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3. Material and Methods
Na segunda parte do primeiro capítulo, chamada Método: projeções padrão e
tendências múltiplas, os autores iniciam a apresentação dos conceitos básicos para a
realização e a exposição das previsões. Kahn e Wiener desenvolvem todo o trabalho a partir de cincos conceitos: tendência múltipla, projeção livre de surpresas, mundo padrão, variações canônicas e cenários167.
O conceito fundamental é tendência múltipla. A partir dele, os outros conceitos adquirem significado e relevância. A tendência múltipla surgiu da necessidade de identificar tendências longas, importantes e que aparentam uma possível continuidade, servindo, ainda, como elemento congregador. Centrada na sociedade ocidental, a tendência múltipla se estende desde o século XI ou XII e é dividida, pelos autores, em 13 tendências. Elas não são nem fixas, nem fechadas e possuíam grandes chances, na visão dos autores, de se estenderem além de 1967 e alcançar o ano 2000, apesar de poderem apresentar alguma saturação ou recessão168. Portanto, é a partir da tendência que a história é delineada, estabelecendo-se os padrões e permitindo, assim, a projeção e a especulação do futuro. O encerramento da exposição da tendência se dá com uma pergunta: como, a partir das tendências, extrapola-se para um ponto várias décadas à frente?169
Visando responder a pergunta lançada, os autores apresentam outros dois conceitos:
mundo padrão e projeção livre de surpresas. A projeção livre de surpresas é a projeção mais
clara, pois, conforme o próprio nome diz, ela pressupõe uma continuidade sem grandes alterações. Porém, como os autores argumentam, seria bastante surpreendente se ela ocorresse, uma vez que seria pouco provável o não aparecimento de mudanças tecnológicas ou eventos surpreendentes na política. É considerada, portanto, uma projeção ingênua, apesar de razoável. A partir dessa projeção se delineia o mundo padrão, ou os mundos padrões. Esses
167
Usei os temos conforme a tradução brasileira. Cf. KAHN, H.; WIENER, A.J., 1968. 168
KAHN, H.; WIENER, A.J., 1967, p. 5-7. 169 Ibid., p. 7.
mundos são usados com a intenção de servir como veículos para discussões, suposições e apontamentos futuros, e para a consideração de alternativas futuras. Reconhecendo, ainda, uma possível crítica, os autores afirmam que o critério de escolha de alguns mundos futuros em detrimento de outros é arbitrário, porém necessário para poder elaborar os planejamentos170.
Além da arbitrariedade, os autores também recorrem a certezas probabilisticamente subjetivas171. Para, por exemplo, expor a ocorrência de algo, os futuristas argumentam que é interessante, em alguns momentos, estabelecer algumas estimativas quantitativas, sem, contudo, crer que elas apresentam um resultado exato. Dessa forma, se há a consideração de variação de uma dada projeção entre cinco e dez, não significa que ela não poderá ser menor que cinco ou maior que dez. Essa estimativa reflete somente a crença na chance de 2 contra 1, ou de 5 contra 1, ou, ainda, de 20 contra 1, de que a variável em estudo poderá oscilar entre 5 e 10. Todavia, para os autores, essa aposta não significa total confiança no resultado. Os autores recomendam e utilizam (pouquíssimas vezes) esse método de exposição como um recurso para comunicar suas especulações sobre o futuro de forma quantitativa e com relativa precisão sobre o que se pensa, principalmente quando essas se referem a aspectos quantitativos172.
Partindo do mundo padrão, há as variações canônicas. Elas também são resultado da projeção livre de surpresas, ou seja, não fogem do modelo que é o mundo padrão, apenas apresentando algumas variações. Denominam-nas de canônicas, pois suas características foram escolhidas de forma ponderada, seguindo mais critérios de conveniência metodológica do que critérios realistas, sempre tentando possibilitar, assim, a comparação entre os mundos173. Essa variedade de opções é defendida no livro como uma fuga de abordagens únicas, as quais tenderiam a ser “procustianas”, ou seja, tentariam encaixar as diferenças dentro de sua estrutura para o mundo futuro. Assim, para os mundos padronizados e os contextos canônicos, assume-se apenas pequenas variações das tendências seculares básicas174.
Dessa forma, o mundo padrão e suas variações canônicas seriam a envergadura mínima para as projeções sistemáticas e possíveis para os próximos 30 anos. Esse limite de tempo se impõe, conforme os autores, pois é difícil optar por qualquer conjunto de tendências
170 KAHN, H.; WIENER, A.J., 1967, p. 8, 38. 171 Ibid., p. 37. 172 Ibid., p. 37-38. 173 Ibid., p. 249. 174 Ibid., p. 9.
constantes e sustentar que elas serão elementos dominantes além de 30 anos. Por mais que tendências lineares ou exponenciais não sejam impossíveis, para Kahn e Wiener, a história moderna parece apresentar características cíclicas que abarcam períodos curtos, como decênios. Sendo assim, esse conjunto formado pelo mundo padrão e as variações canônicas abrange desenvolvimentos não implausíveis em relação às condições existentes. Ele é mais vantajoso, na opinião dos autores, porque está mais adaptado às discussões sobre o futuro, já que não considera grandes surpresas. Por outro lado, quando usado em projeções mais longas, essa ausência de surpresas o torna insustentável, mas não inútil, já que pode oferecer casos específicos ou exemplos que podem servir para a elaboração de hipóteses175.
Um método complementar de lidar com as variações, e que os autores consideram valioso para o estudo e avaliação de como fatores complexos e incertos podem interagir, é o
cenário e os futuros alternativos. Os cenários são definidos como a construção de seqüências
hipotéticas de eventos com o propósito de focar os processos causais e os pontos de decisão de forma que se culmine em uma situação pensada. Servem, dessa forma, para abordar dois tipos de questões: como uma situação hipotética poderia ocorrer, passo a passo, e que alternativas existem, para cada ator, e em cada passo, para facilitar, alterar ou prevenir o processo. Sendo assim, alguns cenários podem destacar grandes problemas, como uma crise ou um acontecimento que culmine em uma guerra. O foco, portanto, pode ser em acontecimentos militares, na dinâmica interna de países, nas negociações entre rivais, na relação de aliados, etc. Outros cenários podem servir como projeção do desenvolvimento do mundo no futuro, tanto do todo, quanto de partes, como, por exemplo, a cultura, alguma nação ou alguma classe176.
Sendo assim, o cenário está adaptado ao tratamento de eventos pensados em conjunto, integrando vários elementos com algum grau de simultaneidade. Dessa forma, o cenário, trabalhado de forma ampla, permite ao analista obter uma noção dos acontecimentos e dos desenvolvimentos conforme as escolhas críticas. Esses desenvolvimentos podem ser utilizados ou como um contexto para discussão, ou uma possibilidade “designada”, à qual é possível se referir para vários fins. Com essa utilização, Kahn e Wiener concebem a oportunidade de destacar as possibilidades do futuro, o qual é mutável e, portanto, desconhecido. Outras vantagens do cenário é que ele força o analista a trabalhar certos detalhes e integrações e levanta problemas que poderiam ser negligenciados. Por fim, os
175
KAHN, H.; WIENER, A.J., 1967, p. 12-13. 176 Ibid., p. 6, 262.
cenários servem como “anedotas históricas”, que podem substituir a falta de exemplos concretos e reais177.
Os futuros alternativos, por sua vez, complementariam os cenários, gerando variações deles que serviriam como fundamentos para exposição e discussão, para a comparação sistemática de políticas alternativas ou para análise e exame de questões específicas. O conjunto de cenários e futuros alternativos levaria a rotas alternativas, que ajudariam a perceber o que pode ser evitado e o que pode ser facilitado, auxiliando, assim, nas decisões a serem tomadas178.
Dessa forma, com a utilização do cenário e dos futuros alternativos, os autores acreditam alcançar um espectro de contextos futuros que não inclui somente as expectativas principais dos planejadores políticos, mas também outros casos de interesse. Portanto, ao elaborarem uma série de futuros, Kahn e Wiener esperam não apenas compreender os fatores isolados e suas interações, mas as conseqüências destes. A construção desses contextos, por fim, pode clarificar os destinos e melhorar o entendimento da importância do atual e de como ele poderia ser diferente179.
O cenário e os futuros alternativos complementam o mundo padrão e suas variações, pois focam em pontos mais específicos, pensando os eventos particulares e imaginando suas possíveis continuidades. O mundo padrão, por sua vez, oferece uma visão estrutural de todo o processo. Sendo assim, o cenário também acaba servindo para especular sobre algumas situações além do mundo padrão e para projetar possíveis desenvolvimentos além dos esperados, servindo como hipóteses. Todavia, todos partem da tendência múltipla e resultam de desdobramentos dela.
A idéia por trás das projeções livres de surpresas, das variações e dos cenários, assim como alguns problemas, foram transportadas do período de planejamento militar e readaptadas ao novo contexto. Ao realizar as análises de sistema, Kahn se preocupava com as incertezas que estavam associadas com a tentativa de predizer qual seria o meio no qual o sistema estudado se estenderia. Todavia, reconhecia, já naquele período, que era inevitável a ocorrência de algo improvável, sendo, portanto, o mais improvável que nada improvável acontecesse. Frente a isso, defendeu a elaboração de sistemas bastante flexíveis, que fossem capazes de trabalhar sob uma grande variedade de circunstâncias180. As variações canônicas e
177 KAHN, H.; WIENER, A.J., 1967, p. 262-263. 178
Ibid., p. 6. 179
Ibid., p. 6.
os cenários também não fogem dessa idéia, pois elas são essa variedade de circunstâncias possíveis. Além delas, Kahn e Wiener ainda desenvolvem outras variações, como por exemplo, a tabela de possíveis causas de mudanças surpreendentes181, ou mesmo o capítulo VIII, chamado Outros pesadelos do século XX182.
O termo cenário também já era usado nesse conjunto de trabalho com variações futuras desde a época militar. Pensando nos jogos de guerras, Kahn afirmou que uma das maiores fraquezas deles era serem custosos tanto em tempo, quanto em esforço humano, quando se considerava as variações de um cenário de guerra. Apesar disso, era notório que um grupo que trabalhava em um cenário adquiria um conhecimento valioso sobre as variações183. Esses problemas das diversas variáveis também apareceram, para Kahn, ao trabalhar com a teoria dos jogos. Pensando na classificação dos jogos, uma distinção feita foi entre jogos finitos e infinitos. Os infinitos apresentavam duas formas: 1) um número infinito de escolhas possível em um movimento e 2) a possibilidade de o jogo continuar indefinidamente184. Não é muito difícil perceber algumas semelhanças entre a forma de trabalhar esses jogos e a especulação do futuro. O futuro seria, à primeira vista, um jogo infinito em sua continuidade, e com possibilidades infinitas em um movimento. Porém, como já vimos, Kahn e Wiener tentam limitar essa infinitude em relação, por enquanto, às possibilidades de lances em cada jogada, ou de coisas que podem acontecer em cada momento de decisão.
Finalizando a apresentação dos conceitos básicos, os autores fazem uma interessante auto-reflexão histórica. Afirmam que o mundo padrão construído não está fora do momento em que foi pensado e, por isso, reflete as esperanças e os temores do momento, resultando na ênfase de tendências que já estão se esvaecendo ou de eventos com importância diminuída185. Frente a isso, fazem uma advertência:
quase todos os dias há alguma chance de vir à tona alguma nova crise ou algum acontecimento não esperado, o qual se torna um ponto de virada histórico, mudando a direção das tendências atuais de tal forma que as expectativas para um futuro distante devem mudar186
Ao longo das décadas, para eles, algumas dessas mudanças poderiam ocorrer, ocasionando a obsolescência de qualquer estudo futuro187.
181 KAHN, H.; WIENER, A.J., 1967, p. 24. 182
Cf. KAHN, H.; WIENER, A.J., 1967.
183 KAHN, H.; MANN, I. War Gaming, 1957. p. 13-14. 184 KAHN, H.; MANN, I. Game theory, 1957, p. 22. 185
KAHN, H.; WIENER, A.J., 1967, p. 13. 186
Ibid,, p. 13. 187 Ibid., p. 13.
Dessa forma, mudanças podem ocorrer no futuro e, por fugirem do que foi planejado e serem, portanto, desconhecidas, ainda constituem um problema. Como vimos, o cenário pode ser uma maneira de lidar com isso, já que cria exemplos ilustrativos de situações que talvez não existiram, nem nunca existirão. Essa questão do exemplo que instrui tem, dentro do método de planejamento de Kahn e Wiener, uma atenção própria, constituindo, assim, outro conceito: a metáfora heurística.