linguagem filosófica que pretende rever a linguagem filosófica anterior. A impressão que fica é de que quem recorre a Heidegger, do ponto de vista das ciências humanas, está sempre prestes a se equivocar, vide o conhecido “produtivo mal-entendimento” de Binswanger (Frie, 1999). Para um psicólogo como Letteri (2009): “Os escritos de Heidegger frequentemente geram desorientação que, por vezes, chega ao desespero. Não-filósofos comumente estão em conflito com a densidade de sua linguagem” (p. xiii). Por isso, é preciso atenção ao emprego adequado dos termos heideggerianos, sem, contudo, deixar de lado a necessidade de considerá-los conforme a proposta não-filosófica desta tese.
Além do cuidado com os termos, é preciso atentar que, para a realização de seu objetivo, a tese adota a Analítica do Dasein como um entendimento sobre como é o ser humano ou como uma concepção de homem. Não era este, contudo, o objetivo de Heidegger. A prioridade da Analítica é questionar o ser, ou seja, a abertura que torna possível considerar algo como isto ou aquilo e, assim, dar sentido ao que se mostra (Sheehan, 2014) ou, nas palavras de Dreyfus (1991): “dar sentido a nossa capacidade de dar sentido às coisas” (p. 11) . O estudo de Heidegger sobre o ser é justificado à luz da leitura que ele faz do percurso histórico da metafísica ocidental: o esquecimento do ser, em função do privilegiamento do ente. Ente é tudo aquilo que se afirma que “é”, o ser está no “é”, logo não deve ser confundido com o ente:
O questionado da questão a ser elaborada é o ser. O que determina o ente como ente, o em vista de que o ente já está sempre sendo compreendido, em qualquer discussão. O ser dos entes não “é” em si mesmo um outro ente (Heidegger, 1927/2006, p. 41). Como ponto de partida para o questionamento do ser, Heidegger elege o ente que, em seu ser, apresenta a possibilidade de questionar: o ente que nós mesmos somos. A própria
elaboração do questionamento do ser é manifestação do modo de ser de um ente específico (nós mesmos) que, sendo, já tem uma compreensão do ser, ainda que vaga. Já tendo em vista a investigação desse ente em seu ser, a fim de estabelecer uma discussão com a tradição metafísica a respeito do ser em geral, Heidegger chama o ente que nós somos de Dasein. Denominações como homem, pessoa, humano são produto do pensamento metafísico que privilegia o ente. Com os próprios termos empregados, Heidegger pretende rever a tradição metafísica, cuja linguagem carrega consigo as consolidações que o filósofo pretende evitar.
Na diferenciação entre ser e ente tem-se dois níveis: o ontológico (ser), no qual se dá atenção às condições de possibilidade para que um ente se manifeste como tal e o ôntico (ente), no qual a atenção se dirige para as características de um ente qualquer. No nível ôntico, estuda-se o modo de ser dos entes; no ontológico, as condições para que os entes possam ser. Heidegger desenvolve a Analítica do Dasein no nível ontológico, ou seja não visa o “homem”, porém as condições ontológicas que possibilitam ao ente que nós mesmos somos compreender-se como homem, pessoa, animal racional, sujeito, etc. A investigação do ser e a descrição do modo de ser do ente que nós mesmos somos são, de início, uma empreitada única: “Elaborar a questão do ser significa, portanto, tornar transparente um ente – que questiona – em seu ser” (Heidegger, 1927/2006, p. 42).
No momento em que um estudo de psicologia se propõe a trabalhar com a Analítica heideggeriana, na forma de uma concepção de ser humano, é necessário ter claro que os objetivos filosófico-ontológicos de Heidegger não estão mais em questão. Esta tese se apropria de uma etapa do trabalho do filósofo - a descrição do ser do Dasein - e nela visa o nível ôntico. Tal procedimento não desvaloriza a obra de Heidegger: como será mostrado em seguida, esta abordagem encontra justificativa no trabalho do filósofo. Além disso, as ciências são fortemente influenciadas por entendimentos filosóficos a respeito do humano,
entendimentos estes com os quais Heidegger dialoga, de modo que discussões filosóficas se reencontram no nível científico, abrindo caminho para novas perspectivas nas ciências.
A consideração da Analítica Existencial em seu nível ôntico está respaldada por algumas observações do próprio Heidegger. Primeiramente, por este ser um trabalho de psicologia, portanto um estudo já limitado a problemas específicos de uma ciência, não tem a abrangência necessária para proposições ontológicas. Heidegger (1927/2006) afirma que “O questionar ontológico é mais originário do que as pesquisas ônticas das ciências positivas” (p. 46-7). O questionamento ontológico não se prende às especificidades de nenhuma área científica. Ele transpassa todas as ciências, propondo-lhes um fundamento. É inviável, por conseguinte, que um trabalho científico faça observações que dizem respeito à fundamentação de todas as ciências. Trabalha-se, cientificamente, no nível da autocompreensão de si, situada no tempo e no espaço: o Dasein pode compreender a si mesmo como “homem”. É neste nível que esta tese atua, adotando a posição de que o homem em questão é abordado como uma possibilidade de compreensão de si mesmo que caracteriza o Dasein ou o ser do ente que nós mesmos somos.
Heidegger (1927/2006), por sua vez, observa que “A analítica existencial, por sua vez, possui, em última instância, raízes [...] ônticas” (p. 50). Raízes ônticas se referem ao nível das ocupações cotidianas, da vida rotineira na qual cada um de nós é mais um entre os outros, exercendo alguma atividade, morando em algum lugar, fazendo planos. Neste modo de ser cotidiano, ôntico, já há uma compreensão do próprio ser, como sendo “fulano”, que exerce alguma atividade, que vive numa determinada cidade. Para que tal compreensão, ainda que vaga, seja possível é preciso que haja uma relação com o ser. A partir dessa relação pode-se desenvolver o conhecimento ontológico. A possibilidade da compreensão do ser está na compreensão de si mesmo como sendo “alguém” (nível ôntico), e a compreensão de si como “alguém” é possível, porque há compreensão do ser (nível ontológico). Posso
compreender um questionamento ontológico, porque já compreendo a mim mesmo como, por exemplo, psicólogo e posso compreender-me como psicólogo, porque já tenho uma compreensão – vaga – do ser. Logo, o ôntico e o ontológico ocorrem conjuntamente e um ou outro pode ser priorizado numa investigação.
Embora a Analítica seja do Dasein, entendido como o “ente que cada um de nós mesmos sempre somos” (Heidegger, 1927/2006, p. 42), Heidegger não evita completamente o termo “homem”. Ele o emprega, por exemplo, deixando claro que ao “homem” atribui o modo de ser do Dasein (em português, “presença”): “Como atitude do homem, as ciências possuem o modo de ser desse ente (homem). Apreendemos terminologicamente esse ente como presença”1 (Heidegger, 1927/2006, p. 47). Em outra passagem, o filósofo utiliza o mesmo recurso, ao rever a tradição cartesiana: “a substância do homem é a existência” (Heidegger, 1927/2006, p. 282).
Em vista disso, é aceitável que se adote a Analítica do Dasein como uma concepção de homem ou de ser humano, desde que – e este é o caso – fique claro que ao modo de ser do homem corresponde o Dasein. Heidegger (1927/2006), no entanto, nem sempre faz essa ressalva, como na passagem que segue: “Com a obra, portanto, não se dá ao encontro apenas o ente manual, mas também entes que possuem o modo de ser do homem” (p. 119). Quando Heidegger escreve: “Dizendo-se a presença, deve-se também pronunciar sempre o pronome pessoal, devido a seu caráter de ser sempre minha: ‘eu sou’, ‘tu és’” (Heidegger, 1927/2006, p. 86), ele mesmo abre a possibilidade de que se trabalhe com a Analítica no nível ôntico, no qual pronomes pessoais necessariamente dizem respeito a pessoas.
1
Na primeira versão brasileira de Ser e Tempo, Dasein é traduzido como “presença”. “Ser-aí” é a tradução literal do termo alemão; é utilizada em Os Problemas Fundamentais da Fenomenologia. A tendência internacional, entretanto, é manter a palavra original. Neste texto, Dasein, presença e ser-aí (nas citações), ser humano e ser do homem são utilizados como sinônimos.
O emprego da Analítica heideggeriana no nível de suas “raízes ônticas” e no campo da psicologia se justifica na própria história do filósofo. Heidegger colaborou com o psiquiatra suíço Medard Boss (1903-1990) no desenvolvimento da Daseinsanalyse, uma abordagem psicoterapêutica (ôntica, portanto) baseada em sua filosofia. A participação de Heidegger na Daseinsanalyse está registrada em Seminários de Zollikon (Heidegger, 1987/2001a), onde se lê, por exemplo: “[...] a relação de daseinsanalistas e analisando pode ser vivida como uma relação de Dasein para Dasein” (p. 150), afirmação na qual Heidegger situa o Dasein no nível ôntico. Assim também quando se refere a “um determinado Dasein existente” (p. 151) e ao “Dasein social-histórico e individual” (p. 151).