Segundo Schaeffer (2002a, p.37), Kierkegaard se tornou o pai do existencialismo secular e teológico, a respeito de quem afirma: “O mais importante sobre ele é que, ao apresentar o conceito de um salto de fé, ele se tornou de forma real o pai de todo pensamento existencial moderno, tanto no mundo secular quanto no teológico”.
Todavia, é bom destacar que essa opinião de Schaeffer não é unânime, como sempre acontece na argumentação dialética no campo das humanidades. Fato é que alguns filósofos existencialistas, especialmente Jean Paul Sartre, foram influenciados, de maneira certa ou não, pelo pensamento de Kierkegaard. Contudo, na opinião, por exemplo, de Ricardo Quadros Gouvêa, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Schaeffer comete erro ao considerar Kierkegaard como pai do existencialista, pois acrescenta:
Kierkegaard foi apontado como “pai” dessa vaga e evanescente escola filosófica chamada “existencialismo”. Talvez Kierkegaard chamasse o existencialismo de filho bastardo. Por certo, alguns dos assim chamados existencialistas foram influenciados por Kierkegaard, como também foram influenciados por Ibsen, Dostoievsky, Nietzsche, Unamuno, Kafka, Bergson, Buber, e muitos outros. A afirmação está presente literalmente em centenas de livros didáticos e compêndios. Uma vez que definimos Kierkegaard impropriamente como pai do existencialismo, pode-se mais facilmente louvá-lo ou rejeitá-lo como irracionalista, subjetivista ou relativista. É o modo mais fácil de livrar-se de um autor difícil [...]. Felizmente, no entanto, pode-se encontrar também alguns compêndios que afirmam pelo menos que é “inacurado chamar Kierkegaard de existencialista”. De fato, parece irracional sugerir que Kierkegaard, que sempre deplorou sistemas filosóficos, esteja de alguma forma ligado diretamente com o que é chamado “existencialismo” (GOUVÊA, 2006, p.88).
Seja como for, concordando com o inequívoco e impróprio divórcio ocorrido entre racionalidade e fé, Kierkegaard abriu outra porta na história do pensamento moderno, que acabou por contribuir para a crise de paradigmas. Com base nas implicações do pensamento do filósofo dinamarquês, Schaeffer aponta para o surgimento de duas correntes que compuseram a filosofia existencialista: o existencialismo secular e o existencialismo religioso.
Quanto ao primeiro, Schaeffer o divide em três correntes principais, a saber: o existencialismo segundo Jean-Paul Sartre e Albert Camus, segundo Karl Jaspers e segundo Martin Heidegger.
Não é objetivo desta exposição o aprofundamento de cada uma das três correntes mencionadas do existencialismo secular. Todavia, mesmo que de forma incipiente, é válido ter em vista o conteúdo desse tipo de existencialismo procedente de Kierkegaard.
Assim, em relação a Jean-Paul Sartre, deve-se considerar que o Universo é absurdo do ponto de vista racional – o que importa é a ênfase na vontade humana. A pessoa deve provar a sua autenticidade por um ato da vontade apenas, não precisando mais nada para justificar as atitudes do homem. É a ênfase na volição que importa, e nada mais (SCHAEFFER, 2001, pp.60-61).
No tocante ao existencialismo de Jaspers, o mesmo se baseia num tipo de “experiência final”. Segundo essa experiência, é possível obter a certeza de que o homem existe e possui um significado, embora racionalmente o homem não possa obtê-la. Essa “experiência final” é sempre dissociada da razão e o seu conteúdo é incomunicável, tanto para as pessoas como para ela mesma. O que importa é a certeza de tê-la alcançado e, consequentemente, ter contraído a validade e o sentido da existência (SCHAEFFER, 2001, p.61).
Quanto a Heidegger, este apóia o que denominou de “Angst”, que significa um sentimento vago de terror e medo, a fim de se obter a certeza da sua existência. Sua ênfase é na ansiedade fundamental que o homem deveria sentir para obter e chegar a um sentido (SCHAEFFER, 2001, p. 62).
Logo, mesmo que de forma sumária, ao analisar o existencialismo secular, observa-se o conceito kierkegaardiano de salto de fé, pois tanto faz como o homem expressa o “superior”, uma vez que a esperança não se localiza no campo inferior, pois, neste último, só se encontra o pessimismo e a falência racional.
Nota-se, ao mesmo tempo, que os existencialistas se apegam no tratamento das grandes questões últimas da vida, mas eles fazem isso adotando a dicotomia
entre a racionalidade e a esperança. Nessa perspectiva, Schaeffer (2001, p.62) acrescenta que “hoje quase não existem filosofias, no sentido clássico – o que temos são antifilosofias. Os pensadores já não acreditam mais que lhes seja possível obter respostas racionais às grandes questões da vida”.
Já com relação ao existencialismo religioso, também proveniente das teses de Kierkegaard70, pode-se encontrar o mesmo princípio, ou seja, a dicotomia entre a racionalidade e a esperança. Muda-se o conteúdo a ser exposto, bem como suas implicações, mas o pressuposto é o mesmo, ou seja: é necessário o salto de fé, pois a esperança se encontra separada do “inferior” racional.
O conceito que norteia esse pensamento existencialista religioso é que a verdade de Deus encontra-se dissociada da verdade histórica das Escrituras, resultando na conclusão de que não há como se dar lugar à razão, pois não há nenhum ponto a ser investigado racionalmente. O que resta, portanto, é o “salto de fé”.
Segundo Schaeffer, o maior expoente desse tipo de existencialismo religioso foi Karl Barth, pois, “da mesma forma como Kierkegaard, com seu salto, abriu as portas para o pensamento existencialista geral, Karl Barth abriu a porta para o salto existencialista na teologia” (SCHAEFFER, 2002a, p.88).
Desse modo, para Schaeffer (2001, p.63), esse tipo de pensamento está presente na teologia moderna, mais precisamente entre os neo-ortodoxos, como se observa:
Na teologia neo-ortodoxa, o homem é relegado à necessidade de um salto porque, como homem por inteiro que é, nada pode fazer quanto à busca racional por Deus. Na teologia neo- ortodoxa, o homem é menos do que o homem caído da Bíblia. A Reforma e as Escrituras dizem que o homem não pode fazer nada para salvar a si mesmo, mas ele pode, com sua razão, examinar as Escrituras em busca de algo que não se restringe às “verdades religiosas”, mas abrange a história e todo o cosmo. Ele é capaz não só de pesquisar as Escrituras como homem por inteiro, inclusive aplicando a sua razão, como tem a responsabilidade de fazê-lo.
Logo, conclui-se, com relação ao existencialismo tanto secular como religioso, que ambos partem do pressuposto da dicotomia entre o “superior” e o “inferior”. Para se obter o conhecimento, para se obter a epistemologia segundo os existencialistas, é necessário o salto de fé, seja ele como for, pois não se pode adotar
70 Neste ponto também se observa a resistência do professor Ricardo Quadros Gouvêa quando afirma: “Finalmente creio ser incorreto chamar Kierkegaard de precursor dos assim chamados teólogos existencialistas, como Rudolf Bultmann e Paul Tillich” (GOUVÊA, 2006, p.94).
o racional quando se quer chegar ao conhecimento sobre algo, seja esse conhecimento no âmbito religioso ou no secular.
Uma vez que o racional e o lógico estão totalmente separados do não-racional e do não lógico, o salto é total. A fé, quer seja expressa em termos religiosos ou secular, torna-se um salto, sem qualquer comprovação, porque está totalmente separada do lógico e do racional. Podemos ver agora, com base nisso, como podem os novos teólogos dizer que, embora a Bíblia esteja cheia de erros, quando se trata da natureza e da história, isso não tem importância alguma (SCHAEFFER, 2001, p.64).