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diversidade dentro da unidade da nova teologia71. Para ele, as diferenças da nova ortodoxia e do novo liberalismo devem ser consideradas em espaço e discussão oportuna – o que exigiria um fórum de estudo próprio. Todavia, Schaeffer (2002a, p.83) registra que não se deve perder de vista “a unidade que permite articulação entre todas as expressões da teologia moderna”, pois, se isso suceder, o ponto central da discussão epistemológica terá sido deixado para trás.

Tendo isso em vista, é oportuno lembrar que a teologia perfaz o último degrau da “linha do desespero”, que Schaeffer ilustra para expor a influência do desvio e erro epistemológico do homem moderno.

Tendo começado na filosofia, passando pela arte, música e cultura geral, o autor passa a discorrer, por último, sobre a influência que a teologia sofreu do pressuposto do pensamento moderno originado em Kierkegaard.

71 O termo abrangente “nova teologia” utilizado por Schaeffer compreende aqui a unidade existente tanto na teologia moderna como nos novos teólogos, quer sejam liberais, neo-liberais ou neo- ortodoxos.

O princípio da não-racionalidade para se relacionar com as “coisas divinas” também ganha corpo no contexto teológico moderno. A fé cristã passa a ser entendida pelos novos teólogos como uma fé que não pode ter ponto de contato com os elementos racionais. Não há compatibilidade entre a fé e a razão. A fé tem seu espaço à parte da razão, pois, segundo o homem moderno, o superior e o inferior estão separados por uma barreira intransponível, inclusive no que tange à teologia. Nesse sentido, o teólogo moderno passa a afirmar que somente o salto cego de fé é capaz de dar validade à fé cristã.

Schaeffer (2002a, p.84) entende que o conceito de verdade por parte dos teólogos modernos passou a ser falso, pois “a teologia passou pelo mesmo processo que a filosofia, ainda que algumas décadas mais tarde”. Ele ressalta que os teólogos modernos começaram a aceitar o pressuposto da uniformidade das causas naturais inseridas em um sistema fechado e que, dessa forma, os sobrenaturais passaram a ser ignorados. Assim, toda forma miraculosa (como, por exemplo, os milagres registrados nas Escrituras) passou a ser rejeitada.

Os novos teólogos começaram a tentar encontrar o Jesus histórico à parte dos acontecimentos sobrenaturais narrados na Bíblia. Esperavam encontrar o Jesus histórico por um método racionalista, objetivo e escolástico apenas.

No entanto, à semelhança do que aconteceu com os filósofos racionalistas, eles também falharam. Falharam porque o sobrenatural está tão fortemente relacionado com o Jesus histórico que a respectiva dicotomia não pôde ser levada adiante. Perceberam que, por meio dessa separação, jamais chegariam a encontrar o Jesus histórico.

Desse modo, os novos teólogos passaram a repetir os passos dos existencialistas e adotaram o conceito moderno de verdade fragmentada, que teve, segundo Schaeffer, sua origem no salto de fé de Kierkegaard.

O mesmo quadro geral que emerge do existencialismo secular está presente no sistema de Karl Barth e nas novas teologias que têm ampliado o seu sistema. Não há relação racional entre o lado de cima e o lado de baixo da linha. Barth concordou com as teorias altamente críticas, até o dia de sua morte – a Bíblia contém erros, mas cumpre a nós acreditar nela assim mesmo. A sua posição era que, apesar de a Bíblia conter erros, uma “palavra religiosa” viria dela de qualquer forma. A “verdade religiosa” encontra-se separada da verdade histórica das Escrituras. Assim, não há lugar para a razão e não há nenhum ponto que possa ser investigado. É isso que constitui o salto, em termos religioso (SCHAEFFER, 2001, p.63).

Surge assim a neo-ortodoxia, baseada em nada novo. Pelo contrário, ela adota os pressupostos da filosofia existencial, a qual já havia sido desenvolvida anteriormente, e passa a expressá-los em linguagem teológica.

Schaeffer passa a representar o quadro da neo-ortodoxia, em que qualquer semelhança com o pensamento existencialista secular não é mera coincidência. Antes, observa-se que os mesmos pressupostos da filosofia kierkegaardiana são assumidos. Nesse sentido, Schaeffer (2002a, p.86) apresenta o seguinte gráfico: Uma experiência de crise de primeira ordem. O NÃO-RACIONAL => A fé que não pode ser conferida e não tem E NÃO-LÓGICO conteúdo comunicável

O RACIONAL => A Escritura cheia de erros – pessimismo. E LÓGICO

Tem-se aqui a representação gráfica do salto para o “superior”, a fim de se encontrar algo que dê sentido à vida.

Desse modo, não se pode perder de vista que a teologia moderna agora se encontra no mesmo estágio em que se encontra a filosofia existencialista, a saber: somente o salto de fé do “inferior” (pessimismo racional) para o “superior” (não- lógico, porém otimista) pode dar sentido e validade à existência humana.

A essa altura, torna-se evidente que a nova teologia desistira da esperança de encontrar um campo unificado do conhecimento, pois, ao se adotar o salto de fé, o campo unificado do conhecimento passa a ser ignorado.

Schaeffer (2002a, p.87) chega a afirmar que, em vista desse pessimismo no inferior, a nova teologia deve ser considerada como sendo uma “antiteologia”. Isso porque, ao se referir, por exemplo a Karl Barth (entre outros), Schaeffer afirma que o mesmo não abdicou de algum tipo de salto de fé em todo o seu sistema para sair do pessimismo, uma vez que desconheceu a noção de um campo unificado do conhecimento.

Karl Barth foi, na teologia, a porta de acesso à linha do desespero. Ele insistiu, até o dia de sua morte em defender as maiores (negativas) teorias críticas já concebidas pelos liberais, sem deixar de lado a sua busca por algum tipo de salto de fé, capaz de contornar as duas únicas alternativas racionais que se apresentam ao seu tipo de abordagem – o resgate da visão histórica das Escrituras ou a adesão à visão pessimista da vida [...]. Da mesma forma como que Kierkegaard, com seu salto, abriu a porta para o salto existencialista geral, Karl Barth abriu a porta para o salto existencialista na teologia. Como em outras disciplinas, a questão fundamental é a mudança epistemológica. Muitos outros

pensadores seguiram Barth, tais como Reinhold Niebuhr e Paul Tilich. Eles podiam até discordar nos detalhes, mas a sua luta era a mesma – a luta desesperada do homem moderno, por ter abdicado da noção de campo unificado do conhecimento (SCHAEFFER, 2002a, pp.87-88).

Dessa forma evidencia-se, como diz Schaeffer, que a mudança epistemológica promovida pelo existencialismo de Kierkegaard influenciou o homem moderno em diversas áreas: desde a filosofia, a arte, a música e a cultura geral até chegar à teologia. Nota-se, assim, que a nova teologia teve sua raiz no existencialismo religioso, o qual é fundamentado no salto de fé, e que a crise de paradigmas que se instalou nos mais diversos círculos da existência e comportamento humano está concentrada no problema epistemológico que o homem moderno assumiu ao longo do tempo.

3.8 – A IMPORTÂNCIA DA METAFÍSICA E DA MORAL NO