2.1 A visão e a imagem na crítica à hegemonia do visual na cultura contemporânea
A crise do estatuto da visualidade, nomeadamente do seu valor pedagógico, terá tido início oficial ainda durante o século XVIII, com o advento do racionalismo iluminista1, na esteira da dicotomia cartesiana e preludiando o impacto do antinomismo Kantiano, e conhece os sobressaltos que a teorização dessa crise, nas diversas áreas, e a variedade de respostas perante a sua presença insidiosa, irão determinar nos séculos seguintes. O estatuto que o olhar, como categoria cognitiva, atinge na afirmação pós-escolática de Feo Belcari, inaugura uma polémica que hoje, após a surpresa de um pós-modernismo visualmente dionisíaco, e a
1 Um contributo interessante para esta questão encontrar-se-á em: STAFFORD, Barbara Maria – Artful Science: Enlightenment Entertainment and the Eclipse of Visual Education. Cambridge: MIT Press.
emergência da proliferação imagética sem precedentes da era digital, ganha um novo protagonismo:
“Lo occhio si dice che e la prima porta Per la quale lo Intellecto intende e gusta.”1
Também por essa razão, encontramos um manancial virtualmente inesgotável de reflexões sobre o problema ontológico da visão, entendido, na verdade, como uma via para o questionar da relação do humano como
mundo, perscrutar essas portas da percepção referidas por Aldous Huxley,
que poderão ser as do acesso à substância última deste, e, em última análise, ao próprio humano. Mas, mais proximamente, ainda sob as configurações arquetípicas, que emergem de Platão e Aristóteles a Santo Agostinho, e na prolífera produção filosófica do século XX, de Merleau Ponty a Derrida, as questões ontológicas, e deontológicas da visão, percorrem hoje o pensamento contemporâneo sob o signo renovado, numa configuração Foucaultiana, da ameaça do panopticon Benthamiano, agora desprovido da garantia moral, ou ética, de uma isenção fundada nos pressupostos que nos colocam a salvo dos parâmetros do discurso que decide o que é crime ou
loucura. Por outras palavras, já não é preciso ser-se louco, ou criminoso,
para nos habilitarmos ao esvaziamento total da privacidade, enquanto fuga ao olhar, ao ser-se visto, que ultrapassa, finalmente, esse ângulo morto Orwelliano, último recurso, antes da sua circunscrição ao foro estritamente mental, privacidade também aí ameaçada por esses outros olhares tecnológicos que fornecem as ferramentas da ciência médica contemporânea.
À impressão retiniana junta-se a ubiquidade da imagem material ou virtual, tornando incontornável a conformação de um paradoxo, entre uma
1 Versos iniciais da peça de Feo Belcari: Abraão e Isaac, estreada em Florença em 1449. BAXANDALL, Michael – O Olhar Renascente – Pintura e Experiência Social na Itália da Renascença. Rio de Janeiro: Paz na Terra, 1991. p. 226.
desconfiança que prolifera sobre a natureza da visão e o fascínio hipnótico pelos seus émulos electroquímicos1. Mas, a própria experiência colectiva do último século constituiu um novo patamar de impossibilidade na construção intersubjectiva de uma realidade visual progressivamente mais insuportável:
“(...) the apocalypse of the deregulation of perception, a diaspora of another kind (...) the movement of panic in which the American and European masses no longer believed their eyes”2
1 Vision, (...),is normally understood as the master sense of the modern era, variously described as the hey day of Cartesian perspectivalism, the age of the world picture, and the society of the spectacle or surveillance. It will come therefore as a surprise that the critique of modernity would find congenial many of the same arguments against the hegemony of the eye (…).1. JAY, Martin – Downcast Eyes – The denigration of vision in twentieth century french thought. Berkeley: University of California Press. 1994. p. 545.
2 Idem, ibidem. p. 211 (nota 3). (Citação do texto de Paul Virilio: La Machine de la Vision, Paris, 1988. p.38).O contexto das reacções a essa diáspora visual, estende-se, segundo Jay, por um campo vasto e não homogéneo, frequentemente contraditório, que ajuda a compreender, desde a iconoclastia dadaísta, passando pelo imaginário surrealista, e terminando por ter um corolário no desconstrucionismo do final do século: “The ancient scopic régime, wich we’ve called Cartesian perspectivalism, lost what was left its hegemony, and the the very premises of ocularcentrism themselves were soon being called into question in many different contexts. In certain cases, the crisis of visual primacy expressed itself in direct terms; in others it produced compensatory vindications of an alternative scopic order to replace the one that seemed lost. For some, the critique of ocularcentrism was carried out in the spirit of radicalised Enlightenment, still hopeful of an emancipatory outcome; for others, it meant a Counter-Enlightenment abandonment of the project of illuminating reason itself.2. JAY, Martin – Downcast Eyes – The denigration of vision in twentieth century french thought. Berkeley: University of California Press. 1994. pp. 211 e 212.
Por outro lado, não podemos esquecer que o registo químico da imagem nos últimos dois séculos forneceu um outro olhar, capaz de fazer recuar uma multidão em pânico, ao devolver a entrada de um combóio na estação, com os Lumiére, ou prender a atenção incondicional de milhões de olhos, seduzidos pelo espectáculo visual de universos de culto, com os émulos de Tolkien. E depois há esse grande logro da realidade virtual, neste momento, uma insolente apoteose ontológica das sombras na caverna, enquanto se espera pelo advento dessa experiência sensorial, e perceptual, total, que nos fará esquecer o estado intermédio de uma materialidade modelada segundo uma ideia insubstâncial, mas num sentido inverso ao do mito, ou seja, regressando directamente à ilusão como porta para a compreensão das limitações de toda a compreensão fundada sobre a percepção.
Mas é a visão que carrega o ónus ontológico destas novas realidades, com uma tal exclusividade, e potência, que todos esquecemos facilmente a insipiência do cumprimento actual das suas promessas, mesmo quando se admite que um compreensível deslumbramento inicial possa ofuscar uma necessária abrangência, e profundidade, na sua avaliação:
“Muitas vezes, os interfaces interactivos dependem de complexas camadas de metaforização do comportamento corporal. A ideia de ‘navegação’ em espaços virtuais é um bom exemplo disso (...). Não estamos a navegar no espaço, mas sim a projectar na nossa imaginação, as implicações de manipular um ambiente de inúmeras imagens interactivas de forma a gerar um passo seguinte, presumivelmente lógico, numa corrente de imagens que representam um espaço perspéctico a partir de uma sequência de pontos de vista. Na realidade, pouco chega a ser simulado da correlação proprioceptiva ou perceptio-motora que caracteriza o movimento num espaço real. (...). Mais surpreendente é o facto de esta inconsistência,
aparentemente, não ter sido considerada problemática, mesmo nos textos dos especialistas.”1
Havendo inúmeras propostas de abordagens analíticas para a questão do
visual, sobretudo na esfera crítica da cultura contemporânea, nos seus
múltiplos aspectos, com particular relevância para a questão do audiovisual, a consideração da legitimidade dos pontos de vista que sublinham o processo
de denegrição da visão, no pensamento erudito do século XX, como dirá
Jay2, por um lado, e a pertinência das considerações sobre a natureza da contradição aparente, entre essa perda de identidade legítima, e a ascensão fulgurante do processo de requisição do visual pela técnica, ao serviço de formas massificadas de cultura, parecem-nos particularmente útil para a discussão do problema, que se porá adiante, e que concerne ao entendimento moderno das linguagens plásticas. Será aí, acreditamos, que esta questão encontra uma justificação particular para a profundidade da inquietação que a sua consideração exprime.
As principais linhas de argumentação, que aqui nos interessam, passam pela consideração das reacções mais críticas à emergência fulgurante, e vigência progressivamente mais tirânica, de uma cultura fortemente marcada pela proliferação infestante da imagem, entendida como a face visível da ascensão de formas não-eruditas de cultura, num contexto frequentemente referido como sendo de pós-pensamento, de crise do modelo democrático ocidental, e de consolidação de uma sociedade-espectáculo, palco do que será então definido como uma política-espectáculo. Parece-nos evidente, a abordagem deste problema não poderá ser levada a cabo independentemente
1 Simon Penny, Representação, Actualização e Ética de Simulação, in MIRANDA, A. Bragança de ; CRUZ, Maria Teresa Cruz (organização) – Crítica das Ligações na Era da Técnica. Porto: Tropismos, 2002. p. 53.
2 Ver: JAY, Martin – Downcast Eyes: The Denigrition of Vision in twentieth-century French thought. Berkeley: University of California Press, 1994.
de uma abordagem do estatuto do visual na cultura contemporânea, sendo essa reflexão um contributo de igual forma útil para uma futura aproximação aos problemas de uma semiótica da geometria, ou, mais propriamente, da sua imagética, se tal se mostrar teoricamente viável.
Não cabe no âmbito da nossa argumentação efectuar aqui uma abordagem sistemática do percurso da ontologia e deontologia da visão nos últimos cem anos, como é evidente, interessando-nos de modo particular, e numa alternativa comprometida com os nossos objectivos, ou seja, o estabelecimento de uma fenomenologia de uma geometria que se diz
descritiva e se sustenta da noção de imagem, e, no entanto, atente-se no
modo como o discurso da geometria descritiva, rejeita, sistematicamente, essa condição: apesar de ter inventado, ou talvez sistematizado, essa capacidade
preciosa e visionária conhecida como visualização no espaço, na prática, a
capacidade de produzir uma imagem mental dinâmica e interactiva, a partir de um enunciado verbal, ou de um raciocínio formal, ou, mais raramente o inverso, evita sistematicamente a terminologia visual quando se trata de descrever uma demonstração, ou a resolução de um problema, através do discurso escrito, associando, ora a incapacidade, ora a falta de consciência da sua importância, ora a uma recusa metodológica, em produzir um auxiliar
para essa visualização. A esta atitude, defenderemos mais tarde, não são alheios os objectivos transversais que esta frequentemente cumpre no âmbito substitutivo da educação matemática, e no desenvolvimento de um raciocínio abstracto que desconfia constantemente de uma imagem que concebe como incompatível com esse fim. Mas também não lhe é alheia uma progressiva inferiorização estatutária da imagem no contexto discursivo das ciências, e no âmbito do seu ensino, demasiado associada que esteve a estratégias de simplificação populista, questão hoje reavivada no debate que pretendemos abordar em seguida. Interessa-nos por isso, o percurso que conduz à ascensão do logos no âmbito pedagógico, tal como no âmbito das artes
visuais, enquanto reflexo de uma suspeita que ora recai sobre imagem, ora recai sobre o próprio olhar, e a visão.
10 - Jan David – O perigo mortal de deixar os sentidos abertos à tentação,1606.
Este não é um fenómeno recente, em múltiplos aspectos, sendo, inclusivamente, situado por Daucher no contexto dos primórdios da sistematização disciplinar da própria pedagogia, identificando no método
elementar de Pestalozzi, uma sistematização dos processos de quantificação
como via cognitiva virtualmente exclusiva, equívoca e perversamente cartesiana, reduzindo o conceito de extensão a uma categorização visual da ordem quantitativa, através de uma esquematização diagramática intrincada e desprovida de sentido próprio, constituindo uma teoria da compreensão, fundamental para o início de um processo que Daucher designa por “violação
da visão”1. Esta, mais que não seja, implícita descategorização da visão como
instrumento cognitivo de per se, ou seja, forçando-a a uma conversão nos termos de um raciocínio abstractizante, cuja equivalência deve excluir qualquer objecto do raciocínio para além dos seus próprios termos, tem como
1 DAUCHER, Hans – Visión artística y visión racionalizada. Barcelona: Gustavo Gili, 1978. p. 143.
consequência um esvaziamento do valor representacional do dígito, isto é, um corte funcional na sua estrutura sígnica, cujas consequências serão, idealmente, o desenvolvimento de uma capacidade totalmente abstracta de construção de uma linguagem perfeitamente formalizada, ou seja auto- suficiente:
“El relacionar artificialmente ideas e números con la visión, suya ejercitación a través de la contemplación, constituye – por lo menos en esa exclusividad iniciada por Pestalozzi – una importante intervención en el proceso visual del conocimiento, que sustrae a La visión La amplitud de su furza asociativa, provocando – en nuestro – sentido una ceguera parcial, que por los filósofos de La vida ha sido denominada en ocasiones de ceguera intelectualista (Struns).”1
Na prática, estamos perante uma pedagogia, ou talvez fosse mais correcto dizer, uma patologia pedagógica, que interpreta apenas formalmente o racionalismo cartesiano, deduzindo daí a utopia de uma cognição liberta de qualquer suporte material, acima das vicissitudes funcionais dos sentidos, e capaz de elevar-se acima dos meandros obscuros e idiossincráticos dos processos perceptivos. Os seus efeitos são, na verdade, devastadores e ultrapassam o âmbito pedagógico para se inscreverem no contexto de um processo que, em última análise pode ser entendido como civilizacional.2, e,
1 Idem, ibidem. p. 150.
2 Segundo Daucher: “El racionalismo ha disparado muchos tiros certeros contra la sustancia de la cultura europea. Pero fueron Pestalozzi y sus seguidores quienes dispararon las andanadas más destructivas.”. Idem, ibidem. p. 144. Uma opinião diametralmente oposta é expressa por J. Bordes: “Una figura crucial en la valoración educativa del dibujo es johan Heinrich Pestallozzi (...). Su plan de educación integral, que se cementa en las ideas que Rosseau vuelca en su Émil, concede al dibujo un papel fundamental. Su peculiar enlace entre la enseñanza de la escritura y el dibujo queda ajustado con los mismos principios, que se sintetizan en el máximo dominio de las formas básicas por la vista y las manos. Su principio de la naturalidad de la
sob diferentes enunciados, poderemos encontrar resquícios contemporâneos desta utopia um pouco por todo o campo pedagógico das ciências, e, inclusivamente da geometria descritiva, como referimos. Embora, pelos finais do século XIX, se possa falar de uma contra-reacção a esta objectividade, que se define pela esconjuração virtual de qualquer possibilidade subjectiva na construção das linguagens lógicas formais em que se apoia, e dá por inatas, que verá no positivismo lógico uma tentativa de solução dessa inquietação incontornável, não se poderá afirmar que estas constituam uma verdadeira revolução paradigmática, resultando mais num contra-movimento, ou seja, assumindo as características de um contra-poder, que procura equilibrar os pratos da balança de um entendimento de educação que sabe ocularmente descentrado com a visão do homem, como referirá, amargamente Langbehn:
“El siglo pasado, con su idealismo, veía el mundo a vista de pájaro; el presente lo ve a vista de rana; ojalá el próximo lo vea, con su individualismo, desde la única perspectiva justificada para el hombre: a perspectiva humana.”1
Mas um imponderável interpusera-se entretanto na disseminação cultural dos excessos do racionalismo, fruto, exactamente, de uma reacção mais rápida e fulgurante que aquela que se verificou na área pedagógica, e em grande medida, em conflito com esta. O romantismo, e a sedução exercida educación quedó expuesto en obras sencillas y de gran difusión”. MOLINA, Juan José Gómez (1995) – Las lecciones del dibujo. Madrid: Cátedra. p. 412. Citação do texto de Juan Bordes: El libro, profesor de dibujo. Note-se que é, quanto a nós, a profundidade da análise fenomenológica o factor que determina a possibilidade de verificação o carácter pernicioso das ideias de Pestalozzi, por oposição a uma interpretação, porventura superficial, que se concentra no processo da sua emissão, isto é, na qualidade explícita do seu discurso. Esta questão está intimamente relacionada com a problemática abordada no segundo capítulo deste trabalho.
1 Julius Langbehn, Rembrandt como Educador, citado por: DAUCHER, Hans – Visión artística y visión racionalizada. Barcelona: Gustavo Gili, 1978. p. 146.
pelo irracionalismo transcendental, encontrariam nessa recusa tácita das potencialidades cognitivas racionais da visão um terreno fertilíssimo. No início do século XIX, o repto Goethiano, para se falar menos e desenhar mais, é, porventura, já de uma outra ordem de entendimentos, importante neste contexto, transversal ao problema da ascensão da linguagem, e fruto genético de uma reacção lúcida ao protagonismo do novo herói intelectual, que será decretado, por Carlyle, em breve, para quem, ainda segundo Goethe, a
palavra é particularmente frutífera, mas que se mostrará progressivamente
inquieto com o jogo de poder entre esta, a percepção, e ele mesmo. Deste modo, o estatuto da visão sai aí equivocamente reforçado, na medida em que assume o papel de um mecanismo independente, uma espécie de panaceia para os excessos artificiosos da palavra, para a retórica discursiva dos jogos de erudição e poder que nesta se investem, pervertendo a liberdade da imagem, presa de configurações convencionais, ao mesmo tempo que se a exclui como metáfora do discurso científico1. Mais do que uma reflexão sobre uma participação integrada da visão no processo perceptivo,
1 A relação conflituosa entre linguagem e imagem, num sentido lato, é, segundo Bragança de Miranda, um problema que remonta às raízes do logos Ocidental: “É sabido que as técnicas gregas da palavra, onde avulta a ‘retórica’ eram uma mobilização controlada através da palavra de certas imagens ou figuras (tropos). Com a modernidade a carga figural da linguagem foi progressivamente situada no âmbito da literatura. Desde Platão que há um conflito com as imagens, procurando expurgar o logos das imagens.”. J. A. Bragança de de Miranda, Para uma crítica das ligações técnicas, in: MIRANDA, A. Bragança de ; CRUZ, Maria Teresa Cruz (organização) – Crítica das Ligações na Era da Técnica. Porto: Tropismos, 2002. pp. 270 e 271. Jay, inicia a sua argumentação, sobre o processo de denegrição da visão, demonstrando a ubiquidade das metáforas visuais na linguagem, e referindo: “(...)how ineluctable the modality of the visual actually is, at least in our linguistic practice.” . JAY, Martin – Downcast Eyes – The denigration of vision in twentieth century french thought. Berkeley: University of California Press. 1994. p.1.
terá lugar, perante uma subjectividade intuída, que se pretende transcendental, ou seja, puro motor de intuições cognitivas abrangentes porque, precisamente,
informes, terá lugar um processo inquisitivo que conduzirá a contestação da
óptica de Newton, em favor de uma óptica que se assume como a descrição, do um ponto de partida fisiológico, do processo de experiência dos fenómenos lumínicos, sendo que este é um modo de compreender o mecanismo de abertura das portas físicas que conduzem à partilha de uma
totalidade energética cósmica, que transcende, enquanto experiência espiritual,
a mero processo sensorial contingente das suas manifestações físicas, e depende, dessa forma, de uma teoria estética que o enquadre categoricamente..
Na verdade, falta considerar esse mesmo facto, ou seja, a constatação de que também o visual constitui uma arquitectura discursiva, que partilha com os outros discursos uma possível retórica, nomeadamente ao nível de uma plausível tendência para o entendimento da visão, desde o século XV, como imagem pictórica1, e essa lacuna no seu entendimento terá
repercussões profundas ao nível dos desenvolvimentos na modernidade, quando, associando-se ao idealismo Kantiano, produzirá um discurso que Krauss criticará, já no último terço do século XX, como o campo discursivo de uma “ânsia de fundamentação presumivelmente ontológica do visual”2.
1 A este respeito ver: Joel Snyder, La visión como imagen pictórica, in YATES, Steve (ed.). – Poéticas del espacio. Barcelona: Gustavo Gili, 2002. pp. 223-243.
2 Krauss, ao propor um diagrama argumentativo, um campo estrutural, alternativo à História oficiosa do Modernismo, defende, como uma das suas vantagens: “(...) dar contenido al espacio de una historia alternativa, desarrollada en contraposición a la opticalidad modernista, de una historia que emergía en propio ámbito del modernismo sólo para desafiar su lógica, para producir un cortocircuito en sus distintas categorías, para desairar sus nociones de esencia e purificación, para depreciar su ansia de fondamentación, y sobre todo de una fondamentación presuntamente ontológica de lo visual”. KRAUSS, Rosalind E. – El inconsciente óptico. Madrid: Tecnos, 1997. p. 36.
Deste modo, o trajecto estético da modernidade, apoia-se sobre uma ontologia retórica da visão, sobre um discurso do visual, apenas possível porque este