3 Historical river information and habitat-type classification
3.20 Suldalslågen
Para Comblin, Dom Hélder foi um pastor que na sua trajetória sacerdotal influenciou fortemente a Igreja nordestina, brasileira e o próprio Comblin, com suas ações em relação aos pobres do país. Uma figura importante no cenário nacional e da América Latina. Comblin ao escrever a biografia de Dom Hélder, diz: ―Escrever sobre ele é fazer a história da Igreja no Brasil desde 1940, a história da Igreja católica desde o Vaticano II69‖. Para Dom José Maria Pires, Dom Hélder foi além de suas forças para defender os pobres, e diz:
―Gostaria de colocar mais uma observação que seria uma hipótese de trabalho. No Brasil de 1964 para cá, diversos bispos tiveram de ir além dos documentos e das declarações e tomar atitudes práticas e claras ao lado dos oprimidos. Entre muitos outros, se poderia lembrar de Dom Hélder Câmara, o campioníssimo das denúncias e das ações em favor dos pobres. Por incrível que possa parecer, a única força que pôde deter o braço armado do poder discricionário não foi outro braço armado, nem outra força política organizada: foi a palavra franca e enérgica do pastor, acompanhada de sua presença física no meio do rebanho‖70.
Essas ações faziam com que Comblin estivesse cada dia mais perto do povo, com alegria na perseguição e declarava o que via na vida de Dom Hélder: ―A sua vida estava
68 Ibidem, pg. 24.
69 COMBLIN, José. Dom Hélder Câmara, como arcebispo de Olinda e Recife – Um depoimento pastoral. (in)
Dom Hélder Pastor e Profeta. São Paulo: Edições Paulinas, 1984, pg. 24.
70 RIBEIRO, Sampaio Geraldo Lopes. Dom José Maria Pires: uma voz fiel a mudanças sociais. São Paulo:
absorvida em Deus e no meio do rebanho71‖, sempre pronto a denunciar as investidas do inimigo contra seu povo. Comblin era uma das pessoas que conheceram Dom Hélder mais de perto, mais que amigos, eram considerados irmãos72. Dom Evaristo Arns testemunha sobre esta relação com mais clareza:
―A relação de décadas entre Dom Hélder e o padre José Comblin foi marcada por tal fidelidade e dedicação mútuas, que nos habituamos a chamar de ―Padres da Igreja na América Latina‖ aquela geração profética de pastores, missionários e evangelistas. Dom Hélder e padre Comblin se entrosavam como verdadeiros pai e filho‖73.
Hélder Pessoa Câmara, que ficou conhecido como ícone da paz e irmão dos pobres, nasceu no dia 7 de fevereiro de 1909, em Fortaleza, Ceará. O pai se chamava João Eduardo Torres Câmara Filho, e a mãe, Adelaide Pessoa Câmara. O menino foi chamado de Hélder por um desejo do pai e fez a primeira comunhão aos 8 anos. Aos 14 ingressou no Seminário da Prainha de São José, onde fez os cursos preparatórios e posteriormente filosofia e teologia. Em 15 de setembro de 1931, aos 22 anos, foi ordenado padre. Para isso, recebeu especial autorização da Santa Sé, em virtude de ainda não ter completado a idade mínima exigida para a ordenação, que era de 24 anos. Dom Hélder lembrava sempre do que seu pai dizia, mesmo não sendo religioso: ―Meu filho, você sabe o que é ser padre? Padre e egoísmo nunca podem andar juntos. O padre tem que se gastar e se deixar devorar(...)74‖.
71 CASTRO, de Marcos. Dom Hélder, misticismo e santidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002, pg.
13.
72 Ibidem, pg. 14.
73 BAZAGLIA, Paulo (Org.). A Esperança dos Pobres Vive: Coletânea em homenagem aos 80 anos de josé
Comblin. São Paulo: Paulus Editora, 2003, pg. 315.
74 PATRICK, Maria Bernarda. Dom Hélder, dados biográficos de um pastor, profeta universal, (in) DOM
Em 1936, aos 27 anos de idade, Dom Hélder transfere-se para o Rio de Janeiro, onde permaneceria por 28 anos.
Quando ainda era padre, teve várias preocupações e uma delas foi a de engajar os bispos nos problemas sociais do Brasil e impedir que se dedicassem somente a comunicação bilateral com a Santa Sé, antes, se preocupassem com os acontecimentos do próprio país. Pelas suas mãos, em 1952, nasce a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil).
Em 1955, Dom Hélder se converteu aos pobres e foi se distanciando, sem grande choque, ou melhor, sem qualquer abalo, de seu projeto anterior, que era ―reconstruir o poder da Igreja na sociedade‖ 75. Sobre a conversão de Dom Hélder, Comblin afirma:
―O enriquecimento espiritual de Dom Hélder, esse crescimento progressivo e tranquilo de sua integração com o Cristo, sempre caminhando lado a lado com o homem de ação, com o empreendedor e organizador, passou então pela necessidade que ele sentiu de fazer alguma coisa prática pelos pobres, começando pelos favelados do Rio. No desdobramento dessa etapa, vem a certeza de que só mudando-se a estrutura da sociedade esse tipo de problema poderia ser resolvido‖76.
O ponto mais visível do viver de Dom Hélder consistia na sua intensa solidariedade para com os pequeninos do mundo (os pobres), porém, tudo culminou com sua chegada a Recife, em 1964, quando cristalizou sua vida totalmente voltada para os pobres, em um caminho que seguiria até o fim: ―Encontrou Deus nos pobres em primeiro lugar, sem perder o contato com todos os homens, porque cada pessoa era importante aos seus olhos‖77. O testemunho da Irmã Agostinha, uma das suas admiradoras, sintetiza essas
75 Ibidem, pg.18. 76 Ibidem, pg. 19. 77 Ibidem, pg. 20.
ações: ―Como poucas pessoas no mundo, Dom Hélder acreditava na força dos pequenos e é nesta força da união dos pequenos que o mundo seria transformado até a justiça se tornar realidade78―. Esses fatos da vida do Arcebispo chamaram a atenção de Comblin ao ponto de inspirá-lo a continuar vivendo para os pobres e entre eles. Dom Hélder, ao resumir sua caminhada, diz:
―O Ceará me preparou para o Rio de Janeiro, Rio de Janeiro me preparou para Recife. Porque foi ao chegar ao Recife que eu tive esta visão mais completa do Nordeste, dentro do Brasil, dentro da América Latina, dentro do Terceiro Mundo, dentro do Mundo‖79.
Além disso, passou por uma ditadura militar, a qual apoiou no início, porém quando observou os abusos do regime imposto, se tornou uma das mais fortes resistências contra a ditadura que o Brasil teve, sendo muitas vezes calado, ameaçado e difamado. Sobre esse tema, Comblin declara:
[...] ―Foi um dos primeiros que tomaram posição aberta para denunciar os abusos e a falsidade interna do sistema [...]. Nos primeiros anos, os meios de comunicação receberam a orientação de difamar Dom Hélder com todos os meios disponíveis‖80.
Ainda restava-lhe tempo para se preocupar com as dificuldades mundiais e por isso, era alguém que deveria ser imitado e seguido, como José Comblin fez em sua vida, cooperando com os sonhos desse homem, que também foi um batalhador pelas classes desfavorecidas.
78SANTANA, Nara Lúcia. Centenário de nascimento de Dom Hélder Câmara,
http://santaluziadrs.blogspot.com/2009_02_01_archive.html, acessado em 10.02.2012.
79 PATRICK, Maria Bernarda. Dom Hélder, dados biográficos de um pastor, profeta universal (in) DOM
HÉLDER Pastor e Profeta. São Paulo: Edições Paulinas, 1983, pg.10.
80 COMBLIN, José. Dom Hélder e o Novo Modelo Episcopal do Vaticano II. (in) Dom Hélder Pastor e Profeta.
Na arquidiocese, Dom Hélder realizou trabalho inovador. A Igreja de Olinda e Recife foi cenário de importantes experiências sociais. Fundou o Banco da Previdência para ajudar pessoas na faixa da miséria que assim, passaram a ter direito à alimentação, atendimento médico, remédios, enxovais para bebê e cursos profissionalizantes.
Concebeu a Comissão de Justiça e Paz, defensora de presos políticos e perseguidos pela ditadura militar e dos excluídos da sociedade. Foi precursor na luta contra a fome e a miséria no Brasil. Em 1990, lançou a campanha Ano 2000 sem Miséria. Só depois o país despertou para a gravidade do problema e surgiu a Ação da Cidadania Contra a Fome, a Miséria e pela Vida. Nestes períodos, verifica-se a disposição de Dom Hélder para criar iniciativas de ajuda aos necessitados, ao ponto de ser profeta nas ações e um homem além do seu tempo. Enxergava de longe as necessidades; somente uma pessoa convertida aos pobres poderia ter uma visão transformadora. Quanto mais grave o problema, mais apaixonado se mostrava. Aprendeu com o passado, viveu intensamente o presente, mas, sobretudo, tinha os olhos e o coração no futuro.
Comblin diz que Dom Hélder foi considerado o profeta do Terceiro Mundo devido a uma conferência na Mutualité, em Paris, em 1968. A partir dessa palestra, as viagens começaram a ser cotidianas na vida de Dom Hélder. Suas mensagens atraiam pessoas, não somente os católicos, mas de várias vertentes da sociedade, e suas preleções eram consideradas por Roger Garaudy eloquentes81.
Pessoas como Ibiapina e Hélder Câmara viveram intensamente sua fé, apesar das perseguições, injustiças, ―fracassos‖ e denúncias, e souberam continuar abençoando o povo e animando os pobres com atitudes. Em suas vidas, nota-se a conversão e a luta pela justiça em favor do mais fraco, ao ponto de marcar profundamente a vida de Comblin, que sempre trouxe em sua vida a inquietação de uma revolução pacífica e a transformação da sociedade, deixando transparecer nas suas atitudes as marcas desses dois homens da fé.
1.3 A Teologia da Enxada
Devido à insatisfação do ensino teológico no nordeste e a dicotomia entre o sacramento e a prática, alguns alunos do ITER se posicionaram escrevendo uma reivindicação, pois desejavam ser pastores e não doutores. João Batista Magalhães Sales, um dos alunos da primeira turma desse novo sistema, deixou seu testemunho sobre o início da Teologia da Enxada:
―Tinha a impressão de estar quebrado por dentro, sem unidade. O que era pior sem ter impressão de fazer algo útil ao futuro pastoreio no meio dos empobrecidos no Nordeste. Havia pouco mais de um ano, Dom José Maria, convida-me a ir fazer teologia em Roma. Tendo pedido uns dias de prazo para pensar na proposta e dar a resposta, disse-lhe finalmente que meu anseio era de ser um padre pastor. Recusava, assim, generosa oferta de quem tanto me considerava. Ficando em Recife, porém, acabava me convencendo que nem ali eu seria aquele pastor que sonhava. E explodiu uma grande insatisfação, Pe. Guerra captou bem esse sentimento nosso e, após visitas de férias ao sertão, ficamos animados a apresentar à Direção do Seminário o resultado dos nossos anseios, com propostas boas e originais. O que veio cair nas mãos de José Comblin. Foi então que iniciamos uma nova história‖82.
Em 1969, sob a supervisão de Comblin, dois pequenos grupos de seminaristas passaram a viver em pequenas comunidades rurais distante de Recife. O que as diferenciavam de outras comunidades pequenas é que os grupos que lá viviam não estudavam o currículo do seminário, mas sim, uma abordagem que era completamente diferente em conteúdo e metodologia. A rotina diária desses candidatos, que eram de famílias camponesas, consistia em trabalho agrícola na manhã, estudo à tarde e atividade pastoral à noite83.
82 BAZAGLIA, Paulo (Org.). A Esperança dos Pobres Vive: Coletânea em homenagem aos 80 anos de José
Comblin. São Paulo: Paulus Editora, 2003, pg.33.
83 COMBLIN, José. A teologia da Enxada: Uma experiência da igreja no nordeste. Petrópolis: Editora Vozes,