Moita Lopes (1994) levanta a necessidade de problematizar o que significa pesquisar na subárea de conhecimento que é a Linguística Aplicada (LA), uma vez que, com o desenvolvimento de pesquisas de natureza interpretativista, nesta subárea, os estudos compreendendo língua em uso passaram a ser frequentes, nos aproximando da natureza de pesquisa das Ciências Sociais (interpretativista) e nos distanciando das tradições de pesquisa das Ciências Naturais (orientadas pelo positivismo).
Dessa forma, aos nos aproximarmos das Ciências Sociais, entendemos que o homem constrói significados a partir do que e como (re)interpreta o mundo, sendo tal interpretação uma das leituras da realidade (MOITA LOPES, 1994). Do mesmo modo, Bortoni-Ricardo (2011) destaca que
Na pesquisa qualitativa, não se procura observar a influência de uma variável em outra. O pesquisador está interessado em um processo que
ocorre em determinado ambiente e quer saber como os atores sociais envolvidos nesse processo o percebem, ou seja: interpretam. (BORTONI- RICARDO, 2011, p. 34)
Assim, quando iniciamos a presente pesquisa, estávamos interessadas em saber: como ocorre o ensino do espanhol no contexto pesquisado? E como a cultura é inserida e, consequentemente, trabalhada nas aulas de ELE, buscando mediar a construção das identidades dos alunos? Tais questionamentos, em consonância com Bortoni-Ricardo (2011), nos remetem aos processos de ensino de ELE em ambientes escolares, sobre o qual – ao escolhermos a entrevista como uma das técnicas para gerar os dados – queríamos saber como as professoras participantes interpretam o que fazem.
Além disso, Garcez, Bulla e Loder (2014) apontam que,
como linguistas aplicados, queremos produzir conhecimento sobre as ações dos membros de uma espécie social que atuam em grupos sociais e em comunidades de práticas situadas. Diante de um encontro de pessoas em um cenário de interesse, a pergunta geral que nos move é “o que está acontecendo aqui e agora?”. Para produzir conhecimento em nossa área, não queremos e não podemos prescindir de observar a vida como ela é entre aquelas pessoas, naquele encontro, naquele cenário, ali-e-então. E talvez por isso não possamos ter a pretensão de estabelecer relações de causa e efeito. Afinal, causa, na ação humana, é algo muito diferente de causa nos universos físico e químico; as pessoas fazem sentido à medida que agem e mudam o sentido que fazem de seus comportamentos em momentos e lugares diferentes. [...] na produção de conhecimento sobre as ações humanas que estamos interessados em compreender em cenários diversos da vida social [...]. (GARCEZ; BULLA; LODER, 2014, p. 260).
Desse modo, o que nos moveu ao longo da pesquisa foi entender o que estava acontecendo no contexto em que a pesquisa foi realizada sem o estabelecimento de causa e efeito, uma vez que essa relação é uma característica de pesquisas positivistas (MOITA LOPES, 1994). Por outro lado, estávamos interessadas em entender os significados construídos pelas participantes de suas práticas, bem como da realidade em que atuam e, por isso, quando refletíamos sobre o nosso papel enquanto analistas interpretativistas (e voltaremos a falar sobre isso em outra subseção mais à frente que tratará da forma de análise dos dados), pensamos que
[...] o critério básico de validade para o trabalho investigativo é o entendimento dos sentidos das ações conforme esses sentidos se definem da perspectiva dos atores, o que envolve trabalho de campo: observação, participação, registro, reflexão analítica com base nos registros e relato descritivo, narrativo, persuasivo. O privilégio à perspectiva que os
participantes demonstram uns para os outros acerca de ‘o que está acontecendo no seu aqui-e-agora’ é um critério determinante para a natureza dos procedimentos apresentados nesse trabalho, exigindo um elevado grau de empenho do pesquisador. (GARCEZ; BULLA; LODER, 2014, p. 260-261)
O empenho empreendido neste trabalho, como descreveremos na próxima subseção, demonstra que nossa pesquisa não é essencialmente etnográfica, mas que nos valemos de várias características tanto da entrevista etnográfica (FLICK, 2009) quanto da observação etnográfica (SILVERMAN, 2009) durante o processo de geração dos dados, uma vez que o uso da etnografia ou de suas características têm sido muito frequentes em pesquisas da LA que tem como ambiente a sala de aula (MOITA LOPES, 1994; BORTONI-RICARDO, 2011). Portanto, quando pensávamos em nosso papel, enquanto pesquisadoras, e em como interpretar os dados, entendemos que
A tarefa do pesquisador interpretativo, portanto, é [...] possível no ato de notar e descrever a atividade cotidiana de modo a identificar a significação das ações para os participantes. Além disso, por ser deliberadamente interpretativa, a produção de conhecimento conforme concebida aqui entende que privilegiar a perspectiva dos atores passa necessariamente pela atenção crítica às perspectivas dos próprios analistas, que, para serem subordinadas analiticamente às perspectivas dos atores, não podem ser negligenciadas. Em outras palavras, a tarefa do pesquisador durante o trabalho de campo é se tornar cada vez mais consciente e reflexivo acerca dos quadros interpretativos das pessoas observadas e de suas próprias lentes interpretativas trazidas para o cenário. (GARCEZ; BULLA; LODER, 2014, p. 261)
E assim fizemos. Anotamos e descrevemos atividades do cotidiano pesquisado por meio de nota para posterior composição do diário de campo e buscamos compreender, no primeiro momento, o que as participantes e, depois, o que a professora, cujas práticas foram observadas, interpretam o que fazem e a realidade em que atuam. Por isso, a partir do exposto e com base no que ainda discutiremos nesta seção sobre o percurso metodológico da presente pesquisa, nos propomos a apresentar uma leitura da realidade pesquisada, considerando os dados gerados e a natureza dos resultados das informações a partir das técnicas selecionadas para a geração dos dados, uma vez que as técnicas são limitadas, pois apresentam finalidades específicas.
3.2 A ENTREVISTA E A OBSERVAÇÃO COMO TÉCNICAS PARA A GERAÇÃO DE