Demandes Od'I curs 2002-03
4. Manteniment del web de la UIB
Na RESEX Rio Xingu, as atividades realizadas pelos moradores são baseadas no seu modo de vida tradicional, onde a população combina atividades relacionadas à agricultura de subsistência, extrativismo vegetal, pesca e caça. Essas práticas combinam com aquelas relatadas por Diegues (1988), ao estudar as culturas tradicionais litorâneas, especialmente, os caiçaras.
Este mesmo autor destaca que essa combinação de práticas e usos dos recursos naturais é uma forma de utilização de vários ecossistemas, considerando suas características e ciclos naturais, de forma a reduzir os riscos da dependência de somente um recurso natural que pode se esgotar (DIEGUES; NOGARA, 1994). Alguns depoimentos destacam bem essa relação multiplicidade de habitats, com ênfase nas principais atividades atualmente realizadas,
“Depois que vim para cá, quando parou o negócio da seringa ai nos começamos a fazer roça de mandioca. Nessa época ainda nem se falava em cacau, ele é novo aqui” (Entrevista 1).
“Mais pesco, a caça é quando aparece algo pra gente comer. E também a gente pesca direto [...] a farinha só pra alimentação. A seringa não tiro mais não. A castanha só uma vez por ano” (Entrevista 2).
“Vivemos mais da pesca e da castanha uma vez por ano. Quando entra o ano a gente colhe em janeiro e fevereiro. E a pesca é o principal meio de sobreviver” (Entrevista 3).
“Eu trabalhava com pesca. Aí eu trabalhava com pesca. Aí foi o tempo que eu parei de pescar. Aí eu fui trabalhar com roça. Da roça foi pra esse ramo da seringa agora” (Entrevista 23).
Desse modo, pode-se perceber que existe intensa relação com os diferentes ecossistemas, o que permite comparar as comunidades tradicionais locais da RESEX Rio Xingu com os camponeses ribeirinhos do rio Solimões/Amazonas, estudados por Witkoski (2010).
A relação próxima com os recursos naturais traduz-se na escolha das atividades, bem como das áreas de uso, as quais são praticamente todas associadas com a natureza. A lógica dessas escolhas está associada aos saberes tradicionais que as comunidades tradicionais da RESEX possuem. Segundo Mendonça (et al., 2007), a construção dos saberes tradicionais possuí inúmeras peculiaridades, isto é, estes são construídos a partir da vivência dos indivíduos nas suas relações sociais e pessoais, onde o conhecimento surge a partir das descobertas em grupo, o que justifica a riqueza e diversidade de saberes. Exemplos da construção desses saberes, através de testes e descobertas, podem ser visualizados nas figuras 9 e 10:
Figura 9 - Mapa das áreas de uso de uma família da Comunidade Humaitá.
Fonte: Entrevista Nº11, casal morador da Comunidade Humaitá.
Neste caso, a família delimitou seus territórios de exploração de recursos, destacando as áreas do rio e da floresta. O conhecimento é tão amplo que a família, ao desenhar, delimitou como locais de pesca, não somente o rio, mas também lagos e lajeiros (pedras). Em cada ambiente são conhecidas as espécies mais corriqueiras, bem como os seus hábitos, o que reforça a afirmativa de Mendonça et al. (2007), uma vez que este conhecimento, provavelmente foi adquirido após observações e descobertas, que ocorreram não somente nos
ambientes de pesca, mas também nas áreas de caça e roça e na convivência com os mais velhos.
Tal análise corrobora com a assertiva de Posey (1987), que discorre que o uso dos recursos naturais por populações locais é norteado pelo conjunto de conhecimentos acumulados, resultantes da relação direta dos indivíduos com o meio ambiente, isto é, através das observações atentas dos ciclos naturais, herança cultural e troca de informações entre pares sociais.
Além disso, na Figura 9 a família retrata como local de uso uma área de castanhal, fruto de herança paternal, que está localizado dentro das delimitações da Estação Ecológica da Terra do Meio, que é chamada pelos mesmos de Parque Ecológico. Ou seja, percebe-se que não existe delimitações físicas das áreas de uso, o que pode ser legado dos antigos seringais, cuja realidade não impunha limites rígidos de propriedade individual (ALLEGRETTI, 1994). Por outro lado, o fato de não existir limites físicos, semelhantes aos parcelamentos como os lotes nos assentamentos instalados pelo INCRA, não significa que socialmente não existam entre as famílias entendimento até onde cada grupo familiar pode utilizar, pelo contrário os ribeirinhos estão organizados em torno de territorialidades específicas, no sentido proposto por Almeida (2008). Neste sentido, o fato do castanhal ser herdado quer dizer que há no território o reconhecimento do direito de uso da unidade familiar, instituído através de processos sociais que envolvem relações ora harmônicas ora conflituosas produzidas historicamente. Além disso, o trabalho realizado pela família na área dá legitimidade a posse da terra, conforme acepção de Martins (1980), que destaca que é no trabalho que reside o direito de propriedade.
Do mesmo modo ocorre com outras famílias. Na Figura 10, um mapa de uso elaborado por uma família da Comunidade Morro Grande, destaca os locais onde realizam as atividades de subsistência. A caça é realizada em diversos locais de floresta. A pesca é realizada em áreas próximas à residência, porém, em alguns casos, é realizada em pontos específicos, próximo a pedras (lajeiros) que existem dentro do rio, por estes locais serem pontos de abrigo de algumas espécies apreciadas pelas famílias, tanto para o consumo quanto para a venda. No mapa, estes pontos são representados por desenhos desformes de cor escura ao longo do rio e próximo às ilhas.
Figura 10 - Mapa de uso dos recursos naturais elaborado por uma família da Comunidade Morro Grande.
As áreas de roça, nos dois casos (Figura 9 e Figura 10), são próximas às residências, o que pode ser analisado como estratégica para diminuição do dispêndio relacionado à força de trabalho familiar. Além disso, em virtude da grande quantidade de animais que existem na floresta e que podem atacar o plantio (principalmente porcões e caititus), a proximidade com a residência facilita o controle em relação a entradas desses animais.
As estradas de seringa também são relativamente próximas às residências, diferentemente das áreas dos castanhais, que em ambos os casos demonstrados são distantes das unidades familiares. Essa diferença pode estar relacionada ao grau de importância dada a primeira atividade. A extração de seringa na região possui importância histórica, pois muitos moradores chegaram à área para trabalhar na atividade. Já o extrativismo da castanha é visto pela maior parte das famílias como uma atividade complementar a sua renda, sendo realizada em períodos anuais específicos.
Em todo o caso, fica evidente que as áreas de uso estão bem definidas socialmente, isto é, na RESEX Rio Xingu, a divisão do território e dos recursos, que são de uso comum, é feita de forma simbólica, por meio do respeito à área do outro. Essa relação de “respeito” decorre das relações sociais estabelecidas há muito tempo pelos moradores, prova disso são os relatos de todas as famílias, que descrevem que “desde a época de seus pais era assim”, “as estradas de seringa e os castanhais já estavam definidos” ou “já tinham dono”. Além disso, existem fortes relações de parentesco, compadrios e vizinhança que auxiliam na perpetuação dessas relações ao longo do tempo. Desse modo, até os dias atuais, muitas regras de convivência, estabelecidas há muitos anos, ainda prevalecem.