4.2 Description of Chemical Processes in the POPCYCLING-Baltic Model
4.2.2 Description of Air-Surface Exchange
Ortega y Gasset, com esse título, articula uma crítica mordaz à noção de “especialista” e estabelece uma relação direta entre barbárie e especialização. Neste segundo capítulo intitulado Barbárie e especialização, ele retoma a discussão anterior, quando relata a enfermidade gerada pelo século XIX, a saber, o homem-massa. Recupera todo o expediente caminhado e exorta os pontos cruciais de seu aporte teórico. Reafirma o que parece mais importante, que as massas não são classes sociais, mas um modo de ser homem. Alude ao aumento do nível de vida europeu e acrescenta a subida do nível histórico no seio da humanidade. Depois dessa retomada, resume a civilização do século XIX em duas dimensões: a democracia liberal e a técnica.
No primeiro momento, ele se atém à questão da técnica e afirma, de forma peremptória, que a técnica é filha da relação entre o capitalismo e a ciência experimental e que nem toda técnica é científica. E para fundamentar sua discussão, o
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89 autor adverte que a China atingiu um alto grau de tecnicismo sem conhecer as leis da física. A noção de ciência guarda um lugar de suspeição nos escritos do pensador espanhol. Dessa forma, percebemos uma relação direta da ciência com a existência do homem-massa. Sobre isso, encontramos a seguinte afirmação em Ortega y Gasset:
Pois bem – acontece que o homem de ciência atual é o protótipo do homem-massa. E não por casualidade, nem por defeito unilateral de cada homem de ciência, mas porque a própria ciência – raiz da civilização – converte-o automaticamente em homem-massa, isto é, faz dele um primitivo, um bárbaro moderno. (ORTEGA Y GASSET, 1987: 142-143)
Para Ortega y Gasset, o técnico, na condição de homem de ciência, exerce o poder na sociedade moderna. O autor imagina uma seguinte situação: se um homem, de outro planeta, visitasse a Europa com o desejo de conhecê-la, quem os europeus indicariam para responder às questões? Responde o autor que certamente seria o homem de ciência, o cume da civilização. A crítica é ferrenha e sem precedentes. Segundo Ortega y Gasset, a ciência experimental começa no final século XVI com Galileu e se estrutura no século XVII com Newton e começa o seu desenvolvimento no século XVIII. Esta ciência, na visão do autor, avança e exige do homem uma especialização para desenvolvê-la.
Decerto que a ciência não pode se especializar, entretanto pode promover a especialização no interior de seu trabalho. Quer dizer, não é o homem que deve mudar, pelo contrário, a ciência deve promover mudanças e perspectivas para que o homem compreenda o elemento científico. No entanto, o agente da ciência foi reduzido a uma capacidade ínfima de compreensão, ou seja, o homem se recolhe ao dado científico e não consegue perceber nada que se encontra ao seu redor. Nesse sentido, nos assegura Ortega y Gasset: “É um homem que, de tudo o que deve saber para ser um personagem discreto, conhece apenas uma determinada ciência, e mesmo dessa ciência só conhece bem a pequena parte de que ele é um ativo pesquisador” 118.
Ortega y Gasset sentencia de forma brilhante o paradoxo apresentado em momentos anteriores. Lembremo-nos de quando apresentava o debate em torno da dualidade do novo homem, ou seja, o seu surgimento é tanto para o bem, quanto para o mal. Pois bem, o especialista é a definição ideal desse novo homem. Este, segundo o
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90 autor, não é o sábio, pois desconhece o universo que não faz parte de sua especialidade. Tampouco é o ignorante, uma vez que é homem de ciência. Nessa medida, o filósofo espanhol conceitua de sábio-ignorante, ou ainda, de especialista.
Todavia, a questão não se reduz à conceituação. O agravante é sua ação de sábio-ignorante. Para o autor, esse tipo de homem, especialista em determinado ramo da ciência, arvora-se nos assuntos de política, de arte e sociedade como primitivo e ignorante, mas tomará decisões com suficiência e energia de sábio, já que não compreende o mundo que o cerca, pois se isolou no seu universo científico. Entretanto, traz consigo a ignorância de pensar como especialista em outros assuntos que não o dominam. Seguindo essa reflexão, nos adverte Ortega y Gasset:
Quem quiser poderá observar a estupidez com que pensam, julgam e atuam hoje na política, na arte, na religião e nos problemas gerais da vida e do mundo os “homens de ciência” e é claro que, além deles, médicos, engenheiros, economistas, professores etc. (...) Eles simbolizam, e constituem em grande parte, o atual império das massas, e sua barbárie é a causa mais imediata da desmoralização européia. (ORTEGA Y GASSET, 1987: 146)
O filósofo espanhol faz uma provocação ao final de sua discussão, ao dizer que, hoje, perdura um maior número de homens de ciência e diminuem os homens cultos, pois, como foi apresentado, os homens que fazem a ciência na sociedade moderna são o tipo ideal de homem-massa. Dessa forma, o autor faz uma ligação entre o especialista e o bárbaro. E em razão da ação direta que ocorre na sociedade moderna, o especialista, ou ainda, sábio-ignorante é um bárbaro que surgiu no centro da Europa para atormentar a civilização.
Contudo, Ortega y Gasset finaliza a discussão apresentando a mecanização da ciência. Admite o autor que a ciência evoluiu e possibilitou oportunidade de melhorias na sociedade moderna. Entretanto, a civilização moderna opera, segundo o autor, com grau elevado de mecanização, isto é, o especialista não é totalmente sábio, como, também, não é totalmente ignorante. Por conta disso, a civilização prossegue, mas não se sabe até quando, acredita o autor já que, no seu entender, hoje é possível a mecanização da ciência, mas as coisas mudam e se tornam cada vez mais complexas.
91 Ao revelar-se um crítico mordaz da ciência e da técnica, o autor propõe pensar um novo modelo de técnica e de ciência, mas essa nova perspectiva orteguiana requer uma reestruturação do pensamento científico e sua capacidade de estender a reflexão. Nesse sentido, o pensador recorre ao exemplo de Newton que não precisou de muita filosofia para criar seu sistema de física. Entretanto, Einstein precisou compreender a investigação filosófica de Kant e Mach para solidificar a sua síntese. Dessa forma, afirma Ortega y Gasset: “Kant e Mach – com esses dois nomes apenas simboliza-se a enorme massa de pensamentos filosóficos e psicológicos que influíram Einstein – serviram para liberar a mente deste e abrir-lhe o caminho para sua inovação” 119.