1. Introduction
1.2. Situating the problem
1.2.3. Masculinities and fatherhood
Ao buscarmos compreender que Igreja Católica é essa, devemos também tentar interpretar o perfil dos católicos que frequentam essa instituição e que se reconhecem como tal. Pensando nos católicos brasileiros, deparamo-nos com duas dimensões bem definidas: ser católico ou ser católico praticante. A definição de católico é muito simplista e vaga, pois na maioria das vezes as pessoas não têm um cotidiano religioso. Ao serem perguntadas sobre a qual religião pertencem, declaram-se católicas, apesar de não praticarem o mínimo das obrigações exigidas pela Igreja, o que faz com que o número de católicos no Brasil predomine em relação a outras religiões.
Até hoje é também consensual a ideia de que “ser brasileiro é ser católico”, e as próprias estatísticas parecem confirmar estas duas tendências de qualificação de identidades. São inferiores a 2% os que afirmam “sem religião”, e mais de 80% os que se declaram católicos. Afirmações do tipo “eu sou crente” ou “sou católico, mas não pratico” são a síntese mais aguda de um trabalho simbólico que, no todo do universo ideológico do sagrado e no domínio específico de cada religião, ou de cada uma de suas formas variantes, obriga a uma classificação que vai separar justamente o sagrado do profano até o distinguir, entre os espaços sociais das religiões e Igrejas reconhecidas, as de quem fala (BRANDÃO, 1988, p. 33, destaque do autor).
Vale ressaltar que houve uma considerável queda no número de adeptos do catolicismo em toda a sua história, no entanto a maioria dos brasileiros ainda é católica. Podemos dizer que até os anos de 1980 o perfil da população religiosa brasileira era maciçamente católico, mas nos anos 80 e 90 houve mudanças consideráveis. Segundo Jacob (2003):
Entre 1980 e 1991, a supremacia católica começa a sofrer fissuras [...] o período de 1980 a 2000 se caracteriza por um amplo movimento de diversificação religiosa, ligado à redução do número de católicos (-15,1 pontos percentuais), a um forte aumento do número de evangélicos (+9 pontos), principalmente dos pentecostais, e a um expressivo crescimento das pessoas sem religião (+5,8 pontos) (JACOB, 2003, p. 9).
Para Neri (2011), que realizou pesquisa sobre o panorama da diversidade religiosa brasileira,
chegamos, em 2009, ao menor nível de adeptos ao catolicismo em nossa história estatisticamente documentada. A proporção de católicos que se mantinha constante no início da década passada (cerca de 74% da população nos anos 2000 e 2003), passa a 68,43% no final da década. Essa queda de 7,3% na taxa entre 2003 e 2009 foi combinada com aumento de outros grupos: a proporção de evangélicos cresce 13,13% no período (passa de 17,88% para 20,23% da população). Cresce também o grupo de pessoas que não possuem religião (de 5,13% para 6,72%, em 7 anos) (NERI, 2011, p. 45).
Esse Novo Mapa das Religiões foi divulgado pelo Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas e teve como objetivo apresentar à sociedade brasileira uma estatística sobre as diferentes religiões no Brasil. Esse estudo foi realizado com base em uma perspectiva weberiana, no aspecto da relação entre religião e economia. Portanto, esse mapa é de suma importância para os estudiosos que elegem a religião como campo de estudo, especialmente para esta pesquisa, em virtude dos dados que traz acerca do feminino.
Nesse novo cenário religioso, percebemos uma mudança brusca: as mulheres são hoje menos católicas em relação a décadas passadas, pois questões primordiais como “contracepção, divórcio e aborto são tabus para a Igreja Católica, que tampouco incentivou sua conquista profissional” (Ibid., p. 22).
Vale, entretanto, enfatizar que estamos lidando com o católico praticante. Nosso objetivo é compreender o ambiente sócio-cultural político dos sujeitos, especialmente o das mulheres católicas praticantes. Ao nos referirmos ao católico estamos estabelecendo algumas características particulares que nos permitem classificá-lo como praticante da doutrina e de seus princípios e atos disciplinares, como participar todos os domingos da missa, colocar o(s) filho(s) na catequese, inserir o jovem em grupos de oração e/ou participar de uma pastoral ou movimento dentro da Igreja.
Ser “católico praticante” acentua no fiel traços de prática e de identidade a que o “católico por tradição” se sente desobrigado. Ao contrário do segundo, que, vimos, identifica-se como católico por se definir como sendo de uma religião mesmo quando não a pratica, o primeiro – ao estilo protestante – constrói sua identidade de católico através de reconhecer-se na religião por participar da Igreja. Mais frequente em seus cultos, ele modela a sua pessoa por uma observância mais motivada das crenças oficiais e das doutrinas de conduta da hierarquia religiosa (BRANDÃO, 1988, p. 53, destaques do autor).
Ao estudarmos as cartas encíclicas e apostólicas, o Catecismo da Igreja Católica, o Manual do Catequista, o informativo O Vagalume, o Diretório Nacional de Catequese, enfim,
as fontes documentais selecionadas para esta pesquisa, estamos estudando o discurso das autoridades religiosas direcionado aos católicos praticantes e as representações construídas sobre o feminino.
Quando as autoridades tradicionais da Igreja Católica traçam o perfil da identidade do “católico brasileiro”, é de um “católico praticante” que falam. Ativamente afiliado à Igreja, é através de realizar nela a sua pessoa religiosa que ele “é católico”; obediente aos preceitos da hierarquia de crença e culto, torna-se como leigo um seu porta-voz, e incorpora à sua conduta social – nunca com o teor de sectarismo militante de um pentecostal em exercício – os preceitos da Igreja (BRANDÃO, 1988, p. 54, destaques do autor).
E é tal contexto que entendemos as representações sociais e o imaginário social desses católicos. Portanto, nosso recorte por analisar as práticas discursivas e não discursivas evidenciam uma diversidade. A diversidade não é uma consciência ela é uma evidência, tal constatação permite eleger o grupo das catequistas da Diocese de Uberlândia. Esta escolha se justifica, pois são pessoas atuantes dentro da ação católica, conhecedoras da doutrina e mesmo assim percebemos que há um distanciamento entre os discursos da Igreja e as práticas religiosas, ou seja, muitas se desviam e outras silenciam diante da norma ditada pela Igreja Católica.