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Mare og Romsdal

In document Msre 7 Msre (sider 24-29)

Sabemos pela obra de Freud e demais autores da Psicanálise que, no processo edípico, é importante para a criança encontrar quem a proteja e ame- a, que ela respeite e tema perder o seu amor. No texto Psicologia das Massas e Análise do Ego (1921), ele nos diz, inclusive, que a primeira forma de amor é a identificação calcada na necessidade de proteção diante do desamparo. Em função desse vínculo, no processo de desenvolvimento, a criança vai aceitando os limites, a castração, perdendo a onipotência para, então, renunciar àquilo que é do outro, no caso, do pai. Esse doloroso trajeto inevitavelmente gera a ambivalência entre o amor e o ódio àquele que cuida e castra, mas permite que se identifique com o genitor ou com quem está nessa função, ao mesmo tempo possibilita o reconhecimento do outro enquanto sujeito. Para que essa alteridade se constitua, é necessário que a família ou a instituição que exerce essa função possa ser continente desse conflito e sua exteriorização.

Mais tarde, essa figura central, em uma estrutura semelhante à da família, dirigirá o grupo no modelo verticalizado, tal como o exército e a igreja. O soldado repete a estrutura familiar na relação com o general que mantém a tropa agregada. Se esse cai, a tropa se dispersa e entra em pânico.

Ainda, segundo Freud, em Totem e Tabu (1913), no início da humanidade, na horda primitiva, o pai poderoso tinha o poder sobre tudo, inclusive o de usufruir todas as mulheres. A lei surge quando os irmãos quebram esse modelo social, matam o pai e, com isso, fazem um acordo entre

si que gera um código e uma ética permitindo a mútua convivência. Com isso, são necessárias várias renúncias pressupondo uma organização social que, nos termos atuais, seria a Lei e o Estado. São exatamente essas renúncias em nome do coletivo que causam o Mal Estar na Civilização (1930) e que estão o tempo todo presentes enquanto sintomas e ambigüidades nos vínculos e nas relações sociais.

Nas condições de grande pressão social como a que ocorre nas periferias, na dimensão psicossocial, é difícil para a criança encontrar quem a proteja e ame-a, e que ao mesmo tempo ele respeite e tema perder seu amor. Por outro lado, aquele que se propõe à função paterna deve realizar um extraordinário esforço para exercê-la diante de tantas dificuldades concretas. O que surge como alternativa à queda do pai e das instituições é o traficante, o delinqüente com sua força aparente, ou então as igrejas messiânicas. São esses grupos que crescem nas periferias de maneira assustadora e lideram, de forma perversa, o espaço sem lei. Eles possuem uma clara estrutura vertical de horda primitiva. O poder do chefe não tem limites na violência e na sexualidade. Este passa a fazer parte do modelo identificatório que é introjetado pela criança e pelo jovem. Muitas vezes, o conflito interno nesses jovens entre as figuras identificatórias familiares e instituições não tem a força suficiente diante deste homem poderoso com uma arma na mão e que oferece a vida (e a morte) fácil. O jovem submetido à pressão social circula entre esses dois modelos e é a combinatória entre o mundo interno e os fatores desencadeantes que poderão, ou não, gerar o fato violento.

A questão da possibilidade de um modelo identificatório na periferia surge no grupo operativo como algo verdadeiramente importante. Um dos rapazes conta que só não entrou para o crime porque seu pai ficou dezesseis anos preso e sua mãe levava-o nas visitas ao presídio. A cena repetida, de alguma forma, salvou-o, pois reconhece ter sido tão marcante a

experiência com o pai que serviu como algo estruturante em sua vida para não desejar repeti-la. Nas visitas, seu pai falava e mostrava a cadeia, para que o filho aprendesse com a experiência do pai.

Mais um relato no grupo: a mãe e um irmão de um dos jovens são homossexuais. A mãe estava casada com o padrasto. Ele sempre apoiou a mãe nas brigas com o padrasto, até que, em uma das brigas com agressões físicas, ele resolveu não intervir mais, pois achava que ela havia sido muito desleal com ele ao ter um relacionamento com mulher. No dia seguinte, quando ele retornou do trabalho, ela havia ido embora com o irmão sem deixar qualquer pista. O rapaz e o padrasto, diante da mútua solidão, uniram-se. Ele foi trabalhar com o padrasto e viveram juntos durante três anos. Passaram fome e o rapaz executava tarefas muito pesadas na construção civil. Ele relata, então, a importância que o padrasto teve para que agüentasse tantas privações.

Ainda no âmbito das cenas familiares e do que poderíamos chamar de modelos de identificação que emergiram na dinâmica grupal, aparece o caso de um dos participantes do grupo que esteve doze anos preso. Quando era jovem, seu ídolo era o irmão mais velho, com quem aprendeu a roubar e a perambular pela rua. Anos depois, ele precisou do irmão em uma situação difícil e esse o abandonou. Mais tarde, o irmão delatou-o à polícia por um crime que ele não cometeu. Havia em sua vida também uma outra figura muito forte com quem se identificava e a quem idealizava. Esse era um sujeito mais velho, que o introduziu no tráfico, nas drogas, e era respeitadíssimo como malandro de coragem. Quando o membro de nosso grupo chegou ao presídio, encontrou-o vestido de mulher. Ficou perplexo. Esses fatos desencadearam nele uma atitude de muita violência na prisão. Atualmente, ele desenvolve uma série de atividades culturais como rap, grafite, escreve sobre tudo o que lhe ocorreu e trabalha em outros projetos sociais com jovens. Agora tem sido perseguido e espancado pela polícia em função das denúncias

que fez em seu trabalho. Ele conta que somente consegue controlar seu ódio, seu desejo de vingança contra os policiais e, com isso, manter seu trabalho e sua nova vida, quando lembra que sua mãe de 70 anos espera-o todas as noites em casa.

No aspecto sociodinâmico, pode-se dizer que o conflito entre os modelos identificatórios perpassa quase toda a família da periferia. Geralmente a mãe é porta-voz da conflitiva uma vez que percebe, nos mínimos gestos da criança e do adolescente, o desejo pelo aparente poder que se contrapõe à família, seja ela estruturada ou não. Esse conflito está presente também nos grupos de jovens. O mesmo jovem que teve o pai preso relata como, quando os skinheads mataram os negros e homossexuais em Santo André5, chegou a se reunir com os amigos para se armarem e matarem os assassinos.

Tal conflito está presente na maior parte dos jovens e dos grupos da periferia, sejam eles dedicados à violência ou à cultura e à transformação social. Mesmo os ‘meninos’ eram ativos participantes dos grupos de rap e ativistas da cultura. Em suas letras, retratavam, assim como outros jovens, exatamente esse mundo. É também o caso de outros artistas tais como Os Racionais MC6, que representam tão bem, de forma musical e poética, o conflito, ou então, da escrita como Ferrez7, André du Rap8, etc.

A mesma situação conflitiva se reproduz nas instituições da periferia. Crianças e jovens que as freqüentam trazem todas essas questões na transferência com os educadores, técnicos, faxineiros, diretores, professores, guardas, etc. Deve-se atentar também para o fato de que tais funcionários geralmente vivem a mesma problemática com seus filhos e não se sentem

5 Crime ocorrido há alguns anos atrás e que foi julgado em 2004. 6 Racionais MC. http://racionais-mcs.letras.com.br/

7 http://carosamigos.terra.com.br/da_revista/edicoes/ed95/ferrez.asp 8 DU RAp. A. ZENI, B. Sobrevivente. São Paulo: Editora Labortexto, 2002.

fortes o suficiente para ser modelo para os demais. Assim, a instituição, da mesma forma que a família, adota atitudes semelhantes aos modelos presentes no território, ou seja, podem ser messiânicas, repressivas, enfraquecidas e permissivas. Poucas são aquelas que tentam elaborar os conflitos que surgem na transferência tal como o Centro Vida fez ao realizar o grupo.

No que se refere aos processos de identificação no aspecto comunitário, o jovem da periferia não se sente desejado pelo restante da sociedade. O olhar da mãe e/ou do pai que desejam a vida do filho é introjetado por este na relação edípica, fazendo com que ele olhe para si dessa mesma forma, tendo como conseqüência o cuidado consigo e com os demais. Na relação da sociedade estabelecida com o jovem da periferia, aparece, de forma explícita ou velada, o olhar que expressa a exclusão e a morte. O Estado, por meio de sua fraqueza, indiferença e violência, certamente, não passa um desejo de vida.

Outro aspecto fundamental é o que — como já nos dizia Pellegrino9 em 1984 — ocorre em relação ao Estado. Por meio de um modelo corrupto e de uma falsa lei, não possui a força de modelo ético. Com isso, a possibilidade da Lei como algo justo e para todos fica desacreditada. O mesmo ocorre com os meios de comunicação que tratam qualquer jovem pobre e da periferia como perigoso por princípio. São as imagens sociais de que, “na periferia, só existe bandido, puta, ladrão, traficante”, etc. É evidente que esta imagem que a comunidade passa para o próprio jovem se traduz em falta de oportunidades e um profundo ressentimento que os empurram também para a realização da fantasia que a sociedade faz a seu respeito.

‘Os meninos’ um dia contaram que, ao chegar perto do Centro Vida depois de quase quatro horas de trajeto, ao atravessarem a rua, uma senhora

9 PELLEGRINO, H. “Psicanálise da Criminalidade Brasileira: Ricos e Pobres”. Jornal Folha de São Paulo,

fechou o vidro do carro quando os viu se aproximarem. Eles relataram essa cena para exemplificar como se sentiam marginalizados e disseram que só não “zoaram” com ela porque estavam vindo para o grupo.

Recordo-me de um trabalho realizado em uma escola de Primeiro Grau de classe média/alta. Tal trabalho tinha por objetivo desenvolver o tema de estudo anual que era “Os que têm muito, os que têm pouco e os que não têm nada” com as crianças e com os professores. Abordamos, então, a relação das crianças de rua com as da escola. Na escola, o tema não surgia como outros nas rodas de conversa na sala de aula. Logo após, descobrimos que as crianças levavam o tema para a classe e para casa. No entanto, nem os professores nem os pais sabiam o que fazer com a indagação delas sobre as outras crianças que viam nos faróis ou nas ruas, ficando um tema não falado e ignorado também pelas crianças. Esse exemplo parece-me interessante porque mostra o início da negação do outro na classe média e alta em seu nascedouro, ou seja, na escola e na família. É esse modelo que está presente em relação às classes sociais.

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