em 1947.174 Nápoles, por sua vez, mostra que a Itália seria o espaço privilegiado de encontro entre Murilo e Guillén; o poeta espanhol visitou o país várias vezes, principalmente Roma e Florença, onde se encontrava com grandes amigos, alguns comuns a Murilo.175
Murilo manteve com Guillén a correspondência mais longa, das localizadas, com escritores espanhóis, de 2 de março de 1959 a 20 de outubro de 1974.176 Em
sua biblioteca, além dos ensaios de Lenguaje y poesía, existem apenas dois livros de poemas de Guillén, A la altura de las circunstancias (1963), o terceiro volume de Clamor, e Y otros poemas (1973). No entanto, as cartas acusam o recebimento de outras obras: Clamor. Maremágnum (1957)177, Según las horas e Las tentaciones de
Antonio, ambas editadas em 1962178, Homenaje (1967)179, e Aire nuestro (1968),
reunião dos ciclos Cántico, Clamor e Homenaje. 180
174 V. Capítulo 1.
175 Sobre as relações de Guillén com a Itália, v. DOLFI, Laura, org. Cartas inéditas (1953-1983). Jorge
Guillén – Oreste Macrí. Valencia: Pre-Textos, 2004.
176 V. Anexos, Correspondência de João Cabral de Melo Neto e Murilo Mendes com escritores espanhóis.
177 Carta de 2 de março de 1959 (Arquivo Jorge Guillén – Biblioteca Nacional - Madri). 178
Em contrapartida, a obra muriliana está razoavelmente representada na biblioteca de Guillén: Siciliana e Tempo espanhol, de 1959; as traduções italianas de Finestra del caos (1961) por Ungaretti e da antologia de 1961 organizada por Rugero Jacobbi; e as traduções espanholas de Poemas de Murilo Mendes (1962) por Dámaso Alonso e de Siete poemas inéditos (1965) por Ángel Crespo e Dámaso.181
Além dos livros de poesia, o ensaio "Los impulsos elementales en la poesía de Jorge Guillén” em Poetas españoles contemporáneos, de Dámaso, esteve presente na recepção da obra guilleniana por Murilo. Entre várias anotações, assinalou, ao final do estudo, o objetivo do crítico de ir mais além da tradicional percepção “intelectualista”, reconhecendo uma dimensão mais “humana”, “primitiva”:
¡Patente, pues, evidente, el “intelectualismo” de Guillén! Patente también que su poesía brota muchas veces de las sensaciones más elementales del hombre, de impulsos y gozos comunes. Del Guillén exacerbador de lo intelectual, del Guillén artista perfecto, se ha hablado bastante veces – y será aún necesario que se hable mucho más -. Pero poco o nada se había dicho del Guillén humanísimo, y casi “animalísimo”, primario, potencializador de los instintos elementales.182
João Cabral, outro admirador brasileiro de Guillén, como vimos, valorizava apenas a faceta de poeta que domina seu ofício. Quanto a Murilo, interessou-se por um poeta que encontrara uma possível solução para as tensões entre impulsos vitais e organização formal que experimentava desde o início de sua obra, e que no artigo “A poesia e o nosso tempo”, de 1959, não entende como antagônicos: “Não creio que a preocupação com as pesquisas da linguagem se oponha à ‘iluminação’, não creio que o ‘fazer’ se oponha ao sentir, ao amar, ao se entusiasmar. Em outras palavras, não creio que a afetividade possa desaparecer da poesia.” E assim resolve o conflito: “Resumindo, pode-se dizer que a operação poética é baseada em linguagem, afetividade e engenho construtivo.”183
179
Carta de 3 de setembro de 1967 (Arquivo Jorge Guillén – Biblioteca Nacional- Madri). 180 Carta de 22 de janeiro de 1979 (Arquivo Jorge Guillén – Biblioteca Nacional- Madri). 181
V. Anexos, Dedicatórias autógrafas em livros. 182 Op. cit., p. 242.
183
A passagem do ensaio de Dámaso seria utilizada em um texto de Murilo intitulado “Jorge Guillén”, que permaneceu inédito.184 Segundo carta de 6 de
fevereiro de 1967 a Guillén, inicialmente fora pensado para fazer parte do livro Figuras, primeiro nome para os Retratos-relâmpago. Anos depois, em 20 de outubro de 1974, enviou um manuscrito de 5 folhas como “modesta homenagem”, justificando que ultrapassara os limites da obra publicada no ano anterior. Como em vários momentos da correspondência, sintetiza a principal confluência entre as poéticas de ambos: “Espírito dialético por inclinação e cultura, diria que reúne pontos inconciliáveis: subjetividade e objetividade, abstrato e concreto, imanência e transcendência.”
A concisão foi outro aspecto da obra de Guillén que agradou a Murilo, destacada a partir da leitura de Según las horas, incluído posteriormente em Homenaje. Em carta de fevereiro de 1963, elogia a “poesia em cápsulas, revelação moderna do hai kai”, mencionando 9 poemas. Identifica também neles uma “aceitação do mundo em fórmulas rápidas, lapidares, mesmo quando as envolve um pouco de sombra. Resumo e conclusão feliz: (...)”, citando o último verso do poema “A la recíproca” que encerra a coletânea:
Heme aquí. Desperté. Me ciñe el mundo Con el sosiego amable que le impongo, Sosiego tan infuso en la materia
Que impersonal irradia y se me impone. Es grato ser objeto para el mundo.185
Sintomaticamente, nesse 1963, Murilo deu início aos poemas de Convergência, obra decisiva no processo de “lapidação” buscado em Tempo espanhol. Os dois poetas também coincidiram na eleição de escritores e artistas como tema para a poesia: as séries dos “Grafitos” e “Murilogramas” de Convergência, e a série “Al margen” de Homenaje.
Mas Guillén não deixou de se manifestar em relação à poesia de Murilo. Em sua última obra publicada, Final (1981), escolhe para epígrafe do poema “La materia” os versos “A matéria é forte e absoluta/ Sem ela não há poesia.”, de Murilo:
184 V. Anexos.
Poesía, espiritual conato.
Por entre las palabras y el espíritu, Intuiciones, visiones, sentimientos,
Jamás pura abstracción. Se apoya siempre Sobre eso que está ahí, total materia Compacta de elementos muy concretos Que nos salvan: rehúsan el vacío.186
O poema integra a quarta parte da obra, “Tiempo fechado” (Tempo datado), cujos versos de abertura da seção inicial anunciam: “Si bien lo dices,/ Si es justa la expresión, nos pacifica./ Justa correspondencia:/ Realidad y palabra.”
Quanto aos versos de Murilo, corroboram a posição de Guillén, explorada desde Cántico, de que a poesia, ainda que tente atingir uma esfera “espiritual”, depende da “matéria” para se constituir. Assim, eles parecem ser uma divisa para o Murilo que experimentava uma poesia a partir de um “objeto”, de um “tema”, usando os termos de Cabral na carta de 1959. No entanto, trata-se dos versos finais de “Poema espiritual”, de A poesia em pânico, o qual também fora escolhido para a seleção de Dámaso em 1962:
Eu me sinto um fragmento de Deus Como sou um resto de raiz
Um pouco de água dos mares
O braço desgarrado de uma constelação. A matéria pensa por ordem de Deus, Transforma-se e evolui por ordem de Deus. A matéria variada e bela
É uma das formas visíveis do invisível. Cristo, dos filhos do homem és o perfeito. Na Igreja há pernas, seios, ventres e cabelos Em toda parte, até nos altares.
Há grandes forças de matéria na terra no mar e no ar Que se entrelaçam e se casam reproduzindo
Mil versões dos pensamentos divinos. A matéria é forte e absoluta
Sem ela não há poesia. (PCP, 296-297)
Talvez, no caso de Dámaso, sua experiência com uma poesia religiosa – escrevera a coletânea Hombre y Dios – tivesse direcionado a escolha desse poema e de “O fogo” de Os quatro elementos. Por outro lado, “Poema espiritual” apresenta,
com a intenção de expressar crenças, os “versos inúteis”, as “banalidades ineficazes” de que falara Mário na crítica à coletânea que mencionamos. Os versos finais sobressaem do conjunto, sinalizando que a preocupação com o “objeto” estaria ao longo da obra muriliana e atingiria os pontos cruciais em Tempo espanhol e Convergência. Guillén justamente “recortou” os contundentes versos que lhe interessavam, sem a mensagem católica, pois o seu poema volta-se à “matéria”.
2. Entre os novos poetas