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Contrasting coping styles as a tool to study the neurobiology of fear

Com a idéia de planejamentos flexíveis, seqüenciais – fruto de um conhecimento amplo e integrado – e que consideram as diversas possibilidades futuras, atenua-se a questão da incerteza do futuro, uma vez que ele acaba sendo ou a continuidade do presente ou planejado de forma ampla. Todavia, isso não resolve outro problema relativo à incerteza do devir: o da imprevisibilidade. Ela decorre do que os futuristas identificam como a origem das incertezas: mudanças rápidas aconteciam, motivadas pela inovação tecnológica e pelas problemáticas mudanças políticas, sociais e econômicas que acompanhavam a rápida expansão mundial da população139.

Essa característica de rapidez das mudanças é um indicativo não só de um problema em relação à confiabilidade do planejamento do futuro, mas também de uma dada forma de se ver o tempo, pois as mudanças rápidas caracterizam a modernidade.

                                                                                                                         

134 LINDSTONE, H., 1975, p. 3 apud. MARIANO, C. A., 1995, p. 33. 135

KAHN, H.; MANN, I. Ten commom pitfalls. Santa Monica: RAND Corporation, 1957. Disponível em: <http://www.rand.org/pubs/authors/k/kahn_herman.html>. Acesso em: 13 nov. 2008, p. 50-51.

136 KAHN, H.; MANN, I. Ten commom pitfalls., 1957, p. 49. 137

KAHN, H.; WIENER, A.J., 1967, p. 4-5. 138

Ibid., p. 4. 139 Ibid., p. 3.

Os tempos modernos significavam os novos tempos e, dentro do Ocidente cristão, remetiam a um porvir do mundo, que se concretizaria no Juízo Final140. Dessa maneira, o futuro do mundo pertencia à Igreja e a sua história e servia como elemento de poder141. Porém, pouco a pouco, essa posição se desgastou em virtude da incapacidade da religião encerrar as guerras civis religiosas, travadas ao longo do século XVI, na Europa. A religião agiu, inclusive, no sentido contrário, ou seja, acirrou as guerras, as quais existiam devido ao surgimento das diversas formas protestantes do catolicismo. Tais disputas só foram sanadas por meio da “política”, ou seja, a partir de acordos políticos que visavam a igualdade religiosa, e, então, do esgotamento desses Estados religiosos. Com isso, a paz, atribuída ao Juízo Final, não veio após o período de guerras violentas, mas só se concretizou pela intervenção humana142. Presenciamos, assim, em um primeiro momento, a ascensão da idéia de política, no sentido administrativo e organizacional, dirigindo o relacionamento entre os Estados.

Essa prorrogação do Juízo Final resultou também no adiamento do fim do mundo, tanto pelos visionários cristãos, quanto pela astrologia. Frente a isso, os Estados religiosos, que se viam como guias da linha escatológica, perderam sua função. Isso produziu uma alteração na visão de história, começando pela separação da história sacra da história natural, sendo que a última, agora, que guardaria um fim para a humanidade. E, finalmente, a separação da história sacra da humana, esta, então, feita pelos homens, sem um fim pré- determinado e não dissociada da ascensão da política e, portanto, do Estado moderno. Com isso, o Estado moderno tornou-se o novo detentor do futuro, lançando-se contra as profecias. Mudanças, portanto, ocorreram, “o cálculo político e a contenção humanista delimitaram um novo horizonte para o futuro”143 e a visão de fim do mundo foi substituída por outra, que permitia identificar uma Idade Antiga e uma Média, em oposição à Moderna que se anunciava e enunciava. “Desde então o homem passou a viver na modernidade, estando ao mesmo tempo consciente de estar vivendo nela”144. Esse novo tempo profano voltou-se para o futuro, sendo, assim, uma época “que está aberta ao novo que há de vir”145. Ou seja, crê-se que o

                                                                                                                         

140 HABERMAS, Jürgen. O discurso filosófico da modernidade: doze lições. São Paulo: Martins Fontes, 2000. p. 9.

141

KOSELLECK, R. Futuro passado: contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro: Contraponto/ Ed. PUC-Rio, 2006, p. 26.

142 KOSELLECK, R., 2006, p. 26-27. 143 Ibid., p. 28-30. 144 Ibid., p. 31. 145 HABERMAS, J., 2000, p. 9.

futuro já começou e, portanto, orienta-se para ele e ao novo que parece acompanhá-lo146. Para Habermas, é essa abertura para o futuro que caracteriza particularmente esse “novo tempo”. Assim, há um contínuo recomeço, já que “o início de uma época histórica repete-se e reproduz-se a cada momento do presente, o qual gera o novo a partir de si”. Dentro dessa visão, o presente acaba ganhando uma posição de destaque, como aquilo que há de mais imediato e novo. É o contemporâneo147.

Essa abertura para o futuro está claramente presente no O Ano 2000. Os eventos cumulativos pressupõem uma interconexão temporal e uma continuidade, as quais têm como conceitos centrais o momento de decisão e o momento da realização da decisão. Contudo, os autores se ocupam do momento de decisão como a situação do presente e, por isso, o mais importante momento. O presente adquire essa importância, pois se expande para o futuro como concretização da decisão, ou seja, abre-se para o futuro.

Apesar dessa tentativa de estabelecer uma continuidade, Kahn e Wiener reconhecem que a mudança constante que acompanhava a tendência para o futuro sempre novo minava a confiança na experiência prática como norteadora das políticas públicas e diminuía a utilidade do julgamento convencional no tratamento dos problemas sociais148. Dessa forma, para os autores, o conhecimento tradicional e os julgamentos intuitivos não aparentavam mais dar conta das questões, dificultando a mensuração do efeito das mudanças149. Ou seja, com a inovação constante centrada no presente, “o tempo é experienciado como um recurso escasso para a resolução dos problemas que surgem”150, uma vez que há, então, por outro lado, um rompimento contínuo com o passado. Portanto, a aceleração do tempo mina a capacidade do presente como experiência, pois não pode ser vivenciado151. O tempo é comprimido e a modernidade não deseja e não consegue utilizar modelos anteriores para orientá-la, restando- lhe “extrair de si mesmo sua normatividade”152.

Kahn e Wiener perceberam esse processo na tecnologia e na técnica. Como Benjamin apontou, uma grande manifestação que, produto da técnica, desmoralizou a experiência, foi a I Guerra. Não havia mais experiências para narrar, pois o que o homem encontrou foram formas de reduzir o ser humano a apenas mais um número entre os mortos por bombas ou                                                                                                                          

146 HABERMAS, J., 2000, p. 9. 147

Ibid., p. 11.

148 KAHN, H.; WIENER, A.J., 1967, p. 3. 149 Ibid., 1967, p. 3. 150 HABERMAS, J., 2000, p. 10. 151 KOSELLECK, R., 2006, p. 37. 152 HABERMAS, J., 2000, p. 12.

outras técnicas de guerra153. O próprio Kahn foi artífice e testemunha de processo similar, agora, durante a II Guerra, quando percebeu – e mais tarde escreveu – que muito dos combatentes não tinha muita experiência com o equipamento, que, na maioria, era novo. Alguns, conforme Kahn, nem existiam antes da Guerra e, por isso, os militares não puderam se beneficiar de exercícios nem de discussões sobre eles. Sendo assim, o futurista defendia, nos anos 50, que, nesses casos, uma abordagem teórica ou analítica, com caráter quantitativo, poderia ser mais proveitosa do que confiar na experiência e conhecimento dos combatentes154. Após a Guerra, ao se inserir no contexto da substituição da experiência militar pelo conhecimento técnico-especulativo, Kahn indicou o aparecimento de áreas nas quais ninguém tinha experiência ampla e profunda. Portanto, conforme ele expunha, não bastava somente conhecer a tecnologia, era preciso saber as implicações das mudanças tecnológicas sobre as concepções estratégicas e operacionais155. Além disso, afirmava que havia se atingido um alto nível de cálculo relacionado às questões de planejamento militar. Para ele, esse conjunto de conhecimentos seria uma invenção intelectual, a qual estaria no mesmo nível de invenções técnicas, como o motor a vapor ou o telégrafo. Sustentando essa tese, argumentava que os conceitos necessários para esse refinamento no cálculo político-militar – como a função e a geometria analítica, por exemplo – surgiram no mesmo período dos inventos técnicos mencionados e da economia clássica. Contudo, para Kahn, foi só no fim do século XIX e, principalmente, após a II Guerra, que houve uma expansão dessas ferramentas intelectuais, da habilidade de computação e dos problemas adequados para este tipo de análise, as quais se tornaram populares por causa de sua utilização nos planejamentos militares156.

Com isso, os primeiros analistas da RAND ganharam poder político, porém, as relações entre os militares e os analistas civis pioraram. Dessa maneira, durante o período de McNamara, a autoridade das políticas e estratégias de defesa saiu da experiência de combate dos militares veteranos para as simulações de combate dos analistas civis. Na visão dos técnicos da RAND, a longa familiaridade com sistemas de armas obsoletos ou não-atômicos retardou a adaptação militar à ameaça dinâmica da Guerra Fria. Isso os fazia crer, como Kahn disse, que o analista civil estava em melhor posição para lidar com problemas futuros e novos. Assim, as armas atômicas inauguraram uma colossal mudança de autoridade157. Não só elas, mas também toda a questão técnica sobre guerras, que ia desde o cálculo da relação custo-                                                                                                                          

153 BENJAMIN, W. Obras escolhidas: magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1994. v.1. p. 115. 154 KAHN, H.; MANN, I. Techniques of systems analysis, 1957, p.4

155

KAHN, H.; MANN, I. Ten commom pitfalls, 1957, p. 31. 156

KAHN, H.; MANN, I. Techniques of systems analysis, 1957, p.1-2, 36-37. 157 GHAMARI-TABRIZI, S., 2005, p. 47-49.

benefício na compra de mísseis, até os cálculos dessa relação de acordo com o número efetivo ideal para furar defesas inimigas, o qual era obtido a partir das simulações dos jogos de guerra158. Essa mudança refletia-se na resposta que Kahn dava aos que questionavam sua capacidade de decidir sobre guerras: “Quantas guerras termonucleares você lutou recentemente?”159.

Dessa época do planejamento militar, Kahn, então, trouxe duas coisas: os conceitos e um problema. Houve, claramente, uma adaptação de conceitos da época militar para o planejamento mais abrangente da época do livro. Portanto, além da necessidade de vender um método inteligível para seus clientes, alguns conceitos foram ampliados e transformados, decorrentes de um conhecimento prévio, uma vez que o planejamento mais abrangente lidava com problemas semelhantes que o militar possuíra. Algumas adaptações feitas foram, por exemplo, os conceitos de analista de sistemas160, design de sistemas161 e elaborador de modelos162, que se transformaram em planejamentos futuros e elaboradores de políticas.

O problema, por sua vez, foi a imprevisibilidade das mudanças, as quais, como os autores perceberam na época do O ano 2000, não se restringiam às questões militares. Frente a isso, afirmam que os elaboradores de políticas tinham muitas informações novas e variações a considerar e, por outro lado, pouca experiência diretamente relevante para os novos problemas163.

Assim, tem-se uma interessante contradição. O planejamento, na época militar tido como uma mudança inovadora, encontrava, nas mudanças, um problema crucial. Frente a isso, Kahn e Wiener adaptam outros dois conceitos trazidos da época militar: os julgamentos intuitivos e a opinião embasada. Com julgamentos intuitivos, Kahn referia-se às decisões cotidianas e, portanto, que se baseavam na experiência e formação individuais. Kahn opunha- os à opinião embasada, a qual demonstra sua lógica normalmente por meios quantitativos. A opinião embasada foi apresentada por Kahn, em duas formas: 1) o melhor caso: é um exame razoável e imparcial de fatos conhecidos com descontos devidos e explícitos por causa das incertezas; 2) o pior: pode ser uma racionalização extensa e má conduzida de posições pré- julgadas. Em todo caso, as duas partem do elemento “racional”, entendido como algo palpável, passível de ser exposto por cálculos e números, a partir dos quais a pessoa pode                                                                                                                          

158 KAHN, H.; MANN, I. Game theory, 1957, p. 31; KAHN, H.; MANN, I. Techniques of systems analysis, 1957, p. 16-26.

159 GHAMARI-TABRIZI, S., 2005, p. 49, tradução nossa.

160 Cf. KAHN, H.; MANN, I. Techniques of systems analysis, 1957. 161

KAHN, H.; MANN, I., Ten commom pitfalls, 1957, p.5-6. 162

GHAMARI-TABRIZI, S., 2005, p. 130. 163 KAHN, H.; WIENER, A.J., 2005, p. 3.

formar sua opinião164. Sendo assim, o julgamento intuitivo é algo muito mais “livre”, não embasado, a não ser em uma experiência ou intuição individual e, quiçá, intercambiável.

Kahn, então, presenciou a força da inovação, no seu caso, o método especulativo – e suas diversas ferramentas – como a alternativa frente ao novo perfil das guerras e das questões militares. Todavia, esse rompimento com a antiga experiência militar e, portanto, o rompimento constante com o passado de forma geral, poderia tornar a previsão inviável. Contudo, a idéia de presente dos autores resolve esse problema, já que é não é um presente que se volta para o futuro como algo novo, mas como continuidade. Nesse sentido, a idéia de acúmulo de decisões e de planejamentos que cercam os eventos cumulativos visa fugir do escopo das mudanças. Esta continuidade se assenta, ainda, em outra fórmula, a qual os autores recorrem para resolver o problema da aceleração da mudança. Eles afirmam que há fatores inalteráveis e tradicionais nos homens, nas sociedades e nas culturas, os quais continuam a desempenhar papéis importantes e até mesmo decisivos165.

Seguindo essa idéia de perenidade de alguns fatores humanos, e pensando no papel dos elaboradores de políticas e da dificuldade em avaliar a importância de todos os desenvolvimentos do século XX, os futuristas apontam que cabe a quem projeta o futuro distinguir as mudanças das continuidades e o que é contínuo nas próprias mudanças166.

Com isso, os autores apresentam o que identificamos como as quatro bases, em cima das quais eles desenvolverão o método. Elas são: 1) há dois tipos de acontecimentos: os únicos e os que cabem dentro de uma continuidade, sendo em cima deste segundo tipo que as previsões devem se basear; 2) o presente, no qual se decide, está preso ao passado que o decidiu, mas, por outro lado, ele determinará o futuro – como resultado da decisão; 3) a previsão deve ser feita de forma interdisciplinar e integrada; 4) existem fatores perenes nos homens, que subjazem as mudanças rápidas que ocorrem. Tais bases visavam vencer alguns problemas que poderiam inviabilizar o planejamento, como a rapidez das mudanças e as incertezas do futuro.

Há, todavia, uma questão ainda: a substância da continuidade. Se, por um lado, há uma defesa, por parte dos autores, de que o planejamento é algo inovador, o qual tem como base os eventos cumulativos e o timing, por outro, a continuidade no sentido apresentado de acúmulo de planejamentos e de decisões não deveria existir, pois o próprio planejamento é ainda incipiente, uma inovação. Sendo assim, o elemento de perenidade é outro que não aquele                                                                                                                          

164

KAHN, H.; MANN, I. Techniques of systems analysis, 1957, p. 5. 165

KAHN, H.; WIENER, A.J., 1967, p. 3. 166 Ibid., p. 3-4.

relacionado somente aos eventos cumulativos. São, portanto os próprios fatores humanos que sustentam essa continuidade. Cabe, agora, entender como o método se constitui em cima dessas duas questões que se contrariam: a perenidade e as mudanças.

1.3. Os conceitos básicos: tendência múltipla, projeção livre de surpresas, mundo