ADDIS ABABA
4.1 The search for same-sex attracted men
4.1.3 The man in the rest room
Entre as influências epistemológicas na formulação do quadro geral do ISD, podemos citar o pensamento vygotskyano numa perspectiva analítica do funcionamento psicológico e suas implicações no processo evolutivo das capacidades humanas (BRONCKART, 1999). No campo da psicologia, Vygotsky voltou seu olhar científico para a identificação das chamadas funções psicológicas superiores, observando aspectos que compunham esse aparelho do desenvolvimento humano no qual se incluem a imaginação, a memória, entre outros. Embora suas pesquisas tenham sido interrompidas prematuramente em virtude de sua morte em 1934, o cientista bielo-russo ofereceu
importantes referenciais de estudo, principalmente no que diz respeito ao sociointeracionismo:
A concepção sócio-interacionista resulta da explicação de como se dá a interação dialética do homem e seu meio sócio-cultural. O ser humano transforma o seu meio para atender suas necessidades básicas e, assim, transforma-se a si mesmo. Logo, as características do funcionamento psicológico tipicamente humano não são transmitidas por hereditariedade, tampouco são adquiridas passivamente pela pressão do ambiente externo. Elas vão sendo construídas durante toda a vida do indivíduo, por um processo de interação do homem e seu meio físico e social, que possibilita a apropriação da cultura elaborada pelas gerações precedentes, ao longo de milênios (NICOLAU, 1997, p. 99).
Para Vygotsky, o pressuposto interacionista é mais abrangente e está intrinsecamente relacionado à emergência de um pensamento consciente na atividade social por excelência. Nesse contexto verifica-se uma preocupação do cientista em perceber a formação intelectual do homem no curso de sua história, nas marcas do construto social e nos instrumentos mediadores entre o sujeito e o mundo biossocial. No processo de mediação são verificados dois aspectos básicos: o instrumento e o signo.
Enquanto os instrumentos são referenciais físicos capazes de mediar as ações humanas na sua interação com a natureza, os signos exercem um papel crucial nos atos constitutivos da linguagem associados aos processos psíquicos. Através deles o homem é capaz de situar objetos do seu entorno em uma relação in absentia, através de um processo de internalização e generalização. Na relação que se estabelece entre as propriedades físicas e psicológicas constitutivas do comportamento humano, Vygotsky
defendeu a necessidade de uma investigação científica mais abrangente na Psicologia e que fosse capaz de unir essas duas dimensões.
Uma das problemáticas verificadas nos primeiros estudos psicológicos do início do século XX foi a delimitação de um quadro epistemológico que preconizava a investigação científica de aspectos separados, de um lado os fenômenos de ordem física, de outro, os de ordem psíquica. Essa dualidade físico-psiquica é convergente e não divergente. Não é possível dissociar tais aspectos sem correr o risco de uma visão compartimentada desses fenômenos na constituição e evolução do ser humano e que, em sua essência, deixariam lacunas abertas.
Em seus questionamentos sobre a pertinência das várias correntes psicológicas para o estudo do estatuto humano, Vygotsky destacou a contribuição de Spinoza e de Marx-Engels no que se refere a uma visão monista, para a qual os fenômenos físicos e psíquicos pertencem à matéria única e homogênea constitutiva do universo no qual se realizam tais fenômenos acessíveis e captados pela inteligência humana (BRONCKART, 1999).
Segundo o pensamento de Vygotsky pontuado em Bronckart (1999), não basta ter uma visão monista se esta se insere em uma perspectiva minimalista, redutora, que dissocia amplamente as manifestações psíquicas do estatuto biofisiológico e do contexto social em que se inserem. Interessa um movimento dialético capaz de contemplar em toda sua dimensão e importância o desenvolvimento de um pensamento consciente. O homem é fruto de um processo natural e evolutivo de suas capacidades genéticas cuja realização contempla os aspectos mais elementares do funcionamento psicológico:
1. o jovem humano é dotado de um equipamento biocomportamental e psíquico inicial, que, enquanto procede da evolução contínua das espécies, o dote de potencialidades novas; 2. desde o nascimento, o jovem humano é mergulhado em um mundo de pré-construtos sócio-históricos: formas de atividade, coletivas, obras e fatos culturais, produções semióticas que emergem de uma língua natural dada, etc.;
3. desde o nascimento, ainda, o ambiente humano empreende caminhadas deliberadas de formação, que visam integrar o jovem
humano nessas redes de pré-construtos, ou que guiam sua apropriação desses últimos;
4. no quadro desse processo de apropriação, a criança interioriza propriedades da atividade coletiva assim com signos e estruturas de linguagem que a mediatizam;
5. essa interiorização das estruturas e significações sociais transforma radicalmente o psiquismo herdado e dá origem as capacidades do pensamento consciente (BRONCKART, 2006b, p. 5).
No curso desse processo evolutivo o homem transforma gradativamente as manifestações elementares do seu psiquismo, tornando-se capaz de refletir sobre o conjunto de seus atos comportamentais, momento em que emerge um pensamento dotado de consciência. Esse estatuto agrega as visões do filósofo Hegel e do sociólogo Karl Marx para as quais a emergência de um pensamento consciente e, por conseguinte, de capacidades auto-reflexivas constitui-se enquanto:
[...] reapropriação, no organismo humano, dessas propriedades instrumentais e discursivas [langagières] de um meio, agora sócio- histórico, que é a condição da emergência de capacidades auto- reflexivas ou conscientes que levam a uma reestruturação do conjunto do funcionamento psicológico (BRONCKART, 1999, p. 27).
No quadro social emergem cooperações mútuas, papeis desempenhados por cada membro no coletivo. A dimensão do social nas atividades estritamente humanas, diferente das outras espécies animais, apresenta um componente motivador e não apenas acionador de reações mecanizadas. Bronckart (1999) evidencia o papel do diálogo, da negociação que, em Habermas, é entendido enquanto agir comunicativo para o qual permeiam dois aspectos: a razão instrumental e a razão comunicativa. A marca do social não está apenas na organização grupal em si. Há de se voltar um olhar especial para as
capacidades comportamentais realizáveis em um contexto de necessidades de acordo (op. cit p.33).