O interesse em buscar a fotografia inscreve-se no âmbito pessoal da pesquisadora e, fundamentalmente, por ser um dos recursos utilizados no projeto de intervenção denominado “Autorretrato da Loucura”, apresentado no capítulo quatro desta dissertação.
Com vistas a aprofundar os conhecimentos sobre fotografia, buscou-se no Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica a disciplina Regimes de sentido em imagem e som. Modos de Enunciação no Audiovisual: da Fotografia aos Meios Digitais.
A opção em cursar a disciplina pautou-se na análise do programa e do conteúdo trabalhado no curso: a perspectiva e o surgimento do sujeito e os elementos da linguagem fotográfica. Possibilidades de acesso a conhecimentos científicos acerca do tema, já que até então os conhecimentos sobre fotografia eram de senso comum.
Apesar de o interesse inicial ter se dado sobre esta temática específica, o curso tornou-se grande descoberta em relação à TV, ao cinema e aos meios digitais. Estes, jamais serão vistos da mesma forma em virtude do conteúdo apreendido, da metodologia e didática aplicadas.
Para abordar a temática da fotografia, são utilizados como referência os registros feitos durante participação no curso e o pensamento de Roland Barthes em sua obra “A câmara clara”.
Barthes (1984, p. 131), afirma que a primeira foto foi produzida pelo francês Joseph Nicéphore Niépce por volta de 1822, embora pesquisa realizada sobre o assunto remeta ao ano de 1826.
Ainda segundo o autor, o advento da fotografia apenas “foi possível a partir do dia em que uma circunstância científica (a descoberta da sensibilidade dos sais de prata à luz), permitiu captar e imprimir diretamente os raios luminosos emitidos por um objeto diversamente iluminado” (BARTHES, 1984, p. 121).
Por definição, fotografia é, essencialmente, a técnica de criação de imagens por meio de exposição luminosa, fixando esta imagem em uma superfície sensívelà luz. Assim, tem-se que a fotografia é o registro de uma emanação luminosa num suporte fotoquímico.
A respeito do significado da palavra fotografia, encontram-se duas explicações. A primeira, em Barthes (1984, p. 121), é que “parece que em latim “fotografia” se diria: “imago lucis opera expressa”, ou seja: imagem revelada, “tirada”, “subida”, “espremida” (como o suco de um limão) por ação da luz”. A segunda, em Bernier, a palavra tem origem grega e significa desenhar com luz. Fotografia: fós: luz; grafis ou grafê: estilo, pincel. Ambas remetendo ao princípio da fotografia do registro da luz em uma superfície sensível.
Embora a primeira fotografia tenha sido produzida no início do século XIX – quando se descobrem, portanto, as propriedades fotoquímicas que determinadas substâncias têm de registrar a luz – o princípio da fotografia data de século XV – com o uso da câmera obscura – e está relacionada ao Renascimento.
A câmera obscura tem o mesmo princípio da câmera fotográfica utilizada atualmente. É uma invenção do campo da óptica que possibilita a projeção e a reprodução da imagem através de um pequeno orifício feito em uma caixa escura. Este pequeno orifício permite a passagem da luz, que projeta a imagem na parede de trás da caixa. Quanto menor a abertura para a passagem da luz, mais definida fica a imagem, que sempre aparece de cabeça para baixo, a menos que seja feito um jogo de espelhos.
A câmera obscura é utilizada sistematicamente por pintores da época do Renascimento como forma de reproduzir, o mais fielmente possível, o mundo exterior. Um modelo científico de interpretação da realidade, que substitui a mão humana pela máquina em busca de um realismo absoluto.
Dito de outro modo, a máquina é utilizada para captar a imagem, sem a mediação da mão humana, uma vez que esta é subjetiva e a pintura envolve, por conseguinte, a subjetividade.
No caso da pintura – subjetiva e imaginada – uma pergunta pode ser feita: o que vejo realmente existiu? Segundo Barthes, este é o “efeito verdadeiramente escandaloso” da fotografia, “o de atestar que o que vejo de fato existiu” (BARTHES, 1984, p. 123). “Na Fotografia jamais posso negar que a coisa esteve lá. Há dupla posição conjunta: de realidade e de passado” (BARTHES, 1984, p. 115). Assim, segundo ele, a fotografia atesta que o referente existiu realmente para a câmera em determinado momento, por isso realidade e passado.
Outra característca da fotografia diz respeito ao “acaso”. Como a fotografia capta tudo o que esteve diante da câmera no momento em que o disparador é acionado, podem aparecer elementos não desejados na cena fotografada. Já na escultura e na pintura, este fenômeno não ocorre. Isto porque o olhar é intensional, seletivo e direcionado e a reprodução em obra de arte é também intensional e seletiva, pois contém a subjetividade humana.
Este “acaso”, Barthes denomina de punctum, e assim ele o explica: “trata-se de uma copresença, é tudo o que se pode dizer: as freiras “estavam lá”, passando no fundo, quando Wessing fotografou os soldados nicaraguenses; (...) toda uma causalidade explica a presença do „detalhe‟” (BARTHES, 1984, p. 68).
“Koen Wessing: Nicarágua, O exército em patrulha nas ruas, 1979. (BARTHES, 1984, p. 41)
Há também na fotografia a perspectiva44, que funciona como um tradutor do tridimensional em bidimensional. É a perspectiva que permite a representação do mundo (tridimensional) em uma superfície plana (bidimensional). A imagem fotográfica, os desenhos, as pinturas e gravuras são bidimensionais e o que se vê na imagem são duas dimensões perspectivadas.
A respeito da fotografia, há duas concepções que a leem de maneira distinta. A primeira, realista, cuja máquina reproduz o mundo e registra emanações independente da mão humana; e a segunda, cujas fotografias são apreendidas como convenções, não relacionadas com o mundo real.
As convenções são regras aceitas socialmente sobre a linguagem fotográfica e sua aplicação não cabe ao mundo real, visto que o mundo não é perspectivado, não possui ponto de fuga, nem enquadre: convenções do código fotográfico.
O ponto comum entre estas duas posições é que a fotografia representa um momento que existiu verdadeiramente na frente da câmera.
Para abordar a temática Fotografia e História Oral, tem-se como referência autores como Frisch, Rouverol e Mauad, que abordam a relação entre palavras e imagens, texto e foto, ao relatarem suas experiências no trabalho com História Oral.
A proposta de unir estes temas pauta-se nos significados e na memória, categorias relacionadas tanto à História Oral, quanto à Fotografia.
Em História Oral, os significados são entendidos como a forma como os sujeitos pensam, interpretam e vivenciam suas experiências. Segundo Portelli (1997, p. 31):
A primeira coisa que torna a história oral diferente, portanto, é aquela que nos conta menos sobre eventos que sobre significados. (...) Fontes orais contam-nos não apenas o que o povo fez, mas o que queria fazer, o que acreditava estar fazendo e o que agora pensa que fez.
Ou seja, os significados atribuídos às experiências vivenciadas. Já na fotografia, o significado está no ato de fotografar.
Fotografar é recortar algo que é significante, que faz sentido para quem fotografa. Um enquadramento da realidade que explicita a subjetividade do fotógrafo.
O que importa e o que não importa fotografar são decisões que quem fotografa deve tomar e essas decisões podem alterar o discurso fotográfico.
Com relação à memória, Portelli (1997b, p. 16) afirma que a centralidade do sujeito é
salientada pelo fato da História Oral dizer respeito a versões do passado, ou seja, à memória. Ainda que esta seja sempre moldada de diversas formas pelo meio social, em última análise, o ato e a arte de lembrar jamais deixam de ser profundamente pessoais. (...) Se considerarmos a memória um processo, e não um depósito de dados, poderemos constatar que, à semelhança da linguagem, a memória é social, tornando-se concreta apenas quando mentalizada ou verbalizada pelas pessoas. (...) Em vista disso, as recordações podem ser semelhantes, contraditórias ou sobrepostas. Porém, em hipótese alguma, as lembranças de duas pessoas são – assim como as impressões digitais, ou, bem da verdade, como as vozes – exatamente iguais.
Portelli (1997, p.31), diz que: “o único e precioso elemento que as fontes orais têm sobre o historiador, e que nenhuma outra fonte possui em medida igual, é a subjetividade do expositor”.
A História Oral pressupõe, portanto, a subjetividade de quem narra, assim como a fotografia pressupõe a subjetividade de quem fotografa, ao escolher o que fotografar e recortar a realidade a ser fotografada.
Para a História Oral, a fotografia é tida como um recurso da memória e fonte de documentação. Recurso da memória por evocar lembranças do passado: o instante ou o ser fotografado recuperados pela memória. As imagens remetem ao momento vivido, a um período histórico e aos acontecimentos, aos quais os sujeitos atribuem significados.
Fonte de documentação, pela fotografia apresentar algo passado, que verdadeiramente existiu na frente da câmera.
Segundo Mauad (2000, p. 200), História Oral e fotografia são “formas distintas de registrar e ao mesmo tempo (re)apresentar a realidade histórica e vivida. Dois sistemas de signos que se entrecruzam na composição da textualidade de uma época”.
Ainda segundo a autora, é a
possibilidade de uma narrativa compartilhada, palavras e imagens engendrando histórias de vida, associadas a problemáticas complexas, cuja análise do local desvenda o global, numa dialética onde global e local interagem na composição dos quadros de compreensão de problemáticas sociais próprias à contemporaneidade.
Khoury (1995, p. 82), afirma que:
as conceituações sobre as fontes e sobre o que seja documento histórico foram alargadas e já deixamos de lado a antiga concepção de pensar no texto escrito como único recurso digno da atenção dos historiadores. Hoje já se valorizam as canções, as poesias, as festas, os cantos populares, tudo transmitido através da tradição oral e também, por que não, os desenhos, as pinturas, as fotografias, etc.
Trabalhar com fotografia e História Oral foi, portanto, uma maneira de conhecer a história de vida e o cotidiano dos sujeitos, por meio não apenas das narrativas, mas também pelas escolhas visuais para representá-las.