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Mare og Romsdal

In document Msre 7 Msre (sider 21-24)

Em relação à dimensão psicossocial, pode-se dizer que há uma forte tendência de a palavra ser remetida ao processo primário ou ao som como nos diz Agamben. Isso ocorre em função da ausência de redes sociais e familiares, que, se fossem introjetadas pelo sujeito, permitiriam uma série de mediações entre as relações do mundo externo e as do mundo interno. Tal processo constitui o aparelho psíquico, cada vez com um maior número de facilitações (investimentos nos vínculos introjetados), formando uma rede e estrutura interna necessária para a elaboração dos sentimentos, conflitos, marcas de dor e de prazer. Percorrer esses inúmeros caminhos, enquanto associação livre que permite conter a ação precipitada, examinar o mundo interno e externo, encontrar o desejo e, pelo princípio da realidade, realizá-lo ou não possibilita o pensamento, a elaboração dos sentimentos, ou seja, o processo secundário.

No caso da periferia, essas redes não foram construídas, ou, então, foram destruídas pela violência dos fatos em tamanha quantidade que excedem a capacidade de processamento do aparelho psíquico. Tais fatos funcionam como raios geradores de curtos-circuitos, queimam os caminhos internos, criam facilitações sem mediação e transformam-se em compulsão à repetição. Nem o que está fora, nem o que está dentro do sujeito consegue mediar os estímulos por falta de construção adequada, seja enquanto estrutura social, seja enquanto estrutura psíquica. Essa dinâmica dificulta,

extraordinariamente, a mudança da representação-coisa em representação- palavra. É introjetada, no sujeito, exatamente, essa ausência e essa fragmentação, cacos desse território confuso e assustador, que se expressam pelas actin-outs, de fantasias, da projeção da agressão no outro, na mística religiosa, etc.

O som se contrapõe à palavra e constitui-se a partir da ausência de estruturas e, por conseqüência, do imenso medo que permeia as relações. As quantidades são tão grandes que obturam as palavras. Se, para conversar, se está diante da morte, o melhor é nunca falar. O exemplo claro dessa situação é quando os ‘meninos’ dizem: “fomos buscar a arma para poder conversar”. Em contraposição a esse fato, um outro membro do grupo conta como, antigamente, os conflitos eram resolvidos “na mão”. Após a briga, depois de um tempo, voltava-se a conversar e o vínculo se reconstituía.

Com a ausência da palavra, o conflito entra em um circuito de agressão iminente, abastecendo o sinistro que pode aparecer a cada esquina como um dos obstáculos no território da vida nua. A fantasia de ser morto ou matar aumenta exponencialmente. Na medida em que não é possível a reconstituição do vínculo, a explicitação ou elaboração do conflito, cada uma das partes imagina que será atacado e morto pela outra. Assim, há uma forte sensação de estar sendo perseguido o que leva o sujeito a ser um perseguidor que tenta eliminar o inimigo antes de ser morto. O vínculo com o Outro é, dessa forma, dominado pela fantasia e pelo ato motor.

No caso da dimensão sociodinâmica, as representações palavras são de difícil acesso, as relações grupais são pautadas pela atuação e pela violência. Ao perguntarmos a um dos jovens do grupo conhecido daqueles que queriam matar os ‘meninos’ por vingança, se o assunto do crime podia ser falado no programa estadual contra a violência de que participavam, foi

enfático em dizer que, se os outros suspeitassem que ele sabia ou tinha qualquer contato com os ‘meninos’, seria seguido ou obrigado a dizer onde eles estavam e, com isso, tanto a vida dele como a dos ‘meninos’ estaria em risco.

É extraordinário o papel que a palavra adquire enquanto tentativa de vida e reconstituição do vínculo quando um dos ‘meninos’ busca, durante a noite, o irmão daquele que matou para se explicar. Esse ato exigiu coragem e muito desejo, devido à imprevisibilidade da reação do irmão do rapaz assassinado que podia matá-lo ou chamar um grupo para sair em seu encalço na mesma noite.

Há, ainda, um outro fato interessante na luta pela palavra e pela vida, relatado no grupo. Uma turma de jovens conseguiu um prédio público para o lazer. No entanto, os traficantes ocuparam o local e ninguém mais podia utilizar o espaço. Diante disso, as meninas foram até eles e tiveram uma séria conversa, apontando que aquele espaço era para todos os jovens da comunidade. Os traficantes acederam à colocação. Depois disso, os jovens da comunidade não queriam os traficantes no local, ao que as meninas responderam que o espaço era de todos e os traficantes faziam parte da comunidade. Finalmente, todos ocuparam o local.

No caso da dimensão institucional, é interessante observar como muitas instituições da periferia, pelo temor à palavra, empurram as crianças e os jovens para o som e para a atuação, devido ao medo de emergirem os conflitos do território. Acompanhamos o principal equipamento da região que trabalha com crianças e jovens, havendo uma disciplina cujo real objetivo era a ausência da palavra. Todas as crianças faziam atividades sem parar, não era possível o encontro e a conversa.

No que se refere ao Centro Vida, a constituição do grupo foi um ato verdadeiramente criativo já que possibilitou um salto dialético sobre o agir da equipe. Construiu-se um espaço para a palavra dos “meninos”, de outros jovens, dos técnicos e da diretoria da instituição. Nesse processo, os técnicos e diretores passam a questionar qual é o seu lugar no mundo enquanto pessoas dedicadas ao trabalho social e intelectual. O processo grupal vai permitindo, cada vez mais, que cada um, independente de sua classe social e situação de vida, fale de seu lugar como elemento da equipe.

Assim, no que se refere ao Centro Vida, a idéia de dar palavra ao crime, aos ‘meninos’ e a todos os participantes do grupo foi exatamente oposta ao que ocorria na periferia. Mesmo sendo um espaço protegido pelo sigilo e distância do bairro é evidente que todo o processo do grupo foi surpreendente. A transformação dos sons em palavras carregadas de significado abriam outras redes de associações, gerando a possibilidade do conhece, de compartilhar o desamparo e compreender o que ocorria na periferia.

Há ainda um importante fator em relação aos aspectos comunitários: a palavra, enquanto som, facilmente se transforma em boato e, do boato à ação, não há limite nem intermediações. Um bom exemplo é o que ocorre com a presença real ou fantasiada de um estuprador na favela. Ao ser dito que o estuprador é fulano ou beltrano, ou um sujeito assim ou assado, juntam-se, em grupo, traficantes, pais de família, jovens – todos armados – para matar o sujeito. Se este for pego, terá morte bárbara. O Estado está completamente fora dessa ação, além de a possibilidade de erro ser enorme. Outro fato ilustrativo acerca da força do boato foi o assassinato de um dos participantes do grupo daquele que foi morto pelos ‘meninos’. Imediatamente todos da região achavam que João e Pedro eram os assassinos. Assim, o

apertar o gatilho, na verdade, expressa o real desamparo a que a população está submetida.

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