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Jorda er laglig og det haster med å så på grunn av mye nedbør i vente

3.5 Strategier for våronn ved ulaglige forhold

3.5.2 Jorda er laglig og det haster med å så på grunn av mye nedbør i vente

“A Universidade desejada por nós e acalentada em nossos melhores e mais persistentes sonhos é uma rica mistura em que o zelo por um cotidiano marcado pela qualidade se soma a uma teimosa dosagem de utopia”

(Ana Lúcia Almeida Gazzola)

Neste capítulo, anunciam-se vestígios da relação que a UFC estabeleceu, ao longo de sua história, com os grupos sociais formadores da sociedade cearense, mormente com as elites locais. Torna-se oportuno, assim, discorrer sobre sua cronologia.

Em 1955, sob auspícios de expoentes intelectuais locais, de modo específico os de Antônio Martins Filho, teve gênese a Universidade Federal do Ceará. Maturada desde os anos 40, quando Antônio Xavier de Oliveira encaminhou ao ministro da educação e saúde um documento que cogitava a ideia de uma universidade com sede em Fortaleza, a UFC surgiu com o objetivo de suprir a carência de profissionais necessários ao desenvolvimento regional, alinhando-se aos propósitos de seu contemporâneo, o Banco do Nordeste do Brasil - BNB (MARTINS FILHO, 2004A).

De início, a universidade resultou da agregação de quatro faculdades já existentes, a saber: Direito, datada de 1903; Farmácia e odontologia, de 1916; Agronomia, de 1918; e Ciências Econômicas, de 1939 (MARTINS FILHO, 1990). Barbosa e Martins Filho (1975) esclarecem que não bastava tão somente reunir escolas isoladas sob uma administração central; era preciso transformá-las e ajustá-las às exigências de progresso econômico e social do Ceará. Nessa perspectiva, outros cursos foram agregados à UFC e alguns mais foram criados, de modo a propiciar um corpus de formação de mãodeobra qualificada, valioso para a atenuação da pobreza que assolava o estado.

Diplomar os supostos membros das classes dirigentes era uma das principais missões das escolas superiores que precederam a UFC. Não se concebia que a universidade se resignasse a esse mister, considerado herança de um período semicolonial. Martins Filho

(1966) assinala que os graduados na UFC deveriam constituir, a priori, lideranças operacionais em seus respectivos campos de formação. O envolvimento direto com o ofício no qual se obtivera o diploma tornava-se imprescindível.

Ao justificar a importância do estabelecimento universitário cearense, Martins Filho (2004B, p. 32) discursa que “a Universidade não é, como muita gente pensa, um requinte de vaidade, uma demonstração de exibicionismo intelectual, senão, hoje como ontem, uma necessidade que se impõe aos interesses educacionais da coletividade”. Conquanto, a origem do termo universidade, que remete ao período medieval e deriva da expressão latina Universitas, designa primitivamente uma corporação ou comunidade, isto é, agrupamento de pessoas representativo de uma determinada classe (MARTINS FILHO, 2004B). A ideia de “coletividade” contrapõe-se, assim, com a de “uma determinada classe”. Grande parte dos autores considera a segunda proposição mais próxima à realidade. Entre eles, Rodolfo (2012) assevera que não se pode dizer que a Universidade do Ceará selecionava os “ingressantes ideais”; o que de fato havia era um sistema educacional voltado para beneficiar as elites, em detrimento das massas.

Curioso é observar que o primeiro estatuto da UFC fazia o seguinte registro: entre as atribuições do conselho universitário estava a de conceder bolsas para auxílio a estudantes de comprovada capacidade (MARTINS FILHO, 2004B). Tal episódio era visto como uma constatação de que os pobres não tinham espaço nesse meio, pois a lógica seria ofertar suporte financeiro a estes e não aos de maior capacidade, que não necessariamente teriam problemas de ordem pecuniária.

Na época, havia um interesse dos componentes das tradicionais famílias cearenses em manter-se atualizados com os padrões comportamentais importados da Europa. A UFC era, por eles considerada, palco onde os gostos refinados, principalmente os europeus, deveriam ser compartilhados e replicados. Festas e eventos promovidos pela instituição registravam grande concorrência, sendo disputados os convites (MARTINS FILHO, 2004A). Ao frequentar a universidade, mesmo fora da órbita discente, o indivíduo parece que mudava de status. Se a presença esporádica na UFC tinha uma conotação nobre, o que se diria dos que cursavam suas graduações?

Já nos primeiros anos de funcionamento, a UFC também assumiu a missão de difusora do conhecimento cultural no estado. Para esse desígnio foram criados a imprensa

universitária e o museu de arte. Questionava-se, porém, quem poderia fazer parte desse avanço cultural e diretamente ser atingido por ele no Ceará de meados dos anos cinquenta.

Estatísticas apontam que no período cerca de 50,5% da população brasileira era analfabeta. No Ceará, apesar de não ter sido possível acesso a dados específicos, provavelmente a taxa de analfabetismo superasse a nacional. Como bem coloca Rodolfo (2012, p.9),

um grupo reduzido de pessoas sabia ler e escrever, ou simplesmente assinar o nome, mais reduzido ainda seria o grupo que chegaria aos bancos da universidade naquele período. Podemos dizer ainda que além de reduzido em números, esses estudantes faziam parte da elite cearense da época. O mercado de trabalho ainda aceitava maciçamente a mão de obra que tivesse concluído apenas o primário, os profissionais de ensino eram formados pelas Escolas Normais, o Ensino Secundário público se restringia, basicamente, ao Liceu, que por sua vez concentrava boa parte dos filhos da elite, que seriam os mais “capazes” de ingressar na Universidade do Ceará. Desse modo, não havia uma necessidade imposta pela própria estrutura do Estado e da economia naquele período para que se estimulasse a formação acadêmica e a UFC, como representante dos interesses do Estado, mantinha-se confortável em receber os candidatos oriundos da elite. 

Até o final da década de cinquenta, a UFC permitia frequência paralela em mais de uma graduação. Enquanto os que procuravam afirmação social ocupavam duas vagas na IES, outros ficavam à margem do processo formativo superior (MARTINS FILHO, 1966). Era só uma questão de tempo para que grande parte dos matriculados desistisse de um curso, permanecendo no outro, em que haveria maior afinidade.

Os altos níveis de evasão muito oneravam a universidade. Proibir-se a duplicidade de matriculas foi um primeiro passo para minimizar o abandono discente e, por conseguinte, as perdas financeiras decorrentes desse fenômeno. Com igual finalidade, procurou-se também aperfeiçoar o processo seletivo de modo a explorar a aptidão e o grau de maturidade do candidato para o exercício da profissão vislumbrada. Assim, foi concebido o Ano Vestibular, substitutivo do tradicional exame vestibular que não aferia as tendências dos candidatos para os estudos a que se destinavam.

Encarado como concurso de habilitação, o Ano Vestibular consistia em colocar alunos na condição de estudos de assuntos diretamente ligados a sua área formativa e a partir dessa experiência identificar a existência (ou não) de habilidades para o exercício profissional. Martins Filho (1966, p.151), referenciando o Ano Vestibular, aduz que:

a única maneira de saber se um candidato está em condição de estudar Medicina ou Engenharia, por exemplo, com real proveito é, precisamente colocá-los numa

situação de estudo de Medicina ou de Engenharia a fim de observar demoradamente, as suas reações aos aspectos básicos de preparação para essa profissão.

O Ano Vestibular era considerado como uma seleção durante o curso, visto que conseguia manter o aluno meio na universidade, meio fora dela, por um ano. Após dois semestres letivos, os mais “vocacionados” permaneciam na UFC, podendo ser adjetivados como universitários, enquanto os demais eram considerados inaptos e, em virtude disso, retirados da instituição. É de conhecimento científico que o contato precoce com uma profissão a torna mais simpática, sendo aumentando o grau de afinidade do sujeito para com ela. Nesse diapasão, acredita-se que o novo instrumento seletivo, de forma velada, tenderia a beneficiar os descendentes de famílias com membros de nível superior, uma vez que, por exemplo, filhos de médicos, teriam maior predisposição para essa área que filhos de uma faxineira; filhos de advogados, idem na sua respectiva seara, e assim por diante. Resulta confirmar que a metodologia utilizada no Ano Vestibular beneficiava, mesmo que intencionalmente, aqueles retaguardeados por ascendentes ou familiares com formação superior, raros nas bases sociais.

O Ano vestibular, que teve breve existência, foi parte de um plano maior de desenvolvimento institucional, denominado Planejamento para Seis Anos. Tal documento previa as realizações e atividades para a UFC no interstício de 1961 a 1966. Segundo Martins Filho (1966, p. 26):

planejava-se a longo prazo para que a Universidade do Ceará pudesse atingir o ano de 1966 num plano realmente orgânico de funcionamento, com um ensino tido como satisfatório, um razoável nível de pesquisa científica e uma irradiação de sua influência capaz de levar cada cearense a considerá-la de fato a sua universidade. O que se viu, no entanto, após esse período, foi uma universidade distante de ser representativa de todos os grupos que compunham a sociedade cearense. Questiona-se se seria coerente considerar a universidade como “sua”, conforme sugerido, sem a possibilidade de ingresso.

Em 1975, com duas décadas de funcionamento, a UFC contava com 29 graduações, agrupadas em seis centros de pesquisa. Os 1224 alunos matriculados no primeiro ano de funcionamento contrastavam com os 13000 de 1974 (MARTINS FILHO, 1975). Apesar da ampliação de vagas, a universidade continuava se portando como espaço das elites (MARTINS FILHO, 1975).

Seguindo a cronologia, sublinha-se que no período militar, iniciado em 1964, se escassearam as publicações relacionadas ao acesso à UFC. Talvez por trazer à tona privilégios dos altos círculos sociais, foram arrefecidas as notícias sobre o público que conseguia ingresso na instituição. Evitava-se, naturalmente, levantar assuntos passíveis de repressão, mesmo que condizentes com a realidade. Conquanto, procurou-se estabelecer uma aproximação entre a “missão primordial da universidade – formar elites, com a tarefa, não menos digna e também educacional do exército – fortalecer no caráter do cidadão o necessário complexo de virtudes cívicas e morais.” (MARTINS FILHO, 1966, p.189). As atividades de ambas deveriam convergir, repercutindo diretamente na formação dos mesmos jovens.

Alguns elementos relacionados a mudanças promovidas nos vestibulares da UFC, todavia, oferecem pistas acerca do público preferido nesse meio. Durante muitos anos, mais especificamente entre 1978 e 1996, as questões dos vestibulares foram elaboradas no estilo somatório, que substituíram as de múltipla escolha. A tentativa de eliminar o acerto ao acaso teve como efeito colateral a elevação das reprovações no certame. Afunilavam-se ainda mais as possibilidades de ingresso. Em 1992.2 (segundo semestre letivo de 1992) chegou-se a ser realizado um segundo vestibular, tamanha a ociosidade de vagas decorrentes das reprovações. Em 1994.1 (primeiro semestre letivo de 1994), 12,65 % dos assentos universitários não foram ocupados; em 1994.2, esse número passou para 17,98%; e em 1995.1, 26,04% (SILVA, 2007).

Fazendo uso da fala de um dos presidentes da Comissão Coordenadora do Vestibular (CCV), órgão colegiado que elaborava as provas seletivas, Silva (2007) transcreve que o público mais apenado pelo sistema de questões somatórias foi o oriundo de escolas públicas. Tais questões exigiam maior preparação, condizente com a demandada nos colégios particulares, que passaram a se identificar com esse formato de prova e, consequentemente, com o acesso à universidade.

A troca das provas somatórias por de múltipla escolha urgia pressa, pois se acreditava que isso atenuaria a iniquidade observada nas seleções, ao passo que também

resolveria o problema das vacâncias (SILVA, 2007). Tal necessidade encontrou apoio na

resolução nº 27 do Conselho de Ensino Pesquisa e Extensão (CEPE), datada de 18 de setembro 1997. Entre suas considerações, o documento admite: “o concurso vestibular deve [...] reduzir o percentual de vagas ociosas, democratizando o acesso à universidade”. Em outro trecho, a resolução reforça que o acesso de todas as camadas sociais à UFC configura-se

como questão fundamental. Nesse esforço, em 1997 as provas do tipo múltipla escolha foram retomadas.

Num discurso autorreferenciado como realista, todavia, o já citado presidente da CCV contesta: não haveria de ser o novo vestibular que retiraria a “barreira” existente para aprovação de alunos de meios mais humildes (SILVA, 2007). O docente, em sua fala, enfatiza a necessidade de ações outras que, de forma conjunta com as existentes, promovam a equidade no ingresso.

É nessa direção que, ao final da década de 90, principiou-se o fomento de políticas expansionistas, consideradas como relevantes interfaces para o processo de democratização universitária (SULIANO, 2013). Destarte, a interiorização da UFC começou a tornar-se realidade, resgatando a ideia de universidade voltada para o regional apregoada por Martins Filho. O primeiro braço da UFC no interior do estado fincou-se em Sobral, cidade do norte cearense que, a partir de 1997, passou a receber graduando em Direito. Em 2000, um curso de medicina também foi instalado na região, sendo contemporâneo do curso médico inaugurado em Barbalha.

No ano de 2005 a universidade cearense aderiu ao Programa de Expansão do Sistema Federal de Educação Superior. No cenário local ele teve entre suas feituras a criação dos campi de Sobral e do Cariri. Em 2007, a UFC irradiou-se também para a região do Sertão Central, onde um terceiro campus avançado foi implantado: o de Quixadá.

Destaca-se que os moradores dessas localidades, com a chegada da UFC, passaram a acreditar com mais vigor na possibilidade de se cursar uma graduação, em especial numa IES com qualidade amplamente reconhecida. Ingressar numa universidade de renome, que atrela status ao diploma conferido, já não era mais tão utópico. A UFC começara a servir a um público, decerto, mais carente, já que as cidades interioranas têm Índices de

Desenvolvimento de Município (IDM)10 abaixo do registrado na capital (SULIANO, 2013).

Outro marco do processo expansionista da UFC foi sua adesão ao REUNI. Entre os pontos mais relevantes no projeto elaborado pela universidade em adesão ao programa, destacavam-se a ampliação e diversificação do atendimento e a inclusão social.

      

10 Este indicador procura definir o nível geral de desenvolvimento dos municípios do Ceará, incorporando seus

Para o período de 2008 a 2012, a expansão da UFC autorizada pelo REUNI deu- se basicamente por meio de duas estratégias: criação de vagas em cursos já existentes e inauguração de novos cursos, tanto em Fortaleza quanto no interior. Brasil (2007) reitera que à medida que se ampliam as vagas e multiplicam-se os cursos, diminui-se a elitização das IES. Também sob o aspecto inclusivo, no ano de 2010 a UFC passou a utilizar o ENEM/SISU como instrumento seletivo. Seus aprovados passaram a ingressar na instituição a partir do ano seguinte, 2011. Indo contra os interesses dos grandes colégios, há muito habituados com a preparação para os vestibulares, a UFC inaugura um novo período concernente ao processo de admissão de calouros. Como já visto no Capítulo 3, o ENEM/SISU promete democratizar o acesso universitário. Dessa forma, seu uso na UFC implicaria uma mudança de perfil do alunado selecionado, tornando-a menos elitista.

Observando números recentes, identifica-se que a UFC foi a IES vinculada ao SISU mais procurada pelos proponentes a universitários nos anos de 2011, 2012 e 2013, desbancando, inclusive, universidades de maior tradição como UFRJ e UFMG. Mercadante (2013) atribui essa grande procura à excelência da instituição. Farias (2013) ratifica tal qualidade ao afirmar que quase todos os cursos da UFC registram nota quatro ou cinco (que é a nota máxima) no índice de avaliação do MEC, sendo raros os cursos com nota três. A boa quantidade de vagas também pode justificar essa maciça procura, acredita Mercadante (2013). Conclui-se que a combinação de aspectos qualitativos e quantitativos tem sido chamariz de novos alunos para a UFC.

Langlois (2007) manifesta a ideia de que quanto maior a concorrência, mais elitista é o perfil do discente selecionado. Admite-se que, num ambiente de grande disputa, a consciência de que as vagas mais concorridas são ocupadas, preferencialmente, por alunos de condição socioeconômica privilegiada tende a levar a uma desistência natural dos candidatos de outros perfis (SASSINE, 2007).

Nesses termos, questiona-se se a elevada procura pela UFC não estaria neutralizando o efeito democratizante preconizado pelo ENEM/SISU. Essa inquietação permanece em pauta até a criação do sistema de cotas em Instituições Federais de Ensino superior (IFES). A reserva de 12,5% das vagas da UFC, em 2013, para egressos de escola pública, nos moldes sugeridos para a PAA, tende a amortecer as (perversas) consequências dessa grande demanda. Com a obrigatoriedade das cotas, que se encontra apenas na primeira

fase de implantação, discentes da rede pública passam a enxergar como legitimada sua presença nesse ambiente.

Um levantamento pormenorizado do perfil dos ingressantes permite confirmar (ou refutar) as especulações que apontam para a ocorrência de um processo deselitizante na UFC, evento que formataria uma imagem institucional melhor representativa dos diversos nichos constituintes da sociedade cearense.