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Estamos habituados a encarar o cenário religioso, suas instituições e movimentos como se estivéssemos diante de uma realidade rigidamente estruturada, amparada por amarras fincadas na tradição e na história. Daí a incorreta e ilusória visão de que o elemento distintivo do fenômeno religioso é o que está cristalizado, estruturado e institucionalizado, isto é, a sua essência, e não o fenômeno visto a partir do movimento, do dinamismo e da mutação (BITUN, 2011a, p.9)31.

Nas obras O Peregrino e o Convertido de Danìele Hervieu-Léger32 e Religion in

Britain de Grace Davie33, há ferramentas teóricas que auxiliam na compreensão do fenômeno dos evangélicos sem igreja no Brasil contemporâneo.

Também serão utilizados na conclusão desta pesquisa dois conceitos criados pelo intelectual francês, Michel de Certeau34, a saber, estratégias e táticas, que também auxiliarão na análise do fenômeno aqui estudado. A seguir serão apresentadas as teorias de Hervieu- Léger e de Davie, ambas são referencias para esta pesquisa.

Em sua pesquisa sobre o fenômeno religioso na modernidade, tendo como cenário de fundo o mundo ocidental e mais especificamente a Europa, com uma especial atenção para o catolicismo francês, Hervieu-Léger trabalha em O Peregrino e o Convertido sobre o movimento da religião.

No mundo da tradição, “a igreja era o ponto de referência, o lugar em que se concentrava toda a vida da comunidade”. Desta maneira “a religião estava no centro da sua existência cotidiana. Os sinos ditavam o ritmo do tempo. As festas religiosas regulavam os ciclos da vida dos indivíduos e da coletividade” (HERVIEU-LÉGER, 2008, p. 15).

Em contrapartida, o tempo que se convencionou chamar de modernidade possuí características bem distintas: “colocar à frente, em todos os domínios da ação, a racionalidade” (HERVIEU-LÉGER, 2008, p. 31), “a cisão com o mundo da tradição: a afirmação segundo a qual o homem é legislador de sua própria vida, capaz igualmente, em

31 Dr. Leonildo S. Campos na apresentação do livro Mochileiros da Fé do Dr. Ricardo Bitun pagina 9.

32 HERVIEU-LÉGER, Danìele. O Peregrino e o Convertido: A Religião em Movimento. [Tradução João

B.Kreuch], Petrópolis: Vozes, 2008.

33 DAVIE, GRACE. Religion in Britain Since 1945, Oxford: Blackwell Publisher, 1994.

39 cooperação com outros [...], de determinar as orientações que pretende dar ao mundo que o rodeia” (HERVIEU-LÉGER, 2008, p. 32) e “um tipo particular de organização social, caracterizada pela diferenciação das instituições” (HERVIEU-LÉGER, 2008, p. 33).

Na modernidade, a religião ou a religiosidade não desaparece como foi previsto por diversos intelectuais, mas ela está presente de maneira distinta daquela que ocorria no mundo da tradição.

Ocorre o abandono do que era estático e herdado dos pais. A religião deixa de ser transmitida de uma geração para a outra, passando para a livre escolha do individuo, o que está relacionado ao processo de desinstitucionalização atualmente em curso “em todas as instituições religiosas” (HERVIEU-LÉGER, 2008, pp. 30 - 43).

A religiosidade se movimentou para fora das instituições religiosas, passando a habitar qualquer lugar, ou seja, as pessoas não são indiferentes para com a religião, mas “a crença escapa totalmente ao controle das grandes igrejas e das instituições religiosas”, com isto as pessoas criam “seu próprio sistema de fé” (HERVIEU-LÉGER, 2008, p. 42), completamente desconectado da regulamentação desta ou daquela igreja/religião e prontos para realizarem bricolagens entre sistemas religiosos diversos. Em resumo, há no ocidente contemporâneo uma individualização da religião (HERVIEU-LÉGER, 2008, pp. 41 - 43).

O sujeito moderno é marcado por esta individualização, autonomia e imediatez. Deste modo “nenhuma instituição pode” ou consegue, “de forma permanente [...], prescrever aos indivíduos e à sociedade um código unificado de sentidos e, menos ainda, impor-lhes a autoridade de normas que dele decorrem” (HERVIEU-LÉGER, 2008, pp. 50, 51).

Os evangélicos sem igreja são “fieis”, talvez seja melhor dizer, pessoas com religiosidade, que não permitem mais que igrejas locais ou denominações determinem (regulamentem) suas crenças, práticas e sentidos da vida. A identidade já não é mais formada pela religião, ela colabora, porém não determina. “Observa-se que a dimensão identitária da referência confessional nem sempre é colocada em relação com o conteúdo da fé que, supostamente, deveria fundamentá-lo oficialmente” (HERVIEU-LÉGER, 2008, p. 52).

Porém, é sabido que muitos dos sem igreja, quando lhes é solicitado sua identidade religiosa, eles respondem afirmando serem evangélicos. Hervieu-Léger, em sua teoria sobre o movimento dentro da religião, indica um caminho para a compreensão deste fenômeno:

Os indivíduos preservam, muitas vezes preservam um pouco – mesmo que muito pouco – das identidades que abandonaram ou das quais, na verdade, eles nunca se

40 apoderaram, e, por outro lado, por que sua “saída religiosa” se revela incompleta. [...] O afastamento religioso mais explícito pode coexistir, em um mesmo indivíduo, com a preservação, mais ou menos consciente, das adesões [...], que servem de suporte a reorganizações identitárias precárias (2008, p.72).

A crença e a religiosidade estão presentes no cotidiano, porém sem configurarem necessariamente uma pertença. A expressão utilizada em inglês é believing, without beloing, numa tradução livre: crer sem pertencer. Esta também é a teoria da socióloga inglesa Grace Davie, em seu livro Religion in Britain Since 1945.

Nesta obra, a autora realiza uma ampla e profunda análise da religiosidade na Grã- Bretanha (Inglaterra, País de Gales, Escócia, República da Irlanda e Irlanda do Norte), a partir do pós-segunda guerra mundial (1945) até 1994 (período da escrita da obra).

Utilizando tanto dados estatísticos e instrumentos sociológicos para analisar regiões especificas da Grã-Bretanha, como grupos religiosos específicos, tendo especial atenção para as confissões cristãs (catolicismo, anglicanismo, protestantismo e até mesmo denominações especificas).

O livro de Davie está inserido dentro de uma série de livros sobre a Grã-Bretanha do pós-segunda guerra mundial, sendo uma análise especifica sobre a religiosidade inglesa, apesar de haver no texto conexões com a questão na Europa.

Uma das perguntas que Grace Davie procura responder em seu livro é:

Por que é, por exemplo, que a maioria do povo britânico - em comum com muitos outros europeus - insiste em acreditar (se apenas em um Deus comum), mas não vê necessidade de participar com regularidade mesmo que mínima nas suas instituições religiosas? (DAVIE, 1994, p. 2)35

Em contrapartida “relativamente poucas pessoas britânicas optaram por sair da religião completamente [...] os ateus são raros” (DAVIE, 1994, p. 2)36.

Há um descompasso na relação com a religião, na sociedade analisada pela autora, ou seja,

as variáveis envolvidas com os sentimentos, a experiência e os aspectos mais sagrados

35 Tradução livre realizada pelo autor da dissertação, o texto em inglês diz: Why is it, for example, that the

majority o f British people - in common with many other Europeans - persist in believing (if only in an ordinary God), but see no need to participate with even minimal regularity in their religious institutions?

36 Tradução livre realizada pelo autor da dissertação, o texto em inglês diz: relatively few British people have

41 da crença religiosa demonstram persistência considerável enquanto que “ortodoxia religiosa, a participação ritual e mostrar apego institucional (possuí) um grau inegável de secularização” (DAVIE, 1994, p. 4, 5)37.

Analisando a sociedade britânica, Davie constrói uma tipologia da crença a partir de suas diferentes formas, conforme o âmbito ou o aspecto da sociedade em que está presente:

O interior da cidade / Crença deprimida O subúrbio / Crença articulada

O centro da cidade / Crença cívica A zona rural / Crença assumida

A Igreja Católica Romana / Crença expressa As igrejas Afro-caribenhas / Crença comum Educação Religiosa / Crença injetada ou rejeitada

Transmissão (mídia) religiosa / Crer sem pertencer por excelência (DAVIE, 1994, p. 105)38.

Davie aponta que o comum era a falta de participação na vida religiosa (institucional), das classes trabalhadoras (1994, p. 107). Porém,

O padrão geral de vida religiosa está mudando. Pois parece que mais e mais pessoas no seio da sociedade britânica quer acreditar, mas não quer se envolver em práticas religiosas. Em outras palavras, alguns aspectos do comportamento religioso da classe trabalhadora (nomeadamente a falta de assistência religiosa regular) - tradicionalmente consideradas como exceções à regra - estão cada vez mais se tornando os padrões normais da nossa sociedade (DAVIE, 1994, p. 107)39.

De maneira semelhante, os brasileiros possuem um histórico de fé e crença. Apesar do aumento das pessoas que se consideram sem religião e também dos evangélicos sem igreja, a religiosidade continua presente neste povo. O ateísmo e o agnosticismo são categorias com um percentual muito pequeno de incidência na população.

37 Tradução livre realizada pelo autor da dissertação, o texto em inglês diz: On the one hand, variables concerned

with feelings, experience and the more numinous aspects o f religious belief demonstrate considerable persistence in contemporary Britain (as they do throughout Western Europe); on the other, those which measure religious orthodoxy, ritual participation and institutional attachment display an undeniable degree of secularization (a word to which we shall return) both before and during the post-war period.

38 Tradução livre realizada pelo autor da dissertação, o texto em inglês diz: The inner city/ Belief depressed. The

suburb/ Belief articulated. The city centre/ Civic belief. The countryside/ Belief assumed. The Roman Catholic Church/ Belief expressed. The Afro-Caribbean churches/ Communal belief. Religious education/ Belief injected or rejected. Religious broadcasting/ Believing without belonging par excellence.

39 Tradução livre realizada pelo autor da dissertação, o texto em inglês diz: The overall pattern of religious life is

changing. For it appears that more and more people within British society want to believe but do not want to involve themselves in religious practice. In other words some aspects of working-class religious behaviour (notably the lack of regular religious attendance) — traditionally thought of as exceptions to the rule — are increasingly becoming the normal pattern of our society.

42 No caso dos evangélicos, o que está se perdendo ou deixando de ter é a clássica e mais do que centenária maneira (forma, jeito) de ser evangélico, ou seja, a pertença, presença e membresia em uma igreja local.

O protestantismo e o pentecostalismo sempre adotaram como estratégia40

de inserção na sociedade a conversão, ou seja, o evangelho e as ideologias da igreja são apresentadas a alguém que pertence a outra religião ou que não tenha uma prática religiosa. Em ambos os casos a pessoa se converte, passa a seguir um novo caminho, em detrimento ao anterior, alterando suas crenças, seus hábitos cotidianos, em suma, sua subjetividade. Este novo fiel veste a camisa desta religião e defende suas crenças e doutrinas.

Na atualidade, estes grupos evangélicos continuam utilizando desta estratégia, porém na sociedade contemporânea brasileira ser um descamisado religioso (TERRIN, 2003, pp. 336 - 338) é a tática comum de muitos fiéis.