O diário é uma escrita paradigmática da adolescência. No entanto, como vimos, nem sempre foi assim. A própria adolescência é uma construção social, já que até o século XVIII ela não era percebida como uma fase da existência humana distinta da infância e da fase adulta. A escolarização foi um fator determinante para o surgimento da prática da escrita de diários na adolescência. Muitos etnólogos, como Daniel Fabre (1993), localizam no século XIX o momento de divulgação dessa prática na adolescência, em grande parte consequência da escritura escolar. O autor, pesquisando as escrituras pessoais adolescentes, mostrou que a tomada de notas de leitura cotidiana foi um caminho natural para a escrita dos diários. Muitos diários íntimos se iniciaram como prolongamentos das escrituras escolares.
Nos anos 1850, a escritura escolar alcança os alunos dos meios populares nas escolas, que descobrem a arte de redigir textos e a maneira de dispô-los em seus cadernos. Assim, há uma passagem natural da tomada de notas de leitura para o diário. Ainda hoje, muitos alunos utilizam os suportes escolares para a escrita mais pessoal, como um prolongamento das escrituras da escola, como atestam as agendas escolares. Fabre (1993) acrescenta que, com a proliferação dos cadernos graças à fabricação industrial que substituiu as encadernações artesanais, a escritura pessoal foi facilitada, possibilitando o surgimento do diário íntimo. Além disso, a alfabetização, praticamente generalizada com a instauração da escola republicana, permitiu que a juventude passasse a se dedicar às diferentes modalidades de escrita de si. Didier, citada por Corbin (2003), afirma que o castigo cotidiano da escrita do diário prolonga os imperativos da pedagogia juvenil, pois lembra simultaneamente o caderno escolar e o dever de casa. Mas, gradativamente, os diários íntimos constituíram-se como um tipo de escritura confidencial e íntima:
Quando estou sozinho, basta-me a ocupação de seguir o movimento de minhas ideias ou impressões, de apalpar-me, observar minhas disposições e as variantes de minha maneira de ser, de tirar o melhor partido de mim mesmo, de registrar as ideias que me ocorrem por acaso, ou as que minhas leituras sugerem... aspiro a tornar-me eu mesmo, retornando à vida privada e familiar.... erguendo-me assim acima de mim mesmo; então não serei ninguém (MAINE DE BIRAN, citado por CORBIN, 2003: 459).
A microfamília burguesa da província é o lugar privilegiado da ascensão do diário íntimo. Ao comentar sobre os ritos da vida privada burguesa, Martin-Fugier (2003)
explica que a ritualização do cotidiano ganha, na sociedade burguesa, uma significação sentimental. Assim, as lembranças capitalizadas são registradas em cadernetas. Os diários íntimos são escritos como repositórios de lembranças. A autora cita o diário da adolescente Gabrielle Laguin, que começa a ser escrito em julho de 1890, aos 16 anos de idade:
Dentro de muitos anos, relerei talvez com felicidade esses rabiscos iniciados nos dias de juventude e alegria (12 de julho). Mais tarde, quando eu for bem velha, vou me divertir em relê-lo, em rever-me, nesse espelho do passado, como eu era então (30 de outubro) (MARTIN-FURGIER, 2003: 195).
Philippe Lejeune, no livro Le moi de demoiselles (1993), apresenta um verdadeiro mapeamento do diário íntimo na França: o aparecimento nos anos de 1780, o eclipse entre 1789 e 1830, a época do diário romântico, a do diário de “ordem moral” entre 1850 e 1880 e a sua democratização no final do século XIX. Ele pesquisou mais de 100 diários de adolescentes francesas do século XIX, analisando as particularidades dessa prática cultural que era inicialmente uma técnica educativa que aos poucos foi se transformando em uma atividade espontânea e secreta.
Com o estudo desses diários, Lejeune (1993) vai entrando em contato com a história da educação, com a cultura francesa e penetrando no universo feminino do século XIX. Aspectos psicológicos, sociológicos e literários são por ele abordados. Ele mostra como, num universo de mulheres “reprimidas”, esses diários eram uma das possibilidades de expressão feminina, apesar de, em sua maioria, eles serem misteriosos, elípticos, um escrito de meias palavras e poucas revelações, mostrando uma escrita feita de si para si.
Se no século XIX homens e mulheres escreviam diários, essa prática vai sendo gradativamente de domínio feminino e adolescente. Do ponto de vista social, existem várias razões para isso. As mulheres do século XIX eram proibidas de publicar, segundo o código das conveniências, portanto o diário supria as suas necessidades de escrever. Segundo Corbin (2003), mal inserida na sociedade onde foi chamada a viver, a mulher autora de um diário sofre por não poder comunicar-se.
A repressão sexual imposta às mulheres era um forte motivo para o incentivo à escrita de um diário. No século XIX os pais, aconselhados pelos educadores, impunham um rígido regulamento às moças que retornavam do internato, com o objetivo de afastá-las
das tentações da vida. Alguns as estimulam a escrever diários, como corolário do sacramento da penitência. Em Marselha, Isabelle Fraissinet, com 12 anos de idade, é constrangida a preencher todos os dias o seu. Elas são estimuladas a registrar o progresso da vida espiritual e aliviar os escrúpulos nascidos das pequenas falhas diárias (CORBIN, 2003: 456). Jullien, militar de reserva, em seu Ensaio sobre o emprego do
tempo ou método, redigido em 1810, recomenda que se divida o dia em três fatias de
oito horas. A primeira deve ser consagrada ao sono, a segunda aos estudos e aos deveres de seu emprego, e a terceira, às refeições, ao lazer e aos exercícios corporais. Aconselha, sobretudo, que se mantenham três diários: um para registrar as flutuações da saúde, outro para as vicissitudes da moral e outro para as pulsações da atividade intelectual.
Às mulheres é imposto que escrevam às escondidas, ocultando mesmo dos pais suas escritas pessoais. Os álbuns, as pequenas lembranças e até o enxoval bordado à mão são objetos pessoais que passam a ter grande valor na adolescência. Os álbuns guardam registros dos momentos importantes das jovens; ali se colam boletins escolares, diplomas, gravuras, leituras, fotos e declarações dos primeiros admiradores. Todo esse material irá unir-se aos cadernos e diários, fazendo parte dos arquivos pessoais. “O enxoval bordado pela jovenzinha não pode ser considerado como uma atenta escrituração de si e de seus sonhos para o futuro?” (CORBIN, 2003: 460).
De fato, o diário íntimo é um texto híbrido, composto de “fragmentos de si”, reunidos e colados em suas páginas encadernadas. No tempo da adolescência, o simbólico se mostra insuficiente para explicar as transformações da puberdade. Podemos pensar que as palavras são insuficientes para “dizer” desse real, daí o apelo aos objetos “materiais”, que, como os “detritos corporais”, são restos que escapam à significação. Todo esse material faz parte do trabalho de “escrita” feito pelo adolescente. Veremos adiante como os blogs, escritos no ciberespaço, ilustram de forma contundente o caráter híbrido de um texto.
Até o século XX, diários de mulheres não eram “autorreflexivos nem autorreveladores”, conforme indica Blodgett: “(...) mulheres foram treinadas para não falar ou pensar sobre seus corpos; foram treinadas para considerar o sentimento de outras pessoas em detrimento de seus próprios, e muito da linguagem que elas usam pode silenciá-las” (GANNETT, 1992: 127). Gannett destaca as esferas privada e pública de discurso,
referenciando-as, respectivamente, à mulher e ao homem. Citando a pesquisadora norte- americana Dale Spender, ela comenta que a dicotomia masculino/feminino, público/privado, foi mantida para permitir às mulheres escreverem para uma audiência privada, mas as desencorajando de escrever para audiências públicas, que seria uma prática masculina. Na esfera “privada” as mulheres foram autorizadas a escrever para elas mesmas (por exemplo, diários) e para outros em forma de cartas, tratados morais, artigos de interesse para outras mulheres e mesmo novelas para mulheres (durante o século XIX, as mulheres eram a viga mestra do público leitor de novelas e romances).
As pesquisas desenvolvidas por Lejeune (1993) também mostram que as jovens mulheres eram encorajadas a escrever diários na esfera privada e essa escrita tinha uma função autodisciplinar. Lejeune comenta que em 1847 a condessa de Basanville, em Paris, assim escreveu em seu livro Du perfectionnement de l'éducation des jeunes filles: Estudai vosso caráter, como se fizésseis vosso exame de consciência para vos apresentardes ao tribunal da penitência; examinai vossas inclinações, vossos gostos e vossos pensamentos [...] Para fazê-lo mais facilmente, existe um hábito muito bom de ser adquirido: é o de todas as noites, antes de vos deitardes, escreverdes o diário dos vossos pensamentos e das vossas ações durante o dia que passou; vereis então se caís com frequência nos mesmos erros, corrigir-vos-eis deles, para não terdes vergonha de vós. Dedicai portanto uma atenção severa a vos observar, e em pouco tempo vossos defeitos desaparecerão (LEJEUNE, 1993: 353).
Se às mulheres era permitida a prática da escrita de diários íntimos, assim como outras formas de narrativas pessoais, um dos motivos desse interesse crescente pela escrita dos diários pelas meninas adolescentes está relacionado à possibilidade de usar esse espaço como forma de expressão pessoal, quando não lhes era permitido exprimir suas ideias publicamente. Mas, para além dos fatores sociais, veremos adiante como a psicanálise contribui para a compreensão da relação existente entre a escrita íntima e a feminilidade.
A prática da escrita de diários vai se configurando gradativamente como adolescente e feminina. Lejeune (1993) destaca que o que limita socialmente a adolescência especialmente feminina, no século XIX, é o casamento. Em muitos diários de adolescentes pesquisadas por Lejeune, ele identifica preocupações com relação ao casamento, à escola e às amizades, além da família. Normalmente, a prática da escrita dos diários era abandonada a partir do casamento. Assim, a escrita de um diário para a
jovem adolescente, nesse período histórico, parece substituir o encontro com o outro sexo. O diário perde o sentido quando esse encontro se dá.
A escrita de diários por jovens adolescentes no Brasil não era muito diferente da França no século XIX, como observa Cecília Brasil:
(....) as jovens de antigamente costumavam manter diários em que, geralmente, anotavam sua vida amorosa, mas esses diários, com o casamento e a chegada dos filhos, não progrediam e, dependendo de seu texto, tinham até que ser queimados (BRASIL, Cecília de Assis. Diário de Cecília de Assis Brasil, p.6, citado por LACERDA, 2003: 45).
Como o conteúdo do diário era “secreto” e, muitas vezes, escapava ao rígido padrão moralista da época, era difícil mantê-lo guardado, devido ao risco que se corria dele ser descoberto e lido. Muitas moças destruíam seus diários. Isso explica a dificuldade em encontrar diários do século XIX. Lejeune destaca também que o interesse recente dos pesquisadores pelos diários íntimos esbarra na dificuldade em recuperá-los, tendo em vista a dificuldade dos autores em compartilhar seus conteúdos mais íntimos. Quando surge o interesse pela publicação, normalmente os autores fazem uma revisão nos textos, retirando aquilo que poderia comprometê-los de alguma forma. O interessante em sua pesquisa é que ele não se limita a estudar diários íntimos que foram publicados. Lejeune pesquisa diários íntimos não publicados, muitas vezes encontrados escondidos nas próprias casas e recolhidos por parentes, filhos ou netos, após a morte do diarista. Alguns são entregues pelo próprio autor quando está mais velho.
No Brasil, a dificuldade em conseguir diários íntimos do século XIX é ainda maior que na França, onde muitos manuscritos foram conservados por bibliotecas e arquivos. Os fatores políticos e sociais são determinantes na expansão que se observa dessa prática no País. Desde o século XIX as mulheres brasileiras começaram a lutar pelo seu espaço na sociedade, conseguindo gradativamente ampliar suas possibilidades de inserção e expressão social, o que está diretamente relacionado ao crescimento da prática de escrita de diários. Segundo Minot:
Desde o século XIX, mulheres brasileiras que tiveram acesso à alfabetização tentaram refletir sobre a própria vida, rompendo o silêncio sobre o mundo. Famílias, confessores e educadores estimularam a anotação dos acontecimentos mais importantes do dia, através de diários íntimos e troca de correspondências entre amigas, num projeto de educação dos sentimentos, como assinala Anne Vincent-Buffault (1996). Nesse período, professoras escreviam romances e poemas, publicavam em jornais e revistas, participavam das campanhas abolicionista e republicana. Em prosa e verso, elas expressaram seus sonhos, reclamaram seus direitos, ingressaram em
escolas, fundaram associações, assinaram manifestos (TELLES, 1997). Na imprensa, defenderam a elevação cultural da população e das mulheres, reivindicaram igualdade de direitos, melhores níveis educacionais, reconhecimento de profissões, reforma da legislação matrimonial, direito de voto e elegibilidade. Reclamaram até mesmo a exclusividade feminina em algumas profissões, como enfermagem, medicina para mulheres e magistério para crianças, segundo Bernardes (1998) (MINOT, 2000: 20).
Um dos pioneiros diários brasileiros de adolescente é Minha vida de menina, de Helena Morley, pseudônimo da dona de casa Alice Dayrell, escrito no final do século XIX, aos 15 anos, publicado pela primeira vez em 1942, e até transformado em filme em 2004. O diário registra impressões sobre os acontecimentos da vida de Helena entre 1893 e 1895, quando cursava a Escola Normal de Diamantina. O seu diário ilustra como as meninas no século XIX eram encorajadas a escrever diários até mesmo pelos seus pais. Helena comenta o que seu pai lhe disse ao presenteá-la com um diário: “Escreva o que se passar com você, sem precisar contar às suas amigas, e guarde neste caderno para o futuro as suas recordações” (MORLEY, 2005: 68). Helena comenta: “Cada dia acho mais razão no conselho de meu pai de escrever no meu caderno o que penso ou vejo acontecer” (p. 68).
O lugar social privilegiado ocupado pelo homem fazia com que muitas mulheres, em seus diários, revelassem o desejo de serem homens. Helena Morley confidencia em seu diário: “Eu sempre desejei ter nascido homem e só certas horas gosto mais de ser mulher” (MORLEY, 2005: 75).
A prática da escrita de diários cresceu significativamente no século XX, passando a ser cada vez mais associada à adolescência feminina. Os diários íntimos tornaram-se praticamente “um ritual de passagem” que marcava a entrada na adolescência das meninas.
Há um aumento considerável da publicação de diários e autobiografias por mulheres no Brasil a partir de 1960. Lacerda (2003) realiza uma pesquisa sobre a escrita de diários por mulheres no Brasil e destaca que o boom editorial ocorrido a partir dos anos 1970 e 1980 recebeu influência do mercado editorial europeu, que desde os anos 1960 começou a absorver as publicações de cunho autobiográfico de prisioneiros, camponeses, negros, homossexuais, guerrilheiros e mulheres. Ela conclui que o crescimento e a divulgação da literatura memorial feminina coincide com o final da censura militar. Segundo Viana,
citada por Lacerda (2003, p.56), uma outra razão para o crescimento da produção autobiográfica feminina, além dos movimentos feministas da década de 1960, foi o crescimento industrial e tecnológico, em particular dos meios de comunicação, que favoreceu um avanço nas formas de produção e circulação das ideias. Ela observa também o fato do diário ser uma prática feminina e adolescente. De acordo com Lacerda,
Os diários são objetos que quase todas as mocinhas possuíam e, até certo modo, ainda possuem. Era e ainda é comum presentear uma menina com um diário ou caderno de notas. Assim fez Carlos Drummond de Andrade com a filha Maria Julieta, fez o pai de Helena Morley e também o de Cecília de Assis Brasil. Talvez, mais do que um objeto de leitura, a escrita dos diários acabou se transformando em um refúgio para os desejos de transgressão moral e religiosa da época, ainda que não fosse tomada como tal, nesses cadernos guardavam-se pensamentos secretos, desejos contidos, curiosidades e descobertas, suspiros de amor e tudo do cotidiano que merecesse papel e tinta. Apesar do rigor dos preceitos sociais, permitia-se que tais cadernos circulassem pelo interior da casa e que as moças sonhadoras se desgovernassem pelas linhas de suas anotações pessoais. Muitos diários, sendo suspeitos, terminavam queimados ou eram, após o casamento, abandonados em função dos afazeres domésticos e da maternidade (LACERDA, 2003: 242).
O século XX é o século dos diários íntimos escritos por adolescentes. É fundamentalmente nesse momento histórico que as adolescentes começam a escrever de forma mais livre e o diário íntimo vai assumindo um caráter cada vez mais confessional.
Se a escrita de diários passou a se caracterizar de forma crescente como uma prática privada de adolescentes do sexo feminino, isso não significou, entretanto, a exclusão dos homens e de adultos da realização dessa prática. Existem muitos diários conhecidos escritos por homens, nas diversas culturas onde a prática do diarismo se expandiu, como, por exemplo, nos Estados Unidos no século XIX: os de Meriwether Lewis e William Clark, norte-americanos que escreveram suas aventuras ao mapear a Passagem Noroeste; o nova-iorquino George Templeton Strong, que manteve um diário relatando o tempo de estudante na Universidade de Colúmbia, o casamento, a carreira em Wall Street e a Guerra Civil; na Europa no século XIX temos os famosos escritos de Tolstoi, na Rússia; Jonathan Swift, na Irlanda; Charles Baudelaire, os irmãos Jules e Edmund de Gouncourt e Andre Gide, na França.
Entre os diários de adolescentes que se tornaram famosos depois de publicados, o maior destaque tem sido O diário de Anne Frank, o qual não só registra os conflitos, sentimentos e experiências de uma adolescente, mas também é um testemunho da
Segunda Guerra Mundial. O Diário da jovem Moshe, escrito pela adolescente polonesa Moshe Flinker, é outro diário de guerra. Em 1942, a garota e a família, que vivia na Holanda, foram forçadas a fugir do nazismo para a Bélgica. A Gestapo descobriu e todos foram mandados para o campo de concentração de Auschwitz, onde morreram. Um outro importante diário de adolescente, também escrito durante a guerra, é O diário
de Zlata. Ele foi escrito por uma garota de 11 anos que viveu em Sarajevo. Zlata
descreve o seu cotidiano, que vai sendo modificado gradativamente a partir da guerra na ex-Iugoslávia, em 1992. Além desses, o célebre Une jeune fille mal dans son siècle, diário de Amélie Weiler, editado por Nicolas Stoskopf e, mais recentemente, publicado em 2003, o diário de Morgan Menzie, Diary of an anorexic girl, que se tornou famoso por abordar um tema bastante divulgado na contemporaneidade, a anorexia. Há também a obra L‘herbe bleue: journal d‘une jeune fille de 15 ans, diário de uma jovem viciada em drogas, publicado na França por autor anônimo.
Um outro diário publicado na adolescência que teve importante repercussão em nosso país foi o do antropólogo Gilberto Freyre, confirmando que essa prática, no século XX no Brasil, não era exclusivamente feminina. Seus diários foram publicados pela primeira vez em 1975, sob o título Tempo morto e outros tempos: trechos de um diário
de adolescência e primeira mocidade, 1915-1930. O texto constitui-se de fragmentos
dos diários, organizados para publicação por Maria Elisa Dias Collier, com acompanhamento do próprio autor. O prefácio do diário de adolescência de Gilberto Freyre apresenta uma reflexão sobre os motivos que podem levar um jovem adolescente a escrever diários:
Esses registros foram afinal registros de conversa de um homem consigo mesmo. De um homem desdobrado em dois: ele e o seu diário. De um homem analítico e, ao mesmo tempo, com uns instantes tão antianalíticos de devaneio poético, que o diálogo parece adquirir, por vezes, aspectos quase líricos. Há nas notas um misto de lirismo anárquico e de tentativa de organização: a de um adolescente e depois um jovem na sua primeira mocidade a buscar dar alguma ordem aos começos do seu pensar, do seu sentir, do seu viver, do seu existir. Ao seu preexistir e ao seu pós-existir – dadas suas preocupações com seu futuro e até com o futuro de sua gente, em particular, e do Homem, em geral (FREYRE, 1975).