Um dos maiores esforços do Movimento Moderno centrou-se numa ruptura com a concepção de espaço existente, apoiada nos emergentes progressos tecnológicos, que levaria a uma crescente sensibilidade por parte da arquitectura.
Para uma possível análise do grau de influência que ocupam conceitos como espaço e lugar na arquitectura e urbanismo do Movimento Moderno, seria necessária uma abordagem mais ampla, ou se possível integral destes conceitos, da sua evolução, dos autores que sobre eles se debruçam. Pela estrutura sintética deste escrito ocupará apenas algumas linhas.
Schmarzow, define a arquitectura com “a arte do espaço” e Riegl, situa o conceito de espaço como essência da arquitectura, é a primeira vez que o conceito é utilizado de forma explícita, no entanto, depressa alcança novos horizontes e se supera. Riegl identifica no interior delimitado, homogéneo e perfeito do Panteão de Roma o paradigma do conceito de espaço.32
É uma concepção tradicional de espaço, diferenciado na sua volumetria, identificável, descontinuo, delimitado, específico, cartesiano e estático, em oposição ao espaço desenvolvido pelos movimentos de índole vanguardista que buscam um espaço livre, fluído, leve, contínuo, aberto, infinito, transparente, abstracto, newtoniano. Esta nova modalidade de espaço, qualificada por muitos como “espaço-tempo” pela relação com a teoria da relatividade de Albert Einstein, e a introdução da variável do movimento. Esta concepção foi por muitos caracterizada como “antiespaço”.
Copérnico rompeu a unidade analítica entre os elementos do espaço, da forma e da perspectiva cónica expressa na imagem do homem como centro. A revolução científica gerada pela nova concepção do espaço está na origem do conceito de antiespaço, o espaço independente, relativo a objectos em movimento dentro do sistema cósmico.
A materialização deste espaço moderno surge através do uso de espaços fluídos, com recurso à iluminação zenital, com a sobreposição de planos, o carácter infinito do espaço pelo uso da repetição, a visão de uma
emancipação do espaço pela percepção dinâmica do homem em movimento. Um exemplo de referência é o Cristal Palace londrino (1851), da autoria de Joseph Paxton; no seu interior era perceptível um espaço dinâmico e livre, onde os objectos eram envolvidos num banho de luz, onde a fronteira entre interior e exterior se encontrava indefinida.
A procura de uma expressão moderna do espaço atinge pela abstracção um passo transcendental para a arquitectura - aquilo que Josep Maria Montaner indica como “a concepção internacional do espaço conformado sobre um plano horizontal livre e fachada transparente”. O autor aborda ainda o principal elemento de organização do espaço vazio moderno, tanto pela sua aptidão estrutural como formal - o pilar - seja o cartesiano de Le Corbusier, a secção circular de Oscar Niemeyer, ou o perfil de aço de Mies Van Der Rohe.
Platão define em “Timeu” o ‘chóra’, espaço eterno, infinito, abstracto, contentor de tudo o que é visível, e ocupa uma posição. Já Aristóteles, em “Física”, utiliza o topos (lugar) para abordar o conceito de espaço, ao contrário do defendido por Platão - “as ideias não se encontram num lugar” - o filósofo considera o lugar com uma propriedade física do corpo, o lugar de uma coisa é a sua forma e limite, por isso é algo de transportável e que não pode ser dissociado do seu corpo. Neste contexto de relação entre homem e meio, é útil falar da concepção grega de lugar, visível nas formas distintas em função do valor intelectual e religioso do lugar, visível nos seus numerosos e distintos templos.33
Esta relação grega de Genius loci, foi recuperada na modernidade, por autores como Christian Norberg-Schulz, Denys Lasdun ou Vincent Scully. Heidegger defende que a arquitectura, pela sua capacidade de gerar vida, tem a capacidade de transformar num lugar indeterminado no “lugar” - irrepetível e singular. Os espaços onde se desenvolve a vida, são antes de tudo lugares.
Maurice Merleau-Ponty distingue o espaço de lugar pela presença da experiência, o lugar está relacionado com o processo fenomenológico da percepção, bem como da experiência do mundo por parte do corpo humano.
A sensibilidade para com o lugar foi algo de irrelevante para os mestres da arquitectura moderna, de Louis Kahn a Le Corbusier é evidente uma autonomia do objecto arquitectónico, valorizado em si mesmo e
desprezando o topos, que o define. Denis Diderot, preocupado com a relação orgânica entre a pintura e o lugar, observava “os nossos arquitectos carecem de génio, desconhecem as ideias acessórias que são despertadas pelo lugar”.34
Sobre a metodologia projectual modernista, Montaner aponta “As vanguardas enfatizam o processo de isolamento dos elementos fora do seu contexto actual, (...) um projecto teoricamente organicista de Le Corbusier, como a capela de Ronchamp (1955) mantém uma relação genérica não empírica com o contexto. De facto a metáfora do barco, que está presente em boa parte da obra de Le Corbusier, relaciona-se estritamente com a ideia de uma arquitectura autónoma, que pode ser fundamentada sem qualquer relação com a sua envolvente”.35
O “espaço”, segundo o mesmo autor, tem um carácter ideal, teórico genérico, plural e indefinido, enquanto o “lugar” possui uma condição concreta, empírica, existencial, articulada e detalhada.
O espaço moderno é quantitativo, desdobra-se em geometrias tridimensionais, é abstracto, lógico, científico e matemático, trata-se de uma construção mental, sendo este limitado na perfeição (Panteão de Roma) ou dinâmico (Museu Guggenheim de Nova Iorque) tende na sua essência a ser infinito e ilimitado. Por sua vez o lugar, continua a prender- se com valores simbólicos e históricos, é ambiental e relaciona-se fenomenologicamente com o corpo humano.
O modelo de espaço moderno, definido pela mão de arquitectos como Mies Van Der Rohe com os seus pavilhões e Le Corbusier, com as estruturas das casas Citrohan e Dominó. Com a assimilação do conceito de espaço moderno por parte do panorama arquitectónico, vários arquitectos como Lúcio Costa ou Arne Jacobsen procuram a inovação através da interpretação da arquitectura vernácula, nas suas referências ao lugar e detalhes técnicos.
A relação da arquitectura com o lugar foi desenvolvida pela mão de Frank Lloyd Wright, com base nos manifestos pró-organicismo de Louis Sullivan, perseguindo ao longo da sua obra um espaço moderno que não fosse indiferente ao lugar, mas que o melhorasse.
Outros arquitectos, como Alvar Aalto ou Erik Gunnar Asplund defenderam pelas suas obras uma relação essencial entre a arquitectura e o lugar. Importa talvez ainda apresentar a concepção de relação entre arquitectura e lugar segundo Sigfried Giedion, o autor, defende que a arquitectura pode assumir duas atitudes perante a natureza: a do contraste - expressa nas pirâmides egípcias e templos gregos - e a da amálgama - que encontramos em Petra, nos anfiteatros gregos e na obra de Wright.36