Sua Santidade Pio IX está percorrendo seus pequenos estados. Todos os lugares, que são honrados com sua amável presença, têm dado as mais decididas provas de adesão, e amor à sua pessoa, e ao seu governo, manifestadas com geral entusiasmo nos arcos triunfantes, Te-Deum, fogos de artifícios, e outros regozijos públicos, que devem causar dolorosa emoção nos inimigos do poder temporal do Sumo Pontífice.262
Nesse fragmento de uma crônica da gazeta “A Estrella do Norte”, do início da década de 1860, está um pouco da forma como os católicos paraenses tomavam conhecimento dos passos dados por Pio IX na Itália antes da perda do poder temporal. Se a maioria dos fiéis nunca teve a chance de viajar para Roma para ver o papa e os rituais que causavam “dolorosa emoção” nos inimigos, pelo menos podiam desfrutar de algo semelhante no Pará. As viagens do bispo em visita às vilas e povoados da diocese, assim como as cerimônias de recepção ao seu retorno, fizeram parte do programa de romanização da Igreja na Amazônia.263 Mas nenhuma dessas visitas e recepções pode ser comparada à pompa solene que acompanhou o seu retorno à Belém depois de cumprir prisão na Corte. Longe de qualquer ar de derrota, o
261 RELATORIAO apresentado ao exm. senr. dr. Francisco Maria Corrêa de Sá e Benevides pelo exm. senr. dr.
Pedro Vicente de Azevedo, por occasião de passar-lhe a administração da provincia do Pará, no dia 17 de janeiro de 1875. Pará, [Typ. de F.C. Rhossard], 1875, p. 53.
262 CHRONICA religiosa. A Estrella do Norte, domingo, 9 de agosto de 1863. Anno de 1863, Número 32, p.256,
col.1.
263 Para uma análise dos objetivos das viagens pastorais do bispo Dom Antônio de Macedo Costa pelo interior do
Pará e do Amazonas, ver NEVES, Fernando Arthur de Freitas. A interiorização do catolicismo na Amazônia: as visitas pastorais de dom Macedo Costa (segunda metade do século XIX). In: José Luis Ruiz-Peinado Alonso, Rafael Chambouleyron.. (Org.). T(r)ópicos de História: gente, espaço e tempo na Amazônia (séculos XVII a XXI). 1ed.Belém: Ed. Açaí/Programa de Pós-graduação em História Social da Amazônia (UFPA)/Centro de Memória, 2010, v. 1, pp. 183-200
evento assumiu uma forma triunfal, ritualizada, comparável a uma entrada real, enfim, um canto de vitória.
Como sabemos, em 17 de novembro de 1875, D. Macedo Costa e D. Vidal foram anistiados pelas autoridades do Império. Após ter recebido o perdão de D. Pedro II, D. Macedo seguiu para a Bahia, e depois retornou à Belém. Em 12 de janeiro de 1876, cinco dias antes de sua chegada, o jornal “A Constituição” já anunciava o programa dos festejos que celebrariam a sua entrada na capital paraense. Entre os dias 16 e 17, quando chegaria o vapor trazendo o prelado, subiria ao ar no largo da Sé uma girândola de foguetes e repicariam os sinos de todas as igrejas da cidade. Para os mais ansiosos, haveria uma lancha a vapor que os transportaria à presença do prelado, antes mesmo do desembarque. Logo que D. Macedo se achasse na ponte da guardamoria, subiriam ao ar novamente girândolas de foguetes, e o povo reunido acompanharia o prelado até a Catedral, onde haveria uma salva de 19 tiros após ele adentrar o templo. Ali o bispo participaria de uma cerimônia religiosa e, por fim, poderia recolher-se ao paço episcopal. Mas as festas não terminariam aí. À noite as frentes das igrejas, o paço episcopal, os estabelecimentos eclesiásticos seriam iluminados; ritual que se repetiria por três noites consecutivas. O largo da Sé seria festivamente embandeirado e duas bandas de música tocariam alternadamente. Além disso, na frente da Catedral seriam colocados “três magníficos transparentes”, representando S. Miguel Arcanjo e os apóstolos S. Pedro de S. Paulo. No mesmo espírito, nas janelas do paço episcopal seriam “também colocados outros três transparentes, representando Pio IX, D. Macedo Costa e D. Fr. Maria Vidal Gonçalves de Oliveira.” No dia seguinte, teria lugar na Catedral, às 7 horas da noite, “um esplêndido Te
Deum em oração à graça pela restituição do prelado paraense à sua diocese”, anunciado aos fiéis pelos “festivos repiques de sinos de todas as igrejas” e celebrado pelo cônego Borges de Castilho.264
Não devemos esquecer que esses rituais eram, sobretudo, portadores de uma mensagem política, afirmavam a autoridade de D. Macedo em sua diocese. Procurou-se então seguir à risca o programa anunciado. Na época, a iminente chegada do bispo à capital foi amplamente noticiada na imprensa. Na manhã de 17 de janeiro, ele desembarcou na ponte da guardamoria da alfândega, onde, informa o “Diário de Belém”, achava-se postado um destacamento de artilharia que lhe tributou “as honras eminentes devidas à elevada hierarquia” que ocupava na sociedade. O “povo” se apresentou em massa no local. A gazeta
264 FESTEJO para a chegada do sr. D. Antonio. A Constituição, Belém do Pará, quinta-feira, 12 de janeiro de
calcula que acima de oito mil pessoas teriam ido ao encontro do bispo, “que depois de uma ausência de quase dois anos de privações e penas”, voltava “a ocupar o sólio que há 15 anos fora confiado à sua proventa solicitude”. Era tanta gente, no dizer da gazeta, que o prelado levou cerca de uma hora para sair da ponte. Abrindo caminho no meio da multidão “de homens e mulheres das principais famílias da sociedade paraense”, D. Macedo seguiu rumo à Catedral. Ao chegar ao templo, foi “recebido pelo presidente da província, revd. Cabido, desembargadores da Relação, e muitas pessoas gradas”. Ali participou de uma cerimônia onde se entoaram hinos e orações, de acordo com os ritos romanos. Findo o ato religioso, seguiu para o palácio do governo acompanhado pelo presidente da província e pelo povo que enchia a Catedral. No caminho, recebeu calorosos vivas. Enfim, associações, escolas e autoridades prestaram uma grande homenagem ao bispo em seu retorno. Mesmo com a copiosa chuva que caiu, a festa durou o dia inteiro, entrando pela noite. A cidade foi toda iluminada e os organizadores capricharam nos detalhes da decoração, conforme haviam anunciado no programa:
No largo da Catedral tocavam arrevesadamente 3 bandas de música marcial. No frontispício da Basílica chamavam a atenção 3 lindos transparentes, representando (o do centro), S. Miguel, acalcando aos pés o Dragão infernal e, os dos lados, os Apóstolos Pedro e Paulo.
Na fachada do Paço Episcopal outros 3 transparentes, de maravilhoso efeito, deslumbravam as vistas da multidão: eram os retratos do S. Padre e dos Bispos do Pará e Olinda.265
Assim, os transparentes e seus “maravilhosos efeitos” ganharam considerável destaque no noticiário. A gazeta “A Constituição”, por exemplo, não deixou passar em branco essas notáveis obras de arte. Além da bela iluminação que tomava conta dos edifícios, tratou também de ressaltar a ornamentação que tanto brilho dava ao paço episcopal e à Catedral na ocasião:
Nas janelas do coro daquela estão três vistosos transparentes clareados a gás representando o do centro o arcanjo S. Miguel e os dos lados os apóstolos S. Pedro e São Paulo.
Nas três janelas centrais do paço, outros transparentes, representando o do meio o santo padre Pio IX, tendo à direita D. Macedo, e à esquerda D. Vidal. A pintura é trabalho do hábil sr. Viegandt.266
265 COLLABORAÇÃO: Festejos da chegada do Diocesano. Diario de Belém, terça-feira, 25 de janeiro de 1876.
Anno IX, Numero 19, p.1, col.3,4.
266 GAZETILHA: O sr. bispo diocesano. A Constituição, Belém do Pará, quarta-feira, 19 de janeiro de 1876.
Atentemos, todavia, para usos conscientes da arte como discurso político; imagens gestadas no calor da batalha. As representações de São Miguel Arcanjo, São Pedro e São Paulo, Pio IX, D. Macedo e D. Vidal eram bem mais do que “belas pinturas” executadas pelo hábil Karl Wiegandt, aqui descrito como “Viegandt”. Para além das qualidades estéticas, em seu conjunto elas compunham uma clara estratégia de afirmação da autoridade eclesiástica: colavam lado a lado os antigos e novos mártires da Igreja, traçavam vínculos indenitários entre os seus fundadores e os seus atuais reformadores. São Miguel Arcanjo pode ser lido como o espírito de combate da Santa Sé às ameaças liberais e revolucionárias, esses “dragões infernais” acalcanhados pelo ser celestial. Assim, recorre-se à arte também por motivos diversos daqueles devocionais. Pio IX, por exemplo, fez uso frequente desse expediente, inserindo-se numa tradição de longa data no Estado pontifício. Nos anos em que Giuseppe Mazzini lançava os seus apelos para a renovação da arte italiana em direção a uma arte progressista e social,267 em Roma a pintura religiosa ainda se tingia de uma aura política, veiculando significados que aludiam à supremacia do pontífice, à sua infalibilidade e à defesa de seu poder temporal. São testemunhas exemplares disso duas pinturas importantes encomendas pelo pontífice: a monumental tela com “il Cristo perseguitato da Giudei” (Cristo perseguido pelos Judeus) de Johann Frederich Overbeck, e o afresco com a “Propagazione del Cristianesismo” (Propagação do Cristianismo) de Tommaso Minardi, ambos executados para o Palazzo del Quirenale. A primeira, de 1857, foi percebida pelos contemporâneos como uma alegoria do pontificado colocado em perigo pelos infiéis adversários (em plena alusão à captura de Pio VII pelos franceses); A segunda representa uma das tarefas mais propaladas pela Igreja: o ecumenismo, ou seja, a missão dada aos apóstolos de pregar a boa nova a todos os povos.268
267 Entre outras figuras consideradas como “pai da pátria italiana” (Garibaldi, Cavour, Vittorio Emanuele II),
Giuseppe Mazzini (1805-1872) era um homem de ampla erudição. Era um profundo conhecedor não só da arte do passado, mas também de seu próprio tempo. Tinha desenvolvido um gosto apurado frequentando as grandes coleções de sua cidade (Gênova) e os museus europeus. No processo de unificação da Itália, ele se pôs o problema de criar uma nação. Lá onde existiam várias realidades políticas e civis diferentes, talvez fosse necessário, além de renovar a sociedade e as consciências, unir culturalmente a península. Nesse anseio, Mazzini considerava que a arte poderia desempenhar um papel fundamental. Sobretudo a grande pintura que tinha sido sempre um orgulho e um forte motivo de identidade para os italianos, que nela reconheciam a sua memória histórica. A essa pintura, ele confiou a missão de mensagem nacional. Para uma análise detalhada da relação de Mazzini com a arte, ver MAZZOCCA, Fernando. Romantici e macchiaioli: Giuseppe Mazzini e la grande pittura europea. Genova, Palazzo Ducale: Skira, 2005.
268 Cf. CAPITELLI, Giovanna. La pittura sacra. In SISI, Carlo (a cura di) L’Ottocento in Italia: le arti sorelle, II,
Figura 31: Tommaso Minardi. Propagazione del Cristianesismo ovvero la missione degli Apostoli, 1864. Têmpera sobe muro. Acervo do Palazzo del Quirenale, Roma/Itália.
Os rituais que acompanham a entrada do bispo em Belém trazem em seu bojo toda essa carga simbólica. Além do mais, a prisão não abolou seus projetos de romanização. Sabemos que D. Macedo, ao retorna à diocese, manteve viva a essência de autonomia para o Catolicismo.269 Porém, como vimos antes, isso não implicava abrir mão dos recursos matérias do Estado. A decoração da Catedral aguardava ainda por tomar forma. Depois do período de ausência forçada, era preciso colocar novamente “ordem na casa” e, para isso, precisava-se de uma boa soma de dinheiro. Em 16 de fevereiro de 1877, “O Apóstolo” publicou dois ofícios de D. Macedo enviados ao conselheiro José Bento da Cunha Figueiredo, ministro e secretário de negocio do Império. Os ofícios estão datados de 4 dezembro de 1876 e dão conta das principais necessidade da diocese naquele momento. No primeiro, D. Macedo informava ao ministro sobre situação dos seminários do Pará. O seminário maior, por exemplo, onde era ministrado aos jovens que se dedicavam ao sacerdócio o ensino da teologia e de outras disciplinas eclesiásticas, estava funcionando numa ala do edifício episcopal insuficiente para acomodar a todos. O mesmo ocorria com seminário menor, onde estavam matriculados 130 alunos, mas que já não atendia à crescente demanda, sobretudo de jovens de outra diocese que vinham ao seminário do Pará para se formar “nas virtudes e ciências sacerdotais”. D. Macedo informava que, para suprir as necessidade do estabelecimento, um nova ala estava sendo
269 NEVES, Fernando Arthur de Freitas. D. Antonio de Macedo Costa: um arauto do processo civilizatório? In:
Maria de Nazaré dos Santos Sarges; Magda Maria de Oliveira Ricci. (Org.). Os oitocentos na Amazônia: política, trabalho e cultura. 1ed. Belém: Editora Açaí, 2013, v. 1,pp. 141-163, p.153.
construída e já se dispunha de materiais para as obras comprados por conta do governo no valor de 10:000$000 (dez contos de réis). No entanto, o prelado lamentava que essa obra estivesse parada há cerca de 14 anos, tendo a diocese sofrido muito por falta de um edifício para acomodar “um estabelecimento de tão vital importância”. Para isso, pedia a verba de 20:000$00 (vinte contos de réis), que se justificava pela importância que se devia dar ao desenvolvimento da educação do clero. Já no segundo ofício, lembrava ao ministro o “magnifico altar-mor todo de mármore (urna e retábulo)” que se achava havia mais de quatro anos “depositado na catedral do Pará” para ali ser assentado. Dizia ainda que um orçamento dessa obra já havia sido enviado à “secretaria do Império pedindo o correspondente crédito”. Solicitava então ao ministro urgência na questão para que não ficasse “mais tempo desaproveitada uma obra d’arte desta importância, para a qual concorreram com considerável soma os governos gerais e provinciais”, e que muito serviria “para o decoro daquele templo”. Por fim, encerrava ressaltando que a província do Pará, da qual o próprio ministro havia sido presidente (1868-1869) e que tanto já lhe devia, consignaria “com reconhecimento mais este beneficio”.270
Cabe dizer que esse documento, levado a público pelo jornal carioca há mais de dois meses após ter sido enviado ao ministro, já era conhecido dos leitores paraenses havia tempos. Na verdade, a “Boa Nova” publicou os mesmos ofícios ainda no dia 6 janeiro de 1877. Logo a matéria foi reproduzida e comentada pelos jornais de oposição a D. Macedo Costa. O tom pesado das críticas mostra o quanto a segunda metade da década de 1870 não seria favorável ao prelado. No dia 8 de dezembro, o conservador “A Constituição” e o maçônico “O Santo Offício”, respectivamente, comentaram o conteúdo dos documentos. “A Constituição”, aliada do bispo na Questão Religiosa, agora se voltava contra ele devido aos ataques desferidos pela “Boa Nova” ao cônego Siqueira Mendes, líder do partido conservador, logo após o seu retorno. Siqueira Mendes havia sido acusado pela gazeta diocesana de não ter apoiado devidamente o clero paraense durante o cumprimento da pena de D. Macedo. A resposta veio nas colunas de “A Constituição” de 7 de março 1876, que reproduzia o discurso do cônego no parlamento nacional, onde, inclusive, defendeu verba para a colocação do altar na Catedral.271 Voltando a 8 de janeiro de 1877, vemos que os ressentimentos ainda não haviam passado. Em sua matéria, “A Constituição” sublinhava que a “Boa Nova” havia publicado os ofícios dirigidos ao ministro do Império: um “pedindo a verba
270 DIOCESE do Pará. O Apostolo, sexta-feira, 16 de fevereiro de 1877. Anno XII, Numero 18, p.3, col.4. 271 A COSTITUIÇÃO. A Constituição, Belém do Pará, terça-feira, 7 de março de 1876. Anno III, Numero 53,
de 20:000$000 para conclusão das obras do seminário”, e outro “insistindo sobre o pedido feito ao mesmo ministério da verba necessária para colocação do altar-mor de mármore na nossa catedral”. Sem mais comentários sobre isso. Por outro lado, não deixou de fazer críticas eivadas de ironia em reprovação à nova viagem que D. Macedo faria a Roma para encontrar com Pio IX.272 Já o articulista de “O Santo Officio” foi bem mais duro e direto. O título da matéria é esclarecedor: “Insaciável sede de dinheiro”. O bispo diocesano, dizia a gazeta, “é um temível Minotauro dos cofres públicos. Não há dinheiro que baste à sua saciedade!” A própria “Boa Nova” teria demostrado “o amor desmesurado” do bispo ao dinheiro. Não bastavam a ele, afirmava o articulista, as coletas e proventos da caixa pia, as ajudas de custo “para os seus passeios”, as esmolas e dádivas que não tinham “o mérito da espontaneidade”. Recorria ainda “às choramingas para fincar o tesouro nacional e até lembrou-se de pedir indenizações de obras feitas sem ciência nem autorização do governo!” Mas os ataques não param por aí:
É demais! O túnel das Daneides fica aquém da insanidade de um tal bispo. Ainda não se hão passado quatro meses que s. exc. recebeu dez contos de
réis para reparos e mobílias do paço episcopal, e eis que em 4 do mês findo, solicitou do ministro do Império, o beato fardado da atualidade, mais vinte
contos de réis para concluir a construção de uma ala do mesmo paço; mais
dez contos de réis de indenização de obras feitas n’essa ala; e mais alguns
contos de réis, para erigir o altar de mármore, aquele celebre altar que tem servido de mina exuberante de dinheiro ao sr. bispo.
E s. exc. lembra-se do luxo para o seu paço, acréscimo deste edifício, do altar de mármore, lembra-se até de encher os seus bolsos a custa do tesouro nacional; mas esquece-se de pedir ao governo imperial dois contos de réis ao menos para auxiliar às obras de reparo da Igreja das Mercês!
Para isso não! Teria s. exc. de dar contas ao governo do emprego dos dois contos; e lá por casa é outra coisa! o governo não tem que meter o bedelho, sob pena de ser excomungado como ímpio e herege!
Suma razão teve o nosso amigo revd. padre Felix em dizer que o sr. D. Antonio custa os olhos da cara ao governo.
E faz bem; encha-se, sr. D. Antonio, enquanto José Bento é tesoureiro. Nem sempre encontra-se dois homens como ele.273
Recorrer ao governo central talvez tenha sido a única saída encontrada por D. Macedo na tentativa de obter fundos para dar andamento às obras da diocese. No ambiente local, como vimos, ele havia se desentendido com os antigos aliados e sofria os ataques de
272 REVISTA dos Jornaes. A Constituição, Belém do Pará, segunda-feira, 8 de janeiro de 1877. Anno IV,
Numero 5, p. 1, col.1.
273 INSACIAVEL sede de dinheiro. O Santo Officio, Pará-Brazil, segunda-feira, 8 de janeiro de 1877. Anno VII,
liberais e maçons. Além do mais, dificilmente poderia contar com recursos da província, que passava por dificuldades financeiras em 1877. Em fevereiro desse ano, enquanto o prelado se encontrava em Roma, João Capistrano Bandeira de Mello Filho, presidente da província, dizia ser “lamentável que, em um País como o nosso”, onde havia “uma Religião de Estado” e era “tão profundo o sentimento religioso”, não se mantivesse, em geral, “o culto público com a decência e o brilho congruentes aos atos da Igreja”. Apesar de ciente das obrigações do poder civil para com a Igreja, esbarrava na insuficiência do tesouro provincial para suprir as necessidades de paramentos e alfaias para matrizes do interior e fazer reparos em templos da capital.274 A situação financeira da província só começaria a se estabilizar no governo de seu sucessor, José Joaquim do Carmo.275 Mas isso não contaria a favor de D. Macedo. Havia o desgaste com Questão Religiosa e, logo depois, ele se viu às voltas com a Questão Nazarena. Para complicar, na Corte, em 1878, os liberais voltariam a assumir o Gabinete do Império na figura de Sinimbu. Já no Pará, o prelado teve que lidar com dois presidentes liberais, declarados opositores de suas pretensões ultramontanas: José da Gama Malcher e José da Gama e Abreu. Em sua breve passagem pela presidência da província naquele ano, Gama Malcher socorreu as matrizes do interior e, na capital, pediu ajuda ao mistério do Império para reparos na Igreja das Mercês,276 deixada, como se dizia, ao descaso pelo bispo. Em 1879, quanto então assumiu a presidência Gama e Abreu, as preocupações estavam voltadas para as obras da Igreja de Nazaré, implicada na Questão Nazarena.277 O assentamento do altar-mor? Bom, este não constava em seus planos, muito menos no orçamento da província. Se algum monumento tivesse que ser erguido, que fosse aquele em homenagem aos heróis da Guerra do Paraguai.
Podemos perceber as dificuldades que D. Macedo enfrentou em obter recursos para seu projeto pelo perfil das elites que agora assumiam o poder na província. Nesse
274 FALLA com que o exm. sr. dr. João Capistrano Bandeira de Mello Filho abrio a 2ª sessão da 20.a legislatura