• No results found

5. Discussion

5.1. Main findings

5.1.1. Attitudes towards reproduction in a context of absent fathers

Pensando no método de “re-visão” que a Teologia Feminista propõe, não deixamos de refletir sobre a utilização da bíblia dentro do contexto da catequese. A bíblia é uma das principais ferramentas, se não a maior do processo de catequização. Sua utilização se dá de forma que atenda aos anseios do patriarcalismo, sendo que muitas catequistas utilizam a bíblia como um texto que se encaixa na realidade contemporânea de crianças e adolescentes, construindo um imaginário social que colabora para a desigualdade de gênero.

Nesse sentido, muitos preconceitos e representações são ensinados de acordo com a visão patriarcal da Igreja. E a Teologia Feminista é uma ciência que propicia reler os textos, desconstruindo conceitos tidos como prontos e acabados, possibilitando um novo olhar para a realidade religiosa de mulheres e homens. Ao utilizar o método da re-visão da TF e categoria gênero podemos realizar uma leitura dos textos bíblicos de forma que não oprima nenhum sexo. Dessa forma, desconstruímos conceitos sexistas e conservadores.

A desconstrução dos discursos e dos conceitos conservadores poderá ganhar terreno na Pastoral Catequética, promovendo uma nova consciência com a perspectiva feminista. O ato de ensinar é exercer poder, pois o ensino permite construir conceitos e ideias sobre determinada temática, por isso as catequistas, teólogas, religiosas e demais mulheres católicas devem ter como proposta uma mudança da estrutura hierárquica que a Igreja construiu durante séculos. Tal mudança requer um novo jeito de pensar em sua vivência cristã, colocando-as como seres capazes de refletir sobre sua atuação e construtoras de um pensamento próprio que as inclua na estrutura da Igreja.

Muitas mulheres ocupam lugar de liderança dentro da Igreja nos espaços de evangelização e organização, no entanto, quando é necessário tomar decisões, participar de assembleias, sínodos, conferências, são colocadas à margem, em posição de silêncio, não sendo permitido que tomem o domínio do discurso. A catequese se torna, portanto, um espaço de profunda reflexão acerca da atuação das mulheres dentro da instituição.

Podemos concluir que as catequistas são ativas e engajadas na vida da Igreja, podendo ter a catequese como espaço de divulgação da Teologia Feminista. Tal divulgação pode acontecer dentro do próprio grupo de catequistas e nos ensinamentos transmitidos aos catequizandos, desconstruindo conceitos conservadores que colaboram para a desigualdade entre os sexos. Um exemplo de conceito construído e reproduzido dentro do fazer da catequese é a ideia de que Deus é um ser do sexo masculino. Assim, o masculino se sobrepõe

ao feminino. Para que a desigualdade entre os sexos não aconteça é necessário que homem e mulher sejam tratados no mesmo nível de igualdade e a TF vem dar luz a essa reflexão dentro do espaço religioso.

A Teologia Feminista é uma voz dentro das estruturas hierárquicas da Igreja por intermédio dos discursos e das práticas. Dessa forma, podemos considerá-la como uma força em movimento, pois desconstrói conceitos prontos e elabora um novo pensamento. O discurso da Teologia Feminista é uma nova voz dentro da Igreja Católica, pois discute concepções diferenciadas das que hoje permeiam o contexto religioso para as mulheres. As catequistas, leigas, teólogas e outras mulheres católicas é que vão dar voz a esse discurso androcêntrico, desconstruindo os discursos e os lugares que foram dados às mulheres.

A Igreja Católica confere o título de doutora26 àquelas escritoras que foram singulares em sua história. Dentre elas citamos quatro que a Igreja reconheceu: Catarina de Sena, Teresa D’Ávila, Hildegarda de Bingen e Teresa de Lisieux. Em sua constituição, a Igreja Católica deu esse título a 31 homens e 4 mulheres, tendo sido Catarina e Ávila reconhecidas como doutoras em 1970, Lisieux em 1997 e Bingen em 2012.

É interessante observamos as datas em que essas mulheres receberam tal título. Na década de 70, a Teologia Feminista começa a dar seus primeiros passos em paralelo com o movimento feminista, e na década de 90 tivemos grandes acontecimentos para as mulheres, como, por exemplo, a Década Ecumênica de Solidariedade das Igrejas com a mulher (1988- 1998). Tais acontecimentos foram ímpares na consolidação da Teologia Feminista como movimento de emancipação das mulheres.

Além de observamos a data em que foi conferida a honraria de doutora a essas mulheres, podemos indagar o que mudou para as mulheres religiosas e leigas da Igreja. Outra observação a ser feita é quanto à inferioridade do número de doutoras da igreja em relação ao número de homens. Tal leitura nos permite interpretar que não houve uma maior expansão do espaço para mulheres e muito menos igualdade em relação ao sexo masculino.

No cenário da Catequese e da Teologia Feminista essas mulheres devem ser reconhecidas e estudadas em seu contexto, pois os conhecimentos que a Igreja divulga acerca destas atende a seus anseios, uma vez que foram construídos em uma ótica patriarcal, desconsiderando as suas lutas internas dentro da conjuntura católica. Essas mulheres são expoentes para se pensar a atuação de mulheres religiosas e leigas dentro da Igreja, pois dessa

26

“Título oficialmente dado pela tradição e por decisão da Santa Sé a escritores eclesiásticos notáveis tanto pela santidade de sua vida como pela importância e ortodoxia da sua obra doutrinal” (RODRIGUES, 2007, p. 71).

maneira é possível fazer uma reflexão sobre estas dentro da instituição católica, independentemente do fato de terem ou não se transformado em doutoras.

Vale ressaltar que a Teologia Feminista e a categoria gênero estão entrelaçadas, pois aquela apropriou-se desta para construir seu fazer teológico. Em seu fazer teológico há a intenção de tornar visível o sujeito mulher. Dar visibilidade ao pensamento feminista é também fazer com que a mulher da contemporaneidade seja valorizada.

Sabemos que a Igreja Católica possui inúmeras teólogas e doutoras, que têm capacidade de ministrar, de administrar paróquias, dioceses, sínodos, conferências, assembleias etc., entretanto não são reconhecidas para tais funções. Dentre as teólogas da América Latina, não podemos deixar de destacar algumas: Maria do Pilar Aquino27, Tereza Cavalcanti28, Maria Clara Lucchelli Bingemer29, Sibyla Baeske30 e Ivone Gebara31, que com suas reflexões contribuíram para um novo pensamento sobre a atuação das mulheres dentro do espaço religioso e/ou em outros espaços.

Após o Concílio Vaticano II houve várias discussões e a produção de documentos, como, por exemplo, as cartas encíclicas e apostólicas exploradas no capítulo anterior, que abordaram a temática das mulheres, mas questões que assombram o cotidiano destas ainda permanecem presentes em suas vivências. Ao lidar com o campo do feminino dentro do contexto religioso, temos que compreender a teia de poderes que as colocam em posição de opressão e desigualdade.

27

Ver: Nosso clamor pela vida: teologia latino-americana a partir da perspectiva da mulher. Trad. Rodrigo Contreras. São Paulo: Paulinas, 1996.

A teologia, a Igreja e a mulher na América Latina. Trad. Rodrigo Contrera. São Paulo: Paulinas, 1997. (Coleção Mulher, ontem e hoje).

28

Ver: “Produzindo teologia no feminino plural. A propósito do III Encontro Nacional de Teologia na perspectiva da mulher”. Persp. Teol. 20 (1988) 359-370.

Quando os pobres leem a Bíblia. Reflexões a partir da Pastoral Bíblica.

29

Ver: Ser Cristão hoje. São Paulo: Ave Maria, 2013.

O mistério e o mundo: Paixão por Deus em tempos de descrença. Rio de Janeiro: Rocco, 2013. Crônicas de cá e de lá. Juiz de Fora: Subiaco, 2012.

Secularização: novos desafios. 1. Ed. Rio de Janeiro: Puc-Rio, 2012.

Da teologia do laicato à teologia do batismo. Perspectiva Teologica Belo Horizonte: Centro de Estudos Superiores da Companhia de Jesus, nº 19, p. 29-48, 1987.

30

Ver: Dez anos despertando solidariedade. In: BAESKE, Sibyla (org.) Mulheres desafiam as igrejas cristãs. Petrópolis: Vozes, 2001.

31

Ver: Trindade: palavra sobre coisas velhas e novas. Uma perspectiva ecofeminista (1994); Teologia ecofeminista. Ensaio para repensar o Conhecimento e a Religião (1997);

Rompendo o silêncio. Uma fenomenologia feminista do Mal (2000);

A mobilidade da Senzala Feminina. Mulheres nordestinas, Vida Melhor e Feminismo (2000); O que é Teologia (2006);

O que é Teologia Feminista (2007); O que é Cristianismo (2008);

Terra – Eco Sagrado (Teologia da Libertação e Educação Popular) e As incomôdas filhas de Eva na Igreja da América Latina.

Podemos eleger a década de 80 como a década das mulheres, pois foi nesta que acontecimentos importantes referentes à Teologia Feminista aconteceram. Dentre eles citamos o 1º Ano Internacional da Mulher, promovido pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1985; o 2º Encontro de Teologia Feminista, em 1986; a Década Ecumênica de Solidariedade das Igrejas com a Mulher (1988-1998) e o 3º Encontro de Teologia Feminista, em 1988.

Todos esses acontecimentos, datas, eventos e outros não citados nesta pesquisa foram efeitos das lutas de muitas mulheres que desejavam promover reflexões e pensamentos acerca da atuação e inserção delas na esfera religiosa de forma igualitária, para isso contaram com a força política Teologia Feminista.