1.4 Experimental Neutrino Mass Limits
1.4.1 Mass square difference
Se muito vale o já feito, mas vale o que será Mas vale o que será E o que foi feito é preciso
conhecer para melhor prosseguir (Milton Nascimento)
De tudo, ficaram três coisas: a certeza de que ele estava sempre começando, a certeza de que era preciso continuar e a certeza de que seria interrompido antes de terminar. Fazer da interrupção um caminho novo, da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sonho uma ponte, da procura um encontro. (Fernando Sabino)
O que é essa atualidade de que Foucault fala? É certa relação específica com o nosso presente. Mas de que tipo? Uma relação na forma de crítica. A crítica é entendida – sublinho essa importante noção em Foucault – como uma maneira de se colocar questões e de se levantar problemas ou de problematizar a nossa relação com o nosso presente. Mas não é apenas isso é, de fato, nossa relação com uma coisa que escapa incessantemente ao presente. Deleuze coloca isso de forma bastante elucidativa:
É que, para Foucault, o que conta é a diferença do presente e do atual. O atual não é o que somos, mas antes o que nos tornamos, o que estamos nos tornando, isto é, o Outro, nosso devir-outro. O presente, ao contrário, é o que somos e, por isso mesmo, o que já deixamos de ser. Devemos distinguir não somente, a parte do passado e a do presente, mas, mais profundamente, a do passado e do atual. Não que o atual seja a prefiguração, mesmo utópica, de um porvir de nossa história, mas ele é o agora de nosso devir. [...] [Foucault] quer dizer que a filosofia não tem como objeto contemplar o eterno, nem refletir a história, mas diagnosticar nossos devires atuais. [...] Que devires nos atravessam hoje, que recaem na história, mas que dela não provém, ou antes, que só vem dela para dela sair? (DELEUZE E GUATTARI, O que é a filosofia, 1992/1991: 145-146)
O atual em Foucault tem relação com a história, mas trata-se de uma relação fugidia. Como observa Deleuze, ―a história, segundo Foucault, nos cerca e nos delimita;
não diz o que somos, mas aquilo de que estamos em via de diferir; não estabelece nossa identidade, mas a dissipa em proveito do que somos‖. Em suma, ―a história é o que nos separa de nós mesmos, e o que devemos transpor e atravessar para nos pensarmos a nós mesmos‖ (DELEUZE, ―A vida como obra de arte‖, 1992/1986: 119). Essa relação do atual com o novo, com a novidade, com o que estamos nos tornando, nosso tornar-nos outro, com nosso devir, é a relação daquilo que, partindo da história, é hoje o outro com o qual já coincidimos ou que podemos ser. A história em Foucault passa pelo momento no qual se pergunta: ―em que medida o trabalho de pensar sua própria história pode liberar o pensamento daquilo que ele pensa silenciosamente, e permitir-lhe pensar diferentemente‖ (FOUCAULT, O uso dos prazeres, 2007/1984: 14). Deleuze compreende bem este estado incerto do pensamento quando diz que
Pensar é sempre experimentar, não interpretar, mas experimentar e a experimentação é sempre o atual, o nascente, o novo, o que está em vias de se fazer. A história não é a experimentação; é apenas o conjunto das condições quase negativas que possibilitam a experimentação de algo que escapa a história. Sem a história, a experimentação permaneceria indeterminada, incondicionada, mas a experimentação não é histórica (DELEUZE, ―Um retrato de Foucault‖, 1992/1986: 132).
Diálogo interminável, que mexe com as pretensões às certezas e as inúmeras incertezas do ser humano certo do seu domínio sobre si e sobre o mundo. Ao se descobrir como o desconhecido e ao perceber sua frágil condição humana dentro no universo das coisas viventes, as quais tenta desesperadamente dominar, tantas são as inquietações que se a estancamos não é senão pelo esgotar da folha de papel e da imaginação, posto que estas são questões que impingem a conexão de mentes ativas, que nos implicam nelas e, não, interrogações de uma mente particular ou pretensamente extraordinária. Com isto, o debate fica aberto e me faz retornar a uma temática que foi objeto de muita tensão ao longo do segundo capítulo dessa dissertação: dentro do campo do poder, como a atualidade se insere nas problemáticas de Foucault? Quando chamei a atenção para a correlação entre as formas de poder e as formas de resistência, foi, também, para instigar o leitor sobre a sutileza de Foucault ao utilizar das práticas de resistência como ponto de partida, como aquilo que permite analisar as relações de poder por meio dos antagonismos das estratégias. A resistência reflui como catalisador da
análise, já que é a partir das resistências atuais que um problema aparece, toma forma e se coloca como uma questão para o pensamento (os resistires entendidos como parte da nossa atualidade e do nosso espírito crítico e preocupado). É indo nessa direção que Foucault caracteriza o espaço comum das pelejas contemporâneas: são lutas transversais, que atravessam espaços geográficos e formas políticas e econômicas diferentes; o objetivo dessas lutas são os efeitos do poder enquanto tais, ou seja, sua abrangência sem controle; são lutas imediatas, tanto no sentido de que elas se exercem contra os poderes cotidianos, próximos e não objetiva o inimigo, quanto no sentido de que eles não esperam encontrar, no futuro, a solução para os problemas do presente. Eis aí a imagem fugidia do poder que está presente, fazendo festa nas frestas das ambigüidades das relações entre diferentes interesses e grupos, mas negando as caricaturas do poder monolítico, enrijecido, que recusa ver as batalhas incessantes. Alguns aspectos mais específicos dessa batalhas dizem respeito às lutas que questionam o estatuto do indivíduo, o que significa, por um lado, reivindicar o direito de ser diferente e, por outro, atacar tudo que separa o indivíduo e quebra sua relação com os outros e o força a assumir uma identidade. Além disso, são lutas que se opõem aos efeitos monopolistas de poder vinculados ao saber e se opõem, ao mesmo tempo, aos segredos, as distorções e as mistificações que aquele saber supõe revelar. Ademais, são lutas que giram em torno do problema mais agudo da nossa atualidade ética e política, a pergunta: ‗quem somos nós?‘ As batalhas, por fim, que tomam a bandeira contra aquilo que nos ignora como indivíduos, ao mesmo tempo em que, recusam aquilo que, na ciência ou na administração, nos determina como sujeitos. Como se pode perceber é uma constante luta que nos envolve como indivíduos, como corpos que lutam, mas a análise dessa peleja não pressupõe ou autoriza a imagem de seres constituídos em si, fundamentais e fundamentos de todo processo, que teriam direitos imprescritíveis de saída, mas indivíduos que se forma através desses confrontos, que resistem por meio deles e que constroem uma vida nas pugnas cotidianas.
É nesse sentido – do combate que tomou como forma de vida, da coragem que lhe transpassou o corpo durante toda existência1 –, que o esforço de Foucault foi o de se
1 Ver, em relação à coragem de ser e de viver, a anedota que contou Veyne sobre Foucault: "Tinha uma reserva, uma coragem física excepcionais que demonstrou diversas vezes diante dos CRS [guarda republicana francesa, antimotins], da Guarda Civil espanhola, da polícia especial em Varsóvia... e no momento de sua morte. Digo isso com prazer ainda maior porque eu não tenho a menor coragem. Um dia eu lhe disse: como eu gostaria de ter coragem física! Ele me respondeu: ‗Ah, sim! Mas só existe
afastar, de certa forma, por meio da reivindicação da construção de outro modo de vida, de outra individualização, de dois significados da palavra sujeito: ―sujeito a alguém pelo controle e dependência, e preso à sua própria identidade por uma consciência ou autoconhecimento. Ambos sugerem uma forma de poder que subjuga e o torna sujeito a‖ (FOUCAULT, ―O Sujeito e o poder‖, 1983, In: RABINOW e DREYFUS, Michel Foucault,
uma trajetória filosófica, 1995: 235). Se de fato, podemos construir para nós um novo corpo,
uma nova maneira de viver experiências, de enriquecermos continuamente nossa vida, que é algo que Foucault valorizava e pelo que guerreava, então, fica claro o porquê suas últimas pesquisas incidiam na problemática da subjetivação. Sua preocupação com a produção de novas subjetividades que servem para resistir às novas dominações e aos acomodamentos dos arquivos. A questão é: como escapar da identidade, sujeição e interioridade que serviram a certa individualização? Como se tornar sujeito sem ser sujeitado àquela conduta e daquela maneira? Um problema que aparece, quando, nas palavras de Foucault:
Fui me dando conta, pouco a pouco, de que existe, em todas as sociedades, um outro tipo de técnicas [que não àquelas as de produção, que não as de significação ou de comunicação, que não as de dominação]: aquelas que permitem aos indivíduos realizar, por eles mesmos, um certo número de operações em seu corpo, em sua alma, em seus pensamentos, em suas condutas, de modo a produzir neles uma transformação, uma modificação, e a atingir um certo estado de perfeição, de felicidade, de pureza, de poder sobrenatural. Chamemos essas técnicas de técnicas de si (Idem, ―Sexualidade e solidão‖, 2004a/1981: 95).
Um trabalho que Foucault empreenderá na interface que se produz entre as técnicas de dominação e as técnicas de si, contudo, a partir desse caminho, estudando as relações de poder a partir das técnicas de si e o que nelas tem obrigações para com a verdade – no sentido de descobrir a verdade, ser esclarecido pela verdade e dizer a verdade – na constituição e na transformação de si. Caça de Foucault, por meio da história, não do completo inventário do passado, porém ―daqueles pontos onde o passado encobre a genealogia da nossa atualidade‖ (VEYNE, ―O último Foucault e sua
coragem física, a coragem é sempre um corpo corajoso‘" (VEYNE, ―Meu amigo Foucault‖, In: Folha de
moral‖, 1985. Disponível online via http://unb.br/fe/tel/filoesco/foucault/. Janeiro de 2009).
Essas reflexões se produzem dentro do estudo da História da sexualidade que Foucault empreende desde antes de 1976, mas que toma outros rumos durante os anos seguintes. O pensamento se desprende dele mesmo e aparece mais agudo para ver o que não via. Como a História da sexualidade será esse ponto privilegiado em que aparecerá a questão da subjetivação, vou atentar para como, a partir de 1978, aquela vai se constituindo em relação a essa temática. Em um texto de 1978, Sexualidade e poder, a primeira pergunta que o pensador se faz é a seguinte: Por que escrever uma história da sexualidade? De início, ele diz que o que lhe interessa não é tanto o que interessou a psicanálise – o desconhecimento do sujeito de seus próprios desejos –, o que, de fato, o instiga é o super saber que se desenvolveu em torno do discurso da sexualidade no Ocidente nos planos sociais, culturais, em formas teóricas ou cotidianas.2 Instiga-lhe, em particular, entender como esses dois fenômenos convivem e o porquê é possível que coexistam.
Para responder esse problema – o da efusão da produção de teorias sobre a sexualidade no plano cultural geral enquanto o sujeito desconhece seu próprio desejo no plano individual –, Foucault o toma a sério, o que significa ―tentar estudar em si mesmo, em suas origens e formas próprias, essa superprodução sociocultural sobre a sexualidade‖. Nesse estudo, a primeira coisa que lhe chama a atenção é que, muito rapidamente, esse discurso sobre a sexualidade tomou a forma científica na sociedade ocidental. Ele confere à palavra científica um amplo sentido que abrange ―toda uma especulação sobre o que era a sexualidade, sobre o que era o desejo, todo um discurso que se pretendeu um discurso racional e um discurso científico‖ (FOUCAULT, ―Sexualidade e poder‖, 2004a/1978: 60).
A partir dessa constatação da forma discursiva que toma a sexualidade, a segunda interrogação que Foucault se faz é a seguinte: porque no Ocidente visamos à sexualidade na procura de sua verdade? Para responder a essa questão o pensador dá, primeiramente, o resumo da hipótese repressiva que tenta explicá-la (um manter-se afastado dessa hipótese é, grosso modo, um dos achados de A vontade de saber) estudando ―os mecanismos da repressão, da interdição, daquilo que rejeita, exclui, recusa, e depois
2 Ver, sob este enfoque, a instigante leitura que Foucault faz de Édipo na conferência de 1974, A verdade e