3 RESULTS AND DISCUSSION
3.1 After incubation
O convite de Edgar Morin para pensar vai muito além do questionamento literal. Trata-se de um convite para agir, reagir e interagir. Os verbos exigem ação, reação e interação, exige movimentação, busca por argumentos e relacionamentos.
A proposta do Pensamento Complexo é ampliar os limites da compreensão, sem pré-julgamentos ou exclusões. Trata-se de expandir o ponto de vista, centralizar o foco, corrigir a miopia, estabelecer critérios e condições para o diálogo do conhecimento.
O complexo pode ser o exercício de uma abstração que possui a capacidade de observar várias etapas sem estabelecer vínculos efetivos e reducionistas, uma capacidade de estabelecer equilíbrio.
Por analogia a uma embarcação, o pensamento complexo também pode navegar de um extremo ao outro, passar por vários portos sem ter que necessariamente ancorar em todos.
O Pensamento Complexo é uma proposta transdisciplinar que respeita os limites do saber, que não separa, mas agrega; que não reduz, mas amplia; que não desliga, mas conecta; que não descarta, mas recicla; e que, principalmente respeita as fronteiras epistemológicas.
Uma grande virtude do pensamento complexo é a receptividade, a capacidade de compreensão dos diversos segmentos da ciência. Tal percepção nem sempre é bem aceita no mundo acadêmico, há muito que se fazer para divulgar esta abordagem.
Assim como a contabilidade pode ser definida atualmente como a linguagem
dos negócios, o Pensamento Complexo pode ser definido como a linguagem dos saberes, partindo do contexto da receptividade, que por sua vez promove aceitação
e tolerância, como ensina Morin:
A verdadeira tolerância não é indiferente às ideias ou ao ceticismo generalizados. Supõe convicção, fé, escolha ética e ao mesmo tempo aceitação da expressão das ideias, convicções, escolhas contrárias às nossas. A tolerância supõe sofrimento ao suportar a expressão de ideias negativas ou, segundo nossa opinião, nefastas, e a vontade de assumir este sofrimento (MORIN, 2000, p. 101-102).
Tolerar não significa aceitar. Significa suportar aquilo que parece diferente ou alheio ao meio em que se vive. Trata-se da prática da não rejeição voluntária e consciente, com o firme propósito de compreender o diverso, entender o que a princípio pode ser rejeitado por preconceitos ou pontos de vista contrários; ser tolerante, além de tudo é ser gentil e amável, trata-se de educação e etiqueta acadêmica ou social e, acima de tudo, respeito com o seu semelhante.
Observou-se dentro do Pensamento Complexo uma categoria bem definida, a qual se pode denominar de Abordagem da Receptividade, que procura recepcionar os diversos saberes, sem excluí-los arbitraria ou preconceituosamente, dando a oportunidade para o estabelecimento de um diálogo de caráter científico, respeitando os limites e as fronteiras metodológicas e epistemológicas, criando uma
linguagem dos saberes com o objetivo de interpretar, associar e discernir sobre o
pensamento científico contemporâneo.
A contabilidade está ligada a outras áreas de conhecimento, como direito, economia, administração, matemática, e necessita transitar no meio destas áreas,
de forma a não criar compartimentos reducionistas, mas agregar valor como ciência que promove a linguagem e interpretação dos negócios que falam vários idiomas.
A abordagem receptiva deve ser considerada pela contabilidade como ferramenta de trânsito entre as diversas áreas do saber a qual ela está diretamente relacionada devido as suas características qualitativas que promovem a interpretação dos fenômenos sociais que formam o ambiente onde a contabilidade atua.
O Pensamento Complexo adequa-se perfeitamente à necessidade que a contabilidade possui de interagir em seu meio, agindo como agente facilitador e direcionador, fornecendo subsídios para incentivar a contabilidade a procurar caminhos e soluções sem preconceitos ou discriminações práticas e acadêmicas.
A contabilidade é, por natureza, complexa. Não há receita específica que possa determinar a exatidão ou a absoluta convicção da aplicabilidade de suas metodologias. Há julgamentos e discussões sobre métodos e critérios, a sua própria história assim revela.
O processo de internacionalização da contabilidade abre caminho para uma discussão global, possibilitando um avanço metodológico com o objetivo de melhorar e padronizar as técnicas e práticas contábeis.
A contabilidade internacional promove a abertura para o debate e o crescimento da ciência contábil, tão necessária para a análise e interpretação dos resultados obtidos pelos detentores do capital. O capital não possui pátria, ou seja, permanece no lugar onde a sua remuneração torna-se atraente, caso contrário, migra sem satisfação alguma.
Levando em consideração todo este processo de mudanças pelo qual passa a contabilidade no contexto de sua internacionalização, fica evidente a necessidade que a contabilidade tem em procurar novos horizontes e condições epistemológicas para atuar em diversas áreas de conhecimento, fazendo do Pensamento Complexo um importante e indispensável aliado para subsidiar e fornecer autoridade científica para que a contabilidade tenha condições de se estabelecer como ciência que promove o bem estar e a satisfação de seus agentes, sem preconceitos, reducionismos e fragmentações, abrindo caminho para discussões e soluções que possam atender as demandas e os interesses dos usuários da contabilidade.
Quanto ao segundo problema desta pesquisa, que investiga a utilização do Pensamento Complexo como instrumento de abordagem metodológica, com o
objetivo de interpretar um diálogo acadêmico entre a Contabilidade e as Ciências Sociais, conclui-se que, devido a sua capacidade de conduzir as áreas do conhecimento a um equilíbrio epistemológico, condição muito bem recepcionada no contexto desta pesquisa, o Pensamento Complexo pode ser perfeitamente utilizado como abordagem metodológica cuja finalidade é criar interlocução e diálogo transdisciplinar entre a Contabilidade e as Ciências Sociais.
Conforme investigação desta pesquisa, encontramos pouco material sobre o Pensamento Complexo ter sido abordado, tratado e considerado por pesquisadores na área das Ciências Contábeis. Porém, constatou-se a existência e a possibilidade dos primeiros desafios neste sentido.
O Pensamento Complexo cria uma ponte entre estas áreas do saber ao proporcionar a integração e o refinamento do discurso que trata de relacionamentos, na busca de argumentos e fundamentos capazes de promover a ampliação do contexto ambiental no qual estas duas ciências interagem respeitando, desta forma, as limitações de cada uma, promovendo as virtudes de ambas.
A mediação promovida pelo discurso do Pensamento Complexo torna universal o diálogo entre as ciências ao promover intercâmbio de valores no momento em que o conhecimento é observado como um todo e as especificidades são consideradas componentes essenciais, que contribuem para resultados satisfatórios. O Pensamento complexo não nega as diferenças: insere-as em contextos inclusivos mais amplos, parte e todo estão em permanente relação.
A Contabilidade como uma Ciência Social tem condições de responder com mais agilidade às demandas contemporâneas inerentes aos conflitos de interesses entre os grupos sociais, que a utilizam como instrumento de análise do comportamento patrimonial. O Pensamento Complexo é o elo que possibilita a convivência pacífica e harmoniosa deste diálogo interdisciplinar, fornecendo um cenário favorável para que a ciência possa transitar em lugares até então nunca conquistados.
Não há regras ou fórmulas para uso e aplicação do Pensamento Complexo e, as complexidades das ciências, quando unidas pelo propósito de construir um ambiente harmonioso, de convivência e tolerância epistemológica, tornam-se compreensíveis, possibilitando acesso àquilo que parecia incompreensível quando observado isoladamente.