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Apontada como a determinante socioeconômica de maior repercussão no acesso às IES, a renda, na maioria das vezes, atua sobre variáveis secundárias, tal como a explorada na seção anterior. Em virtude disso, indaga-se se seria necessária a exploração direta desta variável, visto que seus desdobramentos podem ser observados indiretamente por meio de outras. Sampaio, Limongi, e Torres (2000) acreditam que sim e se justificam com a seguinte colocação: não poderia se considerar os discentes da rede privada básica como um todo homogêneo, já que nela espargem-se alunos carentes (bolsistas), posicionados, pelo aspecto financeiro, atrás dos afortunados. Destarte, pode-se concluir que cada variável, apesar de

imbricada a outras, exerce uma parcela de influência nas possibilidades de ingresso universitário.

Assim, torna-se imprescindível uma análise própria, isolada da variável renda. O tipo de rendimento aqui referenciado é o familiar, que representa o somatório da renda bruta de todos os componentes do grupo doméstico. Ney, Carvalho e Souza (2008) proclamam que, no Brasil, a abismal diferença de renda entre as famílias é um problema que desiguala as oportunidades educacionais, cerceando a heterogeneidade no meio universitário.

A exclusão dos mais humildes ao ensino superior gera, como salientam Ney, Carvalho e Souza (2008), uma transmissão geracional da pobreza. A indisponibilidade de recursos, por sua vez, apresenta-se como limitante do bom desempenho escolar e, por conseguinte, do ingresso nas IES. O Gráfico 1 bem exprime essa relação circular entre renda e escolaridade.

Gráfico 1 – Escolarização dos jovens de 18 a 24 anos segundo renda média de suas famílias

Fonte: Sampaio, Limongi, e Torres (2000)

Os valores da coluna expressam os ganhos mensais familiares, em reais, e os da

linha, os anos de estudo dos jovens6. Do Gráfico 1, lê-se que a escolaridade, com exceção dos

quatro primeiros anos de ensino fundamental (praticamente universalizado), tem correlação positiva com os ganhos pecuniários. O maior impacto ocorre após os 11 anos de estudo. Nesse período que, de acordo com o padrão do IBGE, representa o ingresso no ensino superior, a renda média familiar eleva-se consideravelmente. Em suma, famílias de maiores rendas propiciam mais escolarização a sua prole, o que vem a confirmar a existência de um forte consórcio entre as altas rendas e o ensino superior.

      

6 A contagem dos anos começa pela primeira série do ensino fundamental, obedecendo ao padrão adotado pelo

As pesquisas sociais normalmente dividem os rendimentos familiares em categorias. No caso exposto na Figura 4 abaixo, a divisão ocorre em cinco partes iguais, em que cada unidade é denominada de quintil.

Figura 4 - Percentual da população de 18 a 24 anos que teve acesso ao ensino superior por quintis de renda – 1995 a 2008

Fonte: Andrade (2011)

A fórmula para o estabelecimento do tamanho de cada quintil foi subtração da maior pela menor renda, dividida por cinco. O primeiro quintil representa o menor grupo de renda; o segundo quintil, o segundo menor, enquanto o quintil cinco abrange a quinta maior parte da renda. Em cada quintil há uma série histórica do acesso de seus representantes, em termos proporcionais, ao ensino superior.

Ao analisar quintil a quintil, observa-se que na cronologia de 1995 a 2008 ocorre um progressivo aumento percentual dos discentes de todos os quintis no ensino superior, com raros casos de recuo. Na relação interquintil, todavia, independente do ano aludido, mantém- se a maior sinergia daqueles que possuem elevadas rendas (os dos últimos quintis) com o ambiente universitário.

Na presente seção, comparações interquintis assumem maior relevância que cotejos da progressão dos membros de um dado quintil no decurso do tempo. Tomando como referência o ano de 2008, menos de 5% dos jovens enquadrados no quintil um conseguiu ingressar numa IES; no quintil dois, a proporção ficou entre 5 e 10%; no quintil três, entre 10 e 15%; no quintil quatro, aproximadamente 20%; e no cinco, foi superior a 55%. Essas porcentagens confirmam que, apesar do crescimento da educação superior, as altas rendas continuam possibilitando maiores aprovações em seus processos seletivos.

De forma controversa, num país onde a maioria da população tem baixos rendimentos, na universidade essa lógica se inverte. Se a proporção de alunos ricos no interior das IES fosse refletida na sociedade, o Brasil, certamente, não seria um país subdesenvolvido. A relação entre o meio social e o universitário, em termos de renda familiar, é ilustrada no Gráfico 2.

Gráfico 2- Proporção de pessoas de 18 a 24 anos que frequentam curso superior e distribuição da população segundo faixas de renda familiar per capita (em SM)

Fonte:Andrade (2011)

Os dados mostram que a maior parte da população brasileira (75,2%) têm renda de até 1,5 SM, ao passo que a representação daqueles que ganham acima dos cinco mínimos (3,2%) é cerca de vinte vezes menor que a do grupo mais humilde. A linha azul mostra ainda que o número de indivíduos na sociedade amiúda-se conforme a renda aumenta, tendo queda mais acentuada entre o grupo que recebe de zero a 1,5 salário e o que ganha entre 1,5 e três mínimos.

As colunas do Gráfico 2, representantes da proporções de jovens no ensino superior, se opõem ao que ocorre fora dele, uma vez que, por exemplo, a maioria da população universitária (71,9%) é formada por indivíduos com renda acima de cinco salários mínimos, pouco abrigando a maioria social.

Na concepção de Gisi (2006), a baixa participação dos menos abastados na educação superior decorre, em parte, dos altos níveis de evasão no ensino básico, fruto, muitas vezes, da falta de recursos para custear transporte e material escolar. As deficiências alimentares que, biologicamente, tornam o processo de aprendizagem pouco efetivo, é outro aspecto a colaborar com o fracasso escolar/acadêmico dos inclusos nesse nicho.

Os resultados de alguns ENEMs7 confirmam que à medida que a renda familiar

cresce, a performance no referido exame se eleva substancialmente (NEY; CARVALHO E SOUZA, 2008). Essa diferença de desempenho, numa perspectiva indutiva, pode ser estendida às possibilidades de acesso ao ensino superior, uma vez que os antigos ENEMs imediatamente antecediam o vestibular.

Acerca dessa variável, Azevedo e Salgado (2012) fazem a seguinte conclusão: a despeito das intervenções do Estado, oferecendo mais de um milhão de vagas por ano em

universidades gratuitas, a educação superior brasileira mantém-se progressiva8.