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International Research Institute of Stavanger – IRIS

Para compreender a História Oral43, recorre-se ao conceito de cultura a partir do pensamento de Raymond Williams. Segundo o autor, cultura é um conceito histórico, que deve ser compreendido como uma construção social, como processo que cria modos de vida – categoria criada por Thompson – específicos e diferenciados, relacionados ao modo de produção da vida social e material.

Esta afirmativa pode ser compreendida tomando como base o referencial teórico marxista, que fundamenta o pensamento do autor, cujo sentido está na concepção da historiografia, na acepção do homem como produtor de história, “„o homem que se faz a si mesmo‟ pela produção de seus próprios meios de vida”. (WILLIAMS, 2007, p. 25).

Segundo a tradição marxista, todos os homens fazem história na produção social da vida material, o que, por conseguinte, torna-os sujeitos históricos, agentes de transformação. Para Bezerra, (1995, p. 121) reportando-se à Thompson, “não são as estruturas que constroem a história. São as pessoas carregadas de experiência”.

Assim sendo, cultura é concebida como modo de vida por sua fundamentação teórica marxista, entendendo a cultura como um processo histórico e a história como movimento, como processo social constituído por diferentes grupos

43 A História Oral, em uma de suas vertentes, após a Segunda Guerra Mundial, tem nos historiadores ingleses vinculados ao Partido Comunista Britânico sua expressão. Estudam a constituição da classe operária inglesa propondo uma historiografia focalizada de “baixo para cima”. Seus interesses pautavam-se nas experiências das classes operárias, em conhecer as experiências dos trabalhadores em seus modos de viver, suas lutas, hábitos e valores, expressos em sua cotidianidade. Uma maneira de ver a luta de classes em seu processo histórico. Segundo Fenelon (1995, p. 85) uma as grandes questões deste grupo de intelectuais era, sem dúvida, “o seu comprometimento com as definições e teorizações de uma política cultural nacional-popular, que valorizasse o povo, a nação e sua luta histórica pela democracia”. Edward Palmer Thompson e Raymond Williams fizeram parte deste importante grupo de historiadores britânicos.

sociais, no embate cotidiano de forças políticas, na luta de classes, da qual todos os homens fazem parte.

Entender o conceito de cultura, deste modo, leva a outra categoria de fundamental importância para a História Oral: a experiência social. Segundo Fenelon (2006, p. 7):

Falar de cultura desta maneira tem nos levado a mais uma categoria de extrema importância em nossas reflexões – a experiência social – que nos conduz sempre a considerar que homens e mulheres devem retornar em nossa produção ou interpretação como sujeitos sociais, isto é, como pessoas que experimentaram suas situações e relações sociais como necessidades, interesses e com antagonismos. (...) E a experimentam não apenas como ideias no âmbito do pensamento, mas também como sentimentos, valores, normas, obrigações que se exprimem em ações e também como resistências.

Conhecer modos de vida pressupõe conhecer a experiência social, pois o conceito de experiência social está vinculado ao modo como os sujeitos constroem e vivem suas vidas dentro de determinadas condições de produção e reprodução social e material (MARTINELLI, 1999, p. 22-23).

E. P. Thompson e Raymond William entendem a experiência como conceito articulador, sem que a totalidade esteja divida entre estrutura e superestrutura. Com a categoria experiência, a estrutura é tida como processo e os sujeitos são reintroduzidos na história como pessoas que experimentam situações e relações produtivas determinadas como necessidades, interesses e antagonismos. As pessoas experimentam suas experiências como sentimento e lidam com esses sentimentos na cultura como normas, obrigações familiares, de parentesco e reciprocidades como valores (KHOURY; CRUZ; PEIXOTO, 2006, p. 10-11).

Ao tratar da obra de Edward P. Thompson, Fenelon (1995, p. 86, grifo do autor) afirma que:

Não há dúvida que, ao lidar com a categoria “cultura” em todo o conjunto de sua obra, mas especialmente na Formação da Classe Operária, Thompson propõe uma outra maneira de buscar e de investigar as “experiências” dos trabalhadores, não apenas em suas relações econômicas, mas nos seus modos de vida, em suas lutas diárias, nos seus hábitos, valores, dietas, formas de vestir e de morar, de comemorar, de festejar, de cantar, de transmitir suas tradições orais, de viver com elas ou de resistir às transformações também como vivência cotidiana em seu dia-a-dia, e esta é uma nova maneira de ver a luta de classes em seu processo histórico. E é aí que podemos avaliar a maneira como essas experiências são elaboradas em termos culturais, incorporadas às tradições, sistemas de valores, ideias e formas institucionais que podem se constituir em consciência de classe.

De acordo com Toledo (2007, p. 119), esta opção metodológica leva em consideração a possibilidade de explorar as experiências daqueles que foram sempre ignorados pela própria ciência e “explorar as experiências históricas daqueles homens e mulheres, cuja existência é tão frequentemente ignorada, ou mencionada apenas de passagem na principal corrente da história” (FENELON, 1995, p. 82).

Como uma corrente da história que estuda os modos de vida dos sujeitos em seu cotidiano, a História Oral se volta para a compreensão do passado em suas intersecções com o presente. Ocupa-se do campo do social, lutando por mudanças a partir do presente e propondo-se, assim, a alterar nossa relação com o passado. A utilização da História Oral é uma forma de expor e explorar as tensões, os conflitos e os padrões existentes na sociedade, suas contradições.

Se não temos como prever o futuro, importa analisar tendências, possibilidades postas pelo presente e cujos desdobramentos dependem dos embates de forças, dos pactos realizados e do peso das forças sociais em jogo. Importa investigarmos processos reais, num diálogo aberto com a experiência social, buscando compreender em profundidade as relações sociais que os engendram nos diversos momentos, buscando desvendar as diferenças e a pluralidade sem perder o antagonismo, sem perder as indagações do presente que nos impulsionam, traduzindo e explicitando a dimensão social com um olhar político (KHOURY, 2006, p. 27).

Segundo Portelli, o que torna a História Oral diferente de outras metodologias de pesquisa qualitativa são os significados, entendidos como a forma como os sujeitos pensam, interpretam e vivenciam suas experiências. Ou seja, trata- se de uma metodologia que estuda o cotidiano, a vida diária e a cultura material de pessoas ou grupos, um ponto de vista coletivo expresso na narrativa dos sujeitos.