Na posição intervocálica o ‘r-forte’ foi realizado como fricativo velar surdo [x], velar sonoro [ɣ], glotal surdo [h], glotal sonoro [ɦ], palatal surdo [ç] e uvular surdo [χ].
Fricativo Velar Surdo - [x]
Foram identificadas ocorrências de [x] em sílaba tônica medial e final, assim como em sílaba átona medial e final.
Figura 8: forma da onda e espectrograma contendo o rótico realizado como [x] na sentença ‘derramou a tinta’, evocado por BSB_MAS_034 (22).
O rótico fricativo em destaque no espectrograma foi identificado como velar dada a localização da sua distribuição e concentração de energia nas frequências altas do espectrograma, quando comparado com o fricativo glotal, do ponto de vista da característica visual do espectrograma e da distinção auditiva entre esses sons, no mesmo sujeito.
Considera-se que este segmento seja surdo, pois há uma interrupção da barra de sonoridade durante a produção do rótico, ainda que o espaço correspondente na base do espectrograma esteja manchado, provavelmente por ruído captado durante a gravação. Ressalta-se que a ausência de sonoridade foi também percebida por oitiva.
Outras Ocorrências de [x]
LGS_LGN_MAS_013: ‘cachorro’→ [ta.ˈʃoːxu ] BSB_BSB_MAS_054: ‘garrafa’→ [ka.ˈxa.fə] BSB_BSB_FEM_125: ‘ferro’ → [ˈfɛ.xu] LGS_LGS_MAS_097: ‘o rádio’ → [u.ˈxa.ʤiw]
Fricativo Velar Sonoro – [ɣ]
Foi registrada ocorrência de [ɣ] em sílaba tônica medial e final, assim como em sílaba átona medial e final.
O segmento [ɣ] pode ser visualizado no espectrograma da figura 9.
Figura 9: forma da onda e espectrograma contendo o rótico realizado como [ɣ] na sentença ‘carregando carreta’, evocada por LGS_MAS_097 (80).
Os dois róticos em destaque foram produzidos na região velar do trato vocal, identificados pelo ruído de fricção cuja representação pode ser vista no espectrograma, em associação com o reconhecimento auditivo do som.
Nota-se a continuidade da cor escura, indicativa de presença de vozeamento, na base do espectrograma, tal como ocorre com as vogais adjacentes.
Outras Ocorrências de [ɣ]
LGS_LGN_MAS_013: ‘correndo’→ [to.ˈɣ n.tu ] BSB_BSB_MAS_034: ‘barriga’ → [pa.ˈɣi.kɐ ] BSB_BSB_MAS_054: ‘escorregou’→ [is.ku.ɣe.ˈgo] LGS_LGS_MAS_065: ‘garrafa’→ [gə.ˈɣa.fɐ] BSB_BSB_FEM_125: ‘marrom’→ [ma.ˈɣõn] BSB_BSB_MAS_076: ‘barriga’ → [ba.ˈɣi.gɐ]
Interessante notar que as produções de BSB_BSB_MAS_034 e de BSB_BSB_MAS_076 para o vocábulo ‘barriga’, cujo rótico produzido foi o fricativo velar vozeado [ɣ], estão de acordo com a descrição de Cagliari (1981), segundo a qual, “a maioria
das pessoas diz a palavra ‘barriga’ com a fricativa velar sonora, sendo raro encontrar quem a diz com uma fricativa velar surda” (p.25).
Fricativo Glotal Surdo – [h]
O segmento [h] ocorreu em sílaba tônica medial e sílaba átona final.
Figura 10: forma da onda e espectrograma contendo o rótico realizado como [h] na sentença ‘com cachorro’, evocada por LGS_MAS_065 (31).
O rótico caracterizado como fricativo glotal, nesse exemplo, apresenta menor concentração de energia, localizada na base do espectrograma, diferentemente com o que ocorre com o fricativo velar, cuja concentração de energia é maior e mais difusamente distribuída nas regiões agudas do espectro, se comparados aos róticos glotais, segundo a caracterização acústica fornecida por Kent & Read (1992). A ausência de sonoridade foi identificada considerando a interrupção da cor escura na parte da barra de sonoridade que corresponde à produção do rótico.
Além disso, é possível notar que a característica formântica de [h] é semelhante à da vogal adjacente, já que ambas são produzidas na mesma região do trato vocal.
A inferência acústico-articulatória descrita para a figura 10 foi confirmada pelo julgamento auditivo do rótico, considerado como glotal.
Outras Ocorrências de [h]
BSB_BSB_MAS_034: ‘cachorro’ → [ka.ˈʃo.hu ] BSB_BSB_MAS_054: ‘garrafa’→ [ga.ˈha.fɐ] BSB_BSB_FEM_125: ‘escorregou’→ [is.ku.he.ˈgo] BSB_BSB_MAS_076: ‘cachorro’ → [ka.ˈʃo.hu]
Fricativo Glotal Sonoro – [ɦ]
O rótico fricativo glotal sonoro foi registrado em sílaba tônica medial e em sílaba átona final.
Figura 11: forma da onda e espectrograma contendo o rótico realizado como [ɦ] no vocábulo ‘cachorro’, evocado por BSB_MAS_054 (38).
À exemplo do que ocorre na figura 10, verifica-se semelhança quanto ao local de articulação – glotal – com a diferença que existe, no rótico deste exemplo, a presença de sonoridade durante a produção do segmento [ɦ], visualizada pela barra de sonoridade.
Outras Ocorrências de [ɦ]
BSB_BSB_MAS_034: ‘derrubou’ → [te.ɦu.ˈpo] LGS_LGS_MAS_065: ‘escorregou’→ [is.ku.ɦe.ˈgo] BSB_BSB_MAS_076: ‘cachorrinhos’→ [ka.ʃo.ˈɦi.ɲus] LGS_LGS_MAS_097: ‘carreta’→ [ka.ˈɦe.tɐ]
Fricativo Palatal Surdo – [ç]
Identificou-se apenas uma ocorrência do rótico realizado como [ç], cujo espectrograma encontra-se ilustrado na figura 12.
Figura 12: forma da onda e espectrograma contendo o rótico realizado como [ç] na palavra ‘barriga’, evocada por LGN_MAS_013 (4).
A informação visual extraída deste espectrograma permite confirmar a ausência de sonoridade para o rótico sublinhado, porém, a informação sobre a localização da constrição na região palatal foi confirmada por outiva, sendo também diferenciada da fricativa velar [x] pela percepção auditiva.
Fricativo Uvular Surdo – χ]
No espectrograma da figura 13 será apresentado o registro e a transcrição da única ocorrência do rótico fricativo uvular [χ], identificado em criança de cinco anos, numa situação de grande ênfase durante a fala espontânea.
Figura 13: forma da onda e espectrograma contendo o rótico realizado como [χ] no vocábulo ‘o rabo’, evocada por BSB_FEM_125 (129).
Conforme descrito anteriormente para o rótico [ç], a análise deste espectrograma também permitiu a confirmação da ausência de sonoridade para a realização de [χ], sendo o julgamento auditivo o maior responsável pela identificação da fricção percebida na úvula, na emissão espontânea da criança.
Ressalta-se que o treinamento auditivo foi eficiente para a identificação da localização do ruído de fricção, bem como possibilitou a diferenciação entre os róticos fricativos velar [x], palatal [ç] e uvular [χ], considerados de difícil caracterização acústica por autores como Ladefoged e Maddieson (1996), principalmente quando se considera apenas características visuais gerais para identificação de segmentos, conforme a metodologia empregada neste estudo.
Até o presente momento foram descritas as realizações fonéticas que distinguem ‘r- forte’ de ‘r-fraco’, em contexto intervocálico. A seguir, serão descritas as realizações fonéticas para o arquifonema /R/, nos contextos linguísticos onde ocorrem a neutralização de contraste fonológico (início de palavra, GC e codas).