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O ambiente complexo das organizações, principalmente na atualidade, exige dos indivíduos uma interação mais abrangente no que se refere ao seu campo de atuação profissional.

Esta complexidade pauta-se nas interrelações, existentes entre as várias áreas de conhecimento envolvidas nas organizações, os relacionamentos pessoais, o mercado, as técnicas, a tecnologia, a prestação de contas. Enfim, uma organização com ou sem fins lucrativos é como um organismo vivo no qual o funcionamento de um órgão depende do bom funcionamento de outros, e este ambiente é aquele onde o homem interage profissionalmente.

Os mercados emergentes, a globalização e as relações interpessoais são fatores essenciais para a mudança de paradigmas em relação ao ambiente social

em que ocorrem os fatos determinantes para um desempenho profissional satisfatório.

Cada vez mais, torna-se necessário ao ser humano compreender o ambiente e as circunstâncias em que ele está envolvido, nos mais variados aspectos das relações humanas e sociais, e isso passa a ser questão até de sobrevivência num mundo cada vez mais competitivo.

Como uma ferramenta dentro deste processo, cabe às Ciências Sociais, em suas diversas especialidades, o papel de interlocução e mediação dos conflitos sociais, que permeiam este contexto, por causa de suas características de transdisciplinaridade e capacidade qualitativa de interpretação e análise dos fenômenos sociais.

Como exemplo, pode-se citar a Psicologia, mesmo classificada como Ciência Humana, possui seu aspecto transdisciplinar relacionado às Ciências Sociais, quando observada por meio da perspectiva relacionada aos fatores socioculturais, como o fato de interagir na presença de outras pessoas, de interpretar as expectativas da sociedade e do meio cultural, as influências no círculo familiar, de amigos e modelos de papéis sociais.

No caso da Economia, Ciência Social que estuda a atividade econômica por meio do desenvolvimento de suas teorias, e tem na administração estatal ou privada a sua aplicação, observou-se como contribuição as Ciências Sociais, o estudo e a interpretação dos fatores comportamentais do mercado, relacionados à oferta e à demanda, utilizando, para isso, métodos qualitativos baseado em modelos matemáticos e cálculos de funções.

A Sociologia, como Ciência Social, procura argumentos para explicar e analisar os seres humanos em suas relações de interdependência, no sentido de compreender as diferentes sociedades, culturas e as condições em que ocorrem os fenomênos sociais. A abordagem Sociológica contábil foi citada por Hendriksen.

O raciocínio transdisciplinar pode ser obtido por meio de estudo, análise e investigação oferecidos por intermédio das Ciências Sociais e possui as ferramentas científicas necessárias para trabalhar na busca de contribuições que possam esclarecer os relacionamentos humanos.

A Contabilidade também faz parte deste contexto complexo, que pode ser observado como um cenário onde as relações sociais, psicológicas e econômicas estão em pleno andamento dentro de uma dinâmica organizacional, exigindo

posicionamento estratégico para que os resultados sejam alcançados de maneira satisfatória.

A discussão sobre a cientificidade da contabilidade é algo que ainda incomoda no ambiente acadêmico, mas não é motivo para preocupações, pois tal discussão de forma alguma mudará os rumos desta área de conhecimento já consolidada na sociedade.

Observou-se a existência da diferença, relacionada entre o caráter utilitário da contabilidade e sua prática operacional. O caráter utilitário baseia-se nos benefícios que as informações produzidas podem oferecer aos usuários das informações. A prática operacional baseia-se em sua metodologia de escrituração e registro das informações.

No caráter utilitário, as informações são consumidas pelo usuário no processo de prestação de contas e de tomada de decisão. A prática operacional está preocupada com a preservação e a memória das informações para consulta, fiscalização, auditoria e perícia.

Ao longo de sua evolução, a contabilidade pode ser observada por seu caráter estritamente escritural, deixando claro esta tendência. Este estereótipo acabou se instalando no consciente coletivo da sociedade contemporânea, gerando, dessa forma, um parâmetro de julgamento limitado em relação à verdadeira essência e identidade da contabilidade.

Devem ser consideradas as perspectivas e os aspectos históricos do desenvolvimento das técnicas e do raciocínio contábil e, somente desta forma, pode- se compreender os fundamentos sobre os quais foram construídos os alicerces conceituais da evolução contábil.

Esse conhecimento ainda é restrito nas universidades, o estudo da evolução contábil é disciplina rara oferecida nos cursos universitários de graduação, o que dificulta discussão mais aprofundada sobre o caráter científico da contabilidade no meio profissional e até mesmo acadêmico.

Nas organizações, ambiente em que a contabilidade é desenvolvida, em decorrência das características objetivas e pragmáticas deste contexto, não existe necessidade de discutir cientificidade, e tal pensamento sequer encontra espaço na agenda dos executivos, que estão preocupados tão somente com os aspectos utilitários da informação.

Observou-se a ambiguidade existente nos contextos que envolvem a contabilidade, sendo esta representação definida:

 em relação à condição de materialização contábil, representada pelo caráter escritural e burocrático da contabilidade;

 em relação à condição de interpretação contábil, representada pelo caráter conceitual da contabilidade sobre a análise dos fenômenos que interferem nas relações sociais do ambiente organizacional.

Quanto ao primeiro problema desta pesquisa, que investiga os argumentos teóricos e científicos que poderão contribuir para fundamentar e justificar o tratamento e a classificação da Contabilidade como uma Ciência Social, constatou- se:

A Contabilidade atente aos requisitos necessários para sua classificação como uma Ciência, e possui:

 objeto de investigação, que no caso é o patrimônio de entidades ou organizações com ou sem fins lucrativos;

 metodologia de investigação fundamentada por meio de teorias próprias, princípios, normas e regras que norteiam o uso e aplicabilidade de suas práticas.

 caráter relevante e utilitário para o desempenho e mensuração nos processos de prestação de contas;

 caráter de controle, organização e fiscalização necessário para o desempenho das atividades econômicas;

 missão de analisar e interpretar os fenômenos sociais que envolvem as relações humanas praticadas nos ambientes organizacionais, e conclui-se:

a) trata-se de uma Ciência Social, que tem como objetivo investigar e diagnosticar o comportamento dos elementos que integram os recursos e as riquezas que constituem o patrimônio das entidades com ou sem fins lucrativos.

b) as variações do patrimônio estão condicionadas aos resultados obtidos pela ação humana, que criam conflitos e expectativas, evidenciando assim a natureza social do ambiente que a contabilidade atua.

c) a natureza matemática da contabilidade é necessária para mensurar e avaliar os elementos patrimoniais, cuja manipulação destes elementos depende das decisões tomadas pelo homem que vive em um ambiente social.

A contabilidade também pode ser considerada como uma prática:

 quanto à aplicabilidade e utilização dos mecanismos e da metodologia de escrituração;

 quanto ao trabalho que exige o desenvolvimento de atividades burocráticas.

Constatou-se uma contribuição conceitual que evidencia duas condições: a ciência social que trata da observação, análise e tratamento dos fenômenos patrimoniais e seus agentes. E a prática que trata dos aspectos escriturais e burocráticos que representam as formalidades.