A escola é uma instituição onde se deve praticar a arte de educar de forma orientada e que garanta uma
constante ação construtiva do ser humano, não só ao nível da aquisição gradual de conhecimentos, mas,
também, na qualidade da formação, da sua personalidade e do desenvolvimento do espírito crítico. Ela
não pode ser neutra, ao contrário, é imprescindível que seja um lugar para as lutas democráticas. Ainda
não deixou de ser um espaço de reprodução social, mas pode ser um espaço de mobilização social. É
um dos espaços em que tensões e contradições, que se relacionam com as dificuldades das sociedades
contemporâneas, poderão ser vividas e provavelmente resolvidas. Cabe acentuar que a escola sempre
foi uma entre todas as instâncias de socialização, e, outrossim, é uma instituição ao serviço do poder.
De acordo com Libâneo
“[...] é um lugar de compartilhamento de valores e de aprender conhecimentos, desenvolver capacidades intelectuais, sociais, afetivas, éticas, estéticas. Mas é também um lugar de formação de competências para participação na vida social, econômica e cultural”. (Libâneo, 2013, p. 117).
Progressivamente, os programas curriculares visam a aplicação de estratégias de ensino que promovam
a aquisição de competências transversais, perspectivas e valores por parte do aluno, contribuindo para
a construção da sua personalidade, o que o torna um ser humano capaz de atuar e responder pronta e
eficazmente a todos os estímulos da sociedade (Perrenoud, 2001). É preciso acentuar que, atualmente,
a necessidade de uma formação acadêmica exigente assume extrema relevância, não só na aquisição
de uma profissão, mas, também, na integração social. Em conformidade com Giddens, “a educação veio
proporcionar as capacidades de literacia e cálculo que asseguravam o acesso ao universo dos meios de
comunicação social impressos” (Giddens, 2013, p. 992).
No que se refere à integração social, pode-se inferir que os seres humanos são por natureza sociais. Em
sociedade, os indivíduos tecem sua realidade em um procedimento constante de interação e mudança
dos meios dos quais fazem parte. Porém, é na cultura que se encontram os componentes que viabilizam
a compreensão da realidade social e da disposição de cada pessoa.
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A sociologia dispõe de inúmeras teorias para a análise do elo entre indivíduo e sociedade. Dentre os
estudiosos, sobressaem os autores clássicos da sociologia: Karl Marx (1818-1883); Émile Durkheim
(1858-1917); Max Weber (1864-1920); e os contemporâneos Norbert Elias (1897-1990) e Pierre
Bourdieu (1930-2002). De acordo com Marx e Engels (1999, p. 7) "nas primeiras épocas históricas,
verificamos, quase por toda parte, uma completa divisão da sociedade em classes distintas, uma escala
graduada de condições sociais", enquanto Durkheim pensava como verdadeira a premissa que:
"[...] cada sociedade considerada em momento determinado de seu desenvolvimento, possui um sistema de educação que se impõe aos indivíduos de modo geralmente irresistível. É uma ilusão acreditar que podemos educar nossos filhos como queremos. Há costumes com relação aos quais somos obrigados a nos conformar; se os desrespeitarmos, muito gravemente eles se vingarão em nossos filhos. Estes, uma vez adultos, não estarão em estado de viver no meio de seus contemporâneos, com os quais não encontrarão harmonia. [...] Quando se estuda historicamente a maneira pela qual se formaram e se desenvolveram os sistemas de educação, percebe-se que eles dependem da religião, da organização política, grau de desenvolvimento das ciências, do estado das indústrias, etc. Separados de todas essas causas, históricas, tornam-se incompreensíveis". (
Filloux
, 2010, p. 43-44).Entretanto, para Weber (2008), as pessoas elegem as ações e atitudes, em conformidade com a cultura
e a sociedade em que vivem, de modo que as convivências sociais aconteçam em um sentido de
mutualidade por parte dos outros. Assim, "a relação social consiste[...] inteiramente na probabilidade de
que os indivíduos comportar-se-ão de uma maneira significativamente determinável. É completamente
irrelevante o porquê de tal probabilidade, mas onde ela existe pode-se encontrar uma relação social".
(Weber, 2008, p. 45). Em suma, para Weber, o indivíduo e a acepção de suas ações são os fundamentos
da sociedade.
Quanto à teoria de Elias (1994), em seu livro "a sociedade dos indivíduos", ele infere que é nas relações
sociais e mediante elas, que os sujeitos adquirem atributos humanos (falar, pensar, amar etc.). Nessa
mesma tessitura, esclarece que:
"Toda sociedade grande e complexa tem, na verdade, as duas qualidades: é muito firme e muito elástica. Em seu interior, constantemente se abre um espaço para as decisões individuais. Apresentam-se oportunidades que podem ser aproveitadas ou perdidas. Aparecem encruzilhadas em
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que as pessoas têm de fazer escolhas, e de suas escolhas, conforme sua posição social, pode depender seu destino pessoal imediato, ou o de uma família inteira, ou ainda, em certas situações, de nações inteiras ou de grupos dentro delas. Pode depender de suas escolhas que a resolução completa das tensões existentes ocorra na geração atual ou somente na seguinte. Delas pode depender a determinação de qual das pessoas ou grupos em confronto, dentro de um sistema particular de tensões, se tornará o executor das transformações para as quais as tensões estão impelindo, e de que lado e em que lugar se localizarão os centros das novas formas de integração rumo às quais se deslocam as mais antigas, em virtude, sempre, de suas tensões. Mas as oportunidades entre as quais a pessoa assim se vê forçada a optar não são, em si mesmas, criadas por essa pessoa. São prescritas e limitadas pela estrutura específica de sua sociedade e pela natureza das funções que as pessoas exercem dentro dela". (Elias, 1994, p. 48).
Outro conceito discutido por Elias (1994) é o de habitus, em que ele o define como um saber assimilado
pelo indivíduo em sociedade. No ideário de Bourdieu (2008b), o habitus implica uma estrutura social e
uma trajetória individual, constituído por meio das instâncias de socialização dos sujeitos, especialmente
a família e a escola. O habitus é um “sistema de disposições socialmente constituídas que, enquanto
estruturas estruturadas e estruturantes, constituem o princípio gerador e unificador do conjunto das
práticas e das ideologias características de um grupo de agentes” (Bourdieu, 2007a, p. 191). Em linhas
gerais, expressa que não deve existir separação entre o indivíduo e a sociedade, ao contrário, existe uma
relação dialética entre o agente social e a sociedade. Nas palavras de Bourdieu,
"os habitus são princípios geradores de práticas distintas e distintivas - o que o operário come, e sobretudo sua maneira de comer, o esporte que pratica e sua maneira de praticá-lo, suas opiniões políticas e sua maneira de expressa-las diferem sistematicamente do consumo ou das atividades correspondentes do empresário industrial; mas são também esquemas classificatórios, princípios de classificação, princípios de visão e de divisão e gostos diferentes. Eles estabelecem as diferenças entre o que e bom e mau, entre o bem e o mal, entre o que é distinto e o que é vulgar etc., mas elas não são as mesmas. Assim, por exemplo, o mesmo comportamento ou o mesmo bem pode parecer distinto para um, pretensioso ou ostentatório para outro e vulgar para um terceiro". (Bourdieu, 2008b, p. 22).
Observa-se que o distanciamento cultural entre as gerações está, cada vez mais, acentuado. Hoje, as
gerações mais recentes denotam competências contrárias às dos pais, haja vista sofrerem todo tipo de
influências externas à família. O mundo está cada vez mais globalizado, dinâmico, rápido e tecnológico.
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A escola tradicional foi substituída por uma escola heterogênea, tendo ficado inconcebível ter uma escola
pautada em transmissão de conhecimentos historicamente repassados. Nesse contexto, o que se faz
nos processos educativos precisa ser adaptado às demandas das sociedades contemporâneas e ao
interesse dos estudantes. Torres, em seus estudos sobre a problemática das culturas escolares explica
que:
“a “cultura escolar” pretende recobrir um cenário marcado pela hegemonia de uma lógica da “integração” e, como tal, desencadeadora de configurações culturais “integradoras”, directamente redutíveis às grandes estruturações englobantes. Sobressaem, desta imagem, comportamentos convergentes e reprodutivos da ordem prescritiva, condutas fiéis às estruturas e “regras formais”, enfim, um quadro de valores, de crenças, de ideologias estabilizadas e colectivamente partilhadas pelos actores escolares. Tal cenário, tem o condão de fazer sobressair as dimensões culturais historicamente institucionalizadas nas organizações escolares, sob a forma de ritos, rituais, cerimónias legitimadoras da acção educativa, e, por isso, relativamente comuns, generalizáveis ou ainda observáveis na regulação do funcionamento de todas as escolas”. (Torres, 2005, p. 446).
A cultura imprimida na escola pública brasileira tem dificultado o avanço da educação e das
aprendizagens. Partindo da premissa que a escola deve preparar o aluno para vida e para viver
largamente, precisa-se minimamente de ter competências para buscar o conhecimento concreto que
tem sido exigido internacionalmente. Tem-se que pensar que a educação pública é um grande
instrumento para se reduzir as desigualdades sociais, promover a mobilidade, visando minimizar a
vulnerabilidade. Consoante com as ideias desenvolvidas por Kroef sobre escola como polo cultural:
"a identidade cultural entre a comunidade e as ações pedagógicas ressignifica a escola contribuindo para a consolidação da responsabilidade pela garantia da aprendizagem. Além dos mecanismos de participação, que possibilitam que os diferentes sujeitos envolvidos com a escola articulem suas energias na busca da aprendizagem dos alunos [...]". (Kroef, 2017, p. 17-18)
Com efeito, a cultura no âmbito escolar tem que estar focada no aprendizado, em detrimento ao hábito
de objetivar, apenas, "passar de ano". Alguns pais se esforçam para colocar seus filhos em escolas
privadas, pois desacreditam no modelo da educação pública vigente. No entanto, como já foi dito antes,
"a educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a
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colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício
da cidadania e sua qualificação para o trabalho". (Brasil, 2016).
Nessa perspectiva, Muzzeti, Suficier e Mansan, explicitam que:
"a propensão que uma família tem de investir na escolarização de seus filhos e filhas depende, entre outros fatores, do peso relativo do capital cultural no conjunto do patrimônio e do ethos adquiridos pela mesma. Define-se ethos como o futuro escolar apreendido como possível para os filhos e as filhas, ou seja, as probabilidades de êxito escolar objetivamente determinadas que diferem segundo as condições de existência das frações de classe de cada grupo de agentes". (Muzzeti; Suficier & Manzan, 2015, p. 194-195)
Entretanto, estudos relatam que, por sua vez, algumas famílias apresentam incapacidade de se envolver
como parte estruturante fundamental no processo educativo dos filhos, talvez, por falta de conhecimento
de cidadania, por não ter representação do processo escolar ou por falta de disponibilidade, devido à
carga de trabalho. Em geral, a escola só chama os pais para informar as transgressões cometidas pelos
seus filhos (Oliveira & Marinho-Araújo, 2010; Silva 2015; Leite 2015; Setton et al., 2017). Corroborando
com essa temática, Leite (2015), em sua pesquisa sobre a relação entre a família e a escola com vista
à erradicação do fracasso escolar, apresenta como conclusão que:
"A não participação familiar na vida escolar dos filhos é vista nas escolas como um entrave para o sucesso da aprendizagem, porém, neste estudo, comprovou-se que os pais dos alunos que são coparticipativos do processo ensino-aprendizagem e esses têm acompanhado o desenvolvimento de seus filhos na escola, através de uma participação ativa nas atividades, buscando ajuda, indo à escola quando necessário, sendo assíduos nas reuniões, procurando os professores e se envolvendo de forma mais direta, assim têm conseguido melhor desempenho no processo educativo dos filhos. [...] A partir desse estudo, foi possível verificar que o fracasso escolar é um problema que atinge uma grande camada da população brasileira, sendo que se busca superá-lo através da parceria família e escola". (Leite, 2015, p.110).
Bourdieu (2008a) destaca, também, que tanto a influência do capital cultural quanto o investimento
educacional contribuem na obtenção do sucesso escolar, na perspectiva familiar em que os pais estão
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sempre à procura da melhor escola, melhores professores, melhores turmas, e os melhores resultados,
vislumbrando uma vida acadêmica e profissional exitosa para os seus filhos.
Com relação à escola e ao capital cultural das famílias, Bourdieu exprime que:
"A diversificação oficial (em ramificações) ou oficiosa (em estabelecimentos ou classes escolares sutilmente hierarquizados, por exemplo com o estudo dos idiomas), contribui para recriar um princípio, especialmente dissimulado, de diferenciação: os alunos oriundos de boas famílias receberam da família o senso do investimento, assim como os exemplos e os conselhos capazes de sustentá-lo em caso de incerteza, e estão assim em condição de investir na hora certa e no lugar certo, neste caso nas ramificações apropriadas, nas escolas certas, etc.; enquanto os oriundos de famílias pobres, [...] na maioria dos casos abandonados a si mesmos já desde o primário, e obrigados a entregar suas escolhas à instituição escolar, ou ao acaso, para encontrar seu caminho, num universo cada vez mais complexo, e por isso votados a errar a hora e o lugar no investimento do seu reduzido capital cultural". (Bourdieu, 2008a, p. 484-485).