O poema citado por Maria Bethânia, que é datado de 1924 e publicado em 1927, pertencia ao livro Clan do jabuti. Seu autor, Mário de Andrade, o dedicou ao poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade. Vejamos, primeiramente, alguns dados do autor. Mário Raul de Moraes Andrade nasceu em 09 de outubro de 1893. Escreveu seu primeiro livro, Há uma gota de sangue em cada poema, sob o pseudônimo de Mário Sabral. Foi um dos principais nomes da Semana de Arte Moderna de 1922 e publicou a primeira obra tipicamente modernista: Paulicéia desvairada. Em 1926, escreveu Macunaíma e continuou escrevendo poesia. Morreu em 25 de fevereiro de 1945 (OLIVEIRA, 2000, p. 282). Segue o poema:
O POETA COME AMENDOIM28
Noites pesadas de cheiros e calores amontoados... Foi o Sol que por todo o sítio imenso do Brasil Andou marcando de moreno os brasileiros.
Estou pensando nos tempos de antes de eu nascer...
A noite era pra descansar. As gargalhadas brancas dos mu- latos ...
Silencio! O imperador medita os seus versinhos.
Os Caramurús conspiram na sombra das mangueiras ovais. Só o murmurejo dos cre´m-deus-padres irmanava os homens de meu país...
Duma feita os canhamboras perceberam que não tinha mais escravos,
Por causa disso muita virgem-do-rosario se perdeu...
Porém o desastre verdadeiro foi embonecar esta República temporã.
A gente inda não sabia se governar... Progredir, progredimos um tiquinho
Que o progresso também é uma fatalidade... Será o que Nosso Senhor quiser!...
Estou com desejos de desastres...
Com desejos do Amazonas e dos ventos muriçocas Se encostando na cangerana dos batentes...
Tenho desejos de violas e solidões sem sentido Tenho desejos de gemer e de morrer.
Brasil...
Mastigado na gostosura quente do amendoim... Falado numa língua curumim
De palavras incertas num remeleixo melado melancolico... Saem lentas frescas trituradas pelos meus dentes bons... Molham meus beiços que dão beijos alastrados
E depois semitoam sem malícia as rezas bem nascidas...
Brasil amado não porque seja minha patria,
Patria é acaso de migrações e do pão-nosso onde Deus der... Brasil que eu amo porque é o ritmo do meu braço aventuroso, O gôsto dos meus descansos,
O balanço das minhas cantigas amores e dansas.
Brasil que eu sou porque é a minha expressão muito engraçada, Porque é o meu sentimento muito pachorrento,
Porque é o meu geito de ganhar dinheiro, de comer e de dormir
(ANDRADE, 1955, p.157-158).
De acordo com Faraco e Moura (1990, p. 203), Mario de Andrade escreveu a obra Clã do jabuti (1927), “utilizando material do folclore, dos costumes e da linguagem de diferentes regiões do país” para apreender “a diversidade cultural do Brasil”. Esse tema maior – a diversidade cultural brasileira – de fato, pode ser apreendido, no poema, por meio de um percurso que traz figuras, como: “imperador”, “Caramurús”, "Cre’m-deus-padres”, “canhamboras”.
Entretanto, em O poeta come amendoim, há um tema que se destaca mais: o nacionalismo ou patriotismo, porque sua caracterização foge aos padrões comuns. Para expor seu amor pelo Brasil, o EP põe, inicialmente, na boca do narrador29, a decomposição de temas relacionados à “brasilidade”: a cor dos brasileiros em decorrência do clima tropical; as peripécias da história do Brasil, por meio da figura “Caramurús” (fazendo referência à conquista desse país pelos portugueses); a passividade do império; a libertação repentina dos escravos; a prematura proclamação da República; o progresso como algo inevitável e não como uma conquista. Nesse sentido, o nacionalismo que é projetado no poema não está restrito a determinados fatos históricos: por exemplo, o reconhecimento da figura do índio, como foi feito no Romantismo brasileiro, ou mesmo fatos como a defesa de um regime político (o Império ou a República), o que pode ser visto, na literatura, com o personagem Quaresma, de Lima Barreto, conforme mostra o trecho abaixo:
Quaresma estava longe de pensar nisso tudo; ele com muitos homens honestos e sinceros do tempo foram tomados pelo entusiasmo contagioso que Floriano conseguira despertar. Pensava na grande obra que o Destino reservava àquela figura plácida e triste; na reforma radical que ele ia levar ao organismo aniquilado da pátria (BARRETO, 1994 p.126).
Ao contrário disso, para nos aproximarmos da acepção de nacionalismo projetada no texto pelo EP, precisamos atrelar a diversidade a mais uma figura que possui traços de “brasilidade”: o amendoim, uma planta anual, típica do Brasil. EP mostra, então, seu “patriotismo” (seu amor à pátria) por meio de todos aqueles elementos que possuem traços de “brasilidade” mastigados “na gostosura quente do amendoim”. Ou seja, é a decomposição desses elementos que revelará o amor de EP à pátria, o que confere ao nacionalismo do poema um caráter de algo “(re)construído”, que merece, portanto, uma redefinição. Isso é explicitado na última estrofe, na qual esse amor à pátria é justificado por vários traços que não se
29Lembramos que o narrador constitui o “eu” inscrito no texto-enunciado, distinguindo-se, pois, do enunciador
(ou autor implícito) que, como tal, remete à instância da enunciação (considerada como ato implícito de produção do enunciado e logicamente pressuposta pela própria existência do dito), como explica Fiorin (2003, p. 163). Nunca é demais lembrar que o enunciador é a fonte dos valores projetados no texto que são, via de regra, assumidos/ditos pelo narrador.
relacionam, de forma imediata, com os anteriores. Aqui temos os temas da alegria, do amor, enfim, do modo de vida do brasileiro nas figuras: “o ritmo do braço aventuroso”, “o gosto dos meus descansos”, “o balanço das minhas cantigas, amores e danças”, “meu jeito de ganhar dinheiro, de comer e de dormir”. Assim, é por ser o que é que o EP revela e justifica (pela voz do narrador) seu amor à pátria.
Outro dado em que gostaríamos de nos deter é o fato de o poema ser dedicado a Carlos Drummond de Andrade. Dessa forma, o EP reconstrói a nacionalidade brasileira, por meio dos percursos temático-figurativos expostos anteriormente, e, ao mesmo tempo, prevê um enunciatário que perceba que os valores presentes no poema encontram-se orientados para certo tipo de avaliação/aceitação do poeta mineiro.
Salientamos que a intérprete Maria Bethânia não cita o poema na íntegra nessa ocasião30. Ela faz o seguinte recorte: escolhe as duas primeiras estrofes. Optamos, no entanto, por reproduzir e analisar o poema inteiro para mostrar que há uma estratégia de citação, que se encontra na disposição dos elementos da organização textual. No pequeno trecho, retirado do poema e colocado na introdução da canção-poema, subjazem temas e figuras que não podem ser apreendidos nas outras partes do texto. Nele, a análise de temas e figuras se restringe à reflexão sobre a questão da cor da pele31 dos brasileiros, antes de o enunciador do poema nascer. Voltaremos a essa questão na análise da canção-poema.