tornam-se angustiantes, na medida em que aquelas imagens revelam a
dificuldade e, freqüentemente, a insuficiência das ações preventivas. Esse
texto é um breve relato da minha experiência vivida durante seis meses
- entre dezembro de 1999 e maio de 2000 - no país africano de maior
extensão territorial e com uma história de guerra civil prolongada, cujo
início remonta à independência em 1956.
A presença de inúmeras organizações não-governamentais de ajuda humanitária em determinadas áreas do território sudanês revela a insuficiência de recursos próprios e a deficiência das políticas públicas voltadas para a garantia de padrões básicos de higiene, de saúde e de educação. Aparentemente, os sudaneses sabem qual é o principal motivo que os afasta das metas ótimas de crescimento econômico e de desenvolvimento humano. Em conversa informal com um funcionário da administração pública da cidade de Malakal, no sul do Sudão, não só a percepção do problema
mas também a esperança estão presentes em seu discurso: “Quando a guerra acabar, o Sudão será um grande país”.
O conflito armado no sul do país é um dos mais duradouros no continente africano. É impossível compreender os atuais conflitos sem se referir à história recente da antiga Núbia. Desde 1899 dominado por um condomínio anglo-egípcio, o território sudanês é ocupado por muçulmanos na ampla extensão desértica do norte e por tribos animistas e cristãs nas savanas e nas florestas tropicais do sul. As diferenças culturais não
tardaram a provocar guerra civil pouco tempo depois que a independência deu autonomia de administração aos governantes islâmicos do norte.
Restringir a explicação dos conflitos a aspectos culturais passa pelo risco de defender uma hipótese reducionista da situação. O território sudanês é rico em petróleo, gás natural, ouro, prata e em uma variedade enorme de metais para aproveitamento diverso nas indústrias de transformação. Muitas dessas riquezas ainda não exploradas aguardam investimentos, impossíveis de serem realizados na conjuntura de guerra. Essas riquezas determinam também competição envolvendo as grandes potências, cujo resultado é um interessado concerto político nos organismos internacionais.
Malakal é uma cidade com
aproximadamente 80 mil habitantes. Suas únicas construções de alvenaria são a mesquita, a prefeitura, as residências oficiais e o hospital. A reforma do hospital foi feita com recursos provenientes da organização não- governamental (ONG) francesa Hôpital
sans frontière (HSF). Essa ONG tem como leitmotiv a recuperação de plantas hospitalares
em locais carentes e, quando possível, o suporte à administração local para fazer o hospital funcionar. O trabalho como cirurgião dessa unidade hospitalar insere-se nesse último objetivo.
Para os diretores e gerentes locais da ONG, tornar-se-ia frustrante a recuperação física de um centro cirúrgico e o abandono sem função devido à falta de profissionais especializados. O convite para assumir a responsabilidade dessa tarefa foi feito em novembro de 1999 e aceito para um período de seis meses. Algum tempo depois, foi possível perceber a dificuldade de manter profissionais sudaneses na cidade. Alguns médicos, presentes na cidade por obrigações de serviço militar, ansiavam pelo fim do serviço obrigatório e pela emigração para outros países mais desenvolvidos no Oriente Médio. Uma breve conversa revela a utopia de manter cirurgiões na cidade de forma espontânea.
As dificuldades locais vão desde a obtenção de um padrão mínimo de conforto para um profissional com formação universitária até a instabilidade política da região. Não existiam habitações confortáveis; a rede de esgoto era inexistente (um dos projetos de outra ONG holandesa no local era a construção de latrinas); a água era farta, proveniente do rio Nilo, mas o tratamento inexistia para a maior parte da população; o comércio local limitava-se a pequenas vendas e feiras; televisão e telefonia por satélite eram restritas aos locais de extrema necessidade e só podiam ser utilizadas no pequeno intervalo de tempo em que a energia elétrica era fornecida durante duas horas pela manhã e quatro horas após o pôr-do-sol.
Durante os meses vividos na cidade, não houve registro de conflitos armados. A percepção da guerra era apenas a ronda constante de tanques pelas ruas de terra da cidade, o toque de recolher após as 22 horas e a angústia de um povo que, veladamente, deixava transparecer a insatisfação com os governantes na capital.
O contato dos habitantes com os
expatriados era, sistematicamente, de respeito, de carinho e de reconhecimento pelo esforço que não os deixava em abandono. Em um ambiente de imensa carência, a notícia de um cirurgião na cidade se alastrou com rapidez e não tardaram as filas para atendimento.
Longas três semanas foram necessárias para que alguma cirurgia pudesse ser realizada desde o pouso da aeronave em Cartum até a utilização do centro cirúrgico. As iniciativas tomadas na capital do país centravam-se na obtenção de vistos de deslocamento, de permissão de trabalho e de visitas ao consulado brasileiro. Naquele momento, foi estranho encontrar o cônsul do Brasil no Sudão e ter de conversar em inglês. Tratava-se de um consulado honorário, cujas ações eram reportadas ao Cairo. A sensação de isolamento tornou-se maior quando recebi a notícia de que não havia outro brasileiro no território sudanês naquele momento.
Enquanto as exigências legais eram providenciadas para que a viagem a Malakal
pudesse ser marcada, uma série de contatos com outras ONGs permitiu perceber a importância do trabalho humanitário no país. Instaladas no setor de embaixadas da cidade, as sedes das ONGs administravam uma enorme rede de assistência em todo o território. Próximo à sede da Hôpital sans
frontière, centenas de sudaneses aglomeravam-
se diariamente nos portões da embaixada da Arábia Saudita em busca do sonho da emigração. A sensação de estranheza por se encontrar no sentido inverso, mesmo que temporariamente, aumentava a percepção das dificuldades que ainda estavam por vir, mas eram mitigadas pela certeza de estar contribuindo para que futuros sudaneses não precisem sonhar com a partida do solo pátrio.
A documentação necessária para a viagem a Malakal só ficaria pronta em janeiro e, naquele momento, os preparativos para o reveillon sinalizavam as previsões milenaristas típicas e a apreensão em relação ao bug do milênio (Y2K). A idéia de comemorar a passagem para o século XXI nas belas pirâmides sudanesas, em uma localidade chamada Meroe, acabou demonstrando a força do trabalho realizado em equipe. Os expatriados, funcionários de ONGs sediadas em Cartum, tiveram a interessante idéia de iluminar a principal pirâmide de Meroe, plágio do que Jean Michel Jarre faria no mesmo momento em Gizé, no Cairo. As dificuldades burocráticas e logísticas