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No decorrer deste trabalho, procuramos mostrar as implicações entre lugares e modos  de inscrição para a constituição da autoria no quadro cênico resenha acadêmica, partindo da  hipótese  de  que  a  função­autor  se  constitui,  fundamentalmente,  a  partir  da  relação  de  alteridade que o sujeito­autor estabelece com os diversos posicionamentos com os quais se  relaciona no campo acadêmico. Essa relação de alteridade foi analisada a partir das marcas de  heterogeneidade mostrada, consideradas como indícios que permitem reconstituir o processo  de inscrição do sujeito e os modos de constituição da autoria.  Na perspectiva da AD, estamos considerando que as cenas englobante e genérica são  instâncias reguladoras da autoria, o que nos permite dizer que o exercício da função­autor é  condicionado  pelo  funcionamento  do  quadro  cênico.  Fizemos  um  percurso  buscando  evidenciar  essa  questão  a  partir  de  um  trabalho  de  análise  das  resenhas  que  compõem  o  corpus,  as  quais  foram  divididas  em  dois  grupos,  de  acordo  com  o  modo  de  inscrição  do  sujeito  no  quadro  cênico.  Em  linhas  bastante  gerais,  foram  identificados  dois  modos  de  inscrição:  1)  os  textos  pertencentes  ao  grupo,  caracterizados  pelo  gesto  de  o  sujeito  se  inscrever no quadro cênico resenha acadêmica sem instaurar uma polêmica aberta com outros  posicionamentos do campo; 2) os textos do grupo, que se caracterizam pelo gesto de o sujeito  se  inscrever  no  quadro  cênico  instaurando  uma  polêmica  aberta  com  outro(s)  posicionamento(s) do campo. 

Os dados analisados parecem ter confirmado que estes modos de inscrição revelam  que o posicionamento enquanto autor se constrói a partir das relações que o sujeito estabelece  com o Outro (outros posicionamentos discursivos). As análises apresentadas apontaram para o  fato de que aquele que relata a fala de outro o faz a partir de um posicionamento a partir do  qual  enuncia.  Portanto,  a  “tradução”  do  Outro,  presente  nas  formas  de  DR  e  das  aspas

analisadas,  deve  ser  entendida  como  condicionada  pelo  posicionamento  do  sujeito  que  se  inscreve  no  quadro  cênico  resenha  acadêmica  para  enunciar.  Percebemos  que  esses  condicionamentos, além de serem reflexo das coerções do campo acadêmico, estão fortemente  associados  à  área  específica  da  Lingüística  no  interior  deste  campo,  o  que  nos  permite  fortemente supor que os aspectos da constituição da autoria, evidenciados neste trabalho, são  efeitos das relações interdiscursivas que se constituem nesta área. 

Essa  questão,  além  de  pertinente  para  as  análises  discursivas  desenvolvidas  atualmente,  mostrou­se  produtiva  para  a  análise  da  constituição  da  autoria  em  resenhas  acadêmicas. Acreditamos que os dados apresentados apontam para um caminho interessante  para  se  reconstituir  o  processo  de  constituição  de  autoria  de  um  sujeito,  a  partir  da  consideração das formas de discurso relatado e das aspas como indícios de autoria no quadro  cênico  resenha  acadêmica.  Julgamos  que  as  análises  trouxeram  à  tona  aspectos  do  funcionamento discursivo importantes para aqueles que se interessam tanto pela questão da  autoria, quanto pelos gêneros discursivos acadêmicos. Apesar de muitos aspectos das resenhas  não terem sido explorados, acreditamos que as questões tratadas contribuem para a descrição  de aspectos interessantes do  funcionamento discursivo do gênero, mais especificamente,  os  modos particulares de inscrição do sujeito – suas estratégias de abrandamento das avaliações  negativas;  as  formas  mobilizadas  de  apagamento/constituição  da  polêmica  no  interior  do  quadro cênico; o modo de agenciamento das marcas de heterogeneidade, etc. 

Acreditamos que os diferentes efeitos de autoria  são  produzidos de acordo com os  diferentes modos de posicionamento do sujeito em relação ao Outro. Na resenha R15, vimos  que o efeito de autoria decorre da prática discursiva de um sujeito que constitui sua identidade  de autor buscando constituir­se como posicionamento hegemônico, apagando as diferenças e  alinhando­se ao outro(s) posicionamento(s). Na resenha R20 o efeito de autoria decorre da

prática  discursiva  de  um  sujeito  que  se  constitui  autor  por  meio  da  construção  de  uma  polêmica no campo e da tentativa de legitimar­se enquanto um posicionamento forte. 

Olhar a constituição da autoria via heterogeneidade é uma forma de identificarmos as  relações interdiscursivas que se estabelecem no interior do quadro cênico, por meio das quais  se define a identidade enunciativa do sujeito. A análise das implicações entre lugares e modos  de  inscrição  no  interior  do  quadro  cênico  resenha  acadêmica,  além  de  permitir  revelar  as  coerções impostas por esse quadro, nos pareceu uma alternativa viável de investigação, que  pode contribuir para a identificação de outras marcas que estejam funcionando como indícios  da  constituição  da  autoria  no  quadro  cênico  em  questão.  De  acordo  com  o  que  pudemos  evidenciar, parece­nos possível ampliar as questões propostas nesta pesquisa para a análise de  outros  gêneros  acadêmicos,  a  fim  de  observar  se  o  funcionamento  das  formas  de  heterogeneidade  se  mantém  ou  se  altera,  a  depender  do  gênero,  bem  como  se  há  outras  categorias discursivas funcionando como indícios de autoria. 

Estamos considerando que as reflexões desenvolvidas até aqui revelam algumas das  contribuições  que  a  noção  de  quadro  cênico  do  discurso  pode  trazer  para  as  análises  discursivas, visto que analisar as restrições impostas pela instância de enunciação é um meio  de  se  chegar  às  condições  sócio­histórico­ideológicas  que  permitiram  certo  funcionamento  discursivo.  Entretanto,  considerando  os  limites  deste  trabalho,  defendemos  como  relevante  para  novas  pesquisas  a  possibilidade  de  aprofundar  a  análise  acerca  das  implicações  entre  lugares  e  modos  de  inscrição,  ampliando  a  discussão  para  o  nível  da  relação  entre  a  cena  englobante acadêmica e o campo interdiscursivo onde este discurso é produzido, buscando,  assim, outros aspectos histórico­ideológicos do funcionamento discursivo. Esse caminho pode  revelar outras nuances do processo de constituição da autoria em gêneros acadêmicos.

O fato de termos assumido, nesta pesquisa, a noção de gênero de discurso enquanto  uma instância de inscrição regulada pela cena englobante acadêmica e de, consequentemente,  termos olhado, mais especificamente, para as regularidades do quadro cênico, não significa  que estamos desconsiderando as possibilidades de desestabilizações possíveis no processo de  constituição da autoria em gêneros acadêmicos. Percebemos que os resultados alcançados não  excluem a existência de um espaço de instabilidade no interior do gênero resenha, a partir do  qual vislumbramos outras perspectivas, igualmente relevantes, para a análise, particularmente  se  considerarmos  o  conceito  de  autoria  a  partir  da  singularidade,  associada  a  uma  noção  discursiva de estilo. Acreditamos que outros aspectos discursivos da constituição da autoria  em resenhas acadêmicas possam ser evidenciados se considerarmos, também, o fato de que o  gênero  permite  uma  certa  abertura,  um  espaço  de  tensão  em  que  é  possível  se  verificar  brechas por onde o sujeito tenta escapar de uma ordem discursiva. Olhar para a possibilidade  de  abertura  no  gênero  poderá  revelar  outros  efeitos  produzidos  pelas  marcas  de  heterogeneidade. 

Por fim, podemos afirmar que discutir a questão da autoria é uma forma desafiadora  de  se  pensar  sobre  a  identidade  do  sujeito  discursivo  na  Análise  de  Discurso,  questão  que  toma contornos ainda mais interessantes se analisada a partir das contribuições da noção de  cena de enunciação.