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4.2 Isolation by distance

Devido à insatisfação do ensino teológico no nordeste e a dicotomia entre o sacramento e a prática, alguns alunos do ITER se posicionaram escrevendo uma reivindicação, pois desejavam ser pastores e não doutores. João Batista Magalhães Sales, um dos alunos da primeira turma desse novo sistema, deixou seu testemunho sobre o início da Teologia da Enxada:

―Tinha a impressão de estar quebrado por dentro, sem unidade. O que era pior sem ter impressão de fazer algo útil ao futuro pastoreio no meio dos empobrecidos no Nordeste. Havia pouco mais de um ano, Dom José Maria, convida-me a ir fazer teologia em Roma. Tendo pedido uns dias de prazo para pensar na proposta e dar a resposta, disse-lhe finalmente que meu anseio era de ser um padre pastor. Recusava, assim, generosa oferta de quem tanto me considerava. Ficando em Recife, porém, acabava me convencendo que nem ali eu seria aquele pastor que sonhava. E explodiu uma grande insatisfação, Pe. Guerra captou bem esse sentimento nosso e, após visitas de férias ao sertão, ficamos animados a apresentar à Direção do Seminário o resultado dos nossos anseios, com propostas boas e originais. O que veio cair nas mãos de José Comblin. Foi então que iniciamos uma nova história‖82.

Em 1969, sob a supervisão de Comblin, dois pequenos grupos de seminaristas passaram a viver em pequenas comunidades rurais distante de Recife. O que as diferenciavam de outras comunidades pequenas é que os grupos que lá viviam não estudavam o currículo do seminário, mas sim, uma abordagem que era completamente diferente em conteúdo e metodologia. A rotina diária desses candidatos, que eram de famílias camponesas, consistia em trabalho agrícola na manhã, estudo à tarde e atividade pastoral à noite83.

82 BAZAGLIA, Paulo (Org.). A Esperança dos Pobres Vive: Coletânea em homenagem aos 80 anos de José

Comblin. São Paulo: Paulus Editora, 2003, pg.33.

83 COMBLIN, José. A teologia da Enxada: Uma experiência da igreja no nordeste. Petrópolis: Editora Vozes,

Comblin explicava que para conceber o curso teve de fazer uma escolha consciente para deixar cair os tratados teológicos ―tradicionais‖, que depois de tudo, são os resultados de controvérsias do passado; Porém, um apóstolo de hoje deve ser capaz de anunciar a mensagem cristã de uma forma significativa para as pessoas contemporâneas, neste caso na zona rural do nordeste do Brasil, também deveria cair a divisão entre exegese e teologia sistemática, ou seja, a raiz da educação teológica não deve ser somente em disciplinas acadêmicas, mas na vida cotidiana e religiosa do povo. A cada ano abordava um tema diferente e abrangente: no primeiro ano, o tema foi Realidade humana; no segundo, Jesus Cristo revelador de Deus; enquanto que no terceiro, Moralidade; e no quarto ano, o tema foi A igreja84. Cada tema foi subdividido em quinze temas. Para ilustrar o método, leva-se em consideração o primeiro tema no primeiro ano do programa, o tema era ―A Casa‖ e era dividido da seguinte maneira: inquérito, subsídios, significado e teologia85. O

guia para os alunos começava da seguinte maneira:

 Pesquisa.

 Forma, estrutura, partes da casa.  Condições de saúde, aglomerado.

 Quem vive na casa: Mãe? Pai? Avós? Filhos? Animais de estimação? …  Material de construção: por quê? Onde eles estão? Qual é o custo? Decoração

familiar.

 Quando é construído? Quem constrói? Etc.

 Qual o propósito da casa: para dormir? Ou Assistir televisão? ...

Guiados por essas questões, os jovens eram encaminhados simplesmente para olhar, talvez fazer perguntas, ouvir e aprender. As casas em questão são casas tradicionais da população pobre, construída pelos membros da família, provavelmente com o trabalho de vizinhos e parentes. Normalmente possuíam um ou dois quartos, embora o quintal em si fosse parte da casa. Os alunos começavam o estudo simplesmente observando a realidade

84 Ibidem, pg. 11. 85 Ibidem, pg. 19.

material da casa, que estava implicado na construção, quem estava lá, o que faziam. Para isso, entrevistavam informalmente pessoas em suas áreas e, em seguida, reuniam o que encontravam e discutiam sobre a pesquisa.

Após a observação de material e factual, o inquérito continuava:

 Quais são as motivações das pessoas na construção de uma casa?

 As fundações de ritos religiosos ou purificação: bênção, santos, exorcismos, coroação.

 O que significa voltar para casa?  Reunir-se em casa (quando e por quê?).

Tais questões se moveriam para o ser humano ou para o significado antropológico de uma casa ou em casa. A concentração no pensamento era sobre o que significava na experiência do próprio povo. Em tais culturas rurais, onde as pessoas não têm lugares para ―entretenimento‖, grande parte do prazer da vida consiste em sentar ao redor da mesa, ou na varanda numa conversa.

Em ―Teologia‖ o guia diz:

 Consulte os tópicos: casa, morar, construir, fundação (artigos bíblicos).  Liturgia: igrejas, casas de Deus, ou casas.

 A habitação do Espírito Santo.

1. Será que Deus habita em casas de seres humanos? Sim? Não? Quando? Como? Em suas próprias casas? Casa / templo dialética.

2. Liturgia casa. Eucaristia? Oração? Reunião cristã?

Dilema: construir casa ou igreja, onde é o local litúrgico?

Aqui os alunos utilizavam os recursos de uma pequena biblioteca de teologias bíblicas e livros de referência. Finalmente, o guia teria o tema das consequências para a ação e assim poderia ser: ―Mudar de casa? Como melhorar isso? Não impor uma visão burguesa sobre a casa? Deixe tudo como está?‖

Este simples questionário forneceria a base para duas ou três semanas de investigação. Os alunos seriam envolvidos em uma forma de pesquisa de observação participativa. Eles já estariam familiarizados com este meio, pois era semelhante daquele onde cresceram. Agora, no entanto, eles estariam se tornando mais conscientes através da observação, entrevistas informais e discussões entre si. Neste processo, os alunos teriam uma consciência do que as pessoas pensam sobre o tema ―casa‖ e o que uma ―casa‖ significaria para todos, sendo assim, a construção da teologia se tornaria mais acessível para todos.

O movimento começava com uma exploração do que ―casa‖ significava na cultura do próprio povo, mas se movia para o que significava na fé bíblica (por exemplo, habitação de Deus), ou na prática pastoral (em que sentido a construção de uma Igreja é a casa "de Deus"?). Temas bíblicos, assim, assumiriam um novo significado. Por exemplo, nos Salmos que falam de ir para a casa do Senhor, ou de se refugiar em abrigos de Deus. Piedade tradicionalmente rural iria ver o prédio da igreja (chamado de Templo) como um lugar sagrado e ―casa de Deus.‖ Este método pastoral poderia levar as pessoas a ver a base bíblica para casa e da família como igreja ou lugar de habitação de Deus.

Outros temas estudados ainda no primeiro ano incluiam a comunidade local, terra, trabalho, refeição, corpo, celebração, nascimento, paternidade, ricos e pobres, relação homem-mulher e a vida. Este processo de educação teológica veio a ser chamado de ―Teologia da Enxada‖, porque foi centrado na experiência cotidiana da população pobre e rural. Em cada caso, implicou em uma exploração da realidade humana, com perguntas abertas e depois em um encontro com as escrituras, às vezes para indicar a graça de Deus na realidade humana, por vezes, para desafiar as práticas comuns. O mesmo método foi

aplicado para tópicos "teológicos", ou seja, durante o ano focado em Jesus, o ponto de partida não era uma doutrina ou escrituras, mas como Jesus é visto pelo povo.

Este método teológico, obviamente, tem fator em comum com a concientização iniciada por Paulo Freire86, o educador de Recife que tinha sido exilado pelo governo militar em 1964. Em princípio, concientização, que foi amplamente praticada em toda a América Latina, especialmente por grupos ligados à Igreja, foi baseado no fornecimento de uma situação em que as pessoas pobres pudessem expressar-se criticamente em seus próprios termos, através do diálogo.

Na prática, porém, os líderes de ―conscientização‖, nas sessões, poderiam dirigir o diálogo na direção desejada por responder positivamente a algumas respostas (por exemplo, a crítica dos posseiros ou o governo), e ignorando os outros (por exemplo, que a pobreza é resultado da vontade de Deus)87. O questionário era uma atitude muito mais aberta, um diálogo que respeitava a cultura popular, uma vontade de explorar o que as pessoas pensavam, mesmo que fossem ―conservadoras‖. Todo o curso foi construído em torno de um tipo de pesquisa antropológica com ênfase na observação participativa, complementada por leituras de livros de referência e artigos selecionados.

86

Paulo Reglus Neves Freire nasceu no dia 19 de setembro de 1921, em Recife, no nordeste do Brasil, e faleceu em 2 de maio de 1997, em São Paulo. Um dos mais importantes pedagogos do século passado, pertence não somente à América Latina, mas ao mundo inteiro. Seu livro mais influente, A pedagogia do oprimido, ilustra seu grande interesse por uma pedagogia para pessoas dentro de uma experiência de pobreza e marginalidade. Termos como práxis conscientização, educação bancária, educação libertadora e dialógica; estas são algumas das contribuições freirianas ao entendimento educativo. Freire cultiva preferencialmente o tema da política na educação. Afirma a não neutralidade dos cristãos frente aos assuntos sociais e a contrariedade dos religiosos na análise da realidade. Para entender Paulo Freire e avaliar sua contribuição, é necessário estudar sua análise do papel que desempenha a ideologia no processo educativo e da função da educação na transformação da sociedade.

87 Até certo ponto isto reflete categorias próprias de Freire em que a posição de início é uma das consciências

em que os oprimidos aceitam as coisas como elas são. Quando eles começam a ter consciência da sua situação que pode chegar à consciência ―ingênua‖, em que normalmente esperam alívio através das promessas de políticos populistas. Na consciência ―crítica‖ reconhece que o problema é de poder e que eles devem se organizar e agir. O método assume que os oprimidos têm internalizado a visão de mundo de seus opressores, e devem jogar fora uma falsa consciência e tomar medidas contra esta visão.

Esta ―Teologia da Enxada‖ e a formação pastoral em torno dela era simples e radical. Esses alunos foram treinados na observação de sua própria cultura de modo sistemático e iluminados por meio da escritura. Eles não estavam sobrecarregados com a bagagem da história dos conflitos doutrinários, nem com os esforços dos teólogos em outro lugar.

Somente um ciclo deste curso foi concluído, mas dos noves participantes, cinco foram ordenados e permanecem no sacerdócio88. Comblin supervisionou uma experiência semelhante no Chile, alguns anos depois, e ainda uma terceira tentativa no Brasil, que foi interrompida.

A Teologia da Enxada, coordenada pelo Padre Zé, como era chamado entre os camponeses, hoje é objeto de estudo acadêmico, onde se faz um paralelo com o método de educação popular proposto pelo educador pernambucano Paulo Freire. Em 2001, Comblin recebeu o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal da Paraíba, em reconhecimento ao seu trabalho no campo da educação popular.

Também é visível que exerceu uma forte influência na vida de muitos leigos, o que veio a acontecer na segunda parte de sua caminhada quando fundou e incentivou a criação de Escolas Missionárias para leigos e leigas, dedicando-se a partir de então a uma formação mais popular. Essas Escolas Missionárias são centros de formação que funcionam em alguns meses do ano, geralmente nos períodos de férias, podendo ter variações dependendo da região onde elas estão localizadas, e que têm como objetivo principal treinar pessoas para atuarem como missionários no meio popular. Também promovem outros encontros como retiros e celebrações; além disso, os alunos e alunas prestam conta das atividades práticas do período em que não estão com aulas teóricas. Tudo isso abre espaços de comunicação e aprendizagem com as pessoas que estão vivendo o dia a dia da Igreja. Centenas de pessoas já passaram por essas casas ao longo de trinta anos de existência. Dezenas de turmas foram formadas e fundaram outros centros de treinamento.

Essas lideranças certamente vão atuar de maneira mais eficaz nas paróquias ou nas comunidades que frequentam, pois treinam outros que eventualmente não podem participar das aulas teóricas nos centros de formação, cujos participantes recebem informações na área de Bíblia, Sociologia e de outras ciências afins, caracterizando assim, de certo modo, o processo de conversão e libertação na educação popular.

Isso pode ser verificado, por exemplo, a partir de testemunhos como o de Gilberto dos Santos Oliveira, agricultor, casado, pai de nove filhos, que mora em Barrinha, às margens do rio São Francisco, Juazeiro, Bahia, lugar em que a Teologia da Enxada continua viva. Diz ele:

―Aliás, a formação de leigos que surgiu em nossa Diocese – como a Escola de Formação do Pe. Comblin - tem ajudado bastante. Conhecemos coisas que, nesses meus 44 anos eu nunca pensei que iria chegar a conhecer [...]. Como, por exemplo, saber administrar essa associação dos moradores, fazer prestação de contas, balancetes, coisas que eu nem sabia de que se tratava. E hoje já estou passando o que aprendi para outras associações, incluindo as experiências de como lutar com essa política toda que está aí, como se defender da politicagem e fazer política com autonomia. [...] Eu vejo essas 15 comunidades que acompanho – não é fácil não, encontramos muita coisa pesada, gente que não acredita ainda nessa luta, não acredita nessa união, ainda está naquela velha página em que só os grandes, só os estudantes e os formados é que falam bonito, que tem outras coisas melhores para defender... E aí fica aquele povo morto, sem coragem de agir, esperando pelas migalhas, como galinha esperando o grãozinho de milho... e quando chegamos lá, a primeira coisa é mostrar a palavra de Deus, e segundo, mostrar a coragem dos nossos antepassados na Bíblia‖89.

Apesar da proibição do Vaticano para não dar continuidade a este projeto, percebe-se, nos escritos acima, a evolução natural como se fosse uma árvore que foi plantada próxima ao ribeiro, dá seu fruto no momento certo e no decorrer dos anos continuará. Assim foi e sempre será a Teologia da Enxada, treinando e efetivando pessoas para o ministério de padre pastor e de liderança populares.

Finalmente, pode-se notar a falta da descrição do momento da conversão de Comblin, porém, como ele mesmo diz: a conversão é um processo e não um ato. Percebe- se no início de sua vida sacerdotal, o desenvolvimento de sua conversão quando deixa um país organizado, como a Bélgica, onde o cristianismo estava em todas as vertentes da sociedade, poderia viver confortavelmente, ensinando e sendo sacerdote em alguma Igreja, para chegar ao Brasil, um país a ser protegido e convertido. Comblin chega com bagagem de Professor e Doutor para formar sacerdotes no método tradicional. Percebe-se que o país é pequeno para este homem incansável, ao ponto de alcançar a América Latina, com suas atitudes e ensinos.

Demonstra seu amor pelo povo oprimido e é odiado pelos poderosos. Entretanto, não se cala no momento da perseguição, chegando a ser expulso de dois países de nosso continente em consequência dos seus escritos proféticos. Somente quem se converte ao Reino tem palavras proféticas em defesa do povo pobre. Comblin prefere as pessoas simples, deixa os seminários formais e leva seminaristas para perto do povo, com a intenção de experienciarem a conversão dos pobres.

É influenciado por homens que amam os pobres e oprimidos, e se agrega a eles para lutar contra as injustiças. Também não se corrompe com regime militar e nem com o sistema capitalista, mas se entrega aos pobres ao ponto de viver entre eles e ser um deles. Assim, morre pobre, em 2011, sentado na cadeira em uma pequena cidade da Bahia, mas rico da presença de Deus, porque se perdeu entre aqueles invisíveis da sociedade, servindo- os e trazendo o Reino até eles.