A escolha de sujeitos para o projeto foi intencional, oposta à amostragem estatística, preocupada com a representatividade de uma amostra em relação à população total (Turato, 2003). Foram escolhidas pessoas que estavam desempregadas e tinham um perfil de usuário ou no Facebook ou no LinkedIn ou em ambos.
A intenção não era generalizar nenhum resultado da pesquisa, o que seria válido se fosse cobrir uma amostra estatística significativa de pessoas em situação de desemprego nas redes sociais. Pretendia, simplesmente, analisar alguns casos de sujeitos nessa condição e ver do que deles se podia concluir, no laço social virtual em questão, dando-se uma indicação de possível ocorrência em outros casos e em outros contextos. Sendo assim, os sujeitos selecionados não tiveram ligação entre si, a rigor, exceto pelo fato de estarem desempregados e de terem perfil nas redes sociais. Para iniciar o processo de seleção deles, falei com alguns contatos meus, por e-mail ou pessoalmente, pedindo indicação de conhecidos que estivessem desempregados. Ao longo da pesquisa, repeti esse processo algumas vezes.
54 Visão a partir de diferentes perspectivas. Alguns autores preferem a analogia com o cristal, por ser
multifacetado, por refletir o mundo externo, por refratar-se dentro de si mesmo (Denzin & Lincoln, 2006). Independentemente da analogia usada, a ideia era justamente ter diferentes e múltiplas perspectivas na análise em questão, pelo uso de diferentes instrumentos.
Algumas indicações eu já tinha como membros da minha lista de "amigos" do Facebook ou "conexões" do LinkedIn, outras tive de fazer o convite para que se tornassem meus contatos nessas redes sociais. Além disso, as indicações de pessoas nem sempre deram certo – algumas ignoraram minhas tentativas de contato, como já mencionei antes.
É importante ressaltar que, considerando as relações inconscientes entre sujeitos como sendo inextricavelmente sociais e singulares, isso implica que o resultado da pesquisa dependeu daqueles que foram selecionados para ela e do tipo de relação que estabeleceram comigo (no contato privado por mensagens, por exemplo). Ou seja, se fossem outros sujeitos selecionados, provavelmente haveria alguma variação no resultado.
Seja como for, parto do pressuposto de que havia algo de essencial a ser captado, ainda que de forma aproximada apenas, ainda que não possamos definir a fronteira, de forma absoluta e definitiva, entre o que é singular, o que é social e o que foi produzido na ocorrência concreta do contato entre mim e os pesquisados.
Pensando na variação a que me refiro acima, tanto quanto possível, procurei selecionar sujeitos que representassem diferenças de posição hierárquica anteriormente ocupada, de faixa etária, de gênero e de cor ou raça (segundo o conceito social do termo). Tais variáveis justificavam-se por estudos que as apontam como significativas no contexto do mercado de trabalho (por exemplo, Abramo, 2004; Santos, 2005). Contudo, a diversidade a que eu pretendia chegar visava, tão somente, a oferecer algum contraste na análise.
O número de sujeitos não foi definido a priori, mas durante o processo de realização da pesquisa de campo, levando-se em conta as regras de:
Representatividade - diferentemente da amostragem estatística, busca-se destacar informantes significativos sobre o assunto pesquisado. A seleção dos participantes decorre, sobretudo, da preocupação de que o grupo de sujeitos contenha e espelhe certas dimensões do contexto (Fontanella et al., 2008). No caso desta pesquisa, a
escolha dos participantes levou em conta alguns aspectos que estão em jogo no mercado de trabalho, tal como descrevi acima;
Homogeneidade - presença de atributos definidos como essenciais em todos os sujeitos participantes (Turato, 2003). No caso específico, de estarem desempregados e de possuírem perfis no Facebook ou no LinkedIn, e;
Saturação teórica - a coleta de dados seria interrompida quando se constatasse “que elementos novos para subsidiar a teorização almejada (ou possível naquelas circunstâncias) não são mais depreendidos a partir do campo de observação” (Fontanella et al., 2011).
No final das contas, foram selecionados dez sujeitos – onze, se considerarmos o meu próprio caso, já que analisei alguns aspectos meus também, como discutirei adiante. Todos eles eram residentes no Estado de São Paulo, na capital ou no interior.
A Tabela 7.1 mostra os sujeitos selecionados em função das variáveis de representatividade escolhidas e a Tabela 7.2 mostra o período em que eles foram acompanhados.
Tabela 7.1 – Perfil dos sujeitos selecionados de acordo com as variáveis de representatividade escolhidas Sujeitos na sequência em que
foram entrando na pesquisai Posição hierárquica no emprego antes da demissão quando demitido Faixa etária Gênero Cor ou raçaii
Desemprego Início Finaliii
Antônio Gerente 30 – 39 anos masculino branca mai/2006 dez/ 2010
abr/2007 abr/2011 Francisco Gerente 50 – 59 anos masculino branca ago/2011 out/2013iv
Fabio Coordenador ?v masculino branca set/2011 ?
Teo Alto executivo ?vi masculino branca out/2010 -
Leila Atendente 30 – 39 anos feminino negra jan /2012 fev/2013
Edmilson Analista ?vii masculino branca mai/2011 ?
Guilherme Estagiário 20 – 29 anos masculino branca abr/2012 ago/2013 Beatriz Consultora ?viii feminino branca ago/2012 começo 2013
Bruno Gerente 40 – 49 anos masculino branca jul/2012 mai/2013
Roberta Analista 30 – 39 anos feminino branca jan/2013 -
i Nomes fictícios, exceto o meu mesmo.
ii O IBGE (2008) adota a resposta do pesquisado sobre sua cor ou raça para contabilização de suas estatísticas. Não fiz essa pergunta aos sujeitos participantes desta
pesquisa. A indicação da cor ou da raça deles aqui foi baseada em como imagino que responderiam e como a sociedade possivelmente os vê. Se quis incluir essa variável na pesquisa foi justamente para verificar se haveria alguma diferença no caso de negros (pretos e pardos), tal como a literatura nos aponta (Abramo, 2004; Santos, 2005). Também não fiz distinção entre brancos e amarelos (orientais). Não houve casos de indígenas na pesquisa.
iii Um ponto de interrogação indica que não tenho a informação sobre se o sujeito conseguiu um novo emprego ou não. Um traço ("-") indica que continua desempregado. iv Segundo o que me relatou, depois de algum tempo estando em situação de desemprego, Francisco desistiu de buscar um emprego formal. Como vou descrever nos
capítulos sobre os resultados da pesquisa, ele havia conseguido aposentar-se e arrumou, ao longo do tempo que o acompanhei, alguns trabalhos pontuais e esporádicos (algumas aulas e palestras). Mas só em outubro de 2013 conseguiu algo mais estável – um trabalho numa consultoria. Por isso foi a data que considerei.
v Possivelmente entre 40 – 49 anos, pelo histórico no LinkedIn. vi Possivelmente entre 40 – 49 anos, pelo histórico no LinkedIn. vii Possivelmente entre 30 – 39 anos, pelo histórico no LinkedIn. viii Possivelmente entre 20 – 29 anos, pelo histórico no LinkedIn.
Tabela 7.2 – Período de acompanhamento dos sujeitos da pesquisa F ra nc isco F abio Teo Leil a Edmi lson Guilher me B ea triz B runo R obe rta Lúc io 2012 jan X X fev X X X mar X X X abr X X X X mai X X X X jun X X X X jul X X X X ago X X X X set X X X X out X X X X nov X X X X X X dez X X X X X X 2013 jan X X X X X X X X X fev X X X X X X X X X mar X X X X X X X X X abr X X X X X X X X X mai X X X X X X X X X jun X X X X X X X X X X jul X X X X X X X X X X ago X X X X X X X X X X set X X X X X X X X X X out X X X X X X X X X X nov dez X = acompanhamento realizado